quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Oca da Tapioca

E viva a vida em república!
Júnior está sozinho na manutenção da Hortoca, mas a Natureza está dando frutos pra todos, inclusive pra mim, que não moro mais aqui faz tempo!

Le Jardin

A caminho de Várzea Grande há um Parque de Lavandas. A entrada é de grátis e o parque é muito bem cuidado. O que mais me fascinou foram as estufas em nível de jardim botânico, em que quase tudo está à venda.
Achei, desacordadas, umas Königin der Nacht.
A Natureza é muito impressionante em sua variedade de cores e formas.
As lavandas.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Glasfabrik in Gramado


Vôo 7489 com destino a São Paulo, última chamada.
O cartão Vex de internet que me dá direito a duas horas foi usado por 15 minutos e custou 15 pila. Mas eu queria registrar o que vi de manhã.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

As hortênsias do meu tio




A língua é patrimônio de todos. Por isso todos se sentem no direito de afirmar o que é certo e o que é errado na língua, quais são as regras, infrações e penalidades. Quando alguém se identifica como linguista, alguns sentem curiosidade de saber o que essa pessoa, que tomou a língua como objeto de estudo, tem a dizer. Mas outros continuam presos aos seus paradigmas, gritando a plenos pulmões o que esperam de uma língua e seus falantes.

Nem todas as hortênsias são azuis, nem todas as hortênsias da mesma muda são iguais, nem todas as hortênsias têm flores de quatro pétalas.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Antigamente

Aqui era só o lago de um hotel. Nem se chegava perto do laguinho, porque estava no terreno do hotel. Agora três tenores cantam acompanhados de efeitos de água e luz em jatos d'água. Fogos de artifício poluem o céu, multidões se aglomeram em volta do lago e muito dinheiro faz o turismo natalino valer a pena.
Aqui era a Carriere. A placa de trânsito ainda indica a Carriere. Talvez, em outros meses (longe do Natal) o espaço continue sendo o lugar de treino de cavalos. Agora é a "Fantástica Fábrica de Natal", vê se pode.
A estrutra é imensa. O lucro também há de ser.
Aqui começava a trilha pra bica que fica ao pé do Lago Negro. Agora enfiaram essa "tenda do Tapete Vermelho" - seja lá o que isso for - no meio da trilha.
Os pedalinhos no Lago Negro existem desde que me conheço por gente. Desconfio que não tenham existido na infância da minha mãe, mas eu lembro de pedalinhos do modelo "simprão". Daí surgiram os pedalinhos em formato de cisne e agora a nova onda são os pedalinhos tipo caravela.
Quando eu era pequena, meus primos chamavam pra ir na bica. Não lembro se a gente bebia água da bica, mas lembro que uma trilha escondida levava a ela. Agora tem plaquinha indicando um santuário.
Estou ficando velha. As novas construções de condomínios, os apartamentos à venda, a exuberância e o número crescente de restaurantes, hotéis e lojas de artesanato me apertam um pouco. Ainda tem muito verde, neblina, cheiro de pedra molhada, grama cortada, forno a lenha e de carne assando no sal grosso, vegetação europeia transplantada e gente da Colônia. Mas o evento que a cidade faz do Natal me mostra que tenho saudades da simplicidade dos cheiros da infância. O Natal de Gramado tem decoração de plástico e eventos-shows que cobram ingresso.

Gramado Garten

Entrei no avião às 03:00 de uma noite escura e fria em Porto Velho, permaneci sentada quando outros passageiros ao meu redor se revezaram em Cuiabá, desembarquei e embarquei em Guarulhos, saí do avião em Porto Alegre e dei um abraço no Antonio. Às 15:45 entrei num ônibus da Citral e depois de muitas curvas e paisagem verde, cheguei em Gramado.
Quando desembarquei em Guarulhos, me senti em casa. Só achei estranho que tive que dar uma voltona pra pegar a minha conexão. E quando cheguei no "embarque doméstico", o funcionário disse que eu deveria embarcar pelo outro portão. Dei truco: mas o outro portão é "embarque internacional". Ele retrucou: é isso mesmo. Botei as cartas na mesa: ué, os gaúchos se separaram do Brasil, então? Rindo dos meus trunfos baixos, ele explicou que o avião que eu ia pegar ia a Montevideo, com escala em POA.
O Antonio é um dos 32 autores que colaborou com aquele livro que Heloisa e eu organizamos. Como a Unir não tem verba pra enviar pelo menos 3 exemplares ao autor (já que as produções da Unir são predominantemente caseiras), eu levei os 3 exemplares de autor pro Antonio. Durante o café que tomamos, nossos assuntos eram de professor novo no departamento. Fico muito feliz por ele, que fez doutorado na mesma época que eu.
Eu ia do aeroporto de Porto Alegre pra rodoviária, pegar o ônibus pra Gramado. Fui no posto de informações. Táxi custava em torno de 20 pila, trem R$ 1,70. Disse pra moça que eu ia pra Gramado, e ela sorriu: então tu não precisas de trem nem de táxi. Podes ficar aqui, porque o ônibus pra Gramado que sai da rodoviária passa aqui.
Aqui no sul, o dia é claro até 20:00. Bem diferente do regime de claridade de 6 às 18:00. Quando o termômetro marcou 22°C, me desesperei de frio e calcei minhas meias de lã e um moletom.
A primeira coisa a que me atirei com a minha câmera fotográfica foi o jardim da Oma. A segunda foi o jardim dos vizinhos. Lá achei essa sementinha. Me iludi que fosse guaraná (mas eu sei que não é). Tirei de uma árvore, não de um arbusto. 

domingo, 19 de dezembro de 2010

sábado, 18 de dezembro de 2010

Fim de semestre

O paciente chega pro médico e pede que ele altere o resultado do exame de colesterol, porque aquele número alto é muito preocupante. Se aquele número ficar lá no exame, outros médicos se sentirão no direito de pedir que o paciente faça dietas, exercícios e mais exames.

* * *

O candidato não comparece ao exame psicotécnico e insiste com o fiscal do Detran que é saudável, que não fez o exame psicotécnico porque aquele exame não faz sentido.

* * *

O paciente chega na sala de exames e pergunta se não pode fazer outro exame, qualquer um serve, porque tem muito medo de saber se tem HIV ou não. A enfermeira confere quais exames foram pedidos pelo médico e responde: aqui está pedindo só o teste de HIV.

* * *

O paciente passa um mês no hospital, vê o médico todo dia, observa como outros pacientes conversam com ele, mas é tímido demais para perguntar se pode seguir o tratamento com seus remédios caseiros. Sai do hospital, toma seus remédios caseiros e não melhora. Volta ao hospital dizendo que o médico não lhe deu atenção.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Despedida

O caminho que fizemos para o aeroporto passava pelo Parque Circuito. O parque é pequeno, mas seus arredores são verdes e doadores de sombra - o que me fez voltar do aeroporto pelo parque.
Não sei se isso é uma árvore que dá leite de seringa, mas muitas árvores com folhas e caules iguais tinham essas marcas.
Evelyn muito alto-astral.
Entrar num saguão de aeroporto com uma bicicleta é equivalente a caminhar com uma prancha de surf embaixo do braço na Av. Paulista. Sentimos a atenção de todos em nós. Quando a bicicleta foi dobrada, foi um espetáculo.
Quando cheguei em casa e vi a gata dormindo no canto do sofá, me dei conta que a casa está vazia. Muito bom hospedar uma pessoa tão alegre e conversadeira!

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Pedalando em 2

Fui buscar a Evelyn no aeroporto de bicicleta. Na ida, eu voei no asfalto. Na volta, me liguei que a bicicleta dela não tinha marcha. Viemos mais devagar e conversando.

* * * 

No dia seguinte, voltando do rio Madeira, quis fazer um caminho bem óbvio, que ela pudesse refazer sozinha (muitas redações e alunos pedindo notícias de nota me impediram de acompanhar a minha hóspede pra todos os lugares). No meio da D. Pedro II, de frente pra catedral, tinha uma festa de Natal. Desmontamos, subimos na calçada e começamos a nos emaranhar pela rala multidão. Logo fomos interceptadas por um policial que dizia que bicicleta tem que andar na rua. E que a gente não podia passar por ali porque a rua tava interditada. Evelyn explicou que, segundo o Código de Trânsito Brasileiro, um ciclista desmontado se equipara ao pedestre. Não convenceu. Ele apontou pruma rua (que eu não sei onde vai) e disse que era pra gente pedalar por lá. Eu disse que se fôssemos obesas, teríamos que pedir licença do mesmo jeito que com as bicicletas. Ele apontou pra praça e disse que deveríamos passar por ali. Fomos, achando tudo aquilo muito maluco.

* * *

Tínhamos notado que a roda de trás da dobrável novinha da Evelyn fazia barulhos quando o pedal não girava. O som parecia vir do cubo. Na manhã seguinte, fomos à bicicletaria do Bezerra, afinal de contas, Evelyn ainda vai longe com essa bicicleta. O mecânico tava atrás do balcão, não debruçado sobre uma bicicleta. Bom sinal. Logo identificou o som e explicou que as esferas continuam girando quando o (contra)pedal pára. Levantou a roda traseira de uma speed, girou o pedal e nos fez ouvir um som similar. Concluímos que não conhecer a própria bicicleta pode gerar pânico.

* * *

Na mesma noite, depois do cineclube no Cine Rio, fomos pela Abunã (onde fica a bicicletaria) pra direção do Shopping. Uma moto emparelhou com a gente. Quando vi, era o Bezerra, todo sorridente:
- Vi as luzinhas da bicicleta piscando e pensei: até já sei quem é.

* * *

Corajosamente, Evelyn foi visitar o museu de presépios (totalmente desconhecido da maioria dos portovelhenses) lá na Zona Leste, onde a Mamoré cruza com a Rio de Janeiro. Eu fiquei em casa, corrigindo redações. Na hora do almoço, mandei mensagem pro celular dela, perguntando se íamos almoçar. A resposta veio com uma localização: "estou no Mercado". Peguei minha bicicleta e fui (voando). Não achei a Evelyn nem a dobrável no Mercado Central. Tentei ligar, mas não consegui. Mandei mensagem: "qual mercado?" Antecipando a resposta, subi até o Mercado Municipal, da Sete de Setembro. Nada de Evelyn. Telefone morto. Quando eu tava voltando pra casa, tocou o telefone. Trem Madeira-Mamoré. Ela estava sentada num banco de praça, conversando com um senhor bem-humorado. Enquanto ela me explicava que o celular dela tinha morrido temporariamente, um mendigo veio apertar a minha mão. Apontou pra Dahon e se riu todo: essa bicicleta aí dobra no meio!

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Ilustre visita

Evelyn me encontrou pelo Warm Showers e pediu dicas de hotéis baratos. Ofereci minha casa. Quando faltavam dois dias pra sua chegada, estávamos combinadas: eu a buscaria de bicicleta no aeroporto, já que ela trazia uma bicicleta dobrável na bagagem.

Saí de casa à meia-noite e fiz os quase 10km em 24 minutos. A noite estava fresca e o trânsito em direção ao aeroporto movimentado. Tinha gente embarcando e desembarcando, gente parada esperando e uns evangélicos lendo (mal, diga-se de passagem) passagens bíblicas no microfone, no fundo do corredor do aeroporto. Fiquei pensando que impressão seria essa, de chegar num aeroporto que parece uma igreja. Quase tive medo de não reconhecer a Evelyn, porque só lembro de tê-la visto uma vez, num Brooklin Fest. A caixa presa na bicicleta do namorado dela me era mais presente na memória do que os traços dela. Todavia, foi fácil identificá-la: não usava um vestido de gala, não abraçava ninguém e procurava por mim.

Pedalamos em linha reta pra minha casa. No caminho, contei que a moça que dividia a casa comigo estava de mudança no dia seguinte, cedinho. Quando chegamos, a casa parecia mais vazia. Na manhã seguinte, quando quisemos tomar café da manhã, uma escada ocupava o espaço da mesa e os fios do ventilador de teto desinstalado saudavam um novo dia - quente. O caminhão foi carregado enquanto tomávamos café. Um sofá, telefone no chão, nada de tapete, minha geladeira pequena de volta, nenhuma TV enorme: a casa voltou a se parecer com o que era quando entrei.

A primeira coisa que Evelyn e eu fizemos em Porto Velho foi trocar o pneu do carro da Cynthia. Quem dava as orientações vitais (por exemplo, pra que lado desrosquear os 4 parafusos) era a Fran, por telefone.

Na esperança de ver o meu nome (e o do Renato, Pablo, Maria Luiza, Gilvan, Lígia, Mazé e Iara) escrito na parede do restaurante sob a rubrica de 'linguistas', fomos almoçar no Remanso do Tucunaré. Meu nome não tava na parede, mas o meu ex-chefe de departamento tava na mesa 13.

No fim da tarde do domingo, levei minha hóspede pras margens do Madeira. Pra minha surpresa, o parque perto da estação Madeira-Mamoré está bem atraente, cheio de sombra, bexigas, crianças, casais, roda de capoeira e enfeites de Natal. Fazia um ano que eu não ia lá. Revisitei um ponto turístico por causa da Evelyn, que fez do turismo um trabalho jornalístico.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Obrigado por tudo e tomara que eu passe

Estou corrigindo as resenhas  finais dos meus alunos. A turma de Arqueologia resenhou um conto de ficção científica do Isaac Asimov (A última pergunta), a turma de Letras resenhou um conto irlandês da Mary Lavin (O fundo da terra e o fundo do mar) e a turma de Medicina resenhou um ensaio da Susan Sontag (A doença como metáfora). Na turma de Medicina, a tendência foi mandar rascunhos da resenha por e-mail e pedir orientação (na verdade, pediam "uma luz"). Na turma de Letras, a tendência foi o diálogo ao vivo e a cores (inclusive na hora da entrega tinha gente pedindo orientação. Quando quis ir embora, tinha gente acampada na frente da minha bicicleta). Quando mandaram os frutos dessas conversas por e-mail, fiquei espantada com o salto qualitativo de algumas resenhas. Na turma de Arqueologia, houve orientação em sala de aula, mas fora dela, a tendência foi o silêncio. Minhas preocupações se confirmaram quando comecei a ler as resenhas.


"A história é constituída por 12 paginas cada uma delas sob a responsabilidade de um autor."


"O texto a ultima pergunta e escrita por Isasc Asimov retrata uma historia de robores e humanos."
"Quanto o ser humano passa a conviver com rubores que o mesmo tem comandos próprios e assim com os dinossauros, os seres humanos vão se exitiguindo."

"surgiu uma discurssão
"entram numa discutição"


"O conto de Isaac Asimov conduz o leitor a um universo além do futuro"


"A máquina era tão inteligente que alto se programava."
  
"computador muito inteligente"

"Boas férias ou até a repositiva!" 
"Seja o que AC quiser"

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Mudanças

Em 2003, meu cabelo era comprido, meu passaporte era verde (e da República Federativa do Brasil), eu tinha acabado de entrar no Mestrado na Unicamp e morava numa república de 9 estudantes.
Em 2010, meu cabelo é curto e arrepiado pelo vento na cara, meu passaporte é azul escuro (e acima de República Federativa do Brasil está escrito Mercosul), faz um ano que sou professora universitária na Unir e moro numa república com uma colega de trabalho e uma gata sem rabo.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Internautas

Queimou o modem. De novo. Dessa vez, tinha tirado o fio do telefone, conforme instrução do técnico que diagnosticou um modem anterior queimado. Mas tava na tomada. E o raio caiu aqui do lado. Queimou o segundo modem.

Enquanto eu conversava por telefone com a moça da loja sobre os horários de atendimento, ouvi a vizinha lá fora contando quais coisas ela tinha conseguido tirar da tomada antes que queimassem. O vizinho e eu saímos juntos: ele de carro, eu de bicicleta.

Comprei um modem com wireless, pra me livrar do cabo azul quilométrico que herdei da Oca da Tapioca. Liguei no provedor pra configurar o modem. Inverti as pontas dos fios, liguei e desliguei o modem, o computador, os dois,  mas o modem não funcionava. A interação com a moça do suporte técnico era preenchida de silêncios. Pra saber se o raio tinha danificado a rede, usei um modem não-meu, encontrado numa gaveta. Internet ok e navegando. A moça decidiu que o problema era o modem.

No dia seguinte fui na loja, querendo trocar o modem. O vendedor me mandou pra assistência. André me provou que o modem funcionava. Voltei pra casa e voltei a ligar no suporte técnico do provedor. O atendente custou a localizar o manual referente ao meu modem modernoso. Conseguimos autenticar o sinal (?). Para instalar o wireless, ele entrou no meu computador. Muito bizarro ver o cursor se movendo na tela, daquele jeito frenético, telas abrindo e fechando; muito estranho não ter controle algum sobre esses movimentos todos. O wireless só funcionava com o cabo ligado. Se tirasse o cabo, o wireless caía. Paradoxal. O moço pediu pra eu desligar tudo e só ligar 3 minutos depois. Desligamos o telefone.

O problema se transformou: o sinal vinha forte, depois caía, depois estabilizava. Mas não havia acesso à internet. Conectada, mas sem acesso. Voltei a ligar no suporte. Depois de meia hora com a moça, percebi que ela interagia comigo, o meu computador e seus colegas, que imaginei em pé, olhando por cima do ombro dela pra minha tela de computador. Foi decidido que a placa do meu computador é que estava com problema. Não insisti que não pode ser isso, já que pego o sinal wireless do vizinho. Desligamos. Eu tenho internet, só não tenho mobilidade.

Enquanto o moço da assistência técnica da loja fazia o meu modem funcionar, uma cliente comentou com a recepcionista que hoje em dia estávamos viciados em computador. Disse que precisávamos estar conectados. Se ela tivesse aumentado a conversa com 'navegar é preciso' (navigare necesse est eu não esperava), eu teria me manifestado. Não é que somos viciados em computador e internet. O modus operandi é que mudou pra essa mídia. Metade dos meus alunos não me apresenta mais textos em papel. Chegam por e-mail. Não é mais preciso ir ao banco, à livraria, à reunião. Essa nova mídia possibilita novas conexões com as pessoas. Quanta gente não se conheceu pelos chats da vida? Já me aconteceu de pessoas se surpreenderem com a minha identidade: então você é a meninamalouca? - porque me liam, mas nunca tinha me visto. 

Pra mim, internet é dependência - no mesmo sentido que sou dependente de um meio de transporte. Sou dependente de um veículo motorizado pra chegar em Porto Alegre, por exemplo. Ir a pé seria uma baita aventura, mas daí o meu objetivo (chegar em Porto Alegre) se diluiria nessa aventura. Outra coisa é abusar de um meio de transporte: ir de carro até a banca de jornal quando dava muito bem pra ir a pé já configura como uma dependência voluntária do carro.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Quando a chuva cai

Assim como o amor, as chuvas amazônicas são variadas: tem aquela que despenca de tarde, aquela que sussurra de noite e aquela que traumatiza. 

Ontem despencou uma chuva que levou ao chão meio jambeiro e muita manga. Eu, meus alunos e a Cynthia e seus alunos, todos vimos a árvore caindo e depois a galera juntando as mangas. Alguns amores são assim: invadem, depois se esvaem. Só é ruim quando se está trocando o telhado: a casa alaga, mas o casamento continua.

Quando a chuva sussurra de noite, normalmente estamos abrigados. A chuva cai em paralelo com as nossas atividades, não afeta diretamente. Um amor assim é um amor à distância. Cada qual tem a sua autonomia e não precisa nem mesmo haver reciprocidade.

Desde o meu terceiro alagamento de casa, sou traumatizada com chuvas torrenciais. Mudei de uma casa que alaga pruma casa que tem goteiras. O elemento traumático não é a chuva em si, mas o estrago que ela causa. E o estrago só acontece porque a estrutura que deveria resistir à chuva é frágil. Na Rua Venezuela, a fragilidade era do sistema de esgoto e escoamento de água. Aqui, na Eletronorte, as telhas é que são o problema. Nos amores traumáticos, o que sobra é a frustração, a decepção, a incompreensão. A intensidade do amor vivenciado é lembrada para justificar os estragos. Tentamos prever a chuva, construímos estruturas que sejam capazes de resisitir a chuvas fortes, temos a escolha de nos proteger dela ou mergulhar nela. O amor vem. Quando vai, não alivia.
Chuva é vida: alimenta o solo, faz crescer as plantas, limpa o ar, lava a alma. Amor também é vida: faz flutuar, oferece amparo, presentifica o futuro e transforma o momento num presente. Depois de uma boa chuva, agradecemos. Depois de um grande amor, padecemos.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Perspectivismo em Mayombe

Mayombe, publicado pela primeira vez em 1971 pelo escritor africano Pepetela, tem a seguinte epígrafe:

Aos guerrilheiros do Mayombe, 
que ousaram desafiar os deuses
abrindo caminho na floresta obscura, 
Vou contar a história de Ogun,
o Prometeu africano. (p. 11)


O romance começa sendo contado por um narrador onisciente, que se transforma em narrador em terceira pessoa, a partir da perspectiva de um dos personagens. É como se, num primeiro momento, uma câmera filmasse a floresta tropical e os guerrilheiros angolandos dentro dela. Num segundo momento, essa câmera é colocada no ombro de Sem Medo. A figura de Prometeu, que do ponto de vista africano é Ogun, se veste de Comandante guerrilheiro que responde pela alcunha de Sem Medo. No entanto, homem e mata transformam-se:

A mata criou cordas nos pés dos homens, a mata gerou montanhas intransponíveis, feras, aguaceiros, rios caudalosos, lama, escuridão, Medo. A mata abriu valas camufladas e folhas sob os pés dos homens, barulhos imensos no silêncio da noite, derrubou árvores sobre os homens. E os homens avançaram. E os homens tornaram-se verdes, e dos seus braços folhas brotaram, e flores, e a mata curvou-se em abóbada, e a mata estendeu-lhes a sombra protectora, e os frutos. Zeus ajoelhado diante de Prometeu. (p. 80)


O perspectivismo não acaba aí. Cada seção de capítulo inicia-se com a fala de um narrador em primeira pessoa. Alguns dos revolucionários envolvidos no Movimento pela libertação de Angola (MPLA) têm o seu momento de fala: Teoria, Milagre, Mundo Novo, Muatiânvua, André, o Chefe de Depósito, o Chefe de Operações, Lutamos e o Comissário Político são narradores e têm sua narração marcada em itálico. Sem Medo não é narrador, mas a narrativa é praticamente toda contada de seu ponto de vista. Ondina, Vewê, Ingratidão, Ekuikui,Verdade e outros personagens não são promovidos a narrador. Nesse momento de narração em primeira pessoa, a paisagem dos acontecimentos é fixada pelo narrador, mesmo que ela não seja coerente com a grande narrativa. André, por exemplo, vê o cenário com outros olhos que os guerrilheiros.

O perspectivismo é ilustrado através de imagens. A primeira imagem deste post é a primeira imagem do livro. Logo depois do título, antes da epígrafe, Mayombe se apresenta. Cada início de capítulo é ilustrado por um recorte da parte esquerda inferior da primeira imagem. Cada narrador em primeira pessoa é precedido por um recorte menor da primeira imagem.

No perspectivismo, existe uma estrutura, um sistema em que as coisas estão em relação. Uma coisa é aquilo que a outra coisa não é. Teoria, no seu primeiro momento de narrador, exemplifica isso:

Num Universo de sim ou não, branco ou negro, eu represento o talvez. Talvez é não para quem quer ouvir sim e significa sim para quem espera ouvir não. (p. 16)

Outro tema caro ao perspectivismo é a ausência de absolutos, como por exemplo a Verdade (com V maiúsculo). 

Felizes os que crêem no absoluto, é deles a tranquilidade de espírito! (p. 150)

Muitas vezes tenho de fazer um esforço para evitar de engolir como verdade universal qualquer constatação particular. Uma pessoa está habituada a não discutir, a não pôr em questão uma série de ensinamentos que lhe vieram da infância. É preciso uma atenção constante para não cair na facilidade, não atirar com um rótulo para a frente e assim fugir a uma análise profunda do facto. Porque o esquematismo, o rotulismo, são o resultado duma preguiça intelectual. (p. 182)

Nessa onda pós-moderna de desconstrução dos absolutos, Flusser afirma, em Da religiosidade, que a humanidade perdeu a fé na igreja e na ciência. Restava-lhe a crença na linguagem: eu acredito que você e eu compartilhamos o mesmo código. Eu acredito que você está se esforçando para me entender e você acredita que eu estou querendo me comunicar. Nem a linguagem sobra em Mayombe:

-Temos de conversar, camarada Comandante. Noutra altura, mais calmamente. Acho que o que nos separa é a linguagem. Não temos a mesma linguagem.
- Há muito que deixei de acreditar nas palavras - disse Sem Medo. (p.236)

Desde que a Literatura e a Antropologia habitam os meus pensamentos, tenho feito o exercício de entender o pós-modernismo. A leitura de Mayombe me agarrou pelos olhos, rodopiou e jogou numa mata polifônica.