sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Suspeitos são terroristas e terroristas não têm direito à defesa

Eram dois irmãos os suspeitos de terem explodido duas bombas na maratona 2013 de Boston: um morreu logo em confronto com a polícia, o outro foi condenado à pena de morte ou prisão perpétua - essa é a margem de barganha do sujeito que se declara inocente. As provas que conduziriam o juiz a concluir que o suspeito é mesmo culpado são um bilhete e a história pregressa (informada pela Inteligência Americana) do rapaz. As afirmações de parentes de que ele merece morrer não são prova de que ele é terrorista e fez uma bomba explodir.

Eram três os suspeitos de terem matado 12 pessoas no jornal francês. Dois irmãos e um cunhado. O cunhado "se rendeu", segundo a mídia. Não sabemos se está preso, se é inocente, se houve investigação. Houve caçada aos dois irmãos que hoje foram mortos pela polícia francesa. Os mortos não podem provar sua inocência.

Suspeitos de terrorismo desencadearam, por um lado, ataques ao mundo islâmico que beiram o fanatismo e por outro lado, união e solidariedade espontânea e efusiva (porque politicamente correta) aos que foram vitimados (houve 3 mortos e muitos feridos em Boston, em Paris morreram 12 pessoas - ou vitimados psicologicamente, porque o estado de alerta e clima de insegurança foram ativados).

A quem servem esses atos de terrorismo? O que Al Qaeda ou o Estado Islâmico ganham com esses atos de terrorismo não reivindicados por eles, mas retraçados a eles pela Inteligência Americana? Por que o sequestro de hoje (há informações de que os sequestradores teriam sido mortos pela polícia concomitantemente com os irmãos - supostos terroristas) aconteceu em um mercado judeu? A disputa entre judeus e islâmicos foi transplantada da Palestina para a França?

Poucos dias antes do ataque a Charlie Hebdo, a islamofobia reuniu milhares em praças públicas na Alemanha, como se fosse normal e justo considerar o diferente como inferior. No mesmo dia do ataque ao jornal parisiense, uma mesquita foi explodida em Paris - mas isso não é terrorismo. A TV brasileira passou em tempo real a caçada a dois suspeitos, reafirmando continuamente a escassez de informações.

Suspeito que os atos de terrorismo não servem a terroristas externos, mas para aumentar coesão e controle internos do local que sofreu o ataque.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Floripops

Jairo e Siomara
Numa breve passagem por Porto Alegre, logo depois de Gramado, vimos Jairo e Siomara no Parque da Redenção. Ali combinamos de visitá-los em Canasvieiras, Floripa.
Luis e Lou
De Curitiba, então, partimos para Floripa com escala em Joinville.

Logo cedo de manhã Jairo vai pra praia e ajuda a arrastar a rede que traz muitos siris, peixes e águas-vivas. Essa é a garantia do almoço saudável para a família. E de manhã é possível caminhar/correr na praia. De tarde a maré sobe, encurtando a faixa de areia lotada de turistas queimados de sol.
Siri do arrasto da manhã
Percebo agora que tirei bem poucas fotos da nossa vivência com a família de Jairo, Siomara, Jarina, Uirá, Sirius Black (o cachorro) e Perebas (o hamster. Gostei do hamster!).
Peixe (Paraty) do arrasto da manhã
Não tratei o peixe, nem vi os siris morrendo na água quente. Simplesmente sentei na mesa e comi peixe fresco, pescado no dia, muito bom. Quando Luis e eu coletamos caracoles nas pedras da prainha (entre Canasvieiras e Jurerê), ajudei a preparar os caramujos - e comi quase tudo depois, porque o pessoal achou esquisito demais comer caracoles.
 
Siri na mesa
Na mesa
Teve um dia que acabou a água da torneira. Todos lembraram do verão em que Florianópolis estava lotada de turistas e houve interrupção do abastecimento de água e os turistas foram embora decepcionados/frustrados/com raiva. Por sorte, não tinha acabado água na cidade, mas alguém tinha fechado o registro da rua, interrompendo o abastecimento da casa. O curioso é que, dormindo de tarde, depois do almoço farto, eu sonhei que o problema e a solução era o registro...
Uirá
Lemos nos jornais que no primeiro fim-de-semana de janeiro, depois da virada do ano, o perfil do turista mudaria. Nossa esperança era que os turistas fossem embora, mas o jornal parece ter tido razão: saem os foliões e chegam as famílias. Quando fomos na Lagoinha, Luis e eu nem animamos de caminhar até a outra ponta da praia, passando por todos os guarda-sóis, desviando de todas as crianças, bolas de futebol e frescobol. Reparamos que os vendedores ambulantes tinham se adaptado aos turistas argentinos: anunciavam "milho" e "choclos", "choripãn" e os espetinhos eram "xixo".

No último dia na praia, decidimos nos despedir direito da praia. Caminhamos/corremos até a ponta de Canasvieiras, onde as ondas não chegam na areia, mas na vegetação do mangue que se estica em direção ao mar. Quando a água bateu no umbigo e começamos a ver peixes maiores beirando o mangue, resolvemos voltar. Toda a água daquela ponta até o pier (2km?) estava marrom escura, cheia de matéria orgânica. O vento mudou a paisagem de um dia pro outro. Assim é o mar: sempre o mesmo, mas sempre diferente. De noite, Jairo ainda nos chamou pra ver um peixe desse tamanho assim, ó, que tinha chegado na praia. Era grande mesmo, com a boca bem deformada. Sempre o mesmo, mas sempre diferente.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Desumanização

Perguntei pro Luis o que ele faria se fosse morador de rua. Ele disse que tentaria organizar os moradores de rua, criar um movimento social. Me dei conta de que os homens de rua que vejo são indivíduos isolados (uns dos outros e da sociedade).

Num artigo que li sobre a relação de drogas com sociabilidade, o isolamento aparece como um dos grandes responsáveis por nossas obsessões. Somos muito frágeis, quando isolados dos outros.

E quando nos juntamos em sociedade (maior e mais heterogêneo que comunidade), tendemos a isolar membros da sociedade. Criamos distância dos mendigos, dos trabalhadores de frigorífico, dos dirigentes. Pelo que entendi do Philosophy Talk intitulado Humanity Violated, um motivo que nos leva a desumanizar o outro (que é do nosso mesmo tipo, espécie, condição = humano) é poder. Para ter poder sobre o outro, distanciamo-nos dele, usamos metáforas para inferiorizá-lo.

O que os homens de rua e as classes trabalhadoras não têm é poder aquisitivo. E qual é o contraponto? Caixas enormes, com ar condicionado, musiquinha e segurança em que as pessoas humanas são encorajadas a mostrar seu poder aquisitivo.