segunda-feira, 11 de agosto de 2008

SOLARIS

Eu tinha visto o filme do russo (Andrei Tarkovsky), depois o filme do americano (Steven Soderbergh), e agora li o livro do polaco (Stanislaw Lem). As três formas de contar Solaris são diferentes, mas isso não deve nos surpreender. O filme russo enfoca muito os cientistas e todo o seu aparato. O filme americano enfoca o protagonista e narrador em primeira pessoa. O livro enfoca o planeta Solaris.

Solaris é um planeta que orbita em volta de dois sóis (um azul e outro vermelho). As forças gravitacionais dos sóis - que atuam sobre o planeta - deveriam criar instabilidade na órbita do planeta, mas isso não é o que se observa. O que então garante a órbita regular deste planeta? Não há em Solaris nenhuma forma de vida, exceto um oceano com atividade performática: cria ondas, formas que não se repetem, erupções. Os solaristas supõe que este oceano é uma forma de vida inteligente, que não passou pelos estágios evolutivos como algumas formas de vida na Terra (ameba> ... > Homo Sapiens). Acredita-se que o oceano controle a órbita do planeta em volta dos dois sóis.

Muito se investe em pesquisa espacial, expedições são enviadas a Solaris, muitos astronautas morrem, as teorias divergem e viram questão de fé. Kris Kelvin, psicólogo, é mandado à estação espacial em Solaris, onde estão Gibarian, Snow e Sartorius. A função de Kelvin é avaliar se vale a pena continuar investindo na pesquisa solarista. Quando Kelvin chega, Gibarian está morto, Snow desconfia de sua identidade e Sartorius está trancado no laboratório. Quando acorda pela primeira vez, tem ao seu lado uma visitante: sua namorada suicida de 10 anos atrás. Rheya não come, não dorme, regenera tecido espontaneamente, não suporta ficar longe de Kelvin e não sabe de onde veio. Todos a bordo da estação receberam visitas deste tipo depois que bombardearam o oceano com raios x. Estão convencidos de que o oceano manda estas visitas aos tripulantes.

Altamente interessante são as discussões entre Snow e Kelvin sobre os propósitos humanos no espaço:

We don´t want to conquer the cosmos, we simply want to extend the boundaries of Earth to the frontiers of the cosmos. For us, such and such a planet is as arid as the Sahara, another as frozen as the North Pole, yet another as lush as the Amazon basin. We are humanitarian and chivalrous; we don´t want to enslave other races, we simply want to bequeath them our values and take over their heritage in exchange. We think of ourselves as the Knights of the Holy Contact. This is another lie. We are only seeking Man. (p. 75)

As teorias sobre Solaris também são filosoficamente interessantes:

According to Muntius, Solaristics is the space era´s equivalent of religion: faith disguised as science. Contact, the stated aim of Solaristcs, is no less vague and obscure than the communion of the saints, or the second coming of the Messiah. Exploration is a liturgy using the language of methodology; the drudgery of the Solarists is carried out only in the expectation of fulfilment, of an Annunciation, for there are not and cannot be any bridges between Solaris and Earth. The comparison is reinforced by obvious parallels: Solarists reject arguments - no experiences in common, no communicable notions - just as the faithful rejected the arguments that undermined the foundations of their belief. Then again, what can mankind expect (...)?
(...) it is Revelation itself that they expect, and this revelation is to explain to them the meaning of the destiny of Man! Solaristics is a revival of long-vanished myths, the expression of mystical nostalgias which men are unwilling to confess openly. The cornerstone is deeply entrenched in the foundations of the edifice: it is the hope of Redemption. (p. 180)

De um modo geral, Solaris é uma leitura tão empolgante quanto Fahrenheit 451, do Ray Bradbury (não queiram ler a tradução, é muito insosa): disfarçada de science-fiction, é uma grande reflexão sobre a humanidade.

2 comentários:

utopiatura disse...

Interessante seu ponto de vista... acho que este foi o melhor texto q li no seu blog.
continue escrevendo

iglou disse...

Se este foi o melhor texto de todo o blog, então vc gosta de resenhas, não dos meus textos.