sexta-feira, 30 de maio de 2008

Philip Szymanski

Hoje é o dia de casamento do meu grande irmão com a Julia. Os dois decidiram que queriam ter o mesmo sobrenome. Os dois concordaram que Julia Kleppa é feio (gosto não se discute). A alternativa, então, era Philip Szymanski. E assim foi decidido.
Philip abdica do sobrenome numa boa, porque ele quase não conheceu o pai que lhe deu este sobrenome. Além do mais, quer subverter a obviedade da mulher aceitar o sobrenome do marido, aceitando o da esposa. Por fim, acha Szymanski um nome engraçado.

Que Philip e Julia sejam felizes juntos! Se a distância entre nós não fosse tão grande, eu adoraria presenciar o casamento do meu irmão mais novo, que mais uma vez inverte a ordem natural das coisas (saiu de casa antes de mim, por exemplo, apesar de ser mais novo).

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Memória e epilepsia

Iván Izquierdo é um cara que dedicou 40 anos de sua carreira ao estudo da memória e tem muito a dizer sobre ela, numa prosa solta, o que prezo muito. Não farei uma resenha do livro sobre como a memória se desfaz, porque as estratégias são muitas. Na verdade, aprendi que a função primordial da memória é esquecer.

Uma surpresa, pra mim, foi descobrir que memória e epilepsia estão intimamente ligadas. Uma crise epiléptica nada mais é do que uma descarga não-controlada no cérebro. Para conter a crise, o corpo se defende matando neurônios ligados ao foco da crise. Com a morte de neurônios, a memória fica comprometida.
Terminado o livro sobre a memória, passei ao primeiro volume de uma estória em quadrinhos, chamada 'Epiléptico'.


Trata-se de uma biografia. David B. é o irmão mais novo de um epiléptico, numa época em que o distúrbio ainda é tabu. O estilo de desenho é bem francês, e até mesmo lembra um pouco Persépolis (também é preto e branco tipo xilogravura e também é autobiográfico, contado por uma criança que amadurece).

Num dado momento, o irmão está tendo três crises convulsivas por dia, e os pais procuram ajuda médica. São encaminhados a um renomado cirurgião que fica enumerando quais as possíveis seqüelas de um erro durante a cirurgia. Se eu errar aqui, seu filho pode ficar cego. Se eu cortar demais pra cá, seu filho pode ficar paralisado etc. Antes de marcarem a cirurgia, o menino epiléptico vê um anúncio de cura macrobiótica e pede para tentarem a macrobiótica antes da cirurgia. A família toda vira macrobiótica, estuda o equilíbrio entre ying e yang e várias doutrinas que se baseiam neste equilíbrio e passa as férias em comunidades macrobióticas.
É uma leitura visceral, porque as imagens de uma criança sobre o que se passa no mundo do irmão epiléptico são muito expressivas. Pena que essas leituras me dão sonhos conturbados e dores de cabeça logo cedo... Mas são fascinantes!

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Für dich, Ma


Disque M para Marmitex

Coisas de Barão Geraldo. Na propaganda para entrega de marmita vem a referência à cozinheira: Tia Rita das trufas do bandex. Não é a Rita, ou Dona Rita. É, num tom íntimo mesmo, a Tia Rita. E não faz referênca ao bandejão, ou o restaurante universitário, ou mesmo o RU. É o bandex. Bom, podia ser o bandeco, o que pode soar de maneira depreciativa. Por fim, é preciso saber que a Rita vendia trufas na saída do bandejão. Não vende mais, porque agora cozinha pra fora. As trufas são a sobremesa. Enfim, uma entrega de marmita que faz sucesso em Barão Geraldo, porque as pessoas da Unicamp podem se lembrar da Tia Rita das Trufas do Bandex.

Esse é outro flyer anunciando marmita, mas vejam o diferencial: a comida é lacto-vegetariana. Não sei se em Campinas um marmitex lacto-vegetariano faria sucesso. Creio que em Barão tem mais chances de dar certo. Não só pelos alunos da Unicamp se descobrindo como diferentes (dos amigos, pais, de si mesmos) e talvez querendo experimentar coisas novas, mas pelo tom pró-saúde de Barão.

domingo, 25 de maio de 2008

Discreta

Pequena orquídea que notei por acaso no nosso jardim de 2m x 1m. A poeira na folha indica quanto tempo faz que não chove por aqui...

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Depois da cicloviagem

Foram nove horas na estrada. Saí de casa às 8:20 e cheguei às 17:20. Bebi um litro de caldo de cana e um e meio de água mineral morna. Comi duas barras de cereias e uma esfirra. Cheguei em casa melecada e faminta.

Depois do banho, fui pra sala.

- Oi, Lou.

- Oi, Sales.

- Cê tá usando a mesma roupa que ontem de noite?

- Sim, é de propósito, pra você me reconhecer.

- Como assim?

- É que hoje eu já não sou mais a mesma pessoa que ontem. Hoje eu pedalei uns 170km em nove horas. Nunca tinha feito isso. Esse fato faz de mim outra pessoa.


Fazendo a cicloviagem

Muito bem, defini que eu iria a Mogi Mirim, entraria pra Itapira, passaria por Amparo e Morungaba e voltaria pela D. Pedro, com vento nas costas.

O feriado tinha sido ontem. Contra as minhas expectativas, as ruas e rodovias estavam bem movimentadas hoje. Até Mogi Mirim fui pela Ademar de Barros, que eu já conheço e elogio porque tem um acostamento bom e limpo. Depois de Jaguariúna o número de saídas laterias diminui um pouco, o que me deixou mais à vontade.

Entrei pra Itapira e fiquei feliz com a qualidade do asfalto no acostamento. Mas logo o asfalto ficou poroso, apareceram pedrinhas e pedaços de cana de açúcar no acostamento. De repente o pneu trazeiro começou a chiar. Nem se eu quisesse, teria conseguido desviar do caco que furou o meu pneu e a câmara.

Troquei a câmara, fechei o pneu e pus a bomba em funcionamento. Puxa, empurra, vai e volta, e o ar saía por não sei onde. Quando decidi empurrar a bicicleta até Itapira, um carro de apoio (não lembro o que era ali: Eco Vias, Intervias, não importa, os caras que prestam socorro na rodovia) parou do meu lado. Precisa de ajuda? Tem bomba? Não, mas sobe aí, que eu te levo num posto.

Fui socorrida. Andamos poucos quilômetros até um posto em Itapira, e conversamos sobre o meu trajeto. Vou a Amparo, passo em Morungaba e depois volto pra casa pela D. Pedro. Mas Morungaba tem serra... Não é melhor você voltar por Pedreira, Jaguariúna e pegar a Ademar de Barros? Não, o plano é passar por Morungaba.

Sofri mais no trecho de Itapira a Amparo. Em primeiro lugar, eu não tinha encaixado a roda traseira na gancheira apropriadamente, e o freio, que é fixo, ficava fazendo o seu papel de freiar. Demorou até eu acertar a posição da roda e alinhá-la. Consertado o problema da bicicleta, tinha o problema da via. Não tinha acostamento na maior parte do tempo, e muito caminhão buzinando. Treminhões lentos subindo morro, ocasionalmente soltando varas de cana. Passei em cada buraco, que se eu mostrasse, até um cético acreditaria nos superpoderes na minha bicicleta.
O sol da 1 da tarde queimava nas costas e eu tinha pouca água (só levei meio litro e ia comprando nos lugares). Amparo não chegava nunca, e não havia placa indicando quantos quilômetros faltavam até lá. Só tinha morro, sol, caminhão e canavial. Nenhum sinal de cidade (moscas, bairros, cachorros, pedestres). Comecei a duvidar que eu estava no caminho certo. Duas pessoas me pediram informação, e os diálogos seguiram o mesmo esquema:

Sabe pra onde vai dar essa estrada?

Não.

NÃO?!?!?

Tenho esperança de chegar em Amparo, pelo menos estou seguindo as placas pra lá.

Amparo? Tá.

Cheguei, finalmente em Amparo. Os meus superpoderes tinham minguado e mudei o plano. Seguiria por Pedreira e Jaguariúna, e não pela serra de Morungaba. As duas rotas tinham mais ou menos a mesma extensão, e as duas não tinham acostamento. Então resolvi me poupar.

Planejando uma cicloviagem

Pergunto pro Sales se ele quer ir pra Andradas no feriado de Corpus Christi.

- Talvez, não sei ainda.

- Ah, eu queria alguém que fosse pra lá, pra levar a minha bagagem, porque eu quero ir de Caloi 10 e ela não tem bagageiro, portanto não dá pra pôr alforje.

- A minha mãe quer ir visitar um irmão lá, mas voltar no mesmo dia.

- Não, mesmo dia não rola, porque eu não agüento pedalar 260km num dia. Eu tenho que dormir lá. Por isso que eu queria alguém que levasse coisas de banho, uma muda de roupa, pijama, essas coisas. Porque eu vou chegar lá melecada, pra não dizer coisa pior.

- O que pode ser pior que isso?

- Os detalhes da meleca.

Bom, pra mim tava claro que Andradas era longe demais. Olhei no mapa, à procura de um destino a 50km daqui. Assim eu faria 100km de Caloi 10 num dia.

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Dreaming

"Welcome to Philosophy Talk, the program that questions everything, except your intelligence."

O programa intitulado 'Dreaming' não é típico. O convidado não conseguiu - sabe-se lá por que motivos - chegar à rádio, de modo que Ken e John abriram o programa muito mais pros ouvintes que o normal, e de fato conversaram com os ouvintes, não só agradeceram pela contribuição e depois continuaram suas conversas, ocasionalmente remetendo à fala de um ou outro ouvinte.

Vários aspectos dos sonhos foram levantados: qual a diferença entre sonho e realidade, o que causa os sonhos, como interpretamos os sonhos, por que precisamos dos sonhos e assim adiante.

Um dos ouvintes lembrou um escritor que fazia os seus personagens terem pesadelos depois de comer queijo. Lembrei, imediatamente, da noite quente e cheia de mosquitos, em que fui jantar na churrascaria com os meninos. Comer carne de noite no verão desde então é crime para mim. Às 3 da madrugada eu levantei da cama por causa de um sonho em que as pessoas da minha família morriam e apagavam lentamente, ficando cinza dos pés à cabeça. Havia armas, sangue, tiro na cabeça e um cinza se apoderando da pessoa. De mim também, e apaguei lentamente. Em seguida, tudo recomeçava, mas em outro cenário. Quando estava prestes a morrer pela terceira vez, saí da cama. Bom, posso explicar isso de duas formas: (1) a janta foi pesada; (2) os meninos daqui de casa estavam quase todos viciados num jogo de video game em que é preciso matar zumbis com tiro na cabeça, que eles jogavam na sala. Ah! E já que estamos no campo do sonho biologicamente motivado, lembrei do sonho mais nítido e 'real' que já tive na vida (talvez porque eu me questionasse durante o sonho se aquilo era um sonho, talvez porque a história fosse longa e coerente). Foi depois que coloquei pilhas de livros embaixo dos pés da cama. Com o cérebro mais irrigado, tive um sonho mais parecido com a realidade. Mas, como nem tudo são rosas, a experiência não se repetiu nas noites seguintes. E quando dormi de pernas pra cima no hospital em Bremen, acordava com dor de cabeça.

Uma ouvinte comentou que acredita que os sonhos nos interconectam, e outro ligou pra confirmar essa hipótese através de um exemplo: ele sonhou com um colega de escola, e no dia seguinte, enquanto ele tava sentado no escritório dele, tocou o telefone e era justamente aquele colega de escola, que ele tinha visto a última vez 15 anos atrás. Lembrei de despertar de pesadelos escuros e sufocantes numa época em que eu sabia que o cara pelo qual eu estava apaixonada (mas não era correspondida) estava passando por maus bocados. Acordava do pesadelo pensando nele e pedindo pra ele voltar a dormir, dizendo que tinha só sido um sonho ruim, e voltava a dormir. Era como se eu sonhasse os pesadelos dele.

Outra ouvinte disse que entende que os sonhos não significam em si, mas o que vale é como você se sente em relação a eles. Estou parafraseando: se você acorda perturbado depois de sonhar que mata pessoas violentamente e se lembra desse sonho com um certo grau de horror, então isso diz algo sobre você. Se você acorda de um sonho em que voa e acha o sonho o máximo, então é possível saber outra coisa sobre você. Se você acorda de um sonho em que cai desenfreadamente e acha o sonho legal, você precisa de mais adrenalina na sua vida. Imediatamente me lembrei dos sonhos em que desço ladeiras sinuosas deitada de barriga num skate ou rolemã, pedalo na Caloi 10 pelo mundo com uma galera sorridente, conto estórias geniais prum monte de gente à minha volta e acordo feliz da vida.

Um dos moderadores lembrou que nós, seres humanos, somos significadores compulsivos. Precisamos interpretar e atribuir significado a tudo, queremos dar sentido às coisas que nos afetam. Lembrei de um sonho meu que serviu de consolo pra minha mãe. Eu tinha morado na casa dos meus pais (metaforicamente falando, porque mudamos de casa várias vezes) por 21 anos, e era chegada a hora de eu tomar o meu rumo. Eu não só sairia de casa, como voltaria ao Brasil. Talvez meus pais até tivessem medo que eu me casasse com um certo menino. Pros meus pais, a separação não seria fácil. Mas, como já anunciei, um sonho amenizou o medo do desconhecido. Sonhei que a minha mãe e eu entramos num carro conversível dando risada, esticando braços e pernas, e que eu tinha jogado pra fora um novelo de lã e explicado pra ela que através do fio poderíamos retraçar o caminho. Ah, vale lembrar que ninguém, exceto eu, confiava nas minhas habilidades de motorista na época. Sonhar que eu dirigia o carro foi convenientemente didático: eu era capaz de enfrentar o desconhecido.

Ainda tinha aquela outra ouvinte que contou que tinha ficado cega por um tempo, e que seus sonhos eram visuais do tipo em que era preciso escolher elementos (um monte de pedrinhas coloridas, roupa, xícaras de formas e cores diferentes, ou seja, que demandavam acuidade visual). Como nunca fiquei cega, não pude lembrar de nenhuma experiência semelhante. Hm, vasculhando um pouco mais na memória dos sonhos, lembrei de um sonho que tive quando a Stephanie estava aqui, pedindo café várias vezes por dia. No sonho, eu me convencia de que café preto é gostoso. Na manhã seguinte, não pus nem leite nem açúcar no meu café. Tomei ele quente e preto. E gostei.

"Thank you for listening and thank you for thinking."

terça-feira, 20 de maio de 2008

Dor de cabeça com a Telefonica

Nosso telefone é da Telefonica. Internet e TV são da Net.

Em Dezembro, Caldo perguntou pra nós, moradores da Oca, se concordávamos com a instalação do Trio da Telefonica. Internet, Telefone e TV seriam todos da mesma empresa, a Telefonica. Cancelaríamos a Net. Contanto que ele assumisse as transações, concordamos, porque a Telefonica tinha preços promocionais.

Em Janeiro, Caldo ligou na Telefonica e pediu o Trio. A moça anotou o pedido, depois informou que o Trio está indisponível para a nossa região, mas que poderíamos ficar com o Duo. Não, eu queria o Trio, e se não tiver, cancela o pedido. Desligaram.

Em Fevereiro recebemos um modem Speedy (internet da Telefonica, pra simplificar). Uai, a gente não pediu isso. Caldo ligou na Telefonica numa segunda-feira (ele tem folga nas segundas) e pediu esclarecimentos. A moça não quis acreditar que o modem não havia sido encomendado, e disse que estaria verificando as ligações, procurando pela ligação em que o Caldo diz que é pra cancelar o Trio. Caldo pensou um pouco e quis evitar gastos desnecessários de energia. Peraí. Se vocês puderem me oferecer o Trio, ficamos com o modem e tudo bem. Ah, o Trio continua indisponível para a sua área. Ahá! Se ainda tá indisponível, prova que eu cancelei o pedido do Trio. A gente vai estar verificando aquela ligação. É de arrepiar.

Em Março veio uma conta de telefone astronômica. Além de multa contratual, cobravam pela instalação do Speedy (que não foi instalado, aliás, não saiu da caixa) habilitação do Speedy (que continua inerte na caixa), duas mensalidades do speedy (que nem sabe o que está acontecendo aqui fora) e os juros de multa. É de assustar qualquer cristão.

Numa outra segunda-feira, Caldo ligou lá, dizendo que não íamos pagar por um serviço que não recebemos. A prova de que não recebemos o serviço estava naquela ligação em que o Caldo cancelava o pedido do Trio, que ninguém conseguia localizar. Não pagamos a conta e o Caldo passou por todas as atendentes da Telefonica. É de comer sopa com garfo.

Em Abril veio uma outra conta, igualmente cobrando a mensalidade do Speedy e multa e seus respectivos juros. Já éramos considerados inadimplentes. Caldo voltou à sua ocupação de segunda-feira, passando raiva com as atendentes da Telefonica que passam a ligação adiante, desligam na cara e usam um vocabulário próprio. A novidade era que nosso telefone seria desligado por falta de pagamento. É de gritar com surdo.

Em Maio veio uma oferta de parcelamento de dívida. Somando as nossas contas não-pagas, dava 517 reais e uns trocados. O parcelamento da dívida não discriminava a que se referia a dívida, apenas indicava o total (504) e as parcelas (126 e uns trocados). Inferimos que a Telefonica estava nos concedendo um desconto de 13 reais. Mas 13 reais não equivalem à instalação do Speedy, mensalidades, multa e juros, que insistíamos que não nos cobrassem indevidamente. Caldo passou a encarar as segundas-feiras como dias tensos. É de confundir os loucos.

Junior, o titular do telefone, ligou na Telefonica e quis cancelar o telefone. Falou com inúmeras atendentes, foi transferido várias vezes e a ligação foi interrompida (desligaram na cara dele) muitas vezes. Não é fácil cancelar um telefone. Mas seus esforços surtiram efeito: encontraram aquela ligação em que o Caldo cancela o pedido do Trio. Mas, para confirmar o perdão parcial da dívida, eles precisavam analisar a tal ligação. É de chorar na pia.

Era segunda-feira, e Caldo teve que ouvir da atendente que aquela ligação apresentava inconsistências. É de subir pelas paredes.

Hoje, depois de cinco meses, vieram as contas de março e abril sem a cobrança do Speedy (que continua dentro da caixa). É de dormir no chuveiro.

Acompanhando a flor




segunda-feira, 19 de maio de 2008

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Pequena Lou vai à ópera

Quando o Leo morreu, decidi que eu nunca mais escalaria com mais ninguém. Voltei a escalar por um tempo, mas nunca mais fui à montanha pra escalar. Decidi também que eu nunca iria a uma ópera. Ele me falava tanto das óperas italianas, que eu havia me convencido que eu só poderia ser introduzida ao gênero através dele.Ferrone tinha me dito no meu aniversário que talvez teria um ingresso sobrando pruma ópera no dia 15 de maio. O ingresso continuou dando sopa, então fui a Sampa, pra ver uma ópera moderna. Me preocupei por meia hora com a roupa mais adequada pra ocasião, mas cheguei à conclusão de que ninguém ia me jogar pra fora se eu aparecesse lá de Kichute. Chegando lá, Lígia e Ferrone me avisaram que o espetáculo seria O Castelo do Barba Azul, uma composição do húngaro Béla Bartok. Em alemão. Fiquei feliz, mas lembrei que o gênero ópera não é lá muito facilitador da compreensão do texto. E eu não podia contar com o fato de que os cantores líricos tivessem alemão como língua materna. Já fiquei preocupada. Mas se eu, que entendo alemão, corro o risco de não conseguir entender o que eles estão cantando, como é que o resto desse Teatro Municipal lotado vai entender? Ferrone me tranqüilizou: a gente lê a legenda. Não dei risada, porque eu nunca tinha ido à ópera e não sabia como as coisas funcionam. Legenda...

A apresentação foi um deleite para os olhos. O cenário é super simples, mas muito bem explorado. Espelhos, projeções de luz em formas (uaaau) e cores (vermelho e branco) diferentes são o diferencial. O resto, fora a legenda, era como eu imaginava: música tocada pela orquestra, estória cantada pelos cantores, com gestos vocais, faciais e corporais, além de estilo levemente rebuscado: Bangt dir, Judith?

A estória é originalmente um conto de fadas: um homem muito rico e assustador (de barba azul) casa-se com uma mulher jovem. Antes dessa, ele já tinha tido seis outras esposas, que desapareceram no Castelo do Barba Azul. Quando o aristocrata viaja, a jovem esposa inspeciona os cômodos do castelo e descobre (e aí o cenário diz mais que o texto) cada uma das mulheres. Barba Azul volta e tenta assassinar a esposa curiosa.

Placas que me revoltam

Algumas placas são tão mal-desenhadas, que sugerem interpretações das mais variadas. Algumas, muito boas estão aqui, no Kibeloco. As que eu fotografei não são do tipo cômico pra mim. Me reviram as entranhas por causa de seu texto.

Esta placa está na divisa entre as duas vias da Anhangüera. Em vez de colocar uma passarela, um túnel ou mesmo um farol que favoreça o pedestre que precisa atravessar a rodovia, colocam uma placa pedindo ao pedestre que não tenha pressa. Sabe com que freqüência passa carro lá? Tem que ser muito zen, pra atravessar com segurança. Ou muito disposto para caminhar até a passarela mais próxima.
A rodovia está aqui e o fluxo não pode ser interrompido, portanto, caro pedestre, vire-se para exercer o seu direito de ir e vir!


Esta placa não tem efeito sobre um pedestre ou ciclista que a lê quando passa na AV.1 (Romeu Tórtima), na altura do Colégio Rio Branco. Talvez o motorista, na hora do rush, sinta que a placa se dirige a ele. Se eu fosse motorista na hora do rush e lesse essa placa infeliz que é propaganda para algum produto que a propaganda não anuncia, eu sentiria a minha inteligência agredida (Digressão: vi outra do mesmo tipo, em verde: Você não tem culpa de estar de TPM. Homem nenhum se sente aderessado por esta placa, porque nenhum homem sofre de tensão pré-menstrual. Meninas que ainda não menstruaram e mulheres na menopausa tampouco se sentiriam afetadas. Resta uma fatia razoável de mulheres, que precisa ser diminuída para incluir somente as mulheres que de fato estão na TPM. Isso é loteria. Que produto é esse, que não estão anunciando?).

No momento em que alguém se coloca na rua, com ou sem seu meio de transporte, a pessoa produz trânsito. Meios de transporte que páram o trânsito são os auto-motores com mais de 2 rodas. Porque ocupam muito espaço e costumam transportar pouca gente. Desconsideremos as latas de sardinha (os ônibus!), maior dos meios de transporte coletivo rodando nas ruas em horário de pico. Como um horário de pico é definido pelo número de pessoas que querem ocupar as ruas ao mesmo tempo, podemos inferir que há um certo número de pessoas ocupando um espaço descomunal em suas latas poluidoras particulares.

Os ônibus são lotados e têm baixa freqüência e dão volta e páram em todos os pontos e demoram para transportar as pessoas. Em vez de exigir melhorias no sistema de transporte coletivo (implementação de transporte sobre trilhos, educação dos motoristas estressados, tarifas mais baixas etc.) as pessoas resolvem seu problema de transporte individualmente.

Compram carros e motos e morrem acidentados e se estressam no trânsito trancado. E o trânsito tranca porque tem carro demais nas ruas. Está muito fácil comprar carro. São Paulo está um inferno. Excesso de contingente.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Toque o sino

Nossa casa nunca teve campainha. Já fizemos assembléias em que discutimos qual campainha instalar, se sino era mais legal, ou se a criançada ia se divertir mais que nós, e sempre optamos por deixar as coisas como estavam. As pessoas chegavam em casa e tinham que bater palmas, gritar, buzinar, enfim, inventar alguma coisa pra chamar a nossa atenção. Reconhecemos facilmente as palmas do carteiro, do leitor da luz e dos mendigos. Reconhecemos o assovio do homem que traz a marmita dos meninos. Reconhecemos claramente a voz da Livinha chamando o nome de cada um dos moradores. Mas os mais tímidos não eram ouvidos. Renato já esperneou mais de uma vez no nosso portão e ninguém que tava dormindo na sala acordou. Também houve outras reclamações do mesmo naipe, mas agora não lembro de quem eram.

Resolvemos o problema de quem está do lado de fora do portão. A pessoa toca o sino e faz barulho. Ainda não tenho certeza de que nós reconhecemos o som do sino como indicativo de que há alguém no portão. Hoje o carteiro, o primeiro a tocar o sino, foi ignorado por mim. Junior teve que me avisar: tem gente no portão. Ué, não ouvi nada. O sino! Aaaaaaaaaah! O sino!!!

terça-feira, 13 de maio de 2008

Por que quem segue as regras se ferra?

Coletando os meus pensamentos agora (puxa, em inglês collecting my thoughts soa tão mais natural), penso que o que estou prestes a relatar não pode ter acontecido com a mesma pessoa na mesma manhã, num trajeto de ida e volta. É muito azar transitar por vias que as pessoas insistem em não respeitar.

O meu primeiro susto foi na rua mesmo, quando um cara encostou o carro e em seguida abriu a porta. Quase em cima de mim. Não gritei pro homem que espelho retrovisor serve pra se ver ciclistas silenciosos. Não sou de gritar.

Há uma parte da ciclovia que é separada em duas vias (a que vai e a que vem). É um trecho curto, cruzando uma praça. Na via que vai, que eu ia pegar, havia dois rastafaris em pé, parados, conversando. Um estava de bike e capacete, o outro só tinha os rastas. Diminuí a velocidade, mas eles não se ligaram que eu queria passar. Parei a bicicleta e pedi licença. O do capacete me disse: Vai do outro lado, querida! Sorrindo, respondi: É contramão. O dos rastas deu uns passos pra trás e eu passei. O do capacete deu risada, e repetiu, pro colega: Vai do outro lado, querida. Eu não parei e disse pro do capacete que não era pra ele me fazer sentir culpada por um erro dele. Quem está parado no meio da via é ele, e eu não tenho que me adaptar a isso, afinal, existem regras. Mas eu não falei nada disso, porque eu não sou de reclamar com estranhos. O rasta de capacete furiosamente me ultrapassou na subida da ciclovia.

Mulheres, mais que homens, transitam a pé em toda a extensão da ciclovia. E andam em bandos, e são obesas e ocupam todo espaço que é, em tese, do ciclista. Como elas estão de costas e são patricinhas, já grito de longe LICEEEEENÇAAA, pra dar tempo de elas perceberem o que está acontecendo e me darem passagem. Dão risada e pedem desculpa. Ou seja, sabem muito bem que estão me atrapalhando.

O ponto mais perigoso da ciclovia é o cruzamento lá embaixo, perto do Tilly. Especialmente na volta, o ciclista vem descendo uma ladeirona a uma certa velocidade considerável. Há placas avisando aos motoristas de que a preferência é do ciclista. Quem tirou carteira de motorista e teve que ler o Código de Trânsito sabe que quando uma via cruza com uma ciclovia, o ciclista tem preferência. Os motoristas não olham pra ciclovia. Muitos entram no cruzamento sem dar seta, alguns entram no cruzamento pela contramão. Um desses, que entrou pela contramão, o fez olhando fixamente no meu olho. Medindo forças. Fiz cara de brava e soltei três palavrões, mas ele não ouviu nada. Eu não sou de gritar.

sábado, 10 de maio de 2008

Meu Sandwalk

Submeti aquele artigo - modificado - a outra revista, depois de detalhadamente estudar as condições deles. No mesmo dia, o editor me escreveu, dizendo que o texto estava muito interessante, que certamente havia muito esforço ali, mas que não havia nada sobre o cérebro dos sujeitos cuja fala é examinada. O que interessa para aquela revista são as relações entre linguagem e cérebro, e eu não tinha nem cérebro pra acompanhar a discussão. O meu Sandwalk me levou até a lagoa atrás da Unicamp.

Dia seguinte, orientação. Passei o dia todo com a minha orientadora, discutindo a minha tese. Tenho nela uma boa leitora, e as sugestões e cobranças dela realmente ajudam a melhorar a qualidade da tese. Caminhando com ela pelos corredores do IEL, topamos com a organizadora do SePeG (seminário de pesquisas da graduação), que precisava de debatedor pra terça de tarde. Minha orientadora não podia nesse horário. Olharam pra mim, sorrindo. Me asseguraram que eu posso (legalmente) ser debatedora num seminário de graduandos. Os quatro textos estariam à disposição no dia seguinte. O meu Sandwalk foi o percurso de ida e volta à Unicamp.

De noite liguei pro MS (depois de dois anos sem ver a pessoa) e pedi que me trouxesse alguma coisa sobre a sua lesão. Concordou. Maravilha! No dia seguinte, ele veio pras atividades do grupo dele de manhã, me entregou as tomografias e mostrou na agenda dele todos os filmes que tinha visto neste ano. Ele vê 4 filmes por semana - em média. De graça, porque já é amigo do gerente do Kinoplex. Feliz da vida por ter conversado com o MS e por ter agora informações sobre o cérebro dele, abri o envelope. Me dei conta de que não sei ler tomografias de cérebros. Sei ler a tomografia do meu pé, porque os 7 parafusos dão uma orientação básica. Nem olhei pros textos que terei que debater, nem fui na natação, nem caminhei.

Na mesma tarde, fui ao hospital da Unicamp, pra acompanhar o OJ. Este é o meu outro sujeito com agramatismo. OJ passaria por uma avaliação com o neurologista. Mas antes um outro afásico, que tem a área de Broca lesionada mas faz circunlóquios (o caso é doido: por via de regra, quem tem lesão na área de Broca tem afasia de Broca, o que significa que apresenta uma fala 'telegráfica'. Mas tem gente que tem afasia de Broca e não tem a lesão na área de Broca. Agora esse senhor tem uma lesão na área de Broca e fala pra caramba sem sair do lugar). OJ e eu ficamos mais de uma hora sentados no saguão do hospital. Eu queria ter gravado a nossa conversa!!!!

Entramos na sala do neurologista e OJ fez os testes de memória, atenção, planejamento, orientação espacial, visual e repetição de palavras. Impressionante, ver um neurologista em ação. Impressionante, ver o desempenho de OJ nos testes que envolviam palavras ou números. Depois da entrevista combinamos um monte de coisas, olhamos pras tomografias, e quando cheguei em casa, me dei conta de que no meu envelope estavam as tomografias do afásico de Broca que faz circunlóquios, que deviam estar a caminho de São Sebastião do Paraíso. Em troca, uma das tomografias do MS estava a caminho de Minas Gerais.

Dia seguinte, acordo depois de uma noite cheia de sonhos tensos, repletos de imagens de cérebros, corredores vazios do HC que sempre parece sujo e velho. De pé, ligo pro laboratório que fez a tomografia e o diagnóstico de MS. Peço uma segunda via do laudo. A tomografia é de 2005. Ah, vocês não têm segunda via dos laudos de 2005. Maravilha. Posso ir aí e pedir pra algum médico ou neurologista interpretar a tomografia pra mim? Muito obrigada. Sento na minha cadeira presidente pra começar a pensar nas modificações que preciso fazer na tese. Christine, da Holanda, me manda um e-mail perguntando se recebi o artigo modificado que estamos escrevendo juntas. Recebi, mas esqueci de abrir. Passo a tarde toda tentando descobrir como se abre documentos com extensão docx e por que alguém cria um arquivo com essa extensão doida. De noite, o meu Sandwalk me levou até a casa de um amigo que tinha me emprestado um DVD que só verei semana que vem, quando a minha lista de afazeres desencontrados tiver diminuído.


O que mais me espantou hoje foi o que eu disse pra esse meu amigo no telefone: estou saindo pra 'minha caminhada' e levo o teu DVD na tua casa. Me senti um velho que tem um dia regrado, sendo a caminhada um dos itens do dia.

Sandwalk de Darwin

Darwin tinha voltado de sua viagem de 5 anos em volta do mundo, tinha se estabelecido em Londres, onde tudo era próximo, a vida científica era intensa e os colegas se encontravam. Ele já tinha casado com sua prima, e se não me falha a memória, já tinham trazido ao mundo duas crianças. Ele escrevia papers sobre pássaros, moluscos, pedras e outras coisas, e, num caderno à parte, escrevia sobre a transmutação das espécies. Sua esposa o reprimiu, afirmando que seus escritos sobre a evolução das espécies eram anticristãos. Começaram as indisposições, dores de estômago, cabeça, irregularidades intestinais.
Mudaram-se para o campo, porque o espaço na capital era reduzido demais para pessoas que tinham passado apenas 3 anos de suas vidas na cidade grande. A princípio, a mudança de ares lhe fez bem. Conseguiu publicar seus artigos esparsos, que foram amplamente elogiados. Porém, logo em seguida começou a estudar as cracas. Não havia microscópio mais poderoso que o seu, e ainda assim ele não conseguia distinguir muito daqueles seres que se prendem aos cascos dos navios. Encomendou um microscópio mais potente e descobriu que uma craca é composta de três partes, uma reviravolta no mundo das ciências naturais, porque ninguém tinha visto uma craca com tanta precisão antes. As cracas lhe deram motivos para continuar desenvolvendo sua teoria sobre a evolução das espécies por meio da seleção natural, agora trancada numa gaveta, junto de seu testamento.
Seu escritório era o lugar onde passava a maior parte de seu tempo. Tinha quatro pernas, um acolchoamento confortável, e como mesa usava uma tábua sobre os braços da poltrona. Para não se confinar na poltrona-escritório, projetou o Sandwalk. Trata-se de um percurso retangular, arborizado de aproximadamente 1km, com chão de areia. Para estabelecer o número de voltas no Sandwalk, ele enfileirava um determinado número de pedrinhas pretas ao pé de uma árvore. A cada volta que dava, chutava uma pedrinha. Essa idéia de esquematizar as voltas no Sandwalk foi da Emma, sua esposa.
O Sandwalk ficou famoso: toda vez que Darwin recebia visitas, convidava seus hóspedes para um passeio no Sandwalk. Assim mantinha sua disciplina de caminhar todo dia. O Sandwalk não o curou das dores de estômago, mas lhe dava tempo para sacudir seus fantasmas de sua mente.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Enfim, a sinalização

Finalmente colocaram placas ao longo da ciclovia/ ciclofaixa de Barão. Esta é para os ciclistas. Estou olhando pra portaria da Unicamp, a FEF está à direita e o bandex à esquerda, lá na frente. Não dá pra ver na foto, mas a faixa ainda não foi completamente pintada. Só as bordas estão vermelhas.
Agora o estacionamento do bandex está à direita. Esta faixa é uma das primeiras faixas (dentre outras) que o motorista vê quando entra na Unicamp por esta portaria.
Esta placa está na rotatória do bandex e é para os motoristas. Esta rotatória é aquela que tem tráfego compartilhado. Reparem que um pedaço da ciclovia está pintado de vermelho. Esta pintura, num local que - de acordo com algumas interpretações - deve ser compartilhado entre ciclistas e pedestres, levou a generalizações: se pedestre pode andar aqui, e aqui o chão está vermelho, então pedestre pode andar em qualquer parte vermelha da ciclovia/ ciclofaixa.
Tudo bem, a foto não ficou espetacular, mas dá pra observar que na intersecção entre ciclovia e rua tem sinalização vertical (a placa) e horizontal (a pintura vermelha), chamando a atenção do motorista.

Particularmente, tenho notado que os motoristas estão mais cautelosos em relação à ciclovia. Não todos, mas cada vez mais. Os pedestres, em contrapartida, pelo visto continuarão preferindo transitar pela ciclovia que pelas calçadas irregulares da Av. Atílio Martini.

domingo, 4 de maio de 2008

13ºC

Na sexta choveu o dia todo. Lembrarei daquele dia como um dos dias mais feios da minha vida. Cinza, frio, úmido e na frente do computador.
O dia seguinte amanheceu sem nenhuma nuvem no céu, e lembrarei desse dia como o mais lindo faz muito tempo. Um céu azul, tudo muito nítido, uma claridade fabulosa. Mas a temperatura continuava lá embaixo. Pra coroar o dia, fui ver Naná Vasconcelos e Virgínia Rodrigues. Aqueceram os meus ânimos e dormi quentinha no meu saco de dormir que tem conforto a -10ºC. Preguiça de botar lençol, fronha, esperar a cama esquentar.
O dia seguinte começou com a Orquestra Filarmônica de Bamberg no Teatro do Parque Ibirapuera. O céu azul era cortado por aviões que decolam de Congonhas a cada 6 minutos, a parede branca e enorme do teatro cegava os olhos que não conseguiam atribuir som aos instrumentos que os olhos viam. O dia estava bonito, o trânsito de São Paulo estava livre, mas isso tudo já não era mais novidade. Lembrarei que vi os termômetros marcando 13ºC. Os mesmos 13ºC dos dois dias anteriores, mas nos dias anteriores a alternância entre sol e chuva foi mais marcante que a temperatura constante.

Biografia do Darwin

Estou ocupada com a biografia do Darwin faz um bom tempo: já li 600, faltam ainda 209 páginas. O jovem naturalista passou as primeiras 400 páginas deste romance de Irving Stone dando a volta ao mundo no HMS Beagle. Nas 150 páginas seguintes, ficou sofrendo dores de estômago porque sentia que não podia publicar seus pensamentos sobre a origem das espécies.

Só pra apresentar um panorama, em 1857 as pessoas ainda não estão ligadas que os continentes que hoje são separados por oceanos, já formaram a pangéia. Os distintos cientistas da época acreditam que Deus criou todos os seres vivos exatamente como são agora. Que uma espécie tenha evoluído e se transmutado em outra espécie é uma hipótese anticristã. Que o homem tenha evoluído dos primatas é o cúmulo da heresia. Em suma, Darwin está se sentindo meio Galileo. Não quer ter que capitular diante da autoridade eclesiástica por falta de provas.

Dei as duas aulas da semana passada no PED e o assunto era "o que é dado em neurolingüística". Falei de vários experimentos, experimentei com os alunos e mostrei dados dos meus dois sujeitos afásicos. Os meus dados são de dois tipos: naturalístico e experimental. Naturalístico quer dizer gravar a pessoa numa interação informal, o mais próxima de uma situação normal de conversa. Olhando pra dados deste tipo é que podemos descobrir coisas que nos balançam e sacodem, porque não foram previstas pela teoria de linguagem. Este tipo de dado nos força a lançar hipóteses novas sobre o uso da linguagem. Coudry chama esse tipo de dado de 'dado-achado'. Acontece que esses dados não se repetem, são únicos e peculiares de uma dada pessoa. Se eu quiser verificar se aquele fenômeno que observei é sistemático, aplico experimentos que evocam o fenômeno. Se ele se repetir, tenho em mãos o que Coudry chama de 'dado-evidência'.

Darwin desenterrou umas sementes grandonas em sua propriedade. Estavam embaixo de uma camada grossa de areia. Ele não conseguiu identificar as sementes e pediu ajuda aos seus amigos botânicos. Distribuiu as sementes e olha lá, elas germinaram e nasceram folhagens exóticas, que ele tinha visto nos trópicos.

Queridos alunos, este é um exemplo de dado-achado. Estamos diante de sementes que não são nativas da Inglaterra. Que hipóteses explicariam isso? Darwin sabe que o mundo é mais velho do que prevê a Bíblia e sabe que o que vemos hoje não foi sempre assim. Ele pensa na possibilidade das sementes terem viajado de ilhas tropicais pelo oceano até por exemplo a Inglaterra. A superfície da Terra foi mudando ao longo do tempo e uma camada de areia cobriu as sementes viajantes. Mais tempo passou, ele comprou aquele pedaço de terra e foi cavar um buraco fundo e as desenterrou. Como provar que as sementes vieram pelo mar? Testando sua resistência à água do mar.

Montou um experimento em que jogava sementes de nabos, beterrabas, cenouras e outros vegetais em tinas, barris e bacias de água salgada. Algumas sementes não sobreviveram, mas outras brotaram, como anunciavam seus sete filhos: papai, papai, os nabos estão brotando, podemos plantar mais coisas na água?

Este é um exemplo de dado-evidência, em que você coleta dados de acordo com uma hipótese pré-formulada.

O que eu não mencionei na aula é que é possível que um experimento comprove uma hipótese, mas isso ainda não garante que a hipótese corresponda aos fatos.

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Dia do Trabalho

Passei o 1. de maio trabalhando. Naquele famigerado e maledeto artigo que foi rejeitado pela terceira vez - portanto definitivamente - pela Aphasiology. Minha maior frustração é que os caras (o editor e os dois pareceristas) concordam que o texto melhorou pra caramba. Mas não vão publicar porque não demonstrei maturidade para discutir com eles nas cartas (cover letter, em que aviso o que mudei, com o que concordo e com o que não, agradeço a sugestões e explico por que não forneço dados sobre tal coisa). Na verdade, não correspondo às expectativas teóricas dos meus pareceristas. Nada disso transparece no texto do artigo que não vão publicar.
O que fazer com um artigo que esta revista se recusa a publicar? Mandar para outra revista. Só que outra revista tem outros parâmetros, outra forma de organização, e talvez eu deva mesmo acatar algumas das reclamações organizatórias do meu parecerista chomskyano.

Trocando idéia com a Stephanie sobre o que fazemos no Dia do Trabalho, ela lembrou que a maioria das pessoas comemora o Dia do Trabalho não trabalhando. Mas isso não se aplicou a nenhuma de nós duas...