segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Piscinas naturais

Na penúltima manhã em Lucena, acordamos cedinho para participar de um passeio de barco. A referência era seu Arlindo - que todos conheciam, mas a gente nunca acertava a caiçara (cabana em que os pescadores guardam suas coisas de pescaria) dele. Um senhor nos levou (ele de bicicleta e nós de carro) até a casa do seu Arlindo - que nos deu direções precisas até o ponto de onde sairiam os barcos.
Depois de meia hora de barco com respingos de onda na cara, chegamos nos arrecifes. Cada barco (foram dois, contendo 5 turistas cada) tinha um óculos snorkel à disposição. Luis tinha comprado óculos de natação no camelô e eu monopolizei o snorkel. Juntos, nadamos encantados pelos corais cheios de peixinhos coloridos, grandes e pequenos. Se deixar levar pela correnteza daquela água salgada que nos fazia flutuar numa boa, vendo as maravilhas escondidas embaixo da água foi uma experiência fabulosa.

Os outros turistas ficaram entretidos com o tubarão-lixa preso no curral (no fundo da foto de baixo).
Eu tinha esquecido o cartão da máquina fotográfica dentro do computador, então a minha máquina ficou ociosa e foi estocada num canto do barco. Seu Arlindo tirou essas duas fotos da gente com a máquina de outro turista e ficou de anotar e-mails pra que recebêssemos as fotos. Quando chegamos em casa, notei que a máquina fotográfica não estava na nossa bolsa. Corri de volta na caiçara do seu Arlindo que lembrou que tinha jogado uma sacola escura na lata do lixo. E lá estava a minha máquina. De noite, quando fomos na lan house para nos conectar com o resto do mundo, o moço a dois computadores do nosso nos reconheceu das piscinas naturais e nos passou as fotos que estão aqui.

E assim, com essas sortes e pequenas maravilhas, decorreu a nossa (primeira) lua de mel.

domingo, 29 de dezembro de 2013

A outra ponta

 A outra ponta de Lucena termina num rio.
 Tentamos seguir pelo rio, mangue adentro, mas não chegamos muito longe.
 No entanto, a caminhada foi longa e boa.

sábado, 28 de dezembro de 2013

Pontinha

André nos emprestou a rede de 15 metros dele e lá fomos nós, pescar na Pontinha. Quando chegamos no banco de areia que divide as marés, havia muitos banhistas e pescadores na paisagem, pra nossa surpresa.
Estendemos a rede três vezes, cada vez com mais prática. A parte mais difícil pra mim foi atravessar a zona do sargaço, pedras e estrelas do mar. Pisar em solo insólito me transformou numa espécie de sirene e devo ter assustado os peixes grandes. Pescamos 3 sardinhas, um bagre e vários peixinhos pequenos. Devolvemos ao mar dois baiacús e inúmeros peixinhos de tamanhos, cores e formatos variados. E as crianças ajudavam a desembaraçar a rede, mas tinham medo/nojo de pegar nos peixes.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Arrastão

Todas as manhãs o sol levanta antes das 5 (não tem horário de verão acima da Bahia). A maré  fica mais baixa às 8 e até às 9 tem arrasto na praia. O arrasto é uma atividade comunitária liderada pelos pescadores. 
A rede deles é enorme e é puxada para a praia através de duas cordas. O de verde e boné amarelo é quem coordena as ações de todos.
Conforme a rede vai aparecendo, mais gente vai botando a mão na massa e ajudando a tirar a rede do mar e depois os peixes do sargaço.
 As sobras cada um pode catar e levar pra casa numa boa, sem pagar.
 Mas os camarões grandes, as sardinhas e outros peixes vão pra cesta e são vendidos.
Nosso primeiro almoço em Lucena saiu dali.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

A caminho de Lucena

Paulo nos levou de carro até Vitória no meio da madrugada. Embarcamos rumo a João Pessoa com escala no Rio de Janeiro e chegamos de manhã cedinho na Paraíba. Nossa mala estava no topo do carrinho de malas que iam pra esteira, eu vi. No saguão, uma voz insistia em recomendar que conferíssemos os nomes nas etiquetas das malas para evitar trocas. E não vimos mais a nossa mala na esteira e acabou sobrando uma mala grande, vinho com dois bolsos na frente, parecida com a nossa. Conversamos com a atendente da companhia, que contactou a pessoa indicada na etiqueta da mala que era parecida com a nossa. A mulher já estava na rodoviária e voltaria para desfazer a troca. A espera foi longa e o medo de sobrarmos com uma mala cheia de roupa de criança foi grande. Mas deu tudo certo.
Do aeroporto pegamos um táxi que nos deixou na Hertz (onde tínhamos reservado um carro) da Epitácio Pessoa. Estranhamos que não havia nenhum carro ali, mas seguimos até a porta de vidro fumê da cabine. Um segurança nos disse que aquele lugar tinha sido vendido um mês atrás e que agora a locadora de carros ficava na beira da praia. Ligou lá, informou nossos nomes e nos disse que viriam nos buscar. Outra espera longa. Mas ele veio, encheu o tanque e nos levou na nova agência (minúscula) na beira da praia.

Depois do almoço às 14:30 (o que parecia ser perfeitamente normal em João Pessoa, porque um monte de gente nova-classe-média chegou para almoçar depois de nós), seguimos para Cabedelo, onde pegamos a balsa para Costinha - que atravessamos - e chegamos em Lucena.

Em Lucena

Tínhamos um mapa, tínhamos instruções para chegar na casa do Sevá e tínhamos referências (tenda do seu Vivi na esquina, gelo na outra esquina etc.) sobre o bairro, mas não tínhamos ideia de como conseguir a chave da casa onde ficaríamos. Na casa ao lado, uma moça fazia faxina. Perguntamos ali e ela lamentou que o André tinha saído dali havia pouco. Mas não tínhamos certeza de que André era a nossa referência. Relemos as instruções do Sevá e lá constava o nome do seu Vivi. Enquanto caminhávamos em direção à casa dele, Luis escreveu mensagem pra Janaína, filha do Sevá - que respondeu antes de chamarmos pelo seu Vivi. A chave estava com o André. Decidimos voltar para a vizinha que fazia faxina. Em seguida, a moça nos apontou o André.

- Seu Vivi acaba de me contar que ele tava na frente da casa dele quando apareceu um casal andando na rua que parou, falou o meu nome e voltou. Daí eu achei que era o casal amigo do Sevá e vim trazer a chave pra vocês.
Na casa tinha fruta-pão, fruta do conde docinha, manga de vez, limões pequenos e cheirosos, acerolas em flor e romãs. A praia de Lucena tem duas pontas: numa desemboca um rio, na outra as marés se encontram.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Cachoeiro com emoção

O estado do Espírito Santo foi bastante castigado pelos efeitos das chuvas incessantes. Não foi fácil chegar em Cachoeiro de Itapemirim com os atrasos dos outros voos em conexão com o meu, com o tempo apertado e a chuva na estrada. Tivemos uma trégua no Natal e muito boas surpresas: Nelson, velho amigo do Luis, veio (com esposa e filha) passar a véspera de Natal conosco. E durante o leitão, cabrito e peru, marcamos uma pequena aventura para a manhã seguinte.
Nelson no quadriciclo
Nelson tem uma loja em que ele vende quadriciclos, jipes e outros motorizados potentes. Logo me colocaram ao volante de uma máquina de pneus altos e grandes, sem embreagem ou chave e com as seguintes "marchas": P (estacionar), R (ré), H (alta velocidade) e L (baixa velocidade). Coordenando freio e acelerador, manobrei o jipe pra fora da loja. E fui dirigindo alegremente até a primeira ladeira enlameada.
Nelson lá embaixo
Nelson, como excelente monitor, fez uma demonstração de como se sobe ladeiras enlameadas em alta velocidade. Tremi na base e passei o volante pro meu marido - que se mostrou um motorista de offroad experiente.
Itabira ao fundo
Passamos por florestas, descampados, águas e valetas. Ficamos agradavelmente surpresos com a paisagem que nos foi apresentada nessa manhã e com o motor do jipe e as técnicas de conduzi-lo (acelerando na reta para soltar a lama dos pneus, por exemplo).
Topo do monte
Havia uma árvore atravessada no meio do caminho, o que nos obrigou a fazer uma volta um pouco maior que o planejado. E quando paramos no alto do monte, pudemos ver Marathayzis, o Itabira, o Frade e a Freira e a Moça que Beija a Pedra. Depois do descanso, voltamos a assumir nossos postos. Nelson foi na frente e sumiu do horizonte. Luis e eu ficamos. E o carro não ligava. Tentamos todas as marchas, apertamos outros botões e nada. Saí do carro e procurei o Nelson - que já tinha entendido qual era o nosso problema: pisa no freio enquanto liga o carro!
Marathayzis ao fundo
O cabelo ao vento, os olhares risonhos, a sensação de estar num veículo que passa tranquilamente em terrenos difíceis e as belas paisagens foram um bom presente. Chegamos em casa cobertos de lama e alegria. Nelson se mostrou um companheiro e instrutor muito atencioso.
A Moça que Beija a Pedra
Assim que estendemos as toalhas do banho, começou a chover. Aproveitamos muito bem a janela de tempo bom em Cachoeiro.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Estado civil?

A secretária preenchia a ficha cadastral com os meus dados:
- Estado civil?
- Ssssou/ ih! Casei!
- Hihihi, ainda não te acostumou?
- Pois é, foi faz dez dias.
- Meus parabéns!
- Obrigada.

domingo, 15 de dezembro de 2013

Casamos

Duas pessoas se uniram,
duas famílias se juntaram
para celebrar com alegria
a promessa de uma nova vida.

domingo, 24 de novembro de 2013

De volta ao asfalto

Nesse tempo todo que estou em Camobi (Santa Maria) - e isso já faz bem um ano: não lembro a data em que cheguei, mas lembro que tomei posse no dia 26 de novembro de 2012 - nunca tinha pedalado até Santa Maria. Hoje, no final da tarde de domingo, vesti minha bermuda de ciclismo, minha camiseta vermelha e fui até quase Santa Maria. Fui pela Faixa Nova e voltei pela Faixa Velha.

A última vez que pedalei em acostamento de estrada foi em Porto Velho e lá eu costumava ser a única ciclista. Aqui eles são bastante numerosos e todos (exceto eu) que pedalam bicicletas compradas em bicicletaria (e não no supermercado) usam capacete.

O cheiro de carniça, característico dos acostamentos, se fez presente aqui também. E eu, que achei que tinha visto de tudo no quesito animais atropelados (gatos, cachorros, cobras, lagartos, macacos, tatu e bezerro), me surpreendi ao ver os restos mortos de uma tartaruga (ou jabuti?) na Faixa Velha.

Fiz o percurso em 40 minutos. Na ida, fui com o sol na cara. Na volta, vim contra o vento = deu empate. Fui ultrapassada por um cara numa descida e ultrapassei esse mesmo cara numa subida. Apesar de não ter velocímetro funcionando na Amarilda (aquele lá parou de funcionar assim que ultrapassou a marca dos 8 mil km rodados), acho que consegui manter uma velocidade constante.

Próxima vez vou de Caloi 10, para garantir que as duas funcionam. Assim, quem sabe terei a companhia do meu então marido para finalmente concretizarmos a tão ensaiada expedição a Silveira Martins?

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Para marcar a data do casamento no cartório

Na primavera, Dona Baratinha, doidinha pra casar, foi no cartório pra procurar saber qual era o procedimento e quais eram os documentos necessários para realizar um casamento civil. Recebeu um bilhete em que havia várias informações, inclusive a de que a certidão de nascimento precisava ser atualizada. Procurou o cartório em que o seu nascimento foi registrado e pediu uma certidão atualizada.

Voltou ao cartório no verão, para mostrar os documentos do Sr. Samsa, que não nasceu no Brasil, mas fez a opção pela nacionalidade brasileira. Dona Joaninha achou que era um caso especial, mas estava tudo certo.

Na terceira vez que foi ao cartório, Dona Baratinha atentou à regra de que era preciso encaminhar os documentos um mês antes do casamento. Levou os seus documentos e os do Sr. Samsa. E cadê o noivo? perguntaram. Dona Baratinha respondeu que o noivo estava no Rio, mas que os documentos dele estavam todos ali. Não podia ser assim; ele deveria fazer uma procuração pública e específica para o casamento no nome de outra criatura qualquer. Dona Baratinha perguntou se ela poderia ser a procuradora dele. Não, não pode, você é a noiva. E cadê as testemunhas? Ué, vocês, joaninhas do cartório, não podem servir de testemunha? Não, as testemunhas precisam conhecer o casal. Puxa vida, mas que coisa... Uma das testemunhas pode ser o portador da procuração? Não pode.

Dona Baratinha passou a procurar amigos que pudessem ser testemunhas e portador da procuração do noivo. Dona Formiguinha tinha que trabalhar, mas ofereceu o marido como portador da procuração. Dona Borboleta se ofereceu como testemunha e ofereceu o namorado como segunda testemunha. No dia seguinte, Dona Borboleta disse pra Dona Baratinha que o namorado não podia comparecer ao cartório no dia e horário marcados. Afobada, Dona Baratinha procurou por uma segunda testemunha. O Grilo logo se prontificou a participar do processo. Dona Baratinha pediu ao vento que levasse ao Sr. Samsa a notícia de que era preciso fazer uma procuração.

Quando a carta com a procuração chegou, ninguém percebeu que o adjetivo "pública" - que deveria acompanhar a procuração - havia se perdido no meio do caminho.

Na quarta vez que Dona Baratinha foi ao cartório, foi acompanhada pelo portador da procuração, o marido da Dona Formiguinha, e as duas testemunhas: o Grilo e a Dona Borboleta. Ocupavam muito espaço no cartório, falavam muito alto e animadamente enquanto a Dona Joaninha estudava a papelada. Dona Joaninha disse que a procuração do Sr. Samsa tinha que ser pública. Explicou que isso é uma outra categoria de procuração e que o Sr. Samsa tinha ainda dois dias pra mandar a procuração por carta e que todos precisavam assinar os papéis quando a procuração pública chegasse. Dona Baratinha conversou novamente com o vento e pediu que procurasse o Sr. Samsa.

Desanimado com a notícia, Sr. Samsa procurou, no dia seguinte, um cartório que faz procurações públicas. A Dona Joaninha que fez e assinou a procuração pública do Sr. Samsa avisou que a Dona Joaninha que receberia a procuração ainda precisava reconhecer sua firma. Procurou no registro se havia intercâmbio entre os dois cartórios e verificou que não. Anexou um envelope lacrado (contendo o registro da Dona Joaninha) à procuração pública.

Dona Baratinha procurou o portador da procuração e combinou o mesmo horário do dia anterior na frente do cartório. A Dona Borboleta não adiantava procurar, porque ela já tinha dito que não poderia mais comparecer ao cartório de tarde. O Grilo tinha oferecido a esposa dele como segunda testemunha, mas cadê o Grilo? Dona Baratinha chamou, fez sinal de fumaça, escreveu carta e o tempo tic-tac-tic-tac avançando até o horário combinado. Quando Dona Baratinha já estava toda tonta de fazer telepatia, o Grilo apareceu alegre com sua esposa.

Na quinta viagem ao cartório, Dona Baratinha finalmente conseguiu marcar a data do casamento com o Sr. Samsa. Enquanto o marido da Dona Formiguinha, o Grilo e sua esposa, Dona Baratinha e Dona Joaninha estavam ocupados com assinaturas e documentos, as folhas sopradas pelo vento formaram as seguintes letras: C A S A   C O M I G O  ?

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

O vestido de noiva

Quando estive com o Luis (agora nas férias) em Campinas, conseguimos comprar toda a roupa dele para o casamento: sapatos, paletó, calça e blusa. Faltava o meu vestido. Mas eu não estava preocupada, afinal eu já tinha encomendado pra Oma fazer um crochê que se veste por cima de um vestido longo, liso e simples.

Oma terminou o crochê quando voltei das férias. Ela passou dois dias me contando a aventura que foi fazer esse trabalho. Falava da dificuldade de entender a lógica da peça, o desafio de equilibrar quatro voltas da linha na ponta da agulha, a aventura que era acompanhar as variações da padronagem. Contou que concedeu a si mesma um dia inteiro de pausa depois que acabou esse crochê e mostrou a cortina que agora ocupa suas mãos nas horas solitárias.

O crochê estava lindo, faltava o vestido que eu usaria por baixo dele. Luis tinha insistido que eu procurasse uma costureira em Gramado, Oma concordou que fosse melhor eu encontrar uma perto de mim, em Santa Maria.

O Google me indicou oito costureiras em Santa Maria e duas no Camobi. Telefonei para a primeira, no Camobi, que esperou eu dizer a palavra mágica "vestido de noiva" para me responder que estava com a agenda lotada até o fim do ano. Com auxílio do GoogleMaps, tracei uma rota entre as outras costureiras e tomei um ônibus pra cidade.

No primeiro ateliê, a costureira perguntou se eu queria vestido de formatura. Mostrei a foto da revista de crochê, disse que o vestido era simples, mas ela estava com a agenda cheia até o ano que vem. Caminhei até o segundo ponto, seguindo a numeração das casas e esperando chegar no 1880 da Presidente Vargas. Ali, onde deveria estar o segundo ateliê de costura, havia um enorme espaço vazio: uma casa havia sido demolida. Do outro lado da rua, mais abaixo, vi um cartaz que anunciava "costura em geral". Quando cheguei perto, vi outro cartaz, menor, em que li: "precisa-se de costureira". Nem entrei.

No desespero, fui numa loja de aluguel de trajes. Tudo que deveria ser branco era de um branco sujo, como se todos os vestidos de noiva tivessem sido pendurados ao longo da 23 de Maio ou outra avenida movimentada, para absorverem bem toda a sujeira de poluição. E vestido de noiva sem bordados, brilhos, babados, rendas etc. estava difícil. Mostrei o crochê da Oma, que foi muito elogiado. Depois de muito tempo, encontramos um vestido que, com as devidas adaptações, poderia servir. O aluguel custaria R$ 90,00. Como continuei encarando a vendedora depois de ouvir o preço (na verdade eu estava lembrando do preço que pagamos na roupa do noivo), ela perguntou se eu achava caro. Confessei que eu não tinha ideia de quanto custam essas coisas.

Saí da loja com a sensação de que, com esse vestido alugado, eu decepcionaria o Luis e a Oma. O terceiro ateliê ficava numa rua que eu desconhecia. Pro meu azar, fiz anotações de roteiro no meu mapa das costureiras de Santa Maria que me confundiram - e acabei caminhando dois quilômetros a mais para chegar na Visconde de Pelotas (foi o carteiro quem me indicou a direção correta). Chegando no número indicado, dei de cara com um conjunto de prédios. Que sina! Um endereço dava para o vazio, outro dava para o excesso. Antes de desistir, olhei para as campainhas do prédio. Num número, havia um adesivo em que li "ateliê de costura".

Toquei a campainha, uma voz feminina atendeu e perguntou quem era. Eu tentava responder, mas ela não entendia nada pelo interfone. Decidiu: "vou abrir". Entrei no pátio dos prédios, procurando alguma seta ou placa que me indicasse o caminho por entre os vários prédios. Num, os apartamentos tinham números ímpares, no outro, toquei a campainha do 22. Em seguida, a porta do prédio abriu e eu entrei e subi as escadas.

Mostrei a revista de crochê e perguntei se ela tinha tempo de fazer um vestido assim. Ela teve curiosidade de ver o crochê e admirou e elogiou muito o trabalho da Oma. Tomou as minhas medidas e me indicou a loja de tecidos onde eu deveria comprar o tecido, o zíper e a linha (todos da mesma cor). Perguntei quanto ela cobraria e a resposta me surpreendeu: "R$ 50,00". Eu não disse que eu usaria o vestido no meu casamento, porque eu já havia experimentado o poder que a palavra "noiva" tem sobre costureiras.

Caminhei até a loja de tecidos e fui atendida por um senhor muito simpático: "tecido de vestido de festa, vamos lá". Comparou o cetim branco com o crochê branco e sentenciou: "o seu bordado não é branco-branco, é branco-pérola. Vamos procurar um tecido dessa cor." Quando fui pagar pelos 1,70m de tecido shantung, zíper e linha, nova surpresa: R$ 32,00. Ou seja, mandar fazer o vestido estava saindo mais barato do que alugar. E o tecido era melhor e teria o formato e tamanho que eu quero.

Com o tecido na sacola, fui na loja de sapatos. Sempre acho difícil gostar dos sapatos que vejo nas lojas, e dessa vez não foi diferente. Quando eu já tinha desistido de sapatos brancos e tava sentada, esperando a atendente me trazer sandálias com florzinhas coloridas, uma cliente experimentou um sapato que combina com o meu futuro vestido. Com o calçado no pé, a moça desfilou o sapato que os meus olhos tinham ignorado quando ele estava na vitrine. Elogiou o sapato: "bem delicadinho" e o devolveu à atendente. Fiquei feliz por ela ter me mostrado aquele sapato e mais ainda que não quis comprar o único par que a loja ainda tinha.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Língua e comunicação

"Our languages are not the prerequisite for communication;
rather, they are the result." (KELLER, 2004, p. 4)

terça-feira, 10 de setembro de 2013

A abordagem

Recentemente peguei carona. Por infortúnio, pegamos trânsito lento e o carro parou na altura de um policial. O homem olhou pra dentro do carro e mandou encostar. Enquanto encostava, o motorista pensou qual poderia ser o motivo da abordagem. Colocou o cinto antes do policial chegar.
- O motivo da abordagem, senhor, é que o senhor estava sem cinto. Eu vi.

*

Philip me contou que num dia bem bonito, tipo aqueles primeiros dias de primavera depois de um longo inverno, ele atravessou a rua sem olhar para o semáforo. Do outro lado da rua, um policial o abordou:
- O senhor confirma que acaba de atravessar a rua no farol vermelho?

*

Muito tempo atrás, logo na primeira vez que eu cortei o cabelo bem curtinho, fiz uma excursão ciclística a Paulínia. O acostamento era muito poroso e cheio de pedrinhas, de modo que eu me equilibrei com a minha bicicleta em cima da linha branca que separa a faixa do acostamento. O policial que me esperava de pernas afastadas e braços cruzados gritou:
- Quê que cê fez de errado, mermão?

Não considero que qualquer uma das posturas relatadas aqui seja defensável. Erramos todos que fomos abordados pelos policiais. Mas a maneira como fomos abordados é tão diversa... O grandalhão que me parou na rodovia achou que eu era homem (ficou super sem-graça quando percebeu o equívoco) e que era preciso ser autoritário. A tentativa de ser didático ficou na sombra da cordialidade. O policial que abordou o Philip negociou com ele uma verdade. O rapaz estava distraído, nem tinha se ligado no farol. Quando se virou para trás, viu a mudança de cores e se viu obrigado a concordar com o policial. Já o policial que abordou o motorista sem cinto de segurança insistiu em ter razão. O motorista poderia ter dito o que quisesse, o policial manteria a razão: eu vi.

domingo, 8 de setembro de 2013

Caminhar é preciso

Caminhar tem uma função:
experienciar o caminho.

Sentir os joelhos e os pés se movendo
ter consciência de que as pernas servem para andar
Sentir a postura do corpo e o impacto no chão
e ignorar o calor do sol
Ouvir os passarinhos, os passantes
e o ritmo dos próprios passos
Sentir o cheiro da primavera
espalhando pólen pelo ar
Lembrar de outros caminhos e
esquecer o ponto de partida e de chegada.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Joseph K

Assim como o personagem de Kafka, tento recorrer a todas as instâncias da máquina burocrática para resolver o meu caso. Como Joseph K, não entendo bem como surgiu o meu problema. Tal como Joseph K, não consigo conviver resignadamente com o imbróglio e me sinto ameaçada pelo desconhecido que me mostra que a minha palavra vale pouco ou quase nada e que confio mais nas funções das pessoas na máquina do que na capacidade das pessoas de cumprirem suas funções. Se eu fosse Joseph K, talvez descobrisse que o meu Processo foi um engano, uma falha no sistema, um descompasso imprevisto na burocracia; e teria vontade de me matar justamente porque o sistema deixou de funcionar como o previsto. Diferentemente de Joseph K, sobreviverei ao Processo e provavelmente terei que engolir um "desculpe o transtorno, mas é que aconteceu o seguinte..."

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Você é nova aqui?

Antes das férias, foram distribuídas as turmas do segundo semestre e foi enfatizado que qualquer mudança ou troca de disciplinas teria que ser feita em reunião, com a ciência de todos. Quando voltei das férias, vi que duas das minhas três disciplinas tinham sido trocadas.

Enquanto eu esperava a secretaria do meu departamento abrir, vi, no mural, que uma das disciplinas que eu daria (conforme havia sido combinado em reunião de departamento) estava sendo ofertada por um professor que mandava avisar que as aulas somente começariam na semana que vem.

A secretária do departamento me explicou que não pode desfazer a troca das disciplinas, só a chefe de departamento - que está fora. A vice-chefe, que responderia pela chefe na ausência dela, também está fora. Explicou também que aquele professor que de repente está de posse da minha disciplina - e que eu não conhecia - tinha sido pró-reitor na gestão passada e agora, que a gestão passada perdeu as eleições, estava voltando ao departamento.

A outra disciplina, uma DCG (optativa, cuja ementa e programa eu elaborei e que foi aprovada em reunião de departamento e encaminhada para a coordenação do meu curso), não chegou nem mesmo a ser ofertada por causa do conflito de horário com as duas disciplinas que me deram sem o meu consentimento.

Fui no DERCA, órgão responsável pela administração das turmas, disciplinas e tal. O funcionário que me atendeu entendeu a situação e me instruiu a escolher muito bem as palavras, porque esta não era apenas uma questão técnica, era, antes de mais nada, uma questão política que causava mal-estar e melindres. Como eu continuei com a fisionomia tensa, ele perguntou:
- Você é nova aqui?

Fui na Coordenação do curso ao qual pertencem as disciplinas que me foram atribuídas sem o meu conhecimento. Expliquei que a minha chefe e vice-chefe estavam ambas ausentes e que eu queria resolver logo a situação. Disseram que, na ausência da chefe e da vice-chefe quem responde é o diretor do centro e que ele teria a autoridade para fazer a mudança. Suspirei profundamente e me perguntaram:
- Você é nova aqui?

Fui na Diretoria do Centro de Artes e Letras, mostrei a cópia do memorando que encaminha o pedido da oferta da DCG, expliquei que a DGC não havia sido ofertada por causa do conflito de horário com as outras duas que apareceram na minha grade de horários não sei como. Quando ele entendeu o problema, mencionei que ainda havia uma outra disciplina que era minha e que tinha sido designada a outro professor que tinha sido pró-reitor. Mais uma vez, a famigerada pergunta:
- Você é nova aqui?
Respondi com a minha data de posse. O diretor do Centro teve a ideia de oferecer ao ex-pró-reitor, conhecido dele, as minhas duas disciplinas em troca daquela que tinha sido minha. Espero que consigam reverter a situação absurda em que fui colocada porque não tenho cacife pra ministrar as disciplinas que todos concordaram em reunião de departamento que eu daria.

domingo, 1 de setembro de 2013

O valor do tempo

Enquanto Rainer Christian acendia a fogueira que assaria o nosso churrasco, filosofou:

eu sei acender fogueira de diversas maneiras, mas nada disso vale se no supermercado me vendem somente esse líquido infalível que acende e mantém acesa qualquer fogueira. A carne já vem temperada, a salada de batatas já vem pronta. É possível comprar tudo pronto na Alemanha. Aqui as pessoas valorizam mais o tempo do que o dinheiro.

Na ocasião, Luis lembrou de uma estória que eu tinha lhe contado sobre os serviços na Europa: uma guria estava com a lâmpada do farol dianteiro do carro queimada. Foi na loja para comprar a lâmpada e o vendedor perguntou se queria que instalasse a lâmpada. Ela disse que sim. Sentou, recebeu um cafezinho e cinco minutos depois veio a conta. Pagou pela lâmpada e pela hora (cheia) de serviço do mecânico.


sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Voltando para casa com escalas

Viajar com uma senhora de quase 94 anos de vida foi uma experiência nova para nós. Como ela tinha necessidades especiais, solicitamos uma cadeira de rodas para ela. E com a cadeira de rodas sempre vinha um(a) funcionário/a muito atencioso/a da TAM que nos guiava pelos caminhos dos prioritários, evitando filas.

Luis e eu nos separamos em Guarulhos, eu ainda levei a Oma a Gramado. E se eu achava que tinha levado pouca roupa de frio para o verão alemão, constatei com dor nos ossos que tinha muito pouca roupa de frio para o inverno gramadense. Já na estação de trem, para pegar o veículo que nos levaria ao aeroporto, Oma me segredou:
- Preciso te dizer uma coisa. Nevou em Gramado!

Quando Oma e eu chegamos, a neve já havia sido derretida pelos raios solares que iluminavam (sem aquecer muito) a cidade.

Na manhã seguinte (ontem), peguei um ônibus a Porto Alegre que teve que fazer um desvio de 40 minutos, porque havia água na BR 116. Neve em Gramado, muitas chuvas no estado. Minha tia tinha dito que 24 municípios chegaram a declarar calamidade pública. De fato, a paisagem estava bastante alagada.

Segui até o aeroporto, para comprar uma passagem que eu (nem o Luis) não estava conseguindo comprar pela internet. Lembrei que a Dilma recentemente tinha inaugurado um meio de transporte que liga o aeroporto à estação de trem. Fui nas informações turísticas.
- Como que eu faço pra chegar na estação de trem?
- Pega o aeromóvel. Sobe no segundo piso e sai pela última porta, onde param os ônibus.
- Tem que pagar?
- Não.
O aeromóvel é menor que um vagão de metrô
Mas ela não disse que também não precisava pagar a passagem de trem. Na rodoviária, não consegui passagem logo para Santa Maria. O semestre começa na segunda agora, é natural que o movimento em direção à cidade universitária seja intenso. E o trânsito também foi intenso, especialmente na ponte, quando há afunilamento de faixas. A paisagem era um espelho d'água só. Lembrei das chuvas de 2008 que alagaram Santa Catarina, quando somente a rodovia estava acima do nível da água.

A viagem durou mais que o previsto e quando cheguei em casa, os mercados já tinham fechado e a geladeira continuava vazia. E o meu termômetro me mostra o que eu já sentia: dentro de casa é 5ºC mais frio que fora.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Último dia: Bad Godesberg

Passamos a última noite em Bad Godesberg (ao lado de Bonn), na casa do meu primo Ravi com sua esposa Christine e filha de 8 meses, Liah. Conheci a Christine primeiro por telefone, marcando hora e local de chegada. Continuei conversando com a Christine por telefone quando o nosso trem sofreu um atraso e perdemos o trem de conexão em Köln. Ela logo disse que ficássemos na estação, porque Ravi trabalha em Köln e viria nos buscar na estação, em frente ao Mc Donald's.

Quando nos cansamos de esperar, liguei de novo pra ela - que disse que ele estava no local combinado. Desliguei o telefone e fui perguntar na rua se havia outro Mc Donald's na redondeza. Só na estação central. Foi aí que eu me dei conta que não estávamos na única estação de Köln. Ravi veio até nós e nos levou todos num restaurante em que os temperos (alecrim, pimenta e manjericão) ficam plantados em potes na mesa.
Ulla com a pequena Liah. Luis ficou espantado de ver como o trabalho em volta da criança é bem distribuído: o pai também troca fraldas, também passa um dia em casa cuidando da filha.
No dia da partida, fomos a Bonn. O que fazer na cidade que já foi capital do país? Fomos na universidade e visitamos o museu egípcio.
E demos uma passada no Reno, que quando cruza a fronteira com a Holanda, vira Waal.

Nesta viagem de duas semanas, ficamos hospedados nas casas dos nossos familiares. Nenhuma noite em hotel. E em todas as paradas, um universo familiar diferente, mas o acesso sempre foi direto.

sábado, 24 de agosto de 2013

Familie Rosenbaum in Würzburg

Rainer Christian, meu primo, mora atualmente perto de Würzburg (em Kürnach) com a esposa, Gabi, e a filha de dois meses, Wayra. Ele é boliviano, ela equatoriana e a menina nasceu na Alemanha. O nome  da criança significa "vento" em quechua. 
Fomos muito bem recebidos pelo meu primo - e agora era eu quem ouvia "prima!". No primeiro dia tivemos sol e aproveitamos para dar uma volta em Würzburg. Rainer Christian se mostrou um ótimo guia e muito interessado pela história local.
Num certo ponto da ponte, havia vários cadeados presos. Perguntamos o que significava e a resposta foi um curioso costume local. Casais escrevem seus nomes num cadeado, prendem-no na ponte e jogam a chave no rio. Esse ritual simboliza que o casal segue unido.
E quando voltamos, debaixo de chuva, para o estacionamento onde o carro estava guardado, constatamos, frustrados, que o estacionamento havia fechado. Pedimos um taxi no hotel ao lado e voltamos para Kürnach com um motorista desconhecido. Na manhã seguinte, resgatamos o carro.

O casal tomou para si a tarefa de nos mostrar o que significa uma criança na vida de um casal. Quando Wayra chorava, explicavam os motivos. Quando Wayra recebia banho, nós éramos convidados a assistir, para aprender a segurar o bebê. Somos muito gratos aos três pela experiência e à minha mãe por ter tomado a iniciativa de recolocar em contato quem não se via desde a infância.

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Hohenschäftlarn


Pelo que entendi, toda cidade na Bavária tem um Maibaum, que é esse poste em que se fixam coisas típicas do local. O de München tem bem mais coisas que este, de Hohenschäftlarn, onde vive a família da Eliana.

Ela nos levou ao Starnberg, um lago muito famoso na Bavária. Este cisne abria as asas pra mim (segundo disseram) quando eu estava fotografando outra coisa. E quando fui fotografá-lo, ficou sem graça. 
Matti e Elias vieram para Hohenschäftlarn com a Karina na véspera da viagem da família da Eliana para a Holanda.

Primo!

Jantar no Biergarten do Kapuzinerkloster
Luis responde a vários nomes: na casa do pai é Fernando, em Cachoeiro é Peruano, na vida profissional é Novoa, na casa das primas é Prímooo! (sendo que a tia Carmen, na mesa ao lado do menino, o chama de Nando e as cinco crianças chamam por Luis Fernando).

As duas primas (Eliana, na ponta da mesa, e Karina, ao seu lado) casaram-se com dois bávaros (Markus está na foto) e contribuíram para o rejuvenescimento da população alemã. Eliana teve Sven (13) e os gêmeos Marvin (na foto) e André (10). Karina teve Elias (10) e Matthias (8).

Está sendo muito legal observar crianças tão independentes, amigas e companheiras.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Katzencafé

Por alguma razão misteriosa, a Shellingsrasse nos perseguia. Andávamos pelas ruas de München e sempre desembocávamos na Schellingstrasse (eu jamais admitiria que caminhamos em círculos). Numa rua qualquer - que pode inclusive ter sido a Schellingstrasse - passamos na frente de um café peculiar. O cartaz anunciava que se tratava do primeiro café de gatos da Alemanha.
O princípio do Katzentempel é simples: trata-se de um café normal para as pessoas, em que habitam quatro gatos. Os gatos fazem parte do café e podem ser acarinhados pelos clientes (acho que não se paga por isso). Como se vê pelas fotos, há instalações especiais para os gatos.
Pensei imediatamente no bar que Fran e Marcelo planejavam abrir.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Atravessamos o país

Depois do café da manhã entramos num trem em Syke, baldeamos em Bremen e só saímos do trem para jantar em München. Luis tem duas primas (cuja mãe está de visita) em München que nos hospedaram.
No primeiro dia em que acordamos em München, fomos passear sozinhos na cidade. Fugimos dos turistas, descontos e muvuca e rodamos nas redondezas da universidade. Topamos com o prédio em que os panfletos dos irmãos Scholl entraram para a história e Luis batizou a Schellingstrasse de melhor rua do mundo (porque é repleta de livrarias, sebos e cafés).
Marx no original
 
Não conseguimos pegar a Pinacoteca aberta, mas pegamos um solzinho no gramado em frente.