domingo, 12 de abril de 2015

Bodenlos

O gênero biografia merece, às vezes, subespecificações. As biografias Persépolis e Epiléptico, por exemplo, se apresentam na forma de quadrinhos. As biografias de Michelangelo, Darwin e Van Gogh, todas escritas por Irving Stone, são biografias romanceadas. Já as autobiografias, escritas pelos sujeitos que são objeto da biografia, acabam dando mais valor ao percurso de ideias: Max Planck, Richard Feynmann, Werner Heisenberg entrelaçam vida e obra. Deste estilo poderia ser a autobiografia filosófica de Vilém Flusser, Bodenlos. Mas Bodenlos ainda é diferente.

A autobiografia está dividida em quatro partes: monólogo (em que é relatada a condição de judeu praguense que veio se refugiar, como único sobrevivente da família, no Brasil); diálogo (em que suas reflexões com e sobre onze figuras iminentes são tecidas); discurso (em que suas aulas ganham destaque); reflexões (em que o regresso a Praga é preparado e efetivado).

Numa palestra de Gustavo Bernardo, ele descrevia Bodenlos como sendo uma biografia em que Flusser escreve sobre os seus amigos (Alex Bloch, Milton Vargas, Vicente Ferreira da Silva, Samson Flexor, João Guimarães Rosa, Haroldo de Campos, Dora Ferreira da Silva, José Bueno, Romy Fink, Miguel Reale e Mira Schendel) e quase nada sobre si. Lendo o livro, percebi que, além de escrever sobre cada amigo em capítulo separado, Flusser articula-os, comparando-os entre si e a si mesmo.

Mais que isso, como muitos de seus amigos são ligados à palavra escrita, Bodenlos se mostra como uma grande reflexão sobre a escrita:

Escrever é trabalhar de dentro da língua sobre a língua. Pois a práxis de tal trabalho implica um constante distanciar-se da língua [...]. Tal distanciamento provocava por sua vez alienação daquela língua que brotava, calada, do próprio ser-no-mundo. (p. 183)
E como a ciência é escrita, suas reflexões sobre ciência são consequência:
Ciência para mim sempre tem sido uma maneira de falar, e filosofia da ciência, portanto, parte da filosofia da língua. Apenas, parte que tendia cancerosamente a invadir as demais partes. Creio que a filosofia da ciência encontrará sua posição apropriada apenas dentro de uma teoria de comunicação a ser futuramente elaborada.
[...]
Procurei focalizar a ciência enquanto discurso cumulativo de explicações "objetivas" de fenômenos, e enquanto método historicamente determinado de humanizar a natureza e naturalizar o homem. (p. 280-281)
Para mim progresso científico é a maneira como o homem afirma sua dignidade perante a realidade, embora o faça diabolicamente. (p. 283) 
A função da técnica é modificar o homem que a possui. Não, portanto, manipular coisas e homens coisificados é a função da Técnica, mas modificar o homem pela própria práxis. Destarte a filosofia pode humanizar a técnica e evitar a tecnologização do homem. (p. 288)
Bodenlos me ajudou a tirar o chão da ciência - que eu considerava edifício sólido.

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