quarta-feira, 27 de abril de 2011

Os óculos da visita

O rio cheio

O rio se transforma

O rio carrega as nossas memórias
O rio arrasta quem não sabe navegar
O rio corre atropelando o caminho
O rio ruma para o longe
O rio leva e traz enquanto a gente espera

Passeando com a gata

A última vez que estive na casa dos meus pais foi recheada de tempo livre. Desenterrei uns livros deixados lá pela minha tia - por motivos inescrutáveis (meus pais não leem em inglês) e iniciei a leitura de Eureka Street, Belfast. Gostei das estórias e do personagem principal, um sujeito irlandês que tinha um monte de amigos esquisitos, morava sozinho e tinha um gato. Apesar de detestar o gato, ele passeava com o gato pelo bairro todas as noites.

Achei essa estória de passear com o gato muito engraçada, já que sei - por experiência própria - que os gatos não obedecem, nem são fiéis ao dono, nem um monte de outras coisas que os desqualificam para passeios pelo bairro. Pois não é que ando levando a Akari pra passear no jardim?
Ela só se mantém nos arredores da porta quando não saio com ela. Juntas, caminhamos pelo jardim todo e ela super obedece quando a reprimo pela voz de se aproximar do portão. Mesmo dentro de casa, quando abro alguma janela, ela prefere ficar perto de mim do que sair desembestada por aí.

sábado, 23 de abril de 2011

Vila Candelária

Foto: Sheila

Foto: Sheila

Almoçar com o professor Edinaldo é sempre uma experiência sociológica. Como ele gosta de mostrar a Porto Velho roots para os não-iniciados, aproveitamos para conhecer novos lugares e velhas histórias.
Foto: Sheila
Dessa vez, almoçamos na Candelária, uma vila que ainda conta com alguns barbadianos (vindos de Barbados, Caribe) e muitos ex-ferroviários do tempo da Madeira-Mamoré.  Depois do almoço, ele nos prometeu um passeio no cemitério da Candelária.
Foto: Sheila
Para se chegar no cemitério, é preciso seguir pelos trilhos do trem.  Ao longo dos trilhos tem uma favela sobre palafitas. Passar por ali significa quase entrar na casa daquelas pessoas todas e é equivalente a acompanhar a sessão da tarde, a preparação da janta, a construção da casa, a fofoca do dia. Quando fiz o passeio de barco, era essa paisagem que me remeteu à Índia.
Foto: Sheila
O cemitério fica no meio da mata e já foi muito depredado. Uma trilha no meio da mata guia o visitante por valas, lápides carcomidas e cruzes.  O maior medo que passamos ali foi das formigas que tocavam o terror num certo ponto da trilha. Corremos algumas centenas de metros  gritando  e tomando ácido fórmico na veia. O medo secundário – e sempre presente aqui – foi a malária ou dengue, porque os mosquitos tavam “agarrando”, como dizia o Edinaldo.
Foto: Sheila
Depois do cemitério dos ferroviários, visitamos o cemitério de locomotivas. Havia árvores crescendo no meio da lataria. A selva engrupiu a máquina a vapor.
A Sheila
Foto: Sheila

quarta-feira, 20 de abril de 2011

De volta à bicicletaria

Dessa vez a Amarilda estava escalada para ter a sua revisão geral. Pedalei os 9 km até a bicicletaria do Bezerra. Cheguei e vi que ele ainda não tinha colocado as bicicletas pra fora. Ele perguntou se eu ia esperar  a revisão e me pediu pra esperar ele tomar café. Achei estranho ele não ter tomado café da manhã às 8:30. Fiquei sabendo que ele tinha acabado de chegar do treino: tinha ido ao Candeias e já estava com 50 km nas costas.

Antes de sair de casa, até pensei em levar as redações dos meus alunos e corrigir enquanto ele trabalhava, mas desisti: aquela bicicletaria é quase uma barbearia. Mesmo quando estávamos só o mecânico e eu, conversamos quase o tempo todo. Bezerra contou da competição de domingo, das barbaridades que rolaram durante a prova, da alegria do primeiro colocado. Na ingenuidade (nunca competi), perguntei qual era o barato da competição. O prêmio não era, porque se ganha medalhas, não dinheiro. Ele respondeu que o barato era a satisfação de poder contar pra todo mundo que se venceu a prova.

Foram chegando parentes, desocupados, fugidos do trabalho, companheiros de treino. Perguntavam da classificação da prova de domingo (Bezerra tinha ficado em quarto lugar no geral e sétimo contando com os acreanos), comentavam o caixa eletrônico que tinha sido explodido a cinco quadras dali, reclamavam de desencontros pro treino daquela madrugada, marcavam o pedal seguinte.

Acho que agora acompanho melhor os comentários de uma competição de bicicleta com seu vocabulário peculiar (fuga, estar escapado, andar de roda). Em contrapartida, eles ficaram intrigados com uma bicicleta que se parece com a deles, mas tem paralamas, dois cadeados, bagageiro e pezinho.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Caju

Caju do meu jardim que não amarra a boca! Estou quase me sentindo no sítio, não fosse o barulho da avenida ao lado.

Frutinha

Achei que fosse cambuci, mas desconfio que não seja. Se alguém souber que fruta é essa (e se é comestível), avise!

Borboleta azul

Tem uma borboleta azul no meu jardim.

A casa

Estou na porta da cozinha, olhando pro jardim. Esse jardim é o motivo pelo qual escolhi essa casa (mais longe, mais cara, mais problemas).
A rua está à esquerda. Essa varanda é super massa, mas tem muito mosquito.
Atrás da cozinha tem isso: casa de cacarecos guardados com cuidado, bananeira, goiabeira e plantas que desconheço.

Carambolas

Hoje fiz compota de carambola, porque achei-as um pouco azedinhas. Três colheres de açúcar não foram suficientes pra adoçar as carambolas, mas ficou bom.

Jambo

O pé de jambo parece ter sido tratado por Edward, mãos de tesoura. É comicamente cônico, de tempos em tempos cobre o chão com um tapete cor de rosa e dá jambo, a maçã do Norte.
Com um cano, consigo escolher qual jambo tirar do pé. Um eu até consegui cutucar e pegar em queda livre, antes que se estourasse no chão.
A criançada bate palma e me pede pra colher jambo. Deve ser tradição no bairro: ir na casa da esquina e pedir jambo. Tem de monte.

Gata mãe

Os dois gatinhos que o dedetizador pegou e que eu devolvi pra gata mãe. Tinha colocado os dois no jardim, quando a mãe não tava. Exploraram o local, depois se encolheram e adormeceram escondidos pelas plantas. A mãe não os identificou. Tirei os dois do esconderijo, pus numa caixa de papelão no meio do jardim. Quando olhei pela janela, vi a gata dando de mamar pros dois.

Miava muito, não sei se de felicidade por ter reencontrado os dois filhotes, se de dor ou alívio. Depois de se alimentarem, passaram a andar com mais segurança. Queriam conhecer o jardim todo, mas os miados da mãe guiavam os dois gatinhos pra fora da casa.

Mas o capítulo "gatos do forro" ainda não acabou. Ontem acordei outra vez no meio da noite com os miados da Akari e o tumulto lá em cima. Levei os dez metros de tela que eu tinha comprado pra pôr nas janelas, martelo e pregos pro forro. A tela deu certinho pra fechar a parte aberta. Antes de terminar, olhei pro lado no forro-sauna e vi a Akari. Subiu pela escada e pulou pelo acesso no teto no banheiro. Desci a Akari e tranquei a curiosa no quarto.
Eu tinha fechado o acesso da gata mãe, mas não tinha cuidado dos gatinhos (contava dois remanescentes no forro). Mas como eu tinha decidido subir ao forro uma vez só por dia, deixei os gatinhos pra hoje. De novo, acordei com algazarra no forro. Logo depois do café da manhã, tranquei a Akari no quarto e subi no forro com um rodo, a caixa de transportar gatos e uma lanterna de bicicleta.

Logo identifiquei a gata mãe embaixo da caixa d'água que fica em cima do outro banheiro. Saquei que ela tava guardando os gatinhos. Me aproximei e ela correu. Cutuquei atrás da caixa com o rodo. Miado. Deitei embaixo da caixa, enfiei a mão lá e fui tirando gatinhos do esconderijo: um, segura! dois, caramba! três, ave Maria! quatro, caralho! cinco - perdi um. Quando quis passar pelo buraco na parede pro saguão maior, perdi mais um. Pus os três na caixinha de transportar gatos fedidos e procurei pelos dois fujões. A mãe deve tê-los levado.

Desci do forro me sentindo um capitão do mato. Profissão: perigo. Enquanto eu tomei banho, depositei a caixa com os três na varanda. A gata viu e me desafiou. Botei a caixa na Laranja Mecânica, atravessei a cidade e doei os gatos para a Pet Shop que me conhece. Paguei as vacinas dos três. A gata mãe continua no jardim. Espero que haja silêncio em casa nessa noite.

Carregada

Demorou, mas aqui estão as fotos da mudança e da casa nova. Laranja Mecânica carregada com as últimas coisas.

sábado, 16 de abril de 2011

Gatos e trote

Eu passei quatro noites seguindo as pegadas dos gatos que andavam pelo forro. Já tinha localizado as duas portinhas de acesso ao forro, já tinha subido na escada e já tinha desanimado de explorar aquele submundo. Chamei o dedetizador, pra que ele jogasse veneno contra as formigas e capturasse os gatos no forro. Achei melhor que um profissional me livrasse dos gatos. Pedi que viesse de manhã, porque eu tinha que dar aula de tarde.

Às 10:30 tocou o telefone. Era uma mulher que iniciava todas as sentenças com "assim" e tinha sotaque gaúcho. Disse que tinha notado que eu tinha feito um pedido de internet Oi, mas que a previsão de disponibilidade de porta de internet para a minha região era de 7 a 8 meses. Disse depois que a Oi tinha uma parceria com a Claro, e que a Claro estava me oferecendo uma promoção de internet móvel ("assim, a senhora pode acessar a internet de qualquer lugar: na cama, por exemplo"), já que eu estava sem internet à vista.

Tocou a campainha. Era o cara que ia subir no forro. Pediu um saco, dei-lhe a caixa de transportar gatos.

"Assim, vamos fazer o cadastro?" Perguntei se eu não podia comprar essa internet móvel que ela tava me oferecendo na loja da Claro. "Assim, não, porque eu estou ligando da central, e pode ser que na loja os atendentes não saibam dessa promoção em que a senhora vai adquirir o modem gratuitamente e vai pagar metade do valor da mensalidade nos dois primeiros meses".

Correria, gritaria desesperada e tumulto no forro. O homem desceu com um filhote de gato na caixa. O outro tinha caído de lá de cima, pela portinha de acesso ao forro e foi recolhido atrás da porta do banheiro. Meu coração encolheu. Desconfiei que aqueles não eram os únicos filhotes no forro, mas não desconfiei que estava sendo vítima de trote pelo telefone.

Dei os meus dados cadastrais pra moça, achando que o meu problema de internet tinha uma solução no horizonte. Liguei pra Oi, pra cancelar a internet e expliquei que tinha acabado de receber uma ligação de uma moça da Claro, falando da parceria entre Oi e Claro. A atendente não confirmou essa parceria.

A gata mãe subiu ao forro, percebeu a ausência de dois filhotes e a lamentou em tons agudos. Quando quis sair de casa pra ir na Unir, ouvi filhotes de gato no forro. Perdi o receio de subir no forro, armei a escada, me contorci naquela sujeira e identifiquei dois gatinhos. Não consegui alcançá-los, estavam num lugar grande pra eles, pequeno pra mim.

Liguei na Claro, pra saber se eu tava cadastrada em alguma promoção. Fui transferida para quatro atendentes de setores diferentes. A última quis me transferir de novo, mas tive a paciência necessária para explicar o meu pedido pouco comum. "A senhora não está cadastrada em nenhuma promoção, nem plano de internet móvel".

Os dois filhotes aprisionados na caixinha dormiram na varanda e foram alimentados com o líquido da comidinha mole. Imagino que a mãe lhes tenha passado instruções de como se alimentar pela grade. Mantive os dois gatinhos presos, porque pretendia usá-los como chamariz para atrair seus dois irmãos instalados no playground do forro. O que eu faria com os quatro filhotes ainda não estava decidido.

Fui na 7. DP (bem pertinho de casa) e fiz BO do trote de que fui vítima, porque esses dados que eu passei pra moça assim pelo telefone são equivalentes à perda dos meus documentos pessoais. Não sei o que os outros podem fazer com essas informações.

A gata mãe estava no jardim, medindo olhares comigo. Subi no forro com a caixa dos dois filhotes bravos. Silêncio total, nem sinal de gatinhos livres.  Desci, armei a escada no outro acesso ao forro, verifiquei que não havia filhotes no forro. Ponderei que a gata mãe não considera mais o forro como um lugar seguro para os filhotes. Levei os filhotes presos no jardim, depositei-os perto dos outros três gatos (dois pretos e um siamês) que moram no jardim.

Não sei o que fizeram ou pretendem fazer com os meus dados cadastrais, nem se a gata mãe já encontrou seus dois filhotes libertados.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Dias de fúria

A agenda pra segunda-feira estava cheia, apesar de conter apenas um item: mudança. Fazer mudança envolve muito deslocamento de papel: tem que buscar documento lá, trazer documento pra cá, entregar documento ali, reconhecer firma, recuperar segundas vias, vasculhar comprovantes.

Zerei o velocímetro e pedalei até a minha nova moradia, pra acompanhar a vistoria de saída da filha da proprietária e já assinar a minha vistoria de entrada.  Entre as duas casas, rodei 4 km. Quando fui liberada da vistoria, pedalei de volta. O caminhão de mudança (carreto, vai) já estava me esperando. Conseguiu passar pela portaria sem o papel autorizando a minha mudança porque eu já tinha conversado com os guardas.

Os dois homens que carregaram as minhas coisas no caminhão foram super camaradas: recolheram todas as coisas que eu considerava parte integrante da paisagem (vassouras, escada, caixinha da Akari). Enquanto eles faziam força e suavam, eu desmontei o guarda-roupa (que eu ainda não montei por pura preguiça mental). Ninno apareceu de moto, trouxe o carro da Cynthia, encheu o carro e ajudou a decidir o que ia no caminhão e o que iria numa segunda viagem de carro. O sol já estava a pino e nem sinal de chuva.

Partimos os três veículos em caravana: Amarilda na frente, Ninno no carro lotado da Cynthia e o carreto atrás. Não vou dizer que eu cheguei primeiro. Depois que descarregamos o carro da Cynthia, Ninno e eu voltamos pra Vila, deixando os dois descarregando os móveis. Voltamos quando estavam descarregando o sofá, última peça. A borrachinha que calça o pezinho da Caloi 10 foi recuperada pelos caras, o que prova que eles são gente boa. Ninno devolveu o carro da Cynthia (atrasado) e pegou a moto de volta. Eu fiquei na casa nova, olhando praquele monte de coisa amontoado na sala.

De tarde, Cynthia encontrou a minha nova casa, me pegou e levou na casa da Vila da Eletronorte. Escova de dente, a louça no escorredor, a toalha pendurada no banheiro, o ventilador e a Akari foram recuperados nessa última viagem.

A casa nova tem três quartos. Num deles, coloquei a Amarilda e a Caloi 10. Tinha uma fralda envolvendo a maçaneta da porta daquele quarto. Achei aquela fralda ali muito feia e tirei. Fechei a porta e não consegui mais abrir. Entendi por que aquela fralda feia tava lá: a lingueta estava quebrada e não voltava.

De noite choveu uma daquelas chuvas torrenciais.  Pro meu desgosto, descobri que tem duas (pequenas) goteiras na casa nova. Além disso, descobri que tem muito mosquito nessa casa e muitos gatos no forro. Miam, pulam e fazem cambalhotas. Akari, coitada, ficava vagando pela casa apavorada. De fora, vinha um barulho agudo. No começo, não soube se era passarinho ou gato. Era um filhote de gato se abrigando na minha varanda numa noite de tempestade. Levei comida, que ele ignorou solenemente. Entendi que a comida não era apropriada pra ele e dividi um pacote de “comidinha mole” entre ele e a Akari. Ela ficou feliz, ele não entendeu. Botei o gatinho, as comidas e água numa caixa de papelão. Dormiu e não miou mais. Em compensação, Akari me acordou às 3:55 da madrugada e não parou mais de miar.

Dia 12 era o dia em que eu deveria entregar a casa, conforme o combinado com a proprietária por telefone. Eu tinha que achar um chaveiro que me devolvesse a minha melhor bicicleta, daí eu poderia limpar e entregar as chaves da casa. O chaveiro veio, olhou, futricou e concluiu que eu só tinha duas opções: ou quebrar, ou então quebrar. Preferi a segunda opção. Ele deu dois chutes, cobrou dez reais e disse que não gostava de resolver as coisas assim. Eu achei ótimo ter a minha bicicleta de volta.

De Laranja Mecânica, voltei na Vila. A vassoura tinha ficado lá, assim como alguns potes de plantas. Limpei a casa, colhi os últimos maracujás, botei tudo na bicicleta e levei as minhas plantas pra passear.

O cara que instala telefone veio logo depois de mim. Demorou até acharmos a tomada do telefone na casa, depois demorou pra ele identificar por que o fio tava morto. Todavia, ele era bom observador. Reparou que a única coisa que eu tinha ajeitado era a estante de livros. Quando voltou das alturas do poste, onde tinha instalado um fio novo, me perguntou qual era a minha profissão. Eu disse que era professora, mas ele já tinha se ligado, porque estava com o esquema montado: “pois a gente nunca acaba de aprender. O problema todo não era o fio, mas um cabinho solto na caixa lá em cima”.

De Amarilda, fui na imobiliária, entregar as chaves. Tomei chuva e cheguei totalmente molhada. A moça lá disse que não podia aceitar as chaves, porque o protocolo mandava que houvesse uma vistoria de saída. Argumentei que a proprietária tinha planos de demolir a casa, mas não adiantou. Marcamos a vistoria pro dia seguinte, de manhã.

O vistoriador chegou meia hora atrasado. Me encontrou azeda. Disse que tinha tido um probleminha com a moto. Eu também tinha calculado mal o tempo: cheguei dez minutos antes do horário marcado - de bicicleta. Depois da vistoria silenciosa, fomos pra imobiliária: ele de moto, eu de camelo.

Na imobiliária, pude devolver as chaves – finalmente eu me livrava da casa! Ligamos pra proprietária pra confirmar que eu não precisava fazer reforma (pintura e reparos) – já que ela pretendia demolir a casa. Pra moça da imobiliária, ela disse que ainda não tinha o projeto da casa que ia construir no lugar, que tinha decidido ocupar a casa por uns três meses enquanto preparava tudo e que sim, era pra eu pintar a casa. Pedi o telefone. Conversei com a mulher e expliquei que eu tava saindo daquela casa porque ela tinha dito que ia derrubar e que não fazia sentido eu pintar uma casa que seria demolida. Pra mim, ela disse que não era pra pintar, mas que se tivesse alguma torneira quebrada, ou coisa assim, então ela me cobraria os reparos. Expliquei que a casa estava perfeitamente habitável e que mesmo uma janela quebrada não era ameaça à segurança, afinal de contas se trata da Vila da Eletronorte (altamente vigiada). “Então tá bom, não precisa fazer mais nada” foi a decisão final. 

Antes de sair da imobiliária, a moça me incumbiu de ir na Ceron (Eletrobras), pra tirar o meu nome da casa na R. Venezuela. Eu tinha mesmo reparado que o meu nome constava em dois endereços: na Vila da Eletronorte (ativa) e na R. Venezuela (desligada). Já na porta da imobiliária, fui chamada pelo vistoriador que fez a entrada na casa da Rua Murici. Disse que no ato da vistoria, tinha esquecido a máquina fotográfica e que queria voltar pra fotografar os mofos (tem!), vazamentos de torneira e portão de correr que é uma aula de musculação.

Dali fui na Ceron, peguei senha e constatei que havia 83 pessoas na minha frente. Desencanei, atravessei a cidade, voltei pra casa e fui na Unir, dar aula. Tomei chuva e desmontei da Amarilda pingando. Cheguei no banheiro, abri o alforje e cadê a minha muda de roupa? Olhei trezentas vezes, mas não achei. Fui departamento, deixando um rastro molhado . Até pedi a chave do carro do meu chefe, mas não dava tempo de voltar em casa e trocar de roupa. Os três homens presentes ali ficaram negociando o que me emprestariam e acabei ganhando a camiseta do Laércio (um sujeito muito alto) emprestada. Fui de bermuda de ciclismo e a camiseta do Laércio pra sala de aula. Avisei que aquilo não era normal. Eles riram. Nesse dia, o velocímetro registrou 47 km rodados.

Pela terceira vez consecutiva, acordei com a Akari apavorada no meio da madrugada e os gatos dando cambalhotas no forro. Liguei na Oi e perguntei quando vinha a Internet. “Hein? A senhora tem interesse?” Plano de ação: ligar todos os dias na Oi e perguntar quando vão transferir a internet. Inferno!

Preparei a aula de hoje sentada numa das cadeiras verdes da Ceron, enquanto esperava as 20 pessoas na minha frente serem atendidas. Pior do que ter o nome em contas de energia em dois endereços, foi saber que a conta da R. Venezuela estava gerando débito desde janeiro de 2010, quando saí de lá. Tinha R$ 699,76 numa conta desligada. “Mas não cortou?” A moça atrás do balcão levantou a sobrancelha e disse: “cortou, mas tem alguém usando.” Pois é, eu sempre achei esse papo de mundos possíveis uma piração, mas uma conta desligada que gera débito é delírio. Em todo caso, eu não tinha o papel que a moça queria ver pra tirar o meu nome da Venezuela: um documento em que estivesse escrito que eu saí de lá. Eu saí de lá correndo, fugindo dos alagamentos. Não teve rescisão de contrato, entrega de chaves, nada.

Voltei na imobiliária e passei a batata quente pra elas. Fiquei sabendo que a proprietária da casa na Vila assinou um documento me eximindo de fazer qualquer coisa pela casa. Capítulo encerrado.
Cheguei na Unir debaixo de chuva pesada e demorei a chegar na sala de aula. Rios de lama nos impediam de sair do bloco de departamentos. Quando finalmente consegui me encaminhar pra sala de aula, um ex-aluno me parou pra conversar: os alunos que me esperavam tinham seminário pra apresentar e não sabiam se eu vinha ou não. Rafael explicou que eu nunca faltava. Apontaram pra chuva e perguntaram se eu vinha mesmo com aquela chuva. Ela vem.

Depois da aula, vesti as minhas roupas molhadas e frias e encarei o anoitecer com vento na cara. Cheguei em casa querendo um banho quente. Pra isso, tive que instalar o chuveiro elétrico. Liguei os fios, rezei pra não ser corrente de 220 num chuveiro de 120 e tomei banho morno.

domingo, 10 de abril de 2011

Mais uma mudança

De acordo com os meus planos ideais, era pra mudança ter sido hoje. Mas não deu de fazer a vistoria de saída na casa da Murici ontem porque o vistoriador estava doente. Não me senti mal fazendo passeio de barco enquanto o processo da mudança foi suspenso.

Passei o dia inteiro desmontando a casa. Desparafusei parafuso com a mão esquerda, tem parafuso espanado no lixo do banheiro e quase que eu entro em parafusos.

Fiquei assustada com o tanto de mofo que os móveis abrigam às escondidas. Ficou evidente que eu tenho muito mais livros que roupa e tantos calçados quanto armários/ estantes. Pra fechar a conta estranha, tenho mais bicicletas do que mesas.

De volta ao rio

Foto: Fran Fran
Ando me especializando numa espécie de sequestro consentido. Dessa vez, em vez de ficar em casa encaixotando livros, enxotando a Akari das caixas de papelão, limpando poeira e mofo dos móveis, achando que não vai caber tudo no carreto, fui com Fran e Cynthia prum passeio de barco.

A única vez que me movi sobre as águas do Rio Madeira foi numa voadeira, quando a água do rio estava bem baixa. Não "voamos baixo", não, porque navegar ali era uma arte no tempo da seca. Dessa vez fomos de barco de dois andares, com música alta, TV ligada, cerveja, gente fumando e jogando as bitucas no rio sem pensar na poluição. Dessa vez o Madeira estava cheio. Mesmo. As chuvas constantes não são normais em abril (nem em março). O barco saiu do Museu Madeira-Mamoré, seguiu pela beira (a paisagem parece a Índia: favelas em palafitas, crianças brincando na água, cachorros pisando na lama, roupa colorida estendida na cerca), passou na frente da usina Sto. Antônio e voltou. Finalmente vi boto! Até dois.
Foto: Cynthia

quarta-feira, 6 de abril de 2011

33

O tempo passa,
os cabelos ficam brancos,
a curiosidade cresce,
e o espanto com a complexidade
dá lugar a compreensões da simplicidade.

Está chegando a hora de eu me considerar adulta.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Sobre a fragilidade

Yehuda Moon
- Sai do caminho! Alguns de nós precisam ir ao trabalho.
- Eu estou a caminho do meu trabalho!

Eu tava pedalando hoje de tarde na Carlos Gomes, a mais movimentada avenida do centro de Porto Velho. Ia pela direita, ao longo dos carros estacionados. Reparei que um carro branco emparelhou comigo. Por uns três giros de pedal, seguiu na mesma velocidade que eu. Depois ligou o pisca e foi me fechando. Era um taxi. Estávamos no meio da quadra, não entendi logo o que aquele taxista queria.

Fui obrigada a frear, porque o guidão não cabia mais entre a fila dos carros estacionados e o taxi que me fechava. Arranquei, dei a volta no taxi e gritei pra dentro da janela aberta:
- O senhor por acaso quer me matar?
- Só assustar.
Foi a resposta. Como eu tava muito furiosa com a agressão do taxista contra a minha segurança, não continuei o diálogo. Que direito esse cara tem de me fechar no meio da quadra? Ele queria estacionar numa vaga. Custava pisar no freio, me deixar passar e então entrar na vaga? Ele ia estacionar! Precisava me ultrapassar antes?

Eu me estresso (e muito) com as imprudências dos outros que arriscam suas vidas no trânsito ou colocam a vida dos outros em risco. Numa bicicleta, sou mais frágil que num carro: estou exposta. No entanto, motociclistas, que igualmente não são protegidos pela lataria do carro - e portanto são tão frágeis quanto eu - vivem tirando fina de mim.

Parece haver um princípio darwiniano na cabeça oca das pessoas: tamanho é documento e motor é rei.  O taxista que quis me "assustar" me esmagando entre dois carros não tem noção da minha fragilidade. Se eu não tivesse freado, eu teria me machucado mais que a lataria do carro dele. Se o guidão de uma moto mais rápida que eu relar no guidão da minha bicicleta, eu caio.

Código de Trânsito existe no dia da prova pra tirar/ renovar a carteira de habilitação. Esses caras devem achar que bicicleta é brinquedo, que seu lugar é na calçada, que progresso é ter o carro maior e mais potente. Cada um por si na batalha que é o trânsito.

Me parece que não está claro pras pessoas que compõem o trânsito que ele é um sistema regrado. E que as regras de trânsito valem pra todos, justamente para que não haja mecanismos de "segregação natural".

O tempo virou

Os dias amanheciam nublados em março.
O pretérito imperfeito indica a repetição do evento.
Nada de vento pra espantar as nuvens,
pouco sol pra evaporá-las.
A chuva se apossou do gerúndio: está chovendo.
O sol ficou nos planos futuros.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Time out

O tempo mudou
a música desanuviou,
ficou mais rápida e sincopada
presentificando cadências de outros lugares.
E viva Blue rondo a la turk!

domingo, 3 de abril de 2011

Estórias

Passei a tarde editando e colando minhas estórias de bicicleta (e outras) no blog. Podem ser acessadas a partir do canto inferior direito da página, entre o arquivo do blog e os seguidores. Como eu gosto de todas elas, estou avisando que estão aí.

sábado, 2 de abril de 2011

Chegou!

Obrigada, Cabelo!

Tempo ambíguo

Ele pediu um tempo.
Ela olhou pras nuvens,
pensou um minuto
e sugeriu: que tal o futuro do presente?