sábado, 29 de janeiro de 2011

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Em Barcelona

Cheguei em Barcelona de trem. Esteves e Ambra tinham acabado de chegar de avião da Itália. De mala e cachorro, me encontraram na estação. Esteves e Ambra tinham estado no Brasil antes de irem pra Itália. Ainda no ano passado, em São Paulo, ele me ligou pra marcar encontro. Teríamos meia hora. Achei que era muita correria e acalmei-o, dizendo que eu estava indo pra Europa e que podíamos nos ver com mais tempo em Barcelona.
Acabei ficando menos que um dia, mas foi muito massa rever um figura que eu já conheço faz 15 anos e cujas loucuras e aventuras acompanhei.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Castell

Carlos foi me buscar na estação de ônibus de Tarragona. Caminhamos pela rambla nova da cidade e paramos na frente de um monumento. Carlos apontou para a torre de pessoas e me perguntou se eu sabia o que era aquilo. Respondi que eu via pessoas se equilibrando nos ombros de outras pessoas, formando uma torre. Carlos disse que esse é um esporte tradicional da Catalunya, que ele treinava essas formações de castells e que eu o acompanharia ainda naquela noite num ensaio.
Na Colla havia pessoas de todas as idades, homens e mulheres. Muitos andavam com um cinturão desajeitado por cima da roupa e uma bandana vermelha na cabeça. Aos poucos fui entendendo a funcionalidade de tudo. As pessoas vestiam o cinturão (um grande xale preto) com ajuda de outra pessoa. Enrolavam-se no pano preto pra que, depois, quem fosse subir por eles tivesse um apoio.
Fiquei fascinada com o senso de unidade que essa tradição proporciona. É preciso conhecer e respeitar o corpo do outro, é preciso proteger o outro, crianças e mulheres têm papéis tão importantes quanto os homens, e ao longo da vida uma pessoa pode mudar de função: os que agora sustentam a base do castell já foram as crianças que subiam ao topo. 

Na Colla tem teto, portanto existe uma limitação de altura dos castells. Quando se apresentam, costumam construir torres mais altas, que às vezes se desmancham de maneira imprevista.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

O centro do universo

O centro do universo é uma pessoa-quase-humana-meio-selvagem chamada Gabriela. Pelo menos essa é a convicção da Gabriela.
Carlos e Marina são os seus pais brincalhões, atenciosos e amorosos que fazem de tudo pra Gabriela não ter as suas crenças abaladas.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Deutsches Museum

O Deutsches Museum em München tem como tema central a tecnologia. Eu tava pensando que se eu entrasse numa máquina do tempo e voltasse pro tempo em que o homem descobriu o fogo, eu não seria nenhuma ajuda. Mesmo vindo da era da tecnologia, do futuro, eu não seria muito capaz de fazer muita coisa tecnológica. Eu não sei dizer o que acontece pra lâmpada acender, que dirá explicar como funciona um computador. Sou usuária de tecnologia. E os técnicos usam ferramentas tecnológicas para fazerem máquinas tecnológicas.
Mas se um homem das cavernas quisesse acompanhar a evolução da tecnologia nesses anos todos que separam essas gerações aí, o Deutsches Museum seria o melhor destino.
O conceito de museu mudou um pouco nesses últimos 10 anos. Antes, as coisas no museu estavam numa caixa de vidro e não se podia tocar em nada. Hoje o público é estimulado a interagir com as peças expostas, aprender fazendo experimentos (apertando botões e girando manivelas pra depois observar mudanças). Por isso, a barreira de vidro entre o objeto exposto e o observador não está mais lá.
Um apêndice do Deutsches Museum fica em outro lugar e se chama Verkehrsmuseum (Museu do Trânsito). Como eu me interesso por trânsito, encarei uma neve dolorida e fui lá.
As unidades que compõe o trânsito estavam expostas lá: bicicleta, carro, bonde, trem, caminhão, ônibus, avião, moto, carroça (tinha até carro de Fórmula 1). Cada unidade que faz/é trânsito era descrita em suas partes e funções, e a história dessas unidades era apresentada. O máximo que eu vi sobre o tema geral "trânsito" foram questões de combustível (carros híbridos) e o lembrete de que é preciso um planejamento urbano para se evitar problemas de trânsito. Puxa, o museu poderia ser muito mais interativo nesse setor de trânsito...
Uma seção do museu era dedicada ao tema das romarias/peregrinações (caminhadas por motivos religiosos a lugares sagrados, tipo o Caminho de Santiago e Compostela na Europa e o Caminho da Fé ou Passos de Anchieta no Brasil). Os poucos objetos expostos não ilustravam o tema, apenas decoravam a sala. A seção era praticamente montada por painéis. Se o conteúdo dos painéis estivesse num livro, seria melhor porque cansaria menos. Outra forma ruim de um museu explorar um tema interessante: verbalizando tudo.

Segundo inverno



Quando o segundo inverno chegar
Para realinhar os parafusos no osso
Derrubando com assombro exemplar
A pedestre que manca pelo frio
Esse é o primeiro inverno (com neve e temperaturas abaixo de zero) que experiencio desde que quebrei o pé (faz 3 anos!). Conforme a neve caía e se acumulava, meus parafusos de titânio no pé direito foram se manifestando. Pra melhorar, o joelho esquerdo foi reclamando junto. Não dava pra aproveitar München caminhando e sorrindo. Pelo menos não no frio. Tive que me refugiar em interiores. Ainda bem que a capital da Bavária é bem servida de museus e ainda bem que alguns abriam de segunda-feira.

domingo, 23 de janeiro de 2011

Em Reinheim

Engraçado como algumas pessoas não mudam muito. Desde os tempos de escola que a gente segue se vendo e notando que mudamos pouco.
Ok, mudou o fato de a Chris e o Daniel terem uma mesa de bilhar na sala, mas o gosto pelo jogo não mudou.
Passamos boa parte do tempo em casa, relembrando memórias compartilhadas.
Em tempo: todas as fotos deste post foram feitas pelo Daniel.

sábado, 22 de janeiro de 2011

Cachorros no trem

No trem de Frankfurt a Darmstadt entrou uma mulher com um cachorro grande. Podia ser um pastor alemäo, mas ela descreveu a raßa com outros nomes. A mulher com o cachorro escolheu um lugar em que dois assentos estäo face a face (näo um atrás do outro) e perguntou pro homem sentado ali se ele tinha medo de cachorro. Achei a atitude dela massa, porque se ela tivesse escolhido o lugar na minha frente, eu teria respondido que super sim.

A mulher näo era pálida, mas era bem sem cor ou contraste. Era velha e magrinha, miúda e as rugas no seu rosto lembravam papel de päo amassado. Ela logo puxou conversa com quem tava olhando pra ela. Deu a idade do cachorro, o histórico, pedigree e tudo mais. Disse que o cachorro dela tinha medo de bêbados. Só que ela mesma parecia um desses pedintes bêbados que säo vistos em esquinas com cachorros grandes.

Outra mulher, conduzindo um cachorro pequeno e branco, entrou no trem. Os dois cäes se estranharam, latiram e me meteram um baita susto. A dona do cachorro pequeno logo pegou o bicho no colo e ficou xingando a mulher do cachorro grande. Passou, foi pra outro vagäo. A mulher do cachorro grande contou pra quem quisesse ouvir que aquela mulher a perseguia. Que era viciada em heroína, que ficava na Kaiserstraße, onde ela tinha que passar sempre pra ir no médico, que toda vez o cachorräo dela ficava com medo, e na próxima vez ela ia denunciar a viciada.

Quando ninguém mais prestou atenßäo nela, ela repetiu tudo pra si mesma. O cachorro adormeceu. Quando parou de falar, ela foi desligando aos poucos. Os olhos foram ficando pesados, as mäos se esqueceram do resto do corpo. Täo devagar como ela desligou, voltou a acender de novo. Nada de movimentos bruscos. Abriu a mochila e parou no meio do movimento. Devagar, o corpo foi pendendo pra frente, o nariz foi se enfiando na mochila aberta. Acordou lentamente com um anúncio do maquinista. Voltou aos poucos à posißäo ereta e disse pra quem quisesse ouvir que estávamos a meio caminho de Darmstadt, que agora só faltavam mais nove minutos. Lentamente, tirou papel e caneta da mochila e voltou a desligar. De braßos abertos, numa mäo a caneta e na outra o papel, foi se dobrando em direßäo aos joelhos. Acordou em Darmstadt. Se a outra era viciada em heroína, essa parecia ser dependete de Duracell.

Multi-kulti

No vagäo (estou com um teclado germânico, éh!) do trem de Hannover a Frankfurt havia seis lugares. Três deles estavam ocupados por malas, casacos e bolsas; os outros três restantes estavam ocupados por nós. Num primeiro momento, julguei que todos nós éramos estrangeiros.

Pela fisionomia, o rapaz de pele morena podia ser indiano. Em todo caso, ele usou uma língua que eu näo entendo no celular. Com a controladora de passagens, ele falou alemäo com sotaque forte.

A moßa (näo tem cedilha aqui) ao meu lado lia um livro em inglês e conversava em espanhol no celular.

Eu näo troquei nenhuma palavra com a controladora de bilhetes, mas conversei meio misturado com o meu irmäo pelo celular.

Apareceu um policial querendo ver nossos documentos. Todos os três apresentaram seus respectivos Personalausweise (RG daqui). Os três que pareciam estrangeiros pela língua, têm a cidadania alemä.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Stomp em Bremen

Eu cheguei no meu irmão e disse que eu tava afim de ver música sendo feita. Ele logo lembrou que Stomp tava de turnê em Bremen. Compramos ingressos e fomos, felizes da vida, ao Bremen Musicaltheater. Philip e Julia (eu também) já tinham visto Stomp pela TV, muito tempo atrás. De fato, lendo os jornais de hoje, descobri que o conjunto já existe desde 1994. Eu morei numa república em que Stomp fez grande efeito: a banda Caras da Oca tocava nas nossas panelas, minha chaleira, meu medidor Fuca (nunca vou esquecer o episódio: voltei depois de um ano na Holanda e quis fazer pão. Cadê o medidor pra medir a farinha? Ninguém sabia. Sales, devolve o medidor. Não quero saber se ele agora faz parte de um número de palhaço, eu quero fazer pão com o meu medidor! Pela internet, Sales conseguiu comprar outro igual. Igual é modo de dizer, porque o meu, que foi usado de agogô, ficou todo amassado.), garrafas com água, sacos plásticos etc.
E mesmo assim, não estávamos preparados pro que vimos ontem de noite. Nenhuma das fotos deste post foi feita por mim (porque não se pode fotografar a apresentação), e os caras que se vê nas imagens provavelmente não são os caras que vimos no palco. 
Stomp é basicamente percussão com materiais ordinários: latões, vassouras, pia, caneca, panela, areia, latas, cadeiras, canos, jornal, isqueiro, palmas, pés, o corpo. E são performáticos. Não são coloridos, nem pretendem fazer música como os Barbatuques (o lance do Stomp era mais ritmo, menos melodia), mas a percussão coreografada enche os olhos. Reconheci movimentos de frevo e capoeira, prendi a respiração quando as coisas voavam pelos ares e bati palma até a mão doer. E pra fechar a comparação com os Barbatuques, a percussão corporal que o Stomp fazia excluía praticamente a boca. Quem viu os Barbatuques sabe que dá pra tirar muito som -além da voz- da cavidade bucal.
A surpresa altamente agradável do show foi o elemento humorístico. Havia dois palhaços (de tipos diferentes) no palco. Um era o largadão do cabelo doido, aparentemente desajustado, que zoava os colegas e o público. O outro era engraçado quando fazia movimentos menos rebuscados que os colegas. Como havia esses dois clowns no palco, muitos dos números viraram sketches de percussão coreografada (o número do jornal era praticamente uma estória). Outro motivo grande de risada foi a interação do público com o cara que orquestrava as nossas palmas e batidas de pé.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

BioWaschBall

Eu já tinha lido (só não lembro onde) sobre uma bola que vai na máquina de lavar roupa e assim economiza trabalho (com sua superfície, a bola ajuda a esfregar a roupa), energia (em alguns países, as máquinas lavam roupa com água quente) e dinheiro (usa-se menos sabão em pó). Pra lavar roupa de criança pequena e de gente que curte se sujar, parecia uma maravilha.

Essa bola, no entanto, não foi o que encontrei no Klimahaus. Descobri que existem várias bolas eco-friendly. A bola que eu comprei por 40 euros dispensa sabão em pó, porque tem, no seu interior, microorganismos que alteram o ph da água (que é o que o sabão em pó também faz) para que a gordura se desprenda do tecido e as bactérias morram. A roupa sai da máquina com cheiro de nada. No entanto, recomenda-se que roupas brancas sejam lavadas com sabão em pó a cada 3 lavagens.

A bola rende mil lavagens, ou seja, 3 anos lavando roupa todo dia. Ainda não testei a minha, mas quem se interessar, pode dar uma olhada aqui.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Klimahaus em Bremerhaven

Bremen e Bremerhaven são tecnicamente a mesma cidade, mas no mapa se apresentam como entidades distintas e distantes. Meus pais foram pro museu da imigração (Auswandererhaus) e me deixaram no museu do Klima (Klimahaus) - porque eles já tinham visto o que pra mim era novidade.
O museu que eu visitei se propõe a mostrar diversos sistemas climáticos ao longo do grau de longitude 8, por isso o "8° Ost" no nome. Em linha reta de norte a sul (e depois subindo de volta), o visitante passa pelos Alpes, Nigéria, Camarões, Antártida, Samoa e Alaska. Na Nigéria fazia calor, na Antártida fazia frio.
Outra coisa que o museu faz é apresentar os quatro elementos (terra, ar, água e fogo), pra depois discutir perspectivas para o nosso futuro global warming. Me impressionou muito a afirmação de que o homem começou a influenciar o clima a partir do momento em que controlou o fogo. 
Um meteorologista fez uma apresentação dos elementos climáticos e culpou a falta de informações por boa parte das falhas da previsão do tempo. Fiquei pensando que, mesmo se houvesse estações meteorológicas espalhadas nos oceanos (que é de onde vêm as nuvens, correntes e ventos), ainda assim o tempo não seria 100% previsível.
Não consegui ver tudo nas quatro horas que fiquei lá dentro, mas curti o museu, a atenção dos monitores e a viagem.

domingo, 16 de janeiro de 2011

Der Baum

Zona rural


No norte da Alemanha, o céu é grande porque não há montanhas, montes ou qualquer outro tipo de elevação geológica que possa impedir a vista. Uma terra plana assim significa uma terra com muito vento.

O feno cortado no outono serve de ração para os animais no inverno.
E como é inverno, quase todas as árvores perderam suas folhas. Dei a "grande volta", o que deve somar uns 4 quilômetros e meio. Três speedeiros cruzaram o meu caminho. Cara vermelha, nariz escorrendo. Vento frio é uma desgraça.

sábado, 15 de janeiro de 2011

A dinâmica do frio

A neve já derreteu, as temperaturas já subiram, mas ainda é preciso usar botas, luvas, cachecol, gorro, casaco, meias de lã de fundo duplo e roupas térmicas. Quando faz 8°C lá fora, os meus pais dizem que está "warm" e que isso é incomum pra essa época do ano. Eles contavam com temperaturas em volta do ponto de congelamento ou mesmo neve.

Hoje foi o primeiro dia que não amanheceu chuvoso. Céu azul e um sol que luta bravamente contra o vento gelado me animaram. Demorei bem uns dez minutos pra vestir todas as coisas que me protegeriam do vento e frio e peguei o ônibus a Bremen, pra me encontrar com Philip e Julia. No ônibus, que tem calefação, tive que tirar o casaco, as luvas e o cachecol. Ginástica de novo antes de sair do ônibus.

Tínhamos um horário combinado, mas eu cheguei antes, então fui dar uma de turista na cidade. Fotografei o Roland e procurei os Saltimbancos (Bremer Stadtmusikanten). Custei a achá-los, e quando percebi que eu andava na direção errada, decidi seguir os turistas. Encontrei-os ao lado da prefeitura (Rathaus).

Quando achei que a minha cabeça doía de frio, fui me refugiar na catedral (Dom). Como lá o pé-direito é mega alto, as paredes são de pedra e não tem aquecimento central, eu só estava protegida do vento. Nem deu vontade de tirar nenhuma peça de roupa.
Philip, Julia e eu almoçamos num restaurante lotado. Tirei as luvas, o xale, o casaco e o moletom. Ginástica depois pra vestir tudo de novo antes de sair de barriga cheia. Quando fomos na loja de equipamentos esportivos, logo tiramos os casacos, luvas e xales. Para experimentar um tênis, tirei uma bota. Pra decidir se compraria o tênis, tirei a outra bota. Para experimentar uma sandália-papete, tirei uma meia. Para confirmar que eu não compraria o calçado, tirei também a outra meia. Paguei a conta e vesti todas as minhas roupas. Julia também se aprontou para sair da loja. Philip ainda precisava de um tempo. Nesse tempo, Julia e eu começamos a reclamar de calor.
Da loja, seguimos em direção à estação. Na frente dela está exposto um pedaço do antigo muro. Frio na espinha. Sim, é o muro que separava oeste de leste, capitalismo de comunismo, consumismo de socialismo.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Na caçapa

Ainda em Barão, fui jogar sinuca com o Junior e o Ruy. O Ruy é filho de um fera na sinuca, calcula os ângulos, tem um taco próprio e se surpreende quando erra uma tacada. O Junior se concentra, pensa, anda em volta da mesa, anuncia qual bola vai meter em qual caçapa e joga. Quase todas as bolas que eu encaçapei não estavam na minha mira e foram uma completa surpresa pra todos. O mais surpreendente é que eu ganhei a primeira rodada. As outras todas eu perdi, claro, mas me diverti pacas.
São Paulo, dia 11, de manhã. Desço as escadas seguindo o cheiro do café e cumprimento a Olga sentada no computador. Ela já avisa que a chuva da noite (nem dormi tranquila, sonhando com goteiras) fez o Tietê transbordar. Como chegar em Guarulhos se não pela Marginal? Vendo o noticiário do meio-dia, constatamos que a água já tinha baixado porque não chovia de dia. Em vez de pegar o ônibus de CGH a GRU das 16:00, preferi pegar o das 15:00, com medo da chuva que as nuvens carregadas anunciavam. Entrei no ônibus tensa, sem saber se o ônibus chegaria em GRU, se o avião levantaria vôo, se a minha bagagem me acompanharia pelos 3 aviões que eu pegaria no período de 24 horas.
O passageiro sentado do meu lado tirou uma antena do celular e começou a ouvir notícias sobre a chuva, os alagamentos e a calamidade. Fiquei irritada, mas os outros viraram as orelhas em direção àquele rádio. Daí o sujeito se entediou e começou a mudar de estação. Quando o dedo dele parou numa estação de música, meus sucos gástricos já estavam borbulhando. Abri a minha mochila e ofereci os meus fones (daqueles grandes, de estúdio, que cobrem a orelha) pro ogro. Ele agradeceu, recusou e desligou o rádio num só gesto.
Na aglomeração pra embarque em São Paulo (pro Rio) tinha muita gente. Um japonesinho fortinho se destacava, porque ele falava alto no celular:
- Eu? Não, agora eu tô sozinho, não tô namorando ninguém, não. Tô APAIXONADO pela vida.
As pessoas em volta deram risada, e quando a fila se organizou, um negro grandão chamou atenção do japonesinho: 
- Meu AMOR, a fila é por aqui.

No aeroporto do Galeão (Rio de Janeiro), eu tinha umas quatro horas de espera. Achei um lugar quieto e comecei a ler o meu presente de Natal da Denise. Um carioca sentou do meu lado, falando no celular. Uma mulher alternativa, de seus 50 e tantos anos, se desajeitou pra sentar entre mim e o vascaíno. Derrubou umas coisas que ele se dispôs a pegar. Em retribuição, ela lhe ofereceu biscoitos. Aproveitando o contato estabelecido, ela perguntou onde tinha telefone. Ele logo ofereceu o seu celular. Ela queria ligar pro seu filho, pra dizer que já tinha chegado. O filho estava em Porto Alegre. O carioca discou o número ditado pela mulher, mas ninguém atendeu. O vascaíno atendeu uma chamada. Não prestei atenção, mas ele falava de encomenda, contato, mermão, umas parada aí, o cara não atende telefone, tem que ir lá na feira e negociar com o cara. A mulher levantou e foi embora.
Pro vôo internacional - apesar de ser noturno - pedi um lugar na janela. Só tinha um lugar na janela: 40 Alfa, na última fileira, de frente pro banheiro. Os comissários se concentravam atrás de mim, na cozinha. Eles já tinham tido desavenças com um alemão que falou uma coisa numa língua que a comissária não identificou e que fez todo mundo em volta dele rir, deixando a moça com cara de tacho; com uma famíla de judeus que reclamava que a comida não era kasher; com um hippie que ignorava as regras de conduta dentro de um avião. Quando o avião pousou em Frankfurt, os comissários bateram palmas. Só eles se empolgaram com o pouso e o fim da viagem e fizeram festa. Um deles, quando percebeu que ninguém mais batia palmas, desprezou: esse pessoal é desanimado.

domingo, 9 de janeiro de 2011

Ogros

Imagem tirada daqui

Os ogros não são necessariamente feios e malvados. Os ogros e as ogras são apenas socialmente desajustados. Ogros facilmente identificáveis estão entre os adolescentes (do tipo de adolescência que vai até os 22). É possível que só os mais velhos sejam capazes de identificá-los, porque se sentem incomodados pelos ogros auto-centrados.

Ogros não percebem quando e que incomodam os outros. Pensam que estão sozinhos no mundo. Falam alto demais, ouvem música que só eles suportam em locais públicos, pisam com o pé chato e a coluna curvada, mastigam e engolem ruidosamente, respiram com dificuldade, operam maçanetas de portas como se fossem instrumentos musicais, são incapazes de respeitar o silêncio ou sono dos outros. Escolhem com quem querem interagir e não veem problema algum em ignorar completamente um colega de quarto. Encolhem-se numa espécie de autismo seletivo.

Não aprenderam a dividir porque nunca tiveram irmãos. Não aprenderam a preservar, porque os pais adotaram o hábito de comprar outro objeto que substituísse o brinquedo de plástico quebrado, a roupa de marca manchada, o eletro-eletrônico obsoleto. Não aprenderam a colecionar e trocar porque o tempo desvaloriza seus brinquedinhos.

São urbanos e mal instruídos para a vida autônoma. Não sabem cozinhar, separar roupa pra lavar e morreriam se tivessem que manusear uma vassoura em prol do coletivo.

Não jogam bola, preferem videogame. Não passeiam no parque, mas no shopping. Não sentam lá fora, mas no ar condicionado. Preferem seriados a livros. Não conseguem se concentrar porque foram educados pela televisão. Não sabem o que querem da vida porque o leque de opções é amplo. Não procuram descobrir a si mesmos, porque se ocupam em saciar vontades momentâneas que aparecem em forma de cursos, religiões e bens de consumo. Não são calmos nem seguros de si, muito menos interessados no outro.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Tempo e espaço

Através de uma reportagem na tv, fiquei sabendo que existe um museu na Unicamp. O Museu Exploratório da Ciência. Junior e eu logo combinamos de ir conferir, mas acabei indo sozinha.
O museu fica onde era o Observatório. Nós, os tapioquenses, gostávamos muito de ir ao Observatório. Íamos em bando. Seja pra observar eclipses, constelações ou a paisagem noturna. Depois de um tempo, a permanência no ponto mais alto e ermo da Unicamp foi proibida de noite - para a sua segurança. Eu continuava subindo lá ocasionalmente, mas de bicicleta, pra pegar toda a velocidade que a lomba podia me oferecer. Agora colocaram lombadas no meio. Mudou o tempo, mudou o espaço.
O tema do museu é "o tempo e o espaço". O visitante ao museu não é autônomo: se algumas instalações não estiverem abertas ou ligadas, a exploração não tem graça. Mas eu não fui pra me divertir em explorações científicas. Fui pra visitar as mudanças que o Observatório passou no tempo e no espaço.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

A descrição encaixa

Dizem que Marco Polo era um grande mentiroso e que nunca chegou na China. Mas se você procurar pela definição de 'unicórnio' em alguns dicionários escolares, vai topar com ecos dos seus relatos. No século XIII, quando o veneziano partiu para a sua longa viagem, ainda se falava em unicórnios. Não que tenham sido vistos, mas faziam parte do inventário. Conta a lenda que quando Marco Polo chegou na China, avistou um animal fabuloso. Plácido, forte, majestoso, um cavalo do rio (do grego: hipopótamo) com um chifre no meio da testa. A descrição se encaixava perfeitamente para um unicórnio. Mas o mercador estava diante de um rinoceronte.

* * *

Maíra tava me contando que dia desses (durante as férias) foi na biblioteca do IEL pra trabalhar em paz, quando topou com um ex-namorado meu. Identificou-o logo, sem sombra de dúvida, apesar de nunca tê-lo visto. Em primeiro lugar, porque ele era um dos poucos habitantes da biblioteca. Em segundo lugar, porque uma pessoa tão tímida só pode ter sido aquele poeta. Baseou-se no episódio em que eu lhe contei como conheci o rapaz. Contei que ele me disse que vivia na biblioteca, e um dia resolveu que precisava sair da companhia dos livros e interagir com as pessoas e que eu tinha sido a primeira pessoa que ele viu. A descrição encaixava perfeitamente, mas não era ele. Eu fui lá, identifiquei o rapaz que a Maíra descreveu e não vi o poeta.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Carro e chuva

Os sites de previsão e constatação do clima anunciaram entre 42 e 46 mm de chuva hoje. De fato, choveu praticamente o dia todo. Chuva alternava com garoa e períodos em que a água apenas ficava suspensa no ar. 

A dona do único carro que ocupava a garagem veio para pegá-lo de volta. Ela tinha emprestado o carro pra irmos pra Cotia e o deixou um dia a mais que o planejado na nossa casa. Esse dia a mais que o carro ficou na nossa garagem, ela estava a poucas casas daqui, esperando a chuva passar. Hoje ela conseguiu um carro e um motorista que a transportasse alguns metros até o portão da nossa casa, ligou do celular e esperou eu abrir o portão debaixo de chuva enquanto ela esperava sentada no carro.

Na hora do almoço, Junior quis pedir comida do tipo que vem no pratinho de alumínio. Já que a garagem não continha nenhum carro, a ideia era fazer a comida vir até a porta de casa. Insisti que fôssemos até o restaurante vegetariano. Assim, caminhando e segurando guarda-chuva. Numa república, sempre tem pelo menos um guarda-chuva sem dono. Eu peguei um que abre mas não fecha, o Junior pegou um que parece ter sido do Ferrone.

Enquanto caminhávamos, Junior lembrou que o Ruy tinha ficado de passar em casa. Ligou pra avisar que almoçaríamos fora. Quem atendeu foi a Maíra, que quis falar comigo. Me disse que quando tivesse carro, me pegaria pra gente sair. 

Depois da siesta, liguei pro Ruy, pra perguntar se ele topava vir pra jantar. Reclamou que não parava de chover. Veio de ônibus. Quando chegou, já estavam aqui a Natália e o Cesar, que levou todo mundo de carro pra jantar. E como não parava de chover, Cesar levou o Ruy e a Natália para as suas respectivas casas.

domingo, 2 de janeiro de 2011

Virada tranquila

Meu plano era viajar com Junior, Sales e Ruy depois do reveillon. Para a virada, eu não tinha planos. Junior e Sales foram confrontados com compromissos que impediam a viagem, daí o Plano B foi dar as boas-vindas ao novo ano com eles. Fomos todos ao Jardim do Dharma.
No meio da mata, rodeado de quaresmeiras em flor, perto de Cotia e Embu, fica o espaço em que fizemos o retiro. E é retiro mesmo: nada de barulho de cidade (música, automóveis, criança, cachorro), nada de poluição, nada de calor, natureza abundante e muita gente sorridente.
Entramos (de gaiato) num retiro que tinha começado na semana anterior e continuaria na semana seguinte. Roque Henrique Severino dava ensinamentos de budismo e tai chi, havia muitas cerimônias e algumas práticas de tai chi. O Jardim do Dharma não é um templo onde moram monges (mas um espaço de retiro), então a comida, os horários e as atividades não são rígidos. Ainda assim, é um local onde reside o sagrado. Tirei e botei sapatos mais vezes do que acendi velas.
Alguns de nós eram organizadores e mestres, outros eram budistas, outros ainda eram praticantes de tai chi e alguns eram turistas em busca de um reveillon tranquilo e/ou com os amigos.
O barulho dos fogos nos indicou o momento em que os ponteiros do relógio se encontraram no 12. Nós estávamos dando voltas em volta das 9 estupas (segunda foto), segurando uma vela e um incenso e entoando um mantra.
Saí de lá feliz por ter conhecido pessoas interessantes, ter compartilhado essa experiência com Ruy, Sales e Junior e ter caminhado pelas estradas de terra rodeadas de mata.