sábado, 29 de agosto de 2009

Negociadores

Enquanto prendo a bicicleta num poste, ouço um senhorzinho se aproximar.

(blá blá blá) ... Severino
bom pra homem, mulher e menino.
Vai querer?
Estica duas garrafas de água mineral com um líquido parecido com urina dentro.
Vou, não.
Então é porque ainda não tá na hora.

* * *

Bom dia, patroa! Vai mandioca hoje?
Sim, mas eu só quero essas duas aqui.
Vamo inteirar um quilo?
Não, um quilo é muito.
Vamo inteirar um real? Porque o que tem aqui eu não posso lhe cobrar.
Que seja um real de mandioca, então.

* * *

Vou atravessar uma avenida movimentada, tão movimentada que mais parece um rio. Abre uma brecha e consigo chegar até o canteiro central. Paro no meio da passagem e espero pra poder atravessar a segunda parte. Um carro que esperava do lado de lá vem para o espaço onde eu estou. Buzina. Não penso que é comigo. Buzina de novo e olho pra trás, ao longo da minha bicicleta que está a 5cm da lataria do carro dele. Procuro pelo motorista atrás do vidro escuro e vejo uma mão apontando para a minha bicicleta. Epa! Quem chegou nesse espaço entre as vias da avenida fui eu, portanto você deveria se orientar por mim e ocupar o resto dessas largas avenidas de Porto Velho. Mas não digo nada disso, porque o sujeito se esconde atrás do insulfilm. Levanto o queixo e lhe ofereço a orelha, fazendo movimentos circulatórios com a mão. Ele entendeu que eu pedi pra ele abaixar o vidro. Saiu cantando pneu. Não quis negociar espaço com uma ciclista.

* * *


Berg não vem mais pra terminar a obra, porque percebeu que se terminar a obra, não tem mais como pressionar a Iza, que ainda lhe deve um terço do pagamento. Iza não paga porque não consegue extrair o dinheiro da inquilina anterior. E eu fico sem esgoto, uma torneira curta demais pra pia e um portão feio. Sem essas coisas consertadas não tem vistoria, e sem vistoria não tem contrato. Mas o contrato é o meu comprovante de residência que a Unir quer ver, então preciso fechar contrato mesmo sem vistoria. Isso posterga mais uma vez o pagamento do Berg, porque o que a Iza quer é fechar contrato comigo, não pagar o pedreiro. Berg precisa bolar outros jeitos de conseguir dinheiro.

Veio aqui pra me oferecer um armário e uma cama. Disse que eram de madeira e beiges. Se dissesse que eram marfim, eu teria menos dificuldade pra aceitar, mas assim, comprar uma cama e um armário sem ver as peças, me pareceu difícil. Disse que trazia ainda hoje, tava usado, não tava 100%, mas tava bom e o preço era baratinho. Não precisava do pagamento com urgência, mas precisava urgentemente tirar os móveis de uma casa onde ele tava trabalhando. Pedi o endereço e fui de Amarilda enquanto ele ia de moto.
A 1km da casa, já na rua certa, ouvi um ‘é aqui mesmo’ gritado na minha direção. Eu estava atenta ao carro manobrando na minha frente, e só três giros de pedal mais à frente é que caiu a ficha: era a voz do Berg. Parei, olhei pra trás e era ele mesmo. Já ia descendo da bicicleta, mas ele fez sinal que eu seguisse em frente. Me ultrapassou mais à frente e me mostrou os móveis. Sim, eu poderia ter escolhido aquela cama e aquele armário numa loja.

Nenhum comentário: