domingo, 3 de agosto de 2008

Em outras palavras

Peço licença a Alberto Mussa, pra recontar um conto que ele conta no seu livro intitulado "O movimento pendular". Trata-se de um livro que reúne as mais diversas constelações de triângulos amorosos. A estória que quero recontar chama-se "A noite das máscaras".

Era uma vez um padre em Veneza. Este padre conhecia toda a população de Veneza e ouvia todas as suas confissões, de maneira que julgou conhecer muito bem seu rebanho. Imaginava que a alma de cada fiel podia ser representada por alguma entidade no mundo: uma flor, um gato, a lua etc. Passou anos definindo o rosto da alma de cada um dos habitantes de Veneza, e quando o seu trabalho ficou pronto, quis comprovar sua autenticidade. Mas como comprovar que Giuseppe tem alma de hiena, Giacomo tem alma de cobra etc.? Precisava de um bom plano. Uma ocasião em que pudesse experimentar, sem que o experimento fosse óbvio. 

Uma festa em que as pessoas usassem máscaras que representassem o rosto de suas almas seria ideal. Ele atribuiria as máscaras à população de Veneza quando entrassem no salão da festa e durante a festa teriam que adivinhar quem se escondia por trás de qual máscara. Se os participantes da brincadeira acertassem, sua idéia do rosto da alma estava confirmada. Conversou com o duque sobre a realização de um baile de máscaras.

A população da cidade ficou encantada com o convite para um baile de máscaras. Todos viriam, todos gostaram da idéia de receberem suas máscaras no local da festa, todos estavam curiosos pra saberem qual seria a sua máscara. 

O padre, no entanto, foi assaltado pelo receio. Ele sabia que uma certa mulher casada era apaixonada por outro, e temia que ela aproveitasse o baile de máscaras para pecar. Esta mulher ficou sabendo qual seria a sua máscara antes do baile. Tomou suas providências: confeccionou ela própria uma máscara de moura, comprou um vestido colorido e verificou as medidas da escrava. Planejava colocar a escrava no seu lugar na festa para poder encontrar-se com seu amado. O padre, temendo um escândalo, avisou a mulher:

- Afaste-se do leão!

Era chegada a noite do baile. As pessoas recebiam suas fantasias na entrada do palacete, vestiam-se e encaminhavam-se para o salão, onde se dividiam em dois grupos: as mulheres de um lado, os homens de outro. A moura mandou sua escrava entregar um recado ao leão, esperou que voltasse e vestiu-a de moura. Foi ao encontro do leão. 

No salão, o cruzado logo fez amizade com o canário. Conversaram e beberam a noite toda, alegres por terem se conhecido. Num canto escuro do palacete, apareceu o leão. A moura jogou-se nos braços do leão e sussurrou-lhe no ouvido planos de fugir dali. Entregou-se ao leão com alegria e fome de prazer. O leão a possuiu e em seguida matou sua esposa.

O duque foi condenado à morte no dia seguinte. Ele insista em afirmar que sua esposa o havia traído na noite do baile de máscaras. Não foi capaz de apontar o amante da duquesa, porque afinal, ela tinha se deitado com o próprio duque - fantasiado no baile de máscaras. O padre, consternado, perguntou ao duque se, no baile, estava usando a máscara de cruzado. O duque respondeu que havia se identificado mais com a máscara do leão, e que tinha trocado a sua máscara com a do cruzado.

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