sexta-feira, 30 de novembro de 2012

O tempo descompassado

Eu tinha uma esperança tola que o meu pedido de vacância na UNIR saísse no mesmo dia em que eu tomaria posse na UFSM. Saiu um dia depois, mas só no Boletim de Serviço. A publicação no Diário Oficial, que é pra valer, só saiu 3 dias depois de eu ter tomado posse.

Fui na folha de pagamento da UFSM, para saber se eu já tinha sido incluída. Ainda não, porque não tinham provas da vacância. Quando saiu no Diário Oficial, tentaram, mas não conseguiram me incluir na folha daqui, porque ainda não fui desvinculada da folha de lá. Não bastava o Diário Oficial, precisava constar no sistema.

Esperei dar as duas horas de diferença de fuso horário para pegar alguém na UNIR e me foi dito que sim, que vão colocar a minha vacância no sistema, porque isso tem que ser feito. Mas eles estão sem internet há dois dias. A solução foi usar modem 3G, sendo que só há um por setor. Essa internet é mais lenta que a internet de 1 mega que Rondônia oferece e faz acumularem-se as demandas da universidade.


quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Os amigos

Os amigos fazem jornalismo investigativo. Um site recomendado pelo Luis é da Pública, outro é da Unisinos.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Os "inimigos"

De vez em quando eu abro o jornal. Quando olho as notícias nos jornais eletrônicos, consigo ler muito pouca coisa, porque a maior parte do que vejo é sobre esporte, celebridades, estado clínico de pessoas famosas, comidas, dicas variadas, acidentes e tragédias, política do terror que não acompanho. Na maioria das vezes, não leio o jornal, apenas vejo as manchetes e imagens.

A Bild Zeitung já faz isso há anos: oferece muitas imagens (daí o nome do jornal: Bild é desenho, imagem, quadro) e quase nada de texto aos seus leitores. Há uma cena no Fahrenheit 451 (de Truffaut, não necessariamente em Ray Bradbury) em que o protagonista lê um jornal em quadrinhos. Além da notícia ser selecionada, manipulada e mastigada, é apresentada em forma de fotonovela.

Na Folha de hoje me chamou atenção a legenda de uma imagem:

Marinha, Exército e Aeronáutica participam da operação Atlântico III, em que simulam ataques "inimigos" no litoral brasileiro

Tive um momento de suspensão, procurando no meu arquivo mental os tais inimigos que viriam por mar. Cliquei na chamada e me deparei com imagens. Me senti como Montag lendo o jornal em quadrinhos. A diferença entre o personagem e eu é que a mim não bastavam as imagens. Eu continuo sem entender por que é preciso investir em segurança armada contra inimigos entre aspas no Brasil. Continuo sem entender por que essas imagens estão no jornal, ocupando lugar de destaque. Continuo sem entender que inimigo é esse, contra o qual é preciso disparar tiros e bombas.

O inimigo já se instalou. O inimigo é a fragmentação das notícias de jornal, é a escolha do que será tratado como notícia. O inimigo é o consumo de banalidades.

Num dos Philosophy Talks, o tema é verdade, falsidade, mentira e o que eles chamam de BS porque não podem pronunciar palavras de baixo calão no rádio (mas eu posso aqui: bull shit). Sabemos o que é verdade com letra maiúscula e o que são as verdades. Sabemos que a falsidade é a falta da verdade. Sabemos que a mentira é a omissão da verdade: quem mente está extremamente preocupado em esconder a verdade. Quando se trata de BS - que eu chamo de baboseira - há um descompromisso total e completo com a verdade.

Assim como "Saiba quais são os filmes mais vistos nos cinemas brasileiros" não é notícia de jornal, as imagens da operação Atlântico III não são notícia de jornal, mas baboseira. Em ambos os casos, falta texto, falta articulação, falta despertar no leitor a sensação de conexão da matéria com o mundo.

É frustrante pensar que eu poderia fazer esse exercício de detectar baboseiras exemplares maquiadas de notícias todo dia.

Empossada

Tomei posse no dia 26 de novembro, enquanto Luis corria atrás de colchão, cama e escrivaninha. Como estou passando de um cargo público a outro, estou pedindo vacância. A UNIR precisa me liberar para que eu de fato assuma aqui. Ontem saiu no Boletim de Serviço da UNIR a publicação da portaria da minha vacância a partir de 26 de novembro - que só entra em vigor quando publicada no Diário Oficial da União (DOU). A portaria ainda não saiu no DOU de hoje. Isso significa que terei que esperar até regularizar a minha situação.

Ontem paguei todas as minhas últimas contas em Rondônia: telefone, água, seguro de saúde, luz. Queria acertar essa pendência logo e começar vida nova aqui.

Me ajeitando em Santa Maria

A única foto em que apareço é esta, na cozinha vazia (tão vazia, que nem tem pia). Ainda não consigo imaginar essa cozinha, nem as minhas coisas dentro dela.
A primeira coisa que comprei para essa morada cheia de paredes e chão foi essa banqueta (para alcançar o soquete das 7 lâmpadas do apartamento). Junto com a banqueta comprei o chuveiro power (faz muito frio no inverno) que demorei o dia todo pra instalar. Voltei na loja de ferragens 3 vezes antes de conseguir fazer o chuveiro funcionar.
Na última casa em Porto Velho eu reclamava da quantidade avassaladora de mosquitos. Aqui estou aprendendo a fechar as janelas que dão pra rua, porque além dos mosquitos, entram milhares de outros insetos.
No mesmo dia em que veio a escrivaninha que Luis escolheu, vieram a cama, o colchão, a internet e o telefone. No dia seguinte, reclamei na imobiliária que a minha chave do prédio abria a porta de vez em quando. O miolo da porta foi trocado e de repente eu era a única no prédio que conseguia entrar. Abri a porta pra todos os outros moradores porque a minha janela fica do lado da porta do prédio. Depois resolveu, porque o síndico já tinha dado a cópia pra todos desse novo miolo, eles só tinham sido surpreendidos com a troca.
A cama mais bonita e vistosa com o colchão mais high-tech em que dormi. Espero que sonhos conjuntos sejam incubados aqui.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Último


A última jabuticaba que comi foi a mais madura,
vi que tem duas romãs no pé na sua primeira florada.

Hoje foi a última vez que eu tirei o Mustafá do forro,
que eu fui no campus e na reitoria,
que dormirei nessa casa vazia.

Não choveu quando o caminhão de mudança veio
nem alagou a casa quando todas as minhas coisas estavam no chão.

Meus planos de transportar 2 gatos no avião não deram certo,
mas tive boas amigas que me ajudaram a fazer novos planos.

Depois dos últimos acertos em Porto Velho,
começará uma nova etapa da minha vida
em Santa Maria.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Remember, remember, the 5th of November!

Recebi um post praticamente pronto por e-mail do Luis.
O original está aqui


Na noite de 5 de novembro de 1605,  Guy Fawkes tentou explodir o Parlamento inglês, no intuito de assassinar o Rei James I, em um atentado conhecido como "gunpowder plot" ("conspiração da pólvora"). O tiro saira pela culatra, ao passo que uma carta anônima denuncia seus planos ardilosos: Fawkes e seus correligionários são presos na Torre de Londres. Tortura e morte por enforcamento selaram a sorte dos conspiracionistas, cujos corpos foram esquartejados e arrastados pelas ruas de Londres. O suplício dos conspiracionistas repercutiu como um espelho difuso, ressignificando o ato, inicialmente impelido pelas chamas das rusgas e perseguições sectárias entre católicos e protestantes. Com o passar dos anos, este adquire um verniz simbólico mais contundente. A data, que no ano seguinte celebraria a sobrevivência do rei, pouco a pouco,  passa a festejar com fogos de artifício, um simulacro que se remete a explosão do Parlamento inglês. Nesta data, queima-se na fogueira a máscara de Fawkes, junto a figuras não muito bem quistas pelos ingleses, que supostamente deveriam ter sido queimadas em seu lugar, tais como George W. Bush, Margareth Tatcher ou Giorgio Berlusconi. Esta data foi popularizada como "Guy Fawkes night" ("noite de Guy Fawkes").

Foi David Lloyd quem desenhou a máscara do protagonista de "V de Vinganca", história escrita pelo cartunista Alan Moore; máscara que depois seria apropriada pelos movimentos e manifestações que eclodiram pelo mundo, com a iminência da atual crise financeira. A máscara passa a ser símbolo contra a avidez do mercado financeiro, das multinacionais e das grandes coorporações, verdadeiros responsáveis pela crise, que vêm levando economias a bancarrota, e colocado milhares de pessoas na rua, sem emprego, sem moradia e sem perspectivas. Apropriada num primeiro momento por hackers e ativistas do grupo Anonymous, em 2008, a máscara foi envergada em um manifestação de rua contra a Igreja da Cientologia nos Estados Unidos e depois ganhou maior popularidade em 2010 com o filme V de Vingança, que incita a população a  se vingar do sistema que os oprime, inaugurando a possibilidade de um novo porvir.

domingo, 4 de novembro de 2012

Engolir sapo

Ouvi a Akari lutando pra vomitar. Quando cheguei até ela, vi o sapo do tamanho da minha mão paradão a poucos centímetros dela. Não estava morto, apesar de uma mosca pousar em seu olho.

Mustafá sempre brincou com os sapinhos que aparecem depois da chuva. Mas são sapinhos pequenos, do tamanho de 3 dedos.

Akari já me assustou outra vez: espumava muito. Deve ter ingerido uma maria-fedida. Agora deu pra engolir sapos... E a vida na Amazônia segue com seus imprevistos.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Mucura

Uns 15 dias atrás, quando Luis veio aqui, estranhamos um cocô muito perto da comida dos gatos. Sabendo que mais uma vez hospedo (à revelia) uma gata de rua no forro, Luis concluiu que os meus gatos estavam demarcando território através do cheiro. De fato, se ouvia a gatinha no forro. Mas cagar tão perto da própria comida não me pareceu comportamento razoável nem pra gato. E eles demarcariam o território através do xixi, não das fezes. E as fezes me pareciam demasiado finas e compridas (eu, que limpo a caixinha dos meus gatos todo dia, conheço muito bem as fezes deles e sei diferenciar as da Akari das do Mustafá).

Nos dias seguintes, houve cocôs espalhados pela casa e bananas mordiscadas. Desconfiei que houvesse outro animal na casa, mas não procurei. Procurei fechar bem a casa toda noite, pra que nenhum animal entrasse. Reparei também que os gatos nos acordavam cada vez mais cedo e que a comida deles sempre tinha acabado quando eu levantava. Estranhei que eles iam com muita fome ao pote e que a ração da manhã acabava de manhã.

Fui pro Rio e quando voltei, Heliene me disse que os gatos tinham cagado na casa toda. Perguntei se era de gato mesmo, não de rato, e ela confirmou, porque era muito e muito grande.

Ontem senti cheiro de zoológico na estante de livros. Mais que isso, ouvi barulhos. E não eram do forro. Retirei os livros da prateleira mais baixa e identifiquei o banheiro do animal. Movi os livros da prateleira seguinte e me deparei com dois olhos aflitos. Liguei pro Luis: tem um rato aqui. Se eu tivesse aí, te ajudaria. Pois é, eu estava sozinha com dois gatos e um animal muito grande e desconhecido escondido entre os livros.

Me refugiei no meu quarto, deixei os dois gatos no mesmo recinto que a "ratazana". De manhã, Mustafá começou a ladainha às 5h. Abri a porta: pote de comida vazio. Pus comida e água no meu quarto, esperei os gatos comerem (Mustafá comeu muito e muito desconfiado) e abri a janela. Sonhei que Luis me dizia que não mataria o rato e eu ficava aliviada: nada de violência.

Quando Marcelo acordou, procuramos o animal. No que empurrei os livros da prateleira mais alta contra a parede da estante, o animal pulou e eu gritei. Com o rodo em riste, Marcelo foi tirando os livros  da estante. O bicho era mais feio que rato. O rabo pelado parecia uma cobra. Os dentes assustavam tanto quanto o som grave que saía do fundo da garganta. E o bicho tava nervoso. Demorou pra Marcelo e eu entendermos que o animal tinha mais medo de nós que nós dele. E quando entendemos que ele não nos atacaria, liguei pros bombeiros. Mas que animal que é? Nunca vi, não sei, não conheço esses animais amazônicos silvestres. Tem rabo? Tem. Tem o focinho comprido e fino? Sim, e a boca cheia de dentes e faz um barulho esquisito e é brabo. É mucura.

Demorou muito pros bombeiros chegarem. O que aconteceu depois foi rápido: um colocou luvas, o outro usou um cano com uma corda fina dentro e a alça na extremidade. Assim que a mucura tinha a cabeça na alça, ele puxou a outra ponta, apertando o laço em volta do pescoço do animal que se mijou todo. O das luvas abriu a gaiola e o outro depositou o animal agitado lá dentro. Dali vai pro Ibama.