terça-feira, 29 de março de 2011

Sim e não

- O Celta branco lá fora é de algum de vocês?
- Sim.
- Roubaram o carro agorinha.
- Levaram o carro?
- Não.
- Uia, quebraram o vidro. Levaram muita coisa?
- Sim.
- Você viu a cara dos caras?
- Não.
- Preciso cancelar o meu celular que foi roubado. Alguém sabe o número que tem que ligar?
- Sim.
- Já chamei a polícia, eles tão vindo. Conseguiu ligar na TIM?
- Não.
- O meu também não funciona, dá "rede ocupada". Deve ser o local que a gente tá, que tá ruim de sinal.
- Sim.
- Chegou a polícia. É com você que eu faço o BO?
- Não.
- Vocês sabem alguma coisa sobre o carro que transportava os caras que roubaram as coisas de vocês?
- Sim.
- Vai dar pra localizar os caras pela placa?
- Não, porque a placa é de fora.
- Olha só, antes de ir na DP pra fazer BO, vou querer ir numa loja TIM pra cancelar o meu telefone.
- Sim.
- Vão vocês lá dentro, eu fico aqui, guardando o carro da janela quebrada.
- Não.
-Vai deixar o carro aberto aqui?
- Sim.
- Oi, acabo de ser roubada e quero cancelar o meu telefone.
- Não vai dar, porque estamos sem sistema.
- Posso usar o seu telefone pra pedir pra outra pessoa, em outro estado, cancelar o meu telefone por mim?
- Sim.
- Oi, sou eu, fomos assaltados agora há pouco e levaram o meu telefone.
- Levaram a carteira?
- Não.
- Cê cancela o meu telefone por mim, já que aqui tá sem sistema?
- Sim.
- Fechou então. Voltamos pro carro?
- Não, ainda preciso fazer mais uma coisa.
- Mas eu vou pro carro.
- Sim.
- Esse carro é seu?
- Não, mas estou com a dona.
- Quebraram o vidro, foi?
- Sim, mas não foi aqui.
- Pronto, agora vamos na DP. Alguém sabe onde fica?
- Não exatamente.
- Ah, então quer dizer que a DP fica do outro lado?
- Sim.
- E aí, conseguiram fazer o BO?
- Não, tá sem internet.
- É tarde, vamo pra casa.
- Sim.

A arte de negar em duas línguas

Nein, assim, curto e grosso, nega um enunciado.
Nicht nega ações.
Kein((e(r)/s) nega coisas.
Pra todos eles, o não dá conta.

Um nein com desprezo (e balançando a cabeça) é nääh!
Um nein sem o menor comprometimento (e com as sobrancelhas arqueadas) é .
Um nein acompanhado do levantamento de um ombro e um estalo de língua (e sorrindo) é nee.
Pra todos eles, um não dá conta.

Um nein mudo é mh-mh (em oposição a m-hhm).
Seu equivalente é ãh-ãh (em oposição a ãhã).

Nada é nichts, mas se não valer nada mesmo, sobra nix.
Nunca é nie, mas pra enfatizar a não-ocorrência em tempo algum, diz-se, com o dedo indicador levantado: niemals. Contudo, se o assunto for gente, vira niemand, que não é ninguém.
Nenhum vem acompanhado de muitas possibilidades: nirgendwas, nirgendwo, nirgendwer, nirgendwann.

Sem é ohne, mas se a ausência for positiva, é (gebühren)-frei. Se a ausência for lamentável, fica (trost)-los.

segunda-feira, 28 de março de 2011

O bote

Um ex-aluno de Medicina, filho de veterinário, me contou um dia que tinha criado cobras. O que ele dizia sobre controlar o tamanho do animal pela alimentação era óbvio pra ele, novidade pra mim. Mencionou como era difícil controlar a qualidade da comida: os ratos que criava cruzavam entre si e morriam logo. A cobra, como animal de bote que é, não se alimentava de animais mortos. Ele até tinha tentado enganar as cobras, movimentando o rato morto com a vareta, mas não deu certo.

Dar o bote significa atacar aquilo que se movimenta. Shaoran era fascinado por borboletas, e chegava a expressar (quem tem animal em casa aprende a interpretar suas expressões faciais) decepção quando percebia que a borboleta parava de se movimentar.

Akari vive correndo atrás de lagartixas. Ontem trouxe um calango meio morto, meio comido pela metade. Enquanto ele se mexia, ela se entretinha com ele. Quando as forças dele se esvaíram, ela deixou o bicho pra mim e foi caçar outros.

Contudo, dar o bote não tem a ver unicamente com o movimento, mas com a direção do movimento. Quando Shaoran era muito pequeno, apareceram três cachorros do tamanho da Akari na porta de casa. O gatinho correu dos cachorros. Enxotei os intrusos e gargalhei quando observei o Shaoran correndo atrás deles, meio que reforçando que esse território é dele e ai de quem voltar.

Akari também me surpreendeu. Um dia eu tava com ela no quintal. Um passarinho (pequeno) pousou no chão e se movimentou na direção dela. Ela se encolheu toda e deu uns passos pra trás. Quando esse mesmo passarinho parou e se movimentou para longe da gata, ela deu o bote.

A caça corre, o caçador dá o bote. Quando a caça se movimenta na direção do caçador, ele foge. Não sei se isso vale pras cobras e os ratos avançando pra cima das cobras...

domingo, 27 de março de 2011

Caminhos tortuosos

Eles não tinham uma relação.
Justamente por isso não conseguiam se desligar
Um do outro.

Tinham curiosidade em relação ao outro,
Mas se refugiavam no anonimato e na ambiguidade.

Um acompanhava o caminho do outro,
Mas os caminhos de cada qual se bifurcavam 
À sua própria maneira.

Cada um procurava reconhecer a si mesmo
Nas pegadas do outro.

quinta-feira, 24 de março de 2011

A vida em caixotes

Yehuda Moon
-Pai, não está mais tão frio! Vamos pelo menos caminhar.
-De carro é mais fácil, Fizz, e estamos atrasados.
-Mas estou começando a esquecer!
-Esquecer o que?
-Lá fora!
-É pra isso que existem as janelas.

Os caixotes estão aqui:

há quem não veja: mora num apartamento-caixote, dele sai num carro-caixote para trabalhar num escritório-caixote. nos finais de semana vai para o caixote-mor: o shopping center (onde o mendigo não entra, mas assaltante sim…). não coloca os pés nas ruas. 
Odir (Rumpelstilzchen)

quarta-feira, 23 de março de 2011

O Tempo e o Nada

Michael Ende tem uma vasta produção literária. Li apenas dois dos seus livros de maior sucesso (viraram filme), e reconheço no autor uma espécie de visionário. 

Na História sem fim (Die unendliche Geschichte), a ameaça que preocupa Bastian e Atréju é o Nada. Já imaginou o Nada se instalando nas bordas de Phantásien e aniquilando tudo o que existe? Não se trata de uma desertificação, de um tsunami que atropela tudo, de um vazamento numa usina atômica que devasta tudo ao seu redor. É o Nada.

Em Momo, a protagonista (Momo) precisa salvar o mundo dos senhores cinzas (die grauen Herren). Tudo neles é cinza: da ponta do chapéu à pele. Eles são todos iguais, fumando seus cigarros que queimam tempo. Esse tempo queimado é o tempo roubado das pessoas. As pessoas se deixam pressionar pela ideia de economizar tempo e se transformam em seres apressados, estressados, trabalhando no limite de suas capacidades: máquinas. Os senhores cinzas acumulam esse tempo alheio que deveria sobrar na vida de cada pessoa e usam-no como combustível.

Momo é de 1973 e a História sem fim é de 1979. Não sou capaz de lembrar (minha idade não permite) como era a vida na década de 70, mas aposto que a vida de hoje é mais agitada. Tempo é dinheiro. Mas o que se faz com o dinheiro? Compra-se coisas, não tempo. Especialmente nas metrópoles, as pessoas comem em pé, em movimento, aproveitando o tempo da refeição para fazer outras coisas (como por exemplo ver TV). Vivem atrasadas, presas no trânsito, transitando entre casa e trabalho. Muitos fizeram do carro seu escritório, guarda-roupa, restaurante. O telefone é móvel, as pessoas estão disponíveis o tempo todo - mas não necessariamente dispostas a gastar muito tempo no telefone. O tempo de descanso é reduzido ao mínimo necessário - para a engrenagem não quebrar.

Essas pessoas, administradoras do tempo, se tornam cinzas. Por fora, são acrobatas. Por dentro, não tem nada.

terça-feira, 22 de março de 2011

Globalização

Quando o termo surgiu, não foi definido com muita precisão. A vagueza própria da língua permitia que o termo globalização fosse interpretado de diferentes maneiras, preferencialmente como uma grande comunidade harmoniosa, integrada e interconectada. Sim, sim, a "aldeia global" que cabe na nossa visão romântica de índios inocentes.
Imagem encontrada aqui

Um exemplo de que tudo valia para definir o termo nos seus primórdios, foi a anedota da véspera da abertura da Bienal (não lembro qual) em São Paulo. Diz a lenda que o curador deu a última volta pelo prédio, pra ver se as instalações estavam em ordem, os quadros no lugar, os projetores funcionando. Quando ele quis se dar por satisfeito, deu de cara com um nicho onde a faxineira tinha largado vassouras, baldes, panos e outros equipamentos de limpeza. O curador não achou ninguém que ele pudesse mandar guardar aquilo. Ele não se daria o trabalho. Sentindo-se muito esperto, o homem pegou um pedaço de papel e anotou lá o título da obra de arte diante de seus olhos: Globalização. Colou o papel na parede e provocou altas reflexões durante a exposição da Bienal.

Hoje, que o termo globalização não é mais definido em termos de comunicação, mas de economia, o lixo volta a ser tema central da globalização.

Enquanto as garrafas de água usadas e destinadas à reciclagem são mandadas dos EUA para a Índia, a Amazônia é sacrificada em favor do sudeste brasileiro. Desenvolvimento e progresso significam urbanização e vida "confortável". O progresso tem um custo alto para o meio ambiente, e quem paga esse preço não é o local desenvolvido, mas aqueles que estão em desenvolvimento.
Os projetos do rio Madeira marcam o início do maior aproveitamento hidrelétrico dos rios amazônicos. A energia, contudo, não ficará na região. O plano do governo é levar a maior parte dessa energia para os centros de consumo na região Sudeste, por meio da construção de um novo sistema de transmissão de 2,3 mil quilômetros. 
Parte da matéria retirada ontem da Folha.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Simbioses

Como uma ciclista faz as compras do mês num carro que não lhe pertence:

Ela leva o amigo que tem carro até o aeroporto e fica com o carro dele até ele voltar. Nesse tempo, ela aproveita para comprar coisas grandes e difíceis de transportar na bicicleta.

* * *

Como o motorista mantém seu carro abastecido sem gastar dinheiro:

De dentro do avião, ele manda uma mensagem no celular da ciclista, avisando que tem que botar água no radiador. Como ela não sabe identificar o raio do radiador e provavelmente precisa de instruções para abrir o capô do carro, ela vai ao posto de gasolina antes de fazer as compras do mês. Quando ela olha pro ponteiro que indica o nível de gasolina, ela pede pra abastecer e verificar a água do radiador.

domingo, 20 de março de 2011

History repeating



A estrada de ferro Madeira-Mamoré, que liga Porto Velho a Guajará-Mirim, foi um projeto nacional para escoamento da borracha. Durante sua construção, entre 1907 e 1912, morreram milhares de trabalhadores vindos de todas as partes do país. A "ferrovia do Diabo" matava por acidentes e doenças tropicais no inferno verde. A estrada foi abandonada com saldo negativo e nenhuma indenização aos operários lesados.

Rondônia volta a chamar atenção na mídia por causa de uma obra faraônica nacional (Jirau é a maior obra do PAC do governo). Mais uma vez, grandes massas de trabalhadores são deslocadas para os confins do Brasil. Mais uma vez, o discurso que está por trás da obra é o progresso. Mais uma vez os operários são tratados injustamente (10 mil homens foram despedidos semana passada). E isso num governo PT (Partido dos Trabalhadores).

E por que essas coisas acontecem aqui? Aqui é úmido, quente e tem malária. Quando a água estiver represada, será que não vai ter muito mais malária? Se aqui morasse tanta gente como em São Paulo, será que haveria usina hidrelétrica num rio que não tem queda d'água? Por que as usinas atômicas de Angra não funcionam? Se elas estivessem aqui, no canto esquecido do Brasil, funcionariam? Pra onde vão os turistas? Não é pra Rondônia. 

Não cheguei nessas ideias sozinha: foram postas na mesa durante o almoço dominical com mais três professores da Unir.

sábado, 19 de março de 2011

10.000 Maniacs

O jornal rondoniense que consultei noticia a revolta dos operários da usina hidrelétrica de Jirau usando rubricas como VANDALISMO, DESTRUIÇÃO e CONFLITOS. Mostra cenas de destruição patrimonial (ônibus incendiados, alojamentos destruídos), incompetência de manejo humano (10 mil homens soltos na cidade, sem ter onde comer, dormir ou tomar banho) e a rodoviária lotada. Não há muito texto, espera-se que as imagens sejam auto-explicativas.

Lendo os outros jornais, não consegui entender muito bem o motivo da revolta dos operários. Os números variam, as causas também. Mesmo assim, quem está aqui não se surpreende com o incidente: a usina era um barril de pólvora. Ontem a Unir foi evacuada porque a BR tinha sido obstruída. A Unir fica a 9,5 km da borda da cidade, a usina fica a 8. Os 10 mil homens foram alojados no Sesi (perto de onde eu morava). O supermercado (onde eu fazia compras) que fica na esquina oposta ao Sesi fechou e seu estacionamento serviu de abrigo para os operários.

A revolta não precisava de um motivo contundente. Os operários tinham sido removidos de outras partes do país pra trabalharem na construção de uma usina que provavelmente não lhes beneficiará. Vieram na esperança de juntar dinheiro e caíram no faroeste que é Porto Velho. A obra não tinha alojamento pra todos (quando eu vim em fevereiro de 2009 pra prestar o concurso, todos os hotéis estavam cheios de homens), aceitava qualquer um e não registrava mortos e acidentados (nas filas de banco e correio vi vários homens mutilados buscando indenização por acidente de trabalho). Os funcionários não recebiam o que tinha sido combinado, não tinham alojamento satisfatório e não recebiam tratamento contra as malárias contraídas nas margens do rio Madeira. Uma discussão com um motorista de ônibus foi o suficiente para desencadear a revolta dos operários.

A polícia (Força Nacional) está sendo mobilizada para conter eventuais atos de vandalismo. São 10 mil homens desempregados, desorientados, desabrigados, famintos e sem nenhum compromisso com a cidade ou seus habitantes que olham pra chuva nesse momento. A imprensa trata quase todos como vândalos. A população tem medo de sair de casa.

Dediquei muitos pensamentos ao nome de uma banda que eu curto pacas: 10.000 Maniacs. A voz de Natalie Merchant canta sobre o deslocamento de grandes massas de homens que vão para um lugar desconhecido, detonam tudo e, com algumas perdas e ganhos, batem em retirada. Nas letras das músicas, garimpeiros e soldados compõem essas massas humanas predatórias. Apesar da banda ser politicamente engajada, seu nome não tinha nada a ver com esses movimentos de pessoas desenraizadas (foi inspirado num filme trash chamado Two thousand maniacs!). 

Mesmo não correspondendo à verdade, a imagem que a mídia passa é que Porto Velho está tumultuada por 10.000 maniacs.

quinta-feira, 17 de março de 2011

quarta-feira, 16 de março de 2011

Amigos bizarros do Ricardinho



Esse é pra todos os meus alunos que conseguiram (e também aos que tentaram) me conduzir pelas suas estórias, me fazer ver seus cenários, sentir as emoções de seus personagens e me transportaram para uma outra relação com o tempo.

terça-feira, 15 de março de 2011

Não fazem milagres

O BioWaschBall que eu uso no lugar de sabão em pó lava bem a minha roupa, mas não faz milagres. Pra tirar as manchas de terra, tive que deixar a roupa de molho no sabão em pó e esfregar pra caramba. E isso que eu usei um sabão que provavelmente - eu não assisto TV, portanto não acompanho as propagandas - promete fazer milagres. Basicamente todos prometem.
Não sei o que teria acontecido se eu tivesse trocado o sabão em pó pela bola verde. Será que o sabão teria lavado as manchas de terra, ou será que eu teria que aplicar o mesmo procedimento de esfregar a roupa?

Pois é, os produtos eco-friendly não prometem, nem fazem milagres. O BioWaschBall não promete lavar melhor, apenas garante poluir menos. 

O coletor menstrual não promete um período menstrual seco (nos primeiros dias, vaza mesmo), apenas garante uma significativa redução de lixo (sem absorvente tipo modess não dá nas duas primeiras noites, mas é só nessas ocasiões que ele se faz necessário).

A composteira não promete a extinção de lixo orgânico, mas fecha um ciclo natural.

Os produtos orgânicos não são mais baratos (a lógica do consumidor capitalista é: quanto mais barato, melhor). Pelo contrário, são mais caros porque demandam tempo, cuidados e proteção contra todos os pesticidas usados no entorno. Garantem a diminuição de agratóxicos no organismo do consumidor e no solo.

A sacola retornável é revolucionária em tempos de excesso de plástico, mas não faz milagres. Há quem argumente a favor do uso das sacolas plásticas do supermercado, dizendo que elas servem para acomodar o lixo doméstico. Sempre haverá sacolas plásticas para o lixo doméstico. A diferença é se elas são gratuitas ou pagas. O que está em questão é a diminuição da poluição causada pelo excesso de sacolas plásticas.

A bicicleta como meio de transporte (vixe, que link que eu ponho aqui? Vai esse) não pretende ser a melhor solução para todos (não se presta bem ao transporte de terceiros, não abriga do sol nem da chuva, mesmo com paralamas, suja a roupa de certa ciclista, não se pode guardar coisas em seu interior, demanda esforço físico!), mas polui bem menos, ocupa bem menos espaço, faz muito menos barulho (em boas condições, não faz nenhum barulho), proporciona exercícios físicos e quase não tem custos de manutenção (paga-se o mecânico, mas não há custos extra com combustível, IPVA ou seguro).

A lógica dos produtos eco-friendly não é ser melhor que os produtos main stream, mas danificar menos o meio ambiente. Nada de milagres, apenas menos lixo tóxico para tentar amenizar o prejuízo ambiental.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Convivendo com as diferenças

Mary and Max,
I am Sam, 
Forrest Gump, 
Rain Man, 
As good as it gets, 
A Beautiful Mind e
My name is Khan
são desses filmes que apelam para as nossas emoções (quase desidratei de tanto chorar vendo o último da lista). Todos eles são sobre pessoas consideradas não normais (afinal, o que é normal?) que nos cativam de alguma forma. Max e Forrest Gump (Tom Hanks) são engraçados pela ingenuidade, Melvin (Jack Nicholson) fascina pelas neuroses, Sam (Sean Penn) é apaixonado pelos Beatles e pela filha. Na categoria de gênio louco entram Raymond (Dustin Hoffman), John Nash (Russell Crowe) e Rizwan Khan (Shahrukh Khan). Em todos esses filmes, o movimento é no sentido do esforço de aceitação das diferenças e convivência com as loucuras do outro. 

Nesses filmes, temos autistas (com ou sem Asperger), neuróticos, esquizofrênicos e "retardados mentais" (seja lá o que isso for). É a doideira no gesto e na mente do protagonista que precisa ser tolerada socialmente. Já em My name is Khan, temos um muçulmano autista (com Asperger) residindo nos EUA antes e depois de 9/11. Rizwan Khan sustenta duas idiossincrasias: (i) nasceu para dentro da religião daqueles que são carimbados, nos EUA, como terroristas e (ii) tem síndrome de Asperger. Por essas duas características, sofre sob a onda de pré-conceito, intolerância e ignorância que desfigura o país depois de 9/11. Equilibrar esses dois elementos é genial e brilhantemente performado por Shahrukh Khan.

Rizwan Khan casa-se com Mandira (hindu), mãe solteira de Sameer. Alvo do preconceito (por ser visivelmente indiano, foi tomado por muçulmano) de meninos mais velhos na escola, Sameer morre. Pela tragédia, Mandira culpa o sobrenome muçulmano que adotou no casamento e passou ao filho. Rizwan decide encontrar-se com o presidente (Bush) e dizer-lhe: "Mr. president, my name is Khan and I am not a terrorist."

Lembro de quando eu morava na Holanda, na república internacional. Eu conversava bastante com o Kaleem (paquistanês) sobre religião. Um dia eu tava na cozinha, meio à toa. Kaleem puxou uma cadeira, espalmou as mãos sobre a mesa e me explicou pausadamente que o islamismo é uma religião que prega o amor. Só pra você saber.

Voltando mais no tempo, lembro de todas as vezes que eu disse que falo alemão e o meu interlocutor imediatamente levantou o braço direito dizendo "Heil Hitler". Só pra você saber, não sou nazista.

domingo, 13 de março de 2011

Selbstgepflückt

Colhi e comi o primeiro mamão maduro do meu jardim. Olhei pros maracujás estacionados no verde e reparei que o primeiro deles está amarelando.

sábado, 12 de março de 2011

Essa terra

Essa terra de Rondônia é elogiada por alguns poucos poetas que lembram de histórias de Marechal Rondon desbravando a mata, retirantes fugidos da seca caminhando na floresta, o telégrafo como referência e caminho, o rio como fonte de riqueza.
Os românticos que me desculpem, mas lavar tênis, esfregar as meias e costas das camisetas por causa de uma garoinha é muito chato.

Procurando casa

É espantoso que eu esteja me mudando pra terceira casa em menos de dois anos. A primeira alagava, a segunda tem goteira. A terceira (?) será uma nova aventura.

Meu drama era decidir se comprava uma casa (...) ou se continuava alugando. Havia bons motivos para cada decisão e torcida contra cada opção. Fui na imobiliária. Pedi a chave de uma casa pra alugar, desci as escadas e fui no setor de vendas, fazer uma simulação de financiamento. Descobri que há limites pra devaneios. O financiamento de 30 anos (!!!) cobriria apenas dois terços do valor inflacionado da casa que eu tinha em vista. Fui na casa pra alugar e me encantei com o jardim.

É mais longe, me perdi pra sair do bairro, o aluguel é mais caro, mas tem carambola, jambo, abacate, mamão, banana, goiaba, pitanga, manga e 3 tipos de pimenta. Quando liguei na imobiliária anunciando o meu interesse, Iza me disse que a proprietária da casa de madeira que habito estava atrás de mim. Liguei pra ela e marcamos uma visita do arquiteto que vai medir o terreno aqui. Vão derrubar mesmo.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Pensando bem

É melhor que as minhas palavras disfarcem a adrenalina
que a gramática organize as ideias
que eu escolha o que você pode saber.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Linguagem e pensamento

Eu queria que você fosse capaz de ler os meus pensamentos
porque aí eu não precisaria te dizer nada
nem lutar com a escolha das palavras certas.

terça-feira, 8 de março de 2011

Dança das cadeiras

Num certo momento, as pessoas na festa conversavam, bebiam e comiam. Falavam sobre seus bens de comsumo e consumiam o que o anfitrião oferecia. Nesse tempo, o governo era liberal, mas o acesso aos cargos públicos na educação não estava liberado. Universidades de renome viam o seu corpo docente minguando porque não havia quem preenchesse as vagas dos aposentados e falecidos. Os novos contratos eram para substitutos, eventuais e provisórios. Efetivo mesmo, só quem já estava dentro.

Mudou o anfitrião, azul-amarelo virou vermelho, mudou a conversa. Daí alguém foi lá e apertou o botão que liga o som. Abriram espaço na pista de dança e enfileiraram algumas cadeiras. Nesse tempo, surgiram novas universidades federais e, através de um programa chamado REUNI (Reestruturação e Expansão das Universidades Federais), foram contratados milhares de docentes novos. Durante aproximadamente três anos, houve grande oferta de concursos para docentes nas universidades brasileiras.

O anfitrião saiu de cena e colocou uma pessoa de sua confiança no lugar. O governo era o mesmo, mas a euforia estava superaquecida. Os convidados dançavam em volta das cadeiras, avaliavam assentos diferentes, sonhavam com possibilidades, faziam planos. Eis que, para controlar a economia, a anfitriã apertou o botão que pára a música. Cortes orçamentários. Não haveria mais nomeações nem contratações de docentes, e concursos por vir foram suspensos. Quem tinha uma cadeira em vista, sentou-se. Quem, no conforto de sua cadeira, sonhava com outras, sentiu-se preso.

domingo, 6 de março de 2011

Em nome do deLírio

No cineclube, depois da última temática, ainda sobra tempo pra mais uma. Decidimos que essa última temática dentro do nosso primeiro projeto de extensão universitária será "musicais". Nem fiquei triste que o tema que eu tinha sugerido (trilha sonora) não foi acatado, porque assim eu podia mostrar filmes de Bollywood.
Eu achava que qualquer exemplar serviria, já que todos seguiam a mesma receita: sobre amor eterno, família unida e honra, com atores/ atrizes modelos-cantores-dançarinos e - obviamente - Shahrukh Khan.
Já no primeiro filme que vi, o heroi morre no final, o que não é nada prototípico. No outro, o heroi volta ao vilarejo (que a heroina enfeita, ok, mas ele não volta por causa dela). O outro tinha 3 horas e 35 minutos de duração. No outro, meu heroi aparece de bigode (como pode?). O outro se passa mormente na Inglaterra e Estados Unidos.
Não achei nenhum representante arquetípico do cinema bollywoodiano nessa semana, mas reparei que beijos e cenas de sexo são sempre tabu, mas homens chorando estão liberados.

sexta-feira, 4 de março de 2011

FAQ

-Professora, a senhora vai ter um carro elétrico?
-Não.
-Mas não polui, professora!
-De onde vem a energia?
-Da usina, que alaga tudo, o que mata os peixes e desmata a floresta. Entendi. Mas e um carro solar? Energia solar, professora, não polui - pense nisso!
-Por que você acha que eu preciso de um carro?
-É mais confortável.
-Sabe quanto espaço a minha bicicleta ocupa nas ruas? Sabe quantas ruas são feitas por causa dos carros? Percebe a relação entre as enchentes e o asfalto pros carros?
-Mas pelo menos não chove dentro do carro.
-Meus alforjes são à prova d'água e eu sempre levo uma muda de roupa nos alforjes. Além do mais, é bom sentir a chuva na cabeça e o vento na cara.
-Mas um carro é mais rápido que a sua bicicleta.
-Sim, eu saio 15 minutos antes de casa e chego em meia hora. Além do mais, se eu exceder a velocidade na bicicleta e sofrer um acidente porque tinha uma pedra no meio do caminho, serei a única envolvida. Um carro em alta velocidade pode matar outras pessoas além do motorista. Tenho mais medo de matar do que de morrer. Além do mais, tem a questão do barulho. Muitos carros fazem muito barulho. E é um barulho chato. Na minha bicicleta, você vai me ouvir cantando.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Gewöhnungsbedürftig

Ainda não me acostumei, mas é assim que eu tô agora.

terça-feira, 1 de março de 2011

Ler, escrever e memorizar

Durante muito tempo eu confiei na minha memória de longo prazo e fui inflexível à releitura: não relia nada, porque dizia a mim mesma que já tinha assimilado a obra. Daí reli Cem anos de solidão e passei por uma experiência completamente diferente do que da primeira vez. Além do texto ter outro sabor, percebi que a minha memória apagou muito mais informações do que reteve.

Um dos conundrums de um programa do Philosophy Talk era sobre a leitura e a memória. O ouvinte disse a Ken e John que não sabia mais o que fazer, porque assim que lia um livro, esquecia quase tudo. Cogitou a possibilidade de dar preferência a audiobooks, se a língua falada fosse mais facilmente armazenada na memória. John respondeu que o objetivo da leitura de obras literárias não pode ser a sua memorização, mas passar pela experiência prazerosa de ler/ ouvir literatura.

Eu já sei que não leio pra memorizar. Me acontece várias vezes de conversar com alguém sobre um romance e não lembrar do final da trama, por exemplo, ou perceber que a minha memória simplesmente não registrou passagens memoráveis para o outro. 

Condicionada pela cultura do bilhete, do caderno, da agenda, percebo que a minha estratégia para memorizar não é ler, mas escrever.

Agora que estou lecionando Linguística Geral (novidade pra quem estava dando aula de Texto), estou precisando reler um montão de coisa que li durante a minha graduação (very, very far away). Pra lembrar o que dizer em sala de aula, faço minhas anotações. E enquanto vou lendo, anotando e desenterrando mais textos, vou achando xeroxes ainda não lidos - sobre a memória.