terça-feira, 22 de julho de 2014

O jornal cheio de vazio

Sonhei que os donos e editores de jornal tinham consciência da importância do seu trabalho e valorizavam a inteligência de seus leitores. No meu sonho, os jornais tinham sido censurados pelos anunciantes que compravam espaço no jornal para vender sua propaganda. Como resposta à censura, a edição daquele dia que eu sonhei veio diferente: o jornal aberto media 2m de altura e quase um metro de largura. A maior parte desse espaço era preenchida de vazio, e as matérias, escritas em letra e tamanho normal, ocupavam pequenas manchas quadradas espalhadas de maneira pouco estética pela página.

Lembro de ter me admirado, durante o sonho, da engenhosidade: em vez de diminuir o tamanho do jornal (o que seria uma consequência necessária se não publicassem todos os anúncios, que devem girar em torno de metade de todo o volume informacional publicado no jornal), espicharam a folha e evidenciaram o vazio. Dessa forma, os anúncios não foram apenas retirados, mas substituídos por espaços vazios dez vezes maiores que os anúncios.

Acordei empolgada, achando que todo mundo tinha entendido a mensagem.

terça-feira, 8 de julho de 2014

Acabou o carnaval

Vi os gols da Alemanha contra o Brasil, mas não lembro de ter visto a comemoração dos jogadores alemães - ou da torcida alemã. A câmera da Fifa enfocava o choro, o desespero e o susto dos torcedores brasileiros. Assisti o jogo transmitido pela Globo e não registrei as vaias da torcida brasileira, nem os olés que outras emissoras mostraram.

Enquanto Casa Grande e Ronaldo Fenômeno comentavam que o Brasil não tinha feito grande campanha, não tinha mostrado serviço nessa Copa, Galvão Bueno dizia que "assim é o esporte". Júlio César, o goleiro que tomou 7 gols, deu depoimento de que era "complicado explicar o inexplicável".

E quando, no Jornal Nacional, que dedicou 80% de seu tempo à Copa, os comentaristas (que falaram por último) foram explicar o que aconteceu na semifinal de hoje, quase todos atribuíram a responsabilidade pelos "erros" ao treinador que escalou mal o time. Detalhe: em bloco anterior (e notavelmente longo) Felipão assumira a total responsabilidade pela derrota. Mas considero importante destacar que desses 80% de tempo de Jornal Nacional dedicados à Copa, apenas 10% foram avaliações de pessoas que recebem salário para fazer avaliações. A maior parte das avaliações foi feita pelos torcedores.

A capa da Folha online traz, nas imagens cambiantes, um quadro com imagens de 8 pessoas: 1 homem e 7 mulheres da torcida com o rosto contorcido de dor. Tanto Patrícia Poeta como Galvão Bueno rasgaram elogios para a torcida (que cantou "sou brasileiro com muito orgulho, com muito amor" incansavelmente e aplaudiu os jogadores da Alemanha no final do segundo tempo). Mas a atuação da Tropa de Choque no Mineirão foi silenciada na Globo.

A máscara (do hexa, do Brasil campeão, do orgulho da camisa) caiu. Todas as propagandas em que os jogadores brasileiros (que recebem salários astronômicos para - segundo David Luiz: "alegrar o povo brasileiro") aparecem como herois parecem agora a mais pura enganação. Todas as cidades-palco decoradas de verde-amarelo, todos os figurantes que torceram pelo time, pelo país e pelo sonho, acreditando na importância do seu papel, foram pegos no contrapé porque os atores em campo não desempenharam seu papel conforme o script. Porque os jogadores deixaram claro que até então estiveram atuando, não jogando futebol campeão de Copa.

domingo, 6 de julho de 2014

O livro e a mensageira

Da Bolívia, Luis e eu fomos para Campinas. Como eu ficaria mais tempo na cidade (para participar do GEL), me hospedei na casa de Telmo e Milena; Luis seguiu para Cachoeiro de Itapemirim (ES). O Telmo eu conhecia desde os primeiros anos em que morei em Barão Geraldo: foi co-fundador do Campinas Cicloviável e sempre se interessou por mobilidade e acessibilidade urbana, cicloativismo e bicicletas. A Milena eu sabia descrever em poucas palavras: companheira do Telmo, dança no grupo Excaravelhas, muito simpática.

Todas as manhãs, era a Milena que estava de pé, fazendo café, indo pra aula, sentando pra conversar. Foi numa dessas conversas na cozinha que ela me contou a história do pai.

Seu pai, Luiz Antônio de Figueiredo, era escritor. Foi aluno e colega de grandes nomes na Crítica Literária e seus livros contam com prefácios e posfácios de autoridades no campo das Letras. Morreu faz um mês aproximadamente e Milena estava ainda engajada no trabalho de separar seus livros e discos, além de avisar as pessoas que o pai tinha falecido. Quando ainda estava na casa do pai, chegou uma carta endereçada a Luiz Antônio. Era de Antônio Cândido. Milena abriu a carta e leu que Antônio Cândido se desculpava por demorar a dar um retorno sobre a última obra de Luiz Antônio, porque afinal estava com 100 anos de idade e a leitura se tornava uma tarefa difícil. Milena sabia que o pai tinha morrido esperando por essa carta de Antônio Cândido.

Descobriu o telefone do remetente da carta, juntou coragem e ligou. Foi ele mesmo quem atendeu. Ela estava nervosa, ansiosa por falar com Antônio Cândido sobre a morte do pai. Conforme a conversa ia sendo fiada, ela foi se sentindo mais à vontade, até perceber que o telefone, que antes a separava de seu interlocutor, agora os unia. Desligou o telefone confortada e encantada com a candura e cortesia de Antônio Cândido.

Terminou a história dizendo: "agora só preciso encontrar mais um professor que escreveu um posfácio no último livro do meu pai e ainda não tem um exemplar do livro. Por acaso você conhece o Ataliba?" Dei risada, porque eu tinha almoçado na mesa ao lado da dele no dia da abertura do GEL. Conferimos a programação e Milena se programou para ir ao Gel depois de uma mesa-redonda em que Ataliba Castilho mediava a fala de uma professora portuguesa que tinha acabado de lançar os dois primeiros volumes de uma Gramática do Português.

Naquela noite Milena estava cansada. Avisou por mensagem que não viria. Na plateia, localizei Rodolfo Ilari, que em seguida lançaria uma reedição de seu primeiro volume da Gramática do Português Falado - Classes de Palavras (em que há, no segundo volume, um capítulo sobre a preposição escrito por Ataliba, Ilari, Maria Lúcia, Renato e eu). Tanto Ilari como Ataliba me olhavam como se soubessem que sabiam que tinham esquecido quem eu era. Depois de tê-los cumprimentado, lembraram. Contei pro Ataliba da Milena, do pai e do livro posfaciado. Ficou muito triste com a notícia e perguntou como ele poderia entrar em contato com a Milena. Respondi que ela lhe escreveria um e-mail.

Torço para que Milena e Ataliba se encontrem face a face. Assim o mundo das Letras/palavras se concretiza na língua-viva, como diria Bakhtin.