quinta-feira, 16 de abril de 2015

Saudades de Yehuda

Joe e Yehuda tocam uma bicicletaria. Joe e Yehuda são ciclistas de tipos diferentes: Joe gosta de pedalar em grupos de ciclistas, pedala no asfalto para melhorar o tempo, usa lycra e capacete. Sua bicicleta é de corrida e ele a usa quando as condições forem favoráveis.

Yehuda não gosta de lycra, capacetes ou óculos escuros e prefere pára-lamas, bagageiro, bolsas, luzes. Yehuda pedala todos os dias para todos os lugares, carregando o que for necessário. Sua bicicleta é urbana e ele a usa como meio de transporte.
Depois de muito tempo esgotados, voltaram a ser impressos os volumes 2, 3 e 4 do Yehuda Moon.

domingo, 12 de abril de 2015

Bodenlos

O gênero biografia merece, às vezes, subespecificações. As biografias Persépolis e Epiléptico, por exemplo, se apresentam na forma de quadrinhos. As biografias de Michelangelo, Darwin e Van Gogh, todas escritas por Irving Stone, são biografias romanceadas. Já as autobiografias, escritas pelos sujeitos que são objeto da biografia, acabam dando mais valor ao percurso de ideias: Max Planck, Richard Feynmann, Werner Heisenberg entrelaçam vida e obra. Deste estilo poderia ser a autobiografia filosófica de Vilém Flusser, Bodenlos. Mas Bodenlos ainda é diferente.

A autobiografia está dividida em quatro partes: monólogo (em que é relatada a condição de judeu praguense que veio se refugiar, como único sobrevivente da família, no Brasil); diálogo (em que suas reflexões com e sobre onze figuras iminentes são tecidas); discurso (em que suas aulas ganham destaque); reflexões (em que o regresso a Praga é preparado e efetivado).

Numa palestra de Gustavo Bernardo, ele descrevia Bodenlos como sendo uma biografia em que Flusser escreve sobre os seus amigos (Alex Bloch, Milton Vargas, Vicente Ferreira da Silva, Samson Flexor, João Guimarães Rosa, Haroldo de Campos, Dora Ferreira da Silva, José Bueno, Romy Fink, Miguel Reale e Mira Schendel) e quase nada sobre si. Lendo o livro, percebi que, além de escrever sobre cada amigo em capítulo separado, Flusser articula-os, comparando-os entre si e a si mesmo.

Mais que isso, como muitos de seus amigos são ligados à palavra escrita, Bodenlos se mostra como uma grande reflexão sobre a escrita:

Escrever é trabalhar de dentro da língua sobre a língua. Pois a práxis de tal trabalho implica um constante distanciar-se da língua [...]. Tal distanciamento provocava por sua vez alienação daquela língua que brotava, calada, do próprio ser-no-mundo. (p. 183)
E como a ciência é escrita, suas reflexões sobre ciência são consequência:
Ciência para mim sempre tem sido uma maneira de falar, e filosofia da ciência, portanto, parte da filosofia da língua. Apenas, parte que tendia cancerosamente a invadir as demais partes. Creio que a filosofia da ciência encontrará sua posição apropriada apenas dentro de uma teoria de comunicação a ser futuramente elaborada.
[...]
Procurei focalizar a ciência enquanto discurso cumulativo de explicações "objetivas" de fenômenos, e enquanto método historicamente determinado de humanizar a natureza e naturalizar o homem. (p. 280-281)
Para mim progresso científico é a maneira como o homem afirma sua dignidade perante a realidade, embora o faça diabolicamente. (p. 283) 
A função da técnica é modificar o homem que a possui. Não, portanto, manipular coisas e homens coisificados é a função da Técnica, mas modificar o homem pela própria práxis. Destarte a filosofia pode humanizar a técnica e evitar a tecnologização do homem. (p. 288)
Bodenlos me ajudou a tirar o chão da ciência - que eu considerava edifício sólido.

terça-feira, 7 de abril de 2015

Páscoa ribeirinha

Jairo veio pelo rio, navegou um pouco pelo esgoto do Nacional e veio nos buscar
Saímos aqui, perto da ponte
As águas do Madeira já estão baixando, mas ainda se vê a marca marrom do mês anterior, em que a cota chegou a 17m. A estrada da beira que vai margeando o Madeira está caída em alguns trechos e completamente abandonada à floresta em outros.
Estrada abandona
A nova estrada, que entra pelo KM 4,5 da BR 319 está bem encharcada, e como a casa do Jairo fica na estrada da beira, e tem vários pontos com muita água pra atravessar, não tinha como chegar de carro. Por isso Jairo nos buscou de barco.
Estrada da beira
No sítio tinha os membros da Arirambas, as galinhas, o coelho, os cachorros, o hamster, os passarinhos, os mosquitos, as flores, as árvores etc. Não tirei fotos de todos, apenas de um gafanhoto que não teve medo da câmera.



Nem todos ficaram pro churrasco, infelizmente. Luis cuidou da carne, Jairo desenterrou, descascou e cozinhou macaxeira amarela.
O churrasqueiro
Luis na cozinha

Jairo do lado de fora, descascando macaxeira recém-colhida
A casa do Damián
Damián
Antes de ir embora, fomos (de barco, porque pela estrada teríamos que passar por uma poça com água podre, em que provavelmente morreram animais) ver a casa do Damián. Devagarzinho a casa vai tomando forma.
Jairo e Luis


segunda-feira, 6 de abril de 2015

quarta-feira, 1 de abril de 2015

O que dizem da energia limpa e quem fica com o "menor impacto"



 
Texto meu publicado no Amazônia Real:

Em dois documentários feitos sob a perspectiva dos atingidos pela indústria eólica – um realizado pelo CPT (Comissão Pastoral da Terra) Bahia, Energia Eólica: a caçada pelos ventos! (2013) e outro, Vento Forte, realizado pelo CPP (Conselho Pastoral dos Pescadores) e lançado esse ano – acompanhamos os relatos dos danos ambientais e sociais causados pelas (várias) empresas de geração de energia eólica.

Para quem acompanhou as transformações causadas pelas usinas hidrelétricas, o esquema se repete: contratos abusivos, audiências públicas de fachada, devastação da flora e fauna, controle sobre a água (ao menos no período da construção), desapropriação e remoção de comunidades tradicionais.

Assim como no caso das hidrelétricas no Madeira se propalava que usinas a fio d’água eram sinônimo de energia limpa, o senso comum diz que as usinas eólicas também geram energia limpa. A fonte é renovável, não é? Falar de “impacto” é pouco, porque o dano não pode mais ser mitigado. Trata-se de transformações em que o desgaste provocado é irreversível. A remoção de pessoas é uma constante. A disputa por territórios é perpetuada. Grandes obras de infraestrutura implicam em remoções forçadas de comunidades inteiras, sejam obras para a Copa, as Olimpíadas, ou para geração de energia. Para onde vai essa energia toda?

A energia produzida ali não se destina ao entorno. Assim como Santo Antônio e Jirau tiveram sérios problemas em relação às linhas de transmissão, as usinas eólicas estão criando elefantes brancos mal planejados. Aqui se aplica bem a frase perolar proferida por um colega: “Primeiro atiram a flecha, depois correm com o alvo, pra tentar fazer a flecha acertar o alvo.”

Com tais “regras do jogo”, não há nenhuma fonte limpa. 31 novas usinas solares foram contratadas pelo Governo em leilão realizado no ano passado. A novíssima fonte se reúne à matriz energética nacional repisando os trilhos da concentração econômica, licenciamento e instalação compulsórias nos locais mais propícios à maximização da geração, o que significa novas levas de remoções sumárias e efeitos ambientais “imprevistos”.

Não estamos fazendo opção por fontes com “menor impacto”. Todas as fontes estão sendo inventariadas para serem utilizadas extensivamente, como demonstra o projeto de expansão do parque nuclear brasileiro no vale do rio São Francisco, ou as dezenas de novas hidrelétricas na Amazônia, projetadas para serem instaladas até 2018. A escolha já foi feita em nome dos conglomerados eletrointensivos que ficam muito contentes em poderem ostentar selos de “sustentabilidade”.  Os documentários anunciam uma nova geração de moinhos de gente, que mesmo assim se apresentam como negócios limpos.

No modelo que temos hoje, a indústria eletrointensiva é a maior consumidora de energia, e sua demanda é infinita: nunca se produziu tanta energia no Brasil e nunca se pagou tão caro por ela. Tem alguma coisa errada nessa conta. Será que, com nosso poder de organização e planejamento, não somos capazes de repensar esse modelo predatório de geração de energia?

foto lou
Lou-Ann Kleppa, que está publicando artigo neste site como colunista convidada, é professora da Universidade Federal de Rondônia (Unir), graduada em Letras pela Universidade de São Paulo, tem mestrado e doutorado em Lingüística pela Universidade Estadual de Campinas (SP), e doutorado sanduíche em Neurolingüística pela Radboud University Nijmegen. Foi diretora do documentário “Entre a cheia e o vazio”.