domingo, 31 de agosto de 2008

Pedindo votos

Teremos eleições municipais em outubro e a paisagem urbana já está alterada: faixas com a cara sorridente do sub-prefeito de Barão concorrendo a vereador, adesivos de candidatos sérios e desconhecidos nos carros, carros de som passando pelos bairros residenciais etc.

Um dia, Sales tava saindo da garagem com o carro e esperou que os pedestres na calçada passassem. Os pedestres vieram conversar com ele: estavam fazendo propaganda eleitoral de porta em porta e elogiavam este tipo de atitude civil.

Outro dia, tocaram o sino aqui de casa e eu atendi. Queriam saber se o Thiago tava em casa. Lamentei que não, achando que aqueles dois no portão eram amigos do Sales. Nossa idade, nossa maneira de vestir e falar. Não reparei na prancheta na mão deles.

Dias depois, dois outros vieram e pediram pra falar com o Thiago. Chamei e voltei pra rede na garagem. Como ouvi a conversa, pude perceber que eles eram de um partido político e estavam pedindo votos pra ele. Não eram amigos dele, nem sequer o conheciam.

Ontem havia um recado do Sales no mural: "Gente, se aparecer alguém dizendo que me conhece, desconfiem!"

Imaginei a cena: tocam o sino, Thiago Sales vai até o portão e dois jovens com uma prancheta na mão perguntam se o Thiago está.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Sexo frágil

Mulher aqui ainda é tratada como se fosse frágil, precisasse de proteção, resguardo, mais segurança que homem. Tenho exemplos na memória:


Mulheres a pé na rua

Eu tava caminhando pra Unicamp, tomando um atalho pelo qual não passa carro. A rua estava deserta, como sempre, exceto por alguns peões de obra escorados num alambrado. Era evidente pelas suas vestimentas que os homens eram pedreiros e estavam descansando ali. Quando eu estava passando por trás do Pão de Açúcar, uma mulher gordinha, cabelo maltratado, chinelo Havaianas e uma criança em cada mão, e me parou. Queria saber se lá em cima ainda tinha aqueles hôme lá. Sim, tem uns homens descansando. Ah, então eu vou dar a volta aqui por baixo, que eu tenho medo de passar ali. Obrigada, viu!

* * *

Eu estava voltando a pé da natação na Unicamp. Atravessei o farol da Sta. Izabel pra entrar no bairro aqui e notei que uma mulher vinha correndo na minha direção. Baixinha, magrinha, calça fuzô e oclinhos. Pensei no motivo da corrida dela: não tem ponto de ônibus aqui, não tem ninguém correndo atrás dela, deve estar com pressa de entregar o conteúdo da sacola que tem na mão. Ela esboçou um sorriso e anunciou que aproveitaria a carona. Não entendi, ela se pôs a caminhar ao meu lado. Entendi que eu era a carona. Ah, hoje em dia Barão Geraldo não é mais um lugar seguro à noite. Você faz quê na Unicamp? Lingüística? Sei. A minha filha estuda na Puc, vai formar esse ano, graças a Deus. Você vai pralí? Boa noite e obrigada, viu?

Mulheres na bicicleta

Ana Lu e eu estávamos descansando num posto em Pinhal. Na mesa ao lado, um sujeito que atende pelo apelido de Perigoso quis ser gentil: se eu tivesse com a minha pick-up, eu levava ocêis em Andradas. Explicamos que estamos pedalando porque gostamos de pedalar, e que se quiséssemos ir a Andradas de outro meio de transporte, teríamos ido de carro ou ônibus. É, mas se eu pudesse, eu levava ocêis, pcêis num cansá muito.

* * *

Na volta, estávamos descansando num posto em Mogi Guaçu, ao lado dos motociclistas barulhentos. Chegou o carro do Javier com dois homens dentro. Um dos motociclistas exclamou: chegou o resgate! Não, este não é o resgate. É o apoio moral. Não precisamos de resgate.

Mulheres no carro

Eu estava caminhando pelo bairro e notei que um cachorro estava pra fora do portão de uma casa. Parecia esperar que alguém abrisse o portão. Tinha coleira e parecia bem tratado. O portão abriu e vi uma mulher saindo do carro. Na mão, ela segurava o controle do portão eletrônico. Imagino que esta pessoa não tenha uma outra chave que este controle para abrir o portão eletrônico de sua casa. Entrar e sair de casa sem sair do carro é mais seguro.

* * *

O chão do vestiário na academia de natação nunca fica seco. Toda vez que eu chego, os meus passos podem ser retraçados da porta até a poça emporcalhada em que estão os meus calçados. Fico me perguntando por que só eu deixo rastros no chão. A resposta pode estar no fato de que todas as outras mulheres vêm ou de carro ou não caminham os 3km que eu caminho pra chegar na academia.


domingo, 24 de agosto de 2008

A volta

Vai mesmo voltar pra Campinas pedalando?
Quer que eu faça uma marmitinha procês?
Boa viage e tudo de bão procês, viu?
Que dilícia, esse sotaque mineiro!!!!

Ana Lu e eu agradecemos a hospitalidade dos pais batutas do Bob e botamos o pé no pedal às 8:00 de um dia muito bonito. Javier e Bob levariam nossas mochilas cheias de roupa suja no carro. Nas bikes só água e comida, e na pochete toda a parafernalha de conserto de bicicleta.

Andradas é famosa pelo café e vinho, por isso um barril na entrada/saída da cidade. A bicicletinha ficou da hora aí.


Chegamos na Praça do Côco (pra tomar um litro de caldo de cana) às 16:00. A longa parada no posto de Mogi Guaçu não nos desanimou: voltamos à estrada sob o sol das 13:00 e seguimos com brisa e sombras de nuvens ocasionais. Acho que foram mais ou menos 6 horas de pedal pra aproximadamente 120 quilômetros de estrada. Não tenho certeza porque não tenho ciclocomputador.

Hein?

Em Andradas, as coisas funcionam com uma lógica própria. Café a gente compra na loja de 1.99 e pinga da boa mesmo tem no açougue, mas tem que levar o litro (garrafa). O comentário do Javier pra Ana Lu na manhã seguinte ao pedal também merece ser registrado como idiossincrasia andradense: nossa, você dormiu como uma árvore!

Pedra do Elefante

O que fazer num sábado ensolarado em Andradas? Simples. Pegue o carro, vá até uma das montanhas da região, deixe que o guia erre umas entradas, pergunte pra moça passando ali adiante, abra umas porteiras, converse com os moradores, deixe que digam o nome de seu pai pra identificá-lo (e não o nome do Bob), deixe o carro ao lado de um cão feroz e suba o resto a pé. Confie nos poderes de orientação do Bob e aprecie a vista, que vale a pena.
Não subimos ao cume, apenas ficamos na base do elefante, monitorando dois escaladores encordados na parede.
A descida foi muito mais rápida que a subida: não tivemos que parar pra respirar, beber água, procurar um pau que servisse de cajado.
Carro, porteira, estradinha de terra, reconhecimento das entradas perdidas e boteco antes de voltar pra casa.

Balada em Andradas




Hehe, a única foto que não saiu tremida não foi feita por mim. Parabéns pro Javier!

Na estrada

Bifurcação da Adhemar de Barros: a direita segue pra Espírito Santo do Pinhal e Andradas, a esquerda vai pra Casa Branca, Estiva Gerbi e São José do Rio Pardo.

Às 13:00 chegamos cansadíssimas em Esp. Sto. Pinhal. O sol estava inclemente, a boca parecia abrigar um ovo quente, os ombros reclamavam e o pneu traseiro parecia estar furado. Paramos num posto cheio de homens falando alto e elogiando nossa saúde e coragem. Depois de beber suco de laranja e muita água, comer quase todos os nossos mantimentos do dia e alongar as costas, bateu a preguiça. Ficamos sentadas naquele posto por mais de 2 horas, ouvindo estórias de colheita de café: carreguei 25 sacas de café e recebi R$ 20,00 no fim do dia; estórias de pai solteiro: preciso casá logo, causo que sem muié é mui difícil de criá dois fi-i; estórias de festa: vixe, mai quelas muié lá bebe cerveja e toma pinga, que num dá pra acompanhá; estórias de paquerador: qual que é seu nome? Pois minha próxima fia vai chamá Ana Lu tamém. Enfim, papo de homem: os namorado de vocês num dêxa cês í nas festa? O quê? Os namorado vai de carro e ocês vai de bicicréta? Tá tudo invertido.Bicicleta da Ana Lu: bravas guerreiras.

Deixamos o posto e os homens e suas estórias pra trás e seguimos os 30km restantes.


Cadeia de montanhas que circunda Andradas.

Chegamos antes de Javier e Bob e fomos nos apresentar aos pais do Bob. Muito simpáticos e alegres.

Cicloviagem para Andradas

Ana Lu, minha mais nova amiga e eu queríamos fazer uma cicloviagem. Daquelas de passar o dia na estrada, de cruzar fronteira e beber água morna de caramanhola. Telmo quis nos acompanhar por um trecho, mas não pretendia pedalar debaixo de muito sol.

Nos encontramos na sexta, às 7:30 da manhã e pedalamos em direção de Andradas, sul de Minas. Assim que ele tomou o retorno e voltou, as buzinadas dos caminhoneiros e outros motorizados aumentaram significativamente.
Uia, duas muié pedalano, véio!

Lá em Andradas ficaríamos na casa do Bob. O Bob ia de carona com um primo. O namorado da Ana Lu, o chileno Javier, ficou preocupado com a saúde e segurança da moça e resolveu ir junto com a carona do Bob. Mas o primo do Bob não deu muita certeza de quando ia, então o Bob resolveu ir de ônibus. Ficou resolvido que o Javier daria carona pro Bob. Os dois senhores sairiam de Barão às 16:30.

domingo, 17 de agosto de 2008

Mapa antroplógico de São Paulo

Essa idéia de "mapa antropológico de São Paulo" não é minha, mas do Dionízio. De fato, cada canto da cidade tem sua tribo. Na Liberdade, é muito fácil ouvir línguas asiáticas; no Brás a culinária predominante é italiana; no centrão tem os policiais e os mendigos; na Paulista tem os yuppies de gel no cabelo e gravatinha moderninha e as mocinhas de sapatos pontudos e muita maquiagem na cara; no ônibus às 18:00 só tem peãozada: mais da metade da galera está dormindo. Nas redondezas do Shopping Interlagos tem os emus: adolescentes que se vestem de dark, usam o cabelo por cima dos olhos, fazem questão de indefinir o sexo e andam em bandos. Na Galeria do Rock tem os punks e os cabeludos e os tatuados cheios de piercings. Este é mais ou menos o mapa que Muntasir e eu traçamos desta megalópole.


Fui a São Paulo, ver uma apresentação da Osesp, executando Carmina Burana. A indicação era que eu descesse na Luz e caminhasse até a Praça Júlio Prestes. Tive que perguntar onde era a Sala São Paulo prum segurança do metrô: mas cê vai sozinha essa hora?
Havia muitas prostitutas loiras, barrigudas de perna fina e muitos mendigos bêbados no meu trajeto, mas nada que me metesse medo. Tive certa dificuldade pra acertar a porta de entrada da Sala São Paulo, porque a entrada mais óbvia e glamurosa era a porta pra quem vem do estaionamento. Eh, vida de motorizado!

Lá dentro havia madames com penteados cuidadosos e senhores muito sérios.

A primeira apresentação foi de Szymanowsky. A senhora que falava alto atrás de mim comentou, em alto e bom som:

-Esquisitinho, não!

Depois de primeiro movimento, ouvi os roncos dela. Quando Carmina Burana começou, ela prestou atenção.

Na Bienal do Livro tinha pouca gente, mas ficou claro pra mim que cada editora tem sua personalidade própria. 70% dos livros expostos vendiam o sucesso.
No parque Ibirapuera vi um montão de bicicletas caras, um montão de roupas esportivas de marca e caminhei pelo parque todo à procura do show de Jazz.
Achei o local do show: não era nem no parque, nem no auditório invertido, mas no estacionamento de uns prédios que eram da prefeitura. Ah, que maravilha ver tanto bicho grilo junto. Cabeludos, alternativos e pessoas dançantes ouvindo o sanfoneiro que se apresentava pelo Bourbon Street festival. E, atrás do palco, a lua eclipsada. Bem massa.

Pronto, aumentei o mapa antropológico de São Paulo.

Tecnologia

Não está bem focada, porque as duas estavam longe de mim. O objeto que concentra as atenções destas duas senhoras é um telefone celular. Passaram um tempão estudando como faz pra fazer uma ligação. Não sei se conseguiram, mas acho que o fato de terem tentado já é uma conquista: quebra o preconceito de que depois de velho, a gente não aprende mais nada.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Passalinho

Eu estava a caminho do restaurante vegetariano, regido por chineses de Formosa. Ao longo da parede do restaurante caminhava, a passos incertos, um passarinho de asas pequenas e ainda com plumagem delicada e fofinha. A configuração era: parede, passarinho e eu, caminhando a passos largos. À esquerda do passarinho abriu-se um espaço: a escapatória. Eu também virei à esquerda e entrei no restaurante com o passarinho.

Quando voltei do buffet e me sentei, a chinesa estava discretamente procurando pelo passarinho, que passeava por baixo das mesas. A chinesa pedia:
- DescuLpa, passalinho.
e afastava cadeiras, agachava, chamava o passalinho.

Um cliente resolveu ajudar. Ele ficava de um lado da mesa, a chinesa do outro, e quem estava mais próximo do passalinho tentava jogar um pano sobre o passalinho.
Chegaram na minha mesa:
- DescuLpa, passalinho.
O cliente já estava a 3 mesas de sua mesa de origem, e ainda não tinham capturado o passalinho. A chinesa pegou o pano da mão do homem e disse:
- Você come, eu passalinho.

Ele insistiu, agora era uma questão de honra. Conseguiram imobilizar o passalinho embaixo do pano. A chinesa pegou o passalinho com cuidado e o levou

pra cozinha.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Qualificada

A qualificação de tese foi hoje. Durou 4 horas. Resultado: preciso amarrar mais essa minha trama, costurar melhor as partes e jogar fora uma das teorias que eu uso, porque as duas que estavam no texto (uma pra descrever a fala de crianças, outra pra descrever a fala de afásicos com agramatismo), são incompatíveis entre si. Isso faz com que eu desista do meu foco, (a crítica da hipótese do espelho invertido de Jakobson: a primeira coisa que a criança adquire é a última que o afásico perde) que era explicado pelo paralelismo das duas teorias adotadas.

Bom, tenho 2 meses pra consertar o texto e defendo dia 18 de dezembro, se tudo correr como o planejado.

SOLARIS

Eu tinha visto o filme do russo (Andrei Tarkovsky), depois o filme do americano (Steven Soderbergh), e agora li o livro do polaco (Stanislaw Lem). As três formas de contar Solaris são diferentes, mas isso não deve nos surpreender. O filme russo enfoca muito os cientistas e todo o seu aparato. O filme americano enfoca o protagonista e narrador em primeira pessoa. O livro enfoca o planeta Solaris.

Solaris é um planeta que orbita em volta de dois sóis (um azul e outro vermelho). As forças gravitacionais dos sóis - que atuam sobre o planeta - deveriam criar instabilidade na órbita do planeta, mas isso não é o que se observa. O que então garante a órbita regular deste planeta? Não há em Solaris nenhuma forma de vida, exceto um oceano com atividade performática: cria ondas, formas que não se repetem, erupções. Os solaristas supõe que este oceano é uma forma de vida inteligente, que não passou pelos estágios evolutivos como algumas formas de vida na Terra (ameba> ... > Homo Sapiens). Acredita-se que o oceano controle a órbita do planeta em volta dos dois sóis.

Muito se investe em pesquisa espacial, expedições são enviadas a Solaris, muitos astronautas morrem, as teorias divergem e viram questão de fé. Kris Kelvin, psicólogo, é mandado à estação espacial em Solaris, onde estão Gibarian, Snow e Sartorius. A função de Kelvin é avaliar se vale a pena continuar investindo na pesquisa solarista. Quando Kelvin chega, Gibarian está morto, Snow desconfia de sua identidade e Sartorius está trancado no laboratório. Quando acorda pela primeira vez, tem ao seu lado uma visitante: sua namorada suicida de 10 anos atrás. Rheya não come, não dorme, regenera tecido espontaneamente, não suporta ficar longe de Kelvin e não sabe de onde veio. Todos a bordo da estação receberam visitas deste tipo depois que bombardearam o oceano com raios x. Estão convencidos de que o oceano manda estas visitas aos tripulantes.

Altamente interessante são as discussões entre Snow e Kelvin sobre os propósitos humanos no espaço:

We don´t want to conquer the cosmos, we simply want to extend the boundaries of Earth to the frontiers of the cosmos. For us, such and such a planet is as arid as the Sahara, another as frozen as the North Pole, yet another as lush as the Amazon basin. We are humanitarian and chivalrous; we don´t want to enslave other races, we simply want to bequeath them our values and take over their heritage in exchange. We think of ourselves as the Knights of the Holy Contact. This is another lie. We are only seeking Man. (p. 75)

As teorias sobre Solaris também são filosoficamente interessantes:

According to Muntius, Solaristics is the space era´s equivalent of religion: faith disguised as science. Contact, the stated aim of Solaristcs, is no less vague and obscure than the communion of the saints, or the second coming of the Messiah. Exploration is a liturgy using the language of methodology; the drudgery of the Solarists is carried out only in the expectation of fulfilment, of an Annunciation, for there are not and cannot be any bridges between Solaris and Earth. The comparison is reinforced by obvious parallels: Solarists reject arguments - no experiences in common, no communicable notions - just as the faithful rejected the arguments that undermined the foundations of their belief. Then again, what can mankind expect (...)?
(...) it is Revelation itself that they expect, and this revelation is to explain to them the meaning of the destiny of Man! Solaristics is a revival of long-vanished myths, the expression of mystical nostalgias which men are unwilling to confess openly. The cornerstone is deeply entrenched in the foundations of the edifice: it is the hope of Redemption. (p. 180)

De um modo geral, Solaris é uma leitura tão empolgante quanto Fahrenheit 451, do Ray Bradbury (não queiram ler a tradução, é muito insosa): disfarçada de science-fiction, é uma grande reflexão sobre a humanidade.

domingo, 10 de agosto de 2008

Trash vortex

O texto que segue abaixo foi recortado de um e-mail circular que eu recebi. Faz tempo que o abuso do plástico me preocupa, mas eu não tinha noção de que é tão grave assim. Procurei o trash vortex no Google Earth, e a região está demarcada por uma faixa avermelhada. Não adianta dar zoom, é como se a Nasa tivesse jogado um cobertor por cima da área.

Durabilidade, estabilidade e resistência a desintegração. As propriedades que fazem do plástico um dos produtos com maiores aplicações e utilidades ao consumidor final, também o tornam um dos maiores vilões ambientais. São produzidos anualmente cerca de 100 milhões de toneladas de plástico e cerca de 10% deste total acabam nos oceanos, sendo que 80% desta fração vem de terra firme.

Foto do vórtex No oceano pacífico há uma enorme camada flutuante de plástico, que já é considerada a maior concentração de lixo do mundo, com cerca de 1000 km de extensão, vai da costa da Califórnia, atravessa o Havaí e chega a meio caminho do Japão e atinge uma profundidade de mais ou menos 10 metros . Acredita-se que haja neste vórtex de lixo cerca de 100 milhões de toneladas de plásticos de todos os tipos. Pedaços de redes, garrafas, tampas, bolas , bonecas, patos de borracha, tênis, isqueiros, sacolas plásticas, caiaques, malas e todo exemplar possível de ser feito com plástico. Segundo seus descobridores, a mancha de lixo, ou sopa plástica tem quase duas vezes o tamanho dos Estados Unidos.

O oceanógrafo Curtis Ebbesmeyer, que pesquisa esta mancha há 15 anos compara este vórtex a uma entidade viva, um grande animal se movimentando livremente pelo pacifico. E quando passa perto do continente, você tem praias cobertas de lixo plástico de ponta a ponta. Tartaruga deformada por aro plástico A bolha plástica atualmente está em duas grandes áreas ligadas por uma parte estreita. Referem-se a elas como bolha oriental e bolha ocidental.

Um marinheiro que navegou pela área no final dos anos 90 disse que ficou atordoado com a visão do oceano de lixo plástico a sua frente. 'Como foi possível fazermos isso?' - 'Naveguei por mais de uma semana sobre todo esse lixo'. Pesquisadores alertam para o fato de que toda peça plástica que foi manufaturada desde que descobrimos este material, e que não foram recicladas, ainda estão em algum lugar. E ainda há o problema das partículas decompostas deste plástico. Segundo dados de Curtis Ebbesmeyer, em algumas áreas do oceano pacifico podem se encontrar uma concentração de polímeros de até seis vezes mais do que o fitoplâncton, base da cadeia alimentar marinha. Todas a peças plásticas à direita foram tiradas do estômago desta ave Segundo PNUMA, o programa das nações unidas para o meio ambiente, este plástico é responsável pela morte de mais de um milhão de aves marinha todos os anos. Sem contar toda a outra fauna que vive nesta área, como tartarugas marinhas, tubarões, e centenas de espécies de peixes.

Ave morta com o estômago cheio de pedaços de plástico E para piorar essa sopa plástica pode funcionar como uma esponja, que concentraria todo tipo de poluentes persistentes, ou seja, qualquer animal que se alimentar nestas regiões estará ingerindo altos índices de venenos, que podem ser introduzidos, através da pesca, na cadeia alimentar humana, fechando-se o ciclo, na mais pura verdade de que o que fazemos à terra retorna à nós, seres humanos. Fontes: The Independent , Greenpeace e Mindfully Ver essas coisas sempre servem para que nós repensemos nossos valores e principalmente nosso papel frente ao ambiente em que vivemos.


Antes de Reciclar, reduza!

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Arquitetura do medo

Na Pinacoteca, no subsolo, havia uma exposição de fotografias intitulada "Arquitetura do Medo". A esmagadora maior parte das fotografias retratava grades. Pessoas, casas, cães, carros atrás de grades.

Lembrei dos vidros fumês que as pessoas botam nos seus carros, pra se refugiar no anonimato, do capacete que eu usava antes de ir pra Holanda, pra que os motoristas pudessem dirigir como imbecis, dos cachorros que são usados pelos brasileiros como se fossem armas que protegem suas casas e latem, desembestados, para qualquer pedestre de passagem. Lembrei dessa foto com os cacos de vidro coroando o muro de casa. Os cacos de vidro me lembraram do corte que atravessa a palma da mão do meu irmão, quando ele, criança, quis pedir pra vizinha do outro lado do muro, que pegasse seu bichinho de pelúcia que tinha voado por cima do muro.

Em nossas casas, carros e bicicletas, estamos sempre nos armando contra ameaças externas. Algumas vezes, essa armadura machuca, em vez de proteger.

domingo, 3 de agosto de 2008

Em outras palavras

Peço licença a Alberto Mussa, pra recontar um conto que ele conta no seu livro intitulado "O movimento pendular". Trata-se de um livro que reúne as mais diversas constelações de triângulos amorosos. A estória que quero recontar chama-se "A noite das máscaras".

Era uma vez um padre em Veneza. Este padre conhecia toda a população de Veneza e ouvia todas as suas confissões, de maneira que julgou conhecer muito bem seu rebanho. Imaginava que a alma de cada fiel podia ser representada por alguma entidade no mundo: uma flor, um gato, a lua etc. Passou anos definindo o rosto da alma de cada um dos habitantes de Veneza, e quando o seu trabalho ficou pronto, quis comprovar sua autenticidade. Mas como comprovar que Giuseppe tem alma de hiena, Giacomo tem alma de cobra etc.? Precisava de um bom plano. Uma ocasião em que pudesse experimentar, sem que o experimento fosse óbvio. 

Uma festa em que as pessoas usassem máscaras que representassem o rosto de suas almas seria ideal. Ele atribuiria as máscaras à população de Veneza quando entrassem no salão da festa e durante a festa teriam que adivinhar quem se escondia por trás de qual máscara. Se os participantes da brincadeira acertassem, sua idéia do rosto da alma estava confirmada. Conversou com o duque sobre a realização de um baile de máscaras.

A população da cidade ficou encantada com o convite para um baile de máscaras. Todos viriam, todos gostaram da idéia de receberem suas máscaras no local da festa, todos estavam curiosos pra saberem qual seria a sua máscara. 

O padre, no entanto, foi assaltado pelo receio. Ele sabia que uma certa mulher casada era apaixonada por outro, e temia que ela aproveitasse o baile de máscaras para pecar. Esta mulher ficou sabendo qual seria a sua máscara antes do baile. Tomou suas providências: confeccionou ela própria uma máscara de moura, comprou um vestido colorido e verificou as medidas da escrava. Planejava colocar a escrava no seu lugar na festa para poder encontrar-se com seu amado. O padre, temendo um escândalo, avisou a mulher:

- Afaste-se do leão!

Era chegada a noite do baile. As pessoas recebiam suas fantasias na entrada do palacete, vestiam-se e encaminhavam-se para o salão, onde se dividiam em dois grupos: as mulheres de um lado, os homens de outro. A moura mandou sua escrava entregar um recado ao leão, esperou que voltasse e vestiu-a de moura. Foi ao encontro do leão. 

No salão, o cruzado logo fez amizade com o canário. Conversaram e beberam a noite toda, alegres por terem se conhecido. Num canto escuro do palacete, apareceu o leão. A moura jogou-se nos braços do leão e sussurrou-lhe no ouvido planos de fugir dali. Entregou-se ao leão com alegria e fome de prazer. O leão a possuiu e em seguida matou sua esposa.

O duque foi condenado à morte no dia seguinte. Ele insista em afirmar que sua esposa o havia traído na noite do baile de máscaras. Não foi capaz de apontar o amante da duquesa, porque afinal, ela tinha se deitado com o próprio duque - fantasiado no baile de máscaras. O padre, consternado, perguntou ao duque se, no baile, estava usando a máscara de cruzado. O duque respondeu que havia se identificado mais com a máscara do leão, e que tinha trocado a sua máscara com a do cruzado.

sábado, 2 de agosto de 2008

As portas de casa

É somente no sentido metafórico que as portas de casa estão sempre abertas. No sentido literal, estão emperradas.

A porta que liga a garagem ao quintal está trancada faz mais de ano: a chave quebrou lá dentro. Quem sente a desvantagem de não poder abrir esta porta é a pessoa que leva o lixo pra rua e o homem que troca o bujão de gás.

A porta da sala não quis abrir numa madrugada em que o Gustavo estava na sala e quis ir ao banheiro. A lingueta tinha soltado da mola e entalado no buraco do batente. O notívago acordou os meninos, que desmontaram a porta. Encostaram a porta numa parede e não se preocuparam com ela por uns dois meses. Eu, que não tinha nada com a estória da porta desmontada, fui comprar uma fechadura nova. Não ter porta da sala significava acompanhar a programação da TV, os ensaios da banda de palhaços, os ensaios dos palhaços, os >bups< do chat do Gustavo.

A porta da edícula, que é a habitação do Sales, emperrou anteontem. Fui tentar ajudar, mas não conseguimos abrir a porta. Ofereci de chamar um chaveiro, ele preferiu ficar na janela, soprando bolhas de sabão. Era a sua maneira clown de emitir sinais de socorro. Ainda não chamou um chaveiro: colocou um banquinho na janela, pra poder entrar e sair pela via alternativa.

Não chove


Naquele dia em que pedalamos com a Ana Lu, vimos essa queimada perto da estrada pouco antes da Ademar de Barros. No dia seguinte, a fumaceira era mais forte e o fogo tinha se aproximado da estrada. A fuligem das queimadas de Campinas cobre o chão do nosso quintal, entra pela janela, se deposita na roupa limpa estendida no varal. Não sei há quantos meses não chove aqui, e a galera segue queimando seu lixo e seus matos.
As árvores perdem suas folhas, as flores perdem suas pétalas, as pessoas têm problemas respiratórios, olhos vermelhos, sangramentos nasais, muita sede e agonia ao olhar pro céu.