quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Acesso negado

Recebo e-mail da lista de pós com o título: Você se desinscreveu da lista de pós. Eu não me desinscrevi, nem sabia que essa palavra era possível.
Vou à sala de computadores do IEL e digito o meu login e a minha senha. Você foi desligada do programa. Puxa, não deu nem 2 meses que defendi e já me desligaram.
Quero consultar o meu histórico escolar e ver se a minha defesa já foi homologada. Acesso negado. Mas bah, como vou ficar sabendo quando o diploma está pronto, se estou sendo sistematicamente desligada do sistema?
Vou ao bandejão, passo o meu RA pela catraca eletrônica. Luzes vermelhas acendem, Cartão cancelado. Ué, mas no cartão tá escrito que a validade vai a fevereiro de 2010! Mas o chip foi cancelado e se você quiser os créditos que estão no chip de volta, vai na DAC.
Me sinto como se fosse chutada pra fora da Unicamp.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Alforjes Decathlon

Velcro e gancho que se prendem ao bagageiro.
Cada bolsa tem as seguintes dimensões: 35cm x 32cm x 13cm. A bolsa grande é um grande saco, sendo que a parede interna é uma bolsa-envelope.
Uma bolsa se prende à outra através de velcros. Têm refletores na traseira e não são à prova d´água. Quer? Tô pedindo R$ 100,-


terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Carnaval na rua

Acabou a disposição de passar o dia todo na horizontal, lendo ou vendo filme. Era hora de sair, ver o que as pessoas fazem no carnaval de Barão Geraldo. O bloco Cupinzeiro se juntaria na Praça do Côco às 17:00, segundo a programação.

As primeiras batucadas foram levadas pelos ventos fortes que traziam a chuva. O moço no microfone anunciava o carnaval que ia espantar a chuva. Estava quente, as crianças estavam fantasiadas, as pessoas da melhor idade estavam se balançando e a chuva parecia não intimidar as pessoas. Durante as três primeiras músicas a galera sambou olhando pro céu, de braços abertos, sorrindo pra chuva torrencial. Eu já estava encharcada, e como não tenho samba no sangue, não ia conseguir manter a temperatura do corpo em níveis saudáveis. Lembrei que a previsão do tempo tinha anunciado 18mm de chuva e fui caminhando pra casa, desejando um banho quente. Fui a primeira a chegar, e quando terminei de torcer a minha roupa, todos já tinham chegado em casa.

Eu tinha reclamado pra Maíra que eu estava em casa com 3 físicos mais o Sales aprendendo a tocar serrote, e que as minhas idéias de como me ocupar tinham se acabado. Ela passou em casa de noite, pra irmos pro Woodstock (um bar). Eu não gosto de bares com adolescentes, comanda, consumação, banda de rock tocando cover, hormônios à flor da pele, bêbados e cheiro de cigarro. Mas a Maíra tinha dito que iam tocar Led Zeppelin, e isso era melhor que ouvir os sons de casa assombrada que o Sales tirava do serrote.

Cabeludos balançando a cabeça, mocinhas enchendo a cara, a banda vestida de hippie, todo mundo querendo que eu dance (dançar samba seria mais fácil que dançar aquele rock ) e beba (bebi uma garrafa de água pra sossegar os meus companheiros). Fui fortemente assediada por uma gordinha que vai começar a fazer cursinho pré-vestibular este ano. Cheguei em casa um pouco antes das 5 da manhã, fedendo a cigarro.

É, passei da idade. Vivi toda a minha adolescência intensamente entre os 15 e 16 anos. Voltar a um bar pequeno, mal-iluminado, cheio de gente vestida de preto é voltar àquela época. Bah, mas a gente vive pra frente!

domingo, 22 de fevereiro de 2009

De onde vem?

De onde vem essa determinação de ir a um lugar desconhecido e começar tudo do zero? Ela diz que vem de dentro.
De onde vem esse apego à família, essa necessidade de sempre estar em contato com a mãe? Ela diz que vem de Deus.
De onde vem a coragem de largar tudo e voltar pra casa dos pais, apesar de saber que é difícil voltar a morar com os pais depois de tantos anos de independência? Ela sabe que vem do desespero.

Foi a briga com o namorado que desencadeou tudo. Não era a primeira briga, mas essa era sobre o futuro. Ele quis acompanhá-la até a sua casa - e dormir lá. Ela nunca o havia convidado para dormir em sua cama. Sempre que ela dormia na casa dele, não dormiam nunca sozinhos: ou a irmã ou a mãe dele dormiam no mesmo cômodo que o casal. Ela era moça direita e não queria ficar falada. Foi educada em colégio de freiras e está convencida que vai casar de véu branco, desfilando a sua virgindade até o altar. Mas com esse moço ela não queria casar. Aceitou namorar com ele para sentir-se menos sozinha naquele lugar perdido no mapa.

Sente falta da família, da casa dos pais, do cachorro. Lembra que a infância foi o melhor período de sua vida. Em todas as fotos de criança ela está sorrindo e rodeada de outras crianças. Bons tempos aqueles, quando ela tinha amigos que a tratavam de igual pra igual. Agora ela tem poucos amigos e nenhum tem a idade ou a situação de vida dela. A maioria das amigas dela (que ela conheceu por conta própria e cuja amizade cultivou) volta para os filhos pequenos e o marido bruto de noite. Ela volta para a casa vazia e deixa que o vazio se aposse de seu ânimo.

Sente falta do anonimato - ou da falta de interesse dos outros pela sua vida. Sente profunda irritação quando os vizinhos demonstram que sabem da sua rotina, dos seus gostos, das suas saudades. Sente aversão por si mesma toda vez que liga no celular do namorado para avisar que chegou em casa, que está saindo de casa, que está cansada. Quando morava em república, nos tempos de faculdade, jogava-se em novas experiências e contava a quem quisesse - e porque queria, não porque lhe cobravam - a estória da noite anterior.

Foi a briga com o namorado que fez com que algo mudasse, assim, de repente. Ela não chegou a ouvir o 'click' em sua cabeça, mas as coisas de repente se encaixaram, fizeram sentido. Era como botar óculos e enxergar com nitidez pela primeira vez: isso aqui não é vida. Está convencida de que é preciso interromper o curso dos acontecimentos, suspender a rotina de trabalho e estudo e esse namorado que quer mais atenção que está disposta a dar. Quer voltar a um lugar seguro, onde conhece as coisas e gosta das pessoas. Talvez consiga decidir o que fazer da vida a partir de lá. Posto assim, não é mais uma fuga. É um retorno estratégico, só mais uma mudança de curto prazo.

Amanhã pedirá demissão de seus dois empregos, fará a rescisão de contrato de aluguel, colocará seus móveis à venda, se despedirá das amigas pelo telefone e deixará um recado curto e evasivo na casa do ex-namorado. As forças que precisa pra cumprir toda essa lista de afazeres são geradas pelo motor que a mantém em constante movimento.

Carnaval em casa



Grilo muito da hora. Origami pra mim é como um quebra-cabeça.
Passei horas na mesa da cozinha, vendo os diagramas (ou as animações, em caso de muita confusão mental e manual) das dobraduras do Origami Club.
Não creio que eu saiba fazer qualquer dobradura sem olhar as instruções, mas acho que entendi a lógica do origami.
E tudo porque a minha cicloviagem atravessando a Serra da Canastra foi cancelada.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Der Vorleser

Lembro de ter gostado muito do romance de Bernhard Schlink e de tê-lo emprestado a um dos meus alunos de alemão na época. Foi o primeiro livro que ele leu em alemão e ficou impressionado com a trama: sie konnte nicht lesen!

O filme é uma adaptação bastante fiel, ambientado em Berlin. Ver o Bruno Ganz falando inglês não me causou estranhamento, mas ver a Kate Winslet e o mocinho falando inglês devagar e extra-articulado com um leve sotaque puxado pro alemão me chamou muita atenção. Se não falam alemão, porque fingir que não falam inglês naturalmente?

Durante o filme ficou claro pra mim que essa geração que viveu a Guerra e o Nazismo ainda está mastigando a vergonha de não ter feito nada quando esteve sob o encanto do ditador que caçava judeus. Hora de cuspir isso fora e escrever uma outra história!

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

The long way home

O mesmo taxista que tinha me levado na Unir no primeiro dia de prova me levou ao aeroporto. Quando olhei na tabela de chegadas e partidas, percebi que mudaram o meu vôo e eu teria que esperar uma hora a mais que o planejado. Que idéia foi aquela de que eu conseguiria ler no aeroporto? Metade do aeroporto tem cheiro de comida, porque a praça de alimentação fica bem no meio do lugar. Há poucos lugares para os desocupados, e sempre há pessoas falando alto demais. Do lado de fora não tinha ar condicionado nem calor absurdo. Fiquei vendo a chuva cair.

Hora de fazer check-in. O seu vôo foi cancelado, senhora, porque o avião que deveria vir de Manaus não decolou lá. Aliás, devido ao tempo nenhum avião pousou aqui hoje. A senhora será acomodada num hotel e assim que tiver vôo a van busca a senhora no hotel e a senhora embarca.
Fui pro Rondon Palace, onde tinha Internet (!!!). Quando achei que eu estava muito fraca de fome, desci com o meu guarda-chuva e perguntei onde tinha restaurante perto dali. A senhora não teve o vôo retido? Sim. Então a alimentação é por conta da Gol. O nosso restaurante é ali, senhora. De barriga cheia, tentei descansar na cama do hotel. Lá pelas 22:00 acordo com o som do telefone. RRRCSCHFFFFRRRR Gol RRRRRCCCSCH mandaram avisar RRRRRCCFSCHRRR. Olha, não tô ouvindo nada, eu vou descer aí. OK. Pus o tênis, girei a maçaneta, empurrei, puxei, chutei e forcei a porta, mas ela continuava trancada. Liguei na recepção. Oi, acho que me tranquei pra dentro do quarto. Hehehe. Tô indo aí.

O vôo era das 2:15 da madrugada para Manaus, de lá para São Paulo (GRU). Não deu pra dormir mais de duas horas seguidas nem antes nem durante os vôos. Manaus é muito mais importante que eu pensava - ao menos o aeroporto é imponente. O rio (Negro? Amazonas?) que banha a cidade é imenso e tava banhado pela luz da lua. Algumas nuvens discretas faziam sombra nas águas escuras do rio.

Cheguei em São Paulo de manhã, morta de sono. Ao procurar pelo ônibus da Gol que vai de grátis pro aeroporto de Conhgonhas, topei com o motorista do ônibus da TAM que tinha me dado carona na ida (e tinha me aconselhado a lhe dar uma caixinha. Eu não dei caixinha coisa nenhuma, porque o cara fez suspense se ia me levar ou não, me levou no último minuto e ainda pediu uma caixinha. Eu tinha pensado em fazer uma caixinha de origami, mas me faltavam algumas coisas: papel e habilidade). Cheguei na casa da Olga branca de cansaço. Me enrolei num cobertor e dormi o dia todo e a noite inteira.

O trânsito monstruoso de São Paulo fez com que eu perdesse a carona que eu tinha arranjado pra vir a Barão. Ninguém espera por mim. Fui de ônibus Cometa. Na rodoviária de Campinas fui informada de que só o 3.32 passa no terminal adjunto à rodoviária. Eu queria o 3.31 e caminhei, com a mochila de quase 20kg nas costas, até o ponto. Depois de meia hora de espera, um motorista de outro ônibus olhou pra minha cara de Barão Geraldo e me informou que o ponto final do 3.31 não era mais ali. Bah, que acolhida boa!

Marcela

Uma amiga do Pablares, em quem eu nunca tinha reparado antes, estava sentada com ele mais o Renato quando eu estava correndo atrás da homolagação da minha inscrição no concurso da Unir. Através da minha efusiva falação, ficou sabendo que eu pretendia ir a Porto Velho e me ofereceu duas amigas. Uma dentista e outra fono.
Escrevi e-mail pra dentista e ela respondeu, revelando o seu telefone. Liguei e ela deu uma passada no meu hotel, pra me conhecer. Ainda queria sair de noite, mas eu tava com início de gripe. No dia seguinte ela veio me buscar pra mostrar a cidade e conversar mais. Tomamos açaí (o que ajudou contra a virose) e conversamos bastante (o que me ajudou a querer morar ali).
Marcela foi a Porto Velho sozinha e sem emprego. Conseguiu lugar pra morar, emprego pra se ocupar, planos para sonhar e um namorado pra aturar. Como ela conheceu algumas cidades do interior de Rondônia (e distingue as que ficam na BR das que não ficam ao longo dela), acha Porto Velho super pra frente. Melhor de tudo, me ofereceu um lugar pra ficar quando eu voltar e precisar arranjar moradia pra mim. E viva a Marcela!

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Longas horas


Quando chove aqui, parece que o tempo custa mais a passar. Vou embora pra casa amanhã. Essa perspectiva faz o tempo correr um pouco mais.

Aprovada

Na prova escrita, sorteei o ponto: Aspectos morfológicos da língua portuguesa: formação de palavras. Foi tranqüilo e tirei 9. Pra prova didática sorteei o pior ponto possível: As atuais concepções do professor de língua materna. Meu, passei a tarde daquele dia mais a manhã antes da prova estudando, porque eu não tenho conhecimento acumulado sobre questões de ensino. O que agradou a banca foi que eu questionei o título do ponto: concepções de quem? Dos próprios professores, dos alunos ou dos lingüistas? Língua materna pra quem? Do professor e não dos alunos ou de ambos? Por fim: que língua é éssa? Indígena? Dos imigrantes? LIBRAS, a língua de sinais brasileira? Me deram 8,9. Na prova de títulos (currículo) tirei 10, o que me mostra claramente que currículo é subjetivo e depende dos candidatos concorrentes: em Londrina a minha nota pro currículo tinha sido 3.
Estou feliz por ter passado num concurso público pra universidade federal.

Marcos de Porto Velho

O pôr do sol é um fenômeno encantador que pode ser observado de um mirante da cidade. Os mirantes são restaurantes construídos às margens do Madeira. Servem peixe frito e são cheios de homens ouvindo forró. O sol tinge de laranja todo o céu e depois mergulha na mata atrás do rio.
As três caixas d´água estão na única praça (com bancos, cestos de lixo e sombra de árvores) que eu vi até agora.
A catedral é católica, mas a maioria do povo daqui é evangélica (cristãos não-católicos em geral). Me chamaram atenção a Igreja mundial do poder de Deus, a Escola bíblica discipuladora e a Igreja da divina luz irradiante sem limites. Mas ainda assim tem mais cabelereiros e lojas de cosméticos que igrejas. Suspeito que o Deus adorado aqui tenha estética no nome.


Seu Nonato

Seu Nonato não sabe o nome de ninguém, mas todos sabem o nome do motorista falastrão e o cumprimentam alegremente quando escalam os degraus do 207 CAMPUS UNIR. Ele dá dois dedos de prosa a eles e os chama de ‘menina’, ‘minha amiga’, ‘cobrador’, ‘companheiro’ ou ‘chefe’. Seu Nonato é bonachão, gosta de agradar os cohecidos com pequenos presentes e longas estórias. Passou a maior parte de sua vida atrás do volante e aprendeu a não ter pressa na estrada.

Mês que vem Seu Nonato vai se aposentar. Já juntou umas sementes que quer plantar no sítio, já se imaginou colhendo tamarindo, pitomba e cajá. Não só as frutas, como o seu sotaque denunciam sua origem. Veio da terrinha ainda criança, junto com seus seis irmãos por parte de pai e viu seus quatro irmãos por parte de mãe nascerem aqui, no hospital militar às margens do rio Madeira. Não quis seguir o exemplo do padrasto e embarcar na carreira militar, porque logo se deu conta de que o que mais lhe dava prazer nessa vida era conversar. A partir das observações do padrasto sisudo concluiu que no quartel não se tolerava conversa mole.

Seu Nonato entra no ônibus e cumprimenta os poucos passageiros:
- Bom dia no atacado.
Assume seu posto com desenvoltura e avisa o cobrador, olhando pelo retrovisor e com o dedo indicador levantado:
- Hoje eu não vou conversar muito, não, viu, cobrador, porque dizem que quem muito fala, muito erra.
O cobrador ri, tira as moedas de um saco plástico, passa o cartão na catraca e anota números numa ficha. Seu Nonato ri de si mesmo, estica o pescoço, olha pelo retrovisor e se prepara para largar:
- É isso aí, fé em Deus e pé no acelerador.
Seu Nonato faz o ônibus mover-se para o outro lado da rua e pára, abrindo a porta para um casal de velhinhos, apesar de ali não ser ponto. Uma vez vencidos os degraus, o velhinho reclama:
- Rapaz, acabo de perder esse ônibus, o motorista passou longe.
- Não, não era, não. Porque dessa linha só tem esse ônibus, que é de hora em hora agora que é férias, mas vai mudar semana que vem, quando começam as aulas.
- Só um de hora em hora?
- É, se fosse qualquer um, tava xingando a mãe do motorista, mas como o senhor é uma pessoa educada, não vai xingar a minha mãe, não é verdade?
Divertido, o homem paga duas passagens e passa a catraca.

Começa a chover a gotas gordas e verticais. Os passageiros fecham as janelas e logo as janelas embaçam. O movimento dos limpadores de pára-brisa indica que a chuva continua lá fora. O som do motor abafa o som da chuva torrencial. O cobrador lembra de um acidente fantástico que ouvira sendo descrito no rádio. A cada frase do cobrador, Seu Nonato diz:
- Meu Deus!
O acidente foi complicado, a estória é intricada e Seu Nonato quer contar estórias de acidentes que vão despertando de sua memória a cada vez que diz:
- Meu Deus! – mas o cobrador permanece firme no propósito de descrever aquele acidente com a carreta que ouviu no rádio. Depois de várias interrupções e digressões a estória acaba e não resta um sobrevivente. Seu Nonato viaja pelas estórias paralelas. O cobrador olha pra ficha, calcula valores, preenche a ficha com esmero, fecha o caixa, pega as suas coisas e vai para a porta de trás. As mulheres no fundo dão risada do Seu Nonato que ainda está conversando:
- Cadê o botão de liga e desliga, Seu Nonato?
- Heheh, já tô eu de novo, conversando sozinho. Mas não faz mal, porque eu vou me aposentar mês que vem e não ter ninguém pra conversar no sítio. Aí tem que aproveitar agora, que tem gente ouvindo.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Madeira-Mamoré

A estrada de ferro está abandonada faz tempo. Pena, as pessoas ainda não se ligaram que o transporte de bens e passageiros via trem é muito mais ecológico e barato que o transporte por asfalto (em que é cada um por si com o seu veículo, mas o que faz a economia girar: borracharia, mecânico, venda de acessórios, carro novo, gasolina e o caramba).


Pau-Brasil


Urbanização

A urbanização de Porto Velho é uma desgraça. Muitas ruas não têm calçadas e todo mundo transita pela rua. Quando tem calçada, ou ela é no mesmo nível da rua (e o pedestre não tem garantias de que não há motos, bicicletas ou carros transitando pela calçada) ou ela é muito alta e cheia de degraus dos quais é preciso saltar. Passarela ou qualquer outra maneira de permitir uma travessia segura o pedestre não tem não.
O recepcionista do hotel me explica como chegar nos lugares mencionando os nomes das ruas. Eu só vejo placas indicando os nomes das ruas em esquinas de avenidas. De resto, é tudo meio igual.
Alguns cruzamentos têm farol, alguns faróis têm contador de tempo (40seg), mas essa não é a regra. Há algumas rotatórias que causam mega congestionamentos porque a galera não sabe se comportar nas rotatórias. Na maioria das vezes os motoristas vão enfiando o carro, buzinando ferozmente para os motoqueiros, que respondem com gestos, gritos e buzinadas estridentes.
Ciclovia ou ciclofaixa não há por aqui. Na BR tem acostamento e postes de iluminação dos dois lados até a Unir. Depois dela não tem mais.
Essa coisa de mão e contramão só funciona nas grandes avenidas, e lá só vale para os carros. Motociclistas e ciclistas não respeitam mão ou contramão. A maioria dos ciclistas é do sexo masculino, passou dos 30 anos de idade e pedala uma Barra Forte.
Tentei alugar uma bicicleta, mas sem sucesso. Ou só trabalha com bike nova ou não tem nenhuma usada (com marcha!) pra disponibilizar. Mas tudo bem, porque a cidade não é arborizada, quase não tem praças e não é bonita ou limpinha. O completo oposto de Nijmegen.

O Madeira


O Rio Madeira pasa aqui. Estão construindo duas usinas hidrelétricas nele (alagando regiões, mudando o curso das águas e tudo mais), sendo que uma está com as obras bem adiantadas. Segundo o taxista, é obra pra mais de 10 anos. Segundo a professora que está na minha banca, a cidade inchou pra caramba nos últimos 3 anos. Os hotéis estão sempre lotados - de homens que trabalham na usina. A parte ruim é que acordo antes das 6:00 com a barulheira deles, mas a parte boa é que tem silêncio absoluto a partir das 19:00.

Chuva



Na biblioteca

Senhoras e senhores, orgulhosamente apresento a estante de Lingüística da Biblioteca Central da Unir. Grande parte dela é composta por gramáticas, e os livros que estavam na bibliografia sugerida pro concurso não estão ali.
Me chamaram atenção duas coisas: os baldes e as teses & dissertações em Letras. Os baldes estavam cheios e havia água respingada em redor dos baldes. Sim, tem goteiras antigas na biblioteca. Em vez de consertar o teto, colocam baldes no chão. A Unir não tem pós-graduação em Letras, portanto não é de se esperar que tenha uma produção de dissertações e teses. Olhei pras teses e reparei que vinham, quase todas, da Unicamp. Hahaha. A Unicamp teve, um tempo atrás, um convênio com a Unir que cosistia em mandar professores pra cá, dar um curso de especialização ou mestrado e dar diploma da Unicamp (não da Unir). É possível que nessa ocasião os professores da Unicamp tenham deixado suas próprias teses e dissertações - as de seus orientandos - nas prateleiras da biblioteca da Unir.

Na Unir

Só apareceram as perninhas peludas da aranha escondida. Meu coração parou, depois pulsou com muita força quando vi essas pernas. Não me aproximei mais que isso.
Tentei mostrar cmo tudo é rodeado de mato. Me disseram que alguns alunos, pra fumar maconha em paz, se embrenham no mato. Saem de lá com malária. Eu me meti no meio do mato porque gosto dessa biodiversidade daqui e saí impressionada com a aranha, mas sem malária.
Tem uma hora que o asfalto acaba. Desconfio que o fim do asfalto coincide com o fim da Unir.
A Unir está em construção, apesar de já existir desde 1992, segundo o secretário do departamento de Vernáculas.

A caminho da Unir

O endereço da Unir Campus é BR 364, km 9,5 sentido Acre.
Não fui caminhando, porque eu não tinha idéia de quanto tempo eu ia demorar pra caminhar os quase 20km até lá. Ainda bem que tem ônibus pra essas distâncias. Pena que só passa de hora em hora...
O céu é um constante teto de nuvens baixas, mas só chove uma vez por dia, em média. Quando fica um dia sem chover, chove duas vezes no dia seguinte.
Pronto, chegamos na Unir.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Welcome to Porto Velho

O motorista do ônibus pára numa esquina, levanta do banco puxando as calças pra cima e avisando a cobradora:
- Vou comprar uns pão e já volto. Quer alguma coisa, menina? Queijo, mortadela... quer?
Ela dá risada, ele se demora na padaria, depois volta:
- Depois, menina, nóis vai fazê uma merenda.

***

Eu tinha colocado o despertador pra despertar às seis. Acordei no escuro, desliguei o despertador, fui ao banheiro, me vesti, pus os livros na bolsa e o relógio no pulso. Esse relógio marcava 4:15. Uai... Lembrei então que são duas horas de diferença entre São Paulo e Porto Velho (uma por conta do horário de verão e outra por causa do fuso mesmo). Entendi que eu não tinha mudado os ponteiros do despertador. Voltei a dormir e acordei às 5:40, com o telefone tocando. Tentei desligar o despertador, mas o telefone continuava tocando. Atendi:
- Bom dia?
- Bom dia, que horas são, por favor?
- Ãh, hm... quase seis.
- Obrigado.
Não entendi até agora o isso significou.

***

Fui tomar café e prestei atenção no rádio:
- Atenção Tiririca, na linha 362, Alzira deixa o seguinte recado para você, Tiririca. O Ceará não quis comprar toda a farinha, mas seu eu sair, vendo tudo, e que não é pra você se preocupar. Tudo bem? Não se preocupe.
O rádio funciona como enviador de recados - em público!!!!

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Meus amigos de faculdade

Estou na vida acadêmica faz muito tempo, e pretendo continuar nela por mais muito tempo, mas isso não se aplica a todas as pessoas que trilharam caminhos semelhantes ao meu. Alguns querem manter o vínculo com a universidade e nunca terminam os seus cursos, outros querem ganhar dinheiro, experiências de vida e tempo para outras coisas e pulam fora. Alguns largaram a graduação, outros terminaram a graduação mas não seguiram carreira, nem aproveitaram seus quatro anos de faculdade pra vida profissional, outros foram até a pós-graduação, para depois mudarem completamente de rumo.

Os que largaram a graduação

Um arranjou uma namorada cujo pai tinha um posto de gasolina. Virou gerente de posto de gasolina. Uma, que chegou a ter um caso rápido com esse cara antes de ele ser gerente de posto de gasolina, foi assassinada pelos vizinhos em sua casa, atrás da USP. Outra teve filhos, e para sustentá-los trabalhou como revisora de textos jurídicos. Outro, muito encantado com a mãe das duas crianças, não esperou para vê-la grávida e foi com a namorada (descendente de alemães) pra Alemanha, casar. O casamento não durou muito, nem ele não está mais na Alemanha, mas nunca mais voltou a pensar em terminar a graduação em Lingüística. Outro não teve paciência para a faculdade, montou seu próprio laboratório, e quando morreu foi promovido a físico pelo anúncio de óbito.

Os que terminaram a graduação, mas...

Uma cortou relações comigo porque achava que eu era louca, a melhor amiga dela (na época) ainda acha que eu valho a pena e ocasionalmente me manda poemas. Suspeito que as duas tenham terminado a graduação, mas a que tem o dom da escrita diz que não faz nada da vida. Não sei se está sendo poética. Outra terminou a graduação e no dia seguinte foi convocada para trabalhar numa agência de banco em sua cidade. Tinha prestado concurso 4 anos antes e aceitou o cargo no ato. Um fez Sociais e hoje é vendedor numa livraria. Fingimos que não nos reconhecemos, apesar de já termos planejado morar na mesma república. Outra, colega deste e minha colega de república por muito tempo, também fez Sociais, passou no concurso da Funai, conheceu o Brasil, pediu demissão e agora é burocrata numa universidade no ABC.

Os que foram até a pós

Um fez mestrado em Lingüística, atuou um tempo como professor substituto na USP mesmo e depois voltou a dar aulinhas de inglês. Logo percebeu que o título de mestre era pouco pra concorrer em concursos promissores. Outro, colega do vendedor de livros e co-morador daquela que depois foi pro ABC, fez mestrado em Ciência Política na França e passou no concurso pro Metrô. Agora tem uma vida confortável e continua militando no partido. Outro está num dilema dos bravos: foi chamado semana passada para assumir um cargo burocrático na Unicamp, efeito retardatário de um concurso que tinha prestado 3 anos antes. Ainda não defendeu seu doutorado, nem vê perspectivas de passar num concurso para professor universitário. Sabe que se assumir o cargo, vira um grande carimbador de papel acomodado e possivelmente não volte mais à vida acadêmica.

Os eternos estudantes

Entrei na USP em Lingüística influenciada pelas conversas com um estudante de Lingüística (amigo do físico não-formado) que estava no meio de sua graduação. Ele já foi jubilado algumas vezes, mas ainda não concluiu sua graduação: faz uma matéria a cada dois semestres. Outro, que mora na mesma república que aquele que está tentado a aceitar o cargo de burocrata na Unicamp, está fazendo duas graduações em paralelo, dando aulas em sua cidade natal e, neste momento, prestando um concurso pra chancelaria. Enquanto ele não passar no concurso ou conseguir um aumento na escola em que trabalha, continuará sendo aluno na Unicamp. Outro é mestre em Química e acaba de passar no vestibular para Filosofia. Neste exato momento, está fazendo prova pro concurso de chancelaria, com o de antes, lá. Outro, grande amigo deste último enquanto moraram juntos, tinha começado a graduação em Sociais, terminou a graduação em Lingüística, saiu do partido, começou outra graduação em Jornalismo e agora está encantado com o curso de Design (ou coisa parecida) que está freqüentando.

Tentando entender

Nossa sociedade é predominantemente urbana, portanto valoriza qualidades como educação, sucesso profissional e conforto. Saber usar as mãos para construir ou confeccionar objetos de uso prático, saber caçar, ser capaz de correr rápido, mergulhar por muito tempo, saber se vai chover (e quando) não são qualidades interessantes para uma sociedade urbana. Os filhos da classe média vão para a universidade, todos os filhos das outras classes também querem entrar na faculdade e estudar. É quase compulsório, é o que está no programa: depois da escola vem a universidade. O que vem depois da universidade é o mercado e trabalho (assim, bem genérico mesmo). Só que este mercado de trabalho não absorve bem os recém-formados, muito menos aqueles que estudaram em cursos que são pouco voltados para a aplicação prática (mas mais para o desenvolvimento teórico) dos conhecimentos acumulados. E não são muitos os que estão dispostos a abdicar de sua vida urbana e confortável para meter-se no meio do mato e dar aula numa universidade que não tem pós-graduação.
Não quero dizer que os meus amigos que desistiram da vida acadêmica em algum momento sejam loosers, desperdiçadores de si mesmo e do dinheiro público investido em sua formação mal-aproveitada. Sei que não é fácil tomar gosto pela pesquisa e ensino. O que me espanta é que tanta gente investe numa formação universitária para depois exercer uma profissão que ignora completamente essa formação. Talvez o gerente de posto de gasolina seja um grande apreciador da variação lingüística e saiba usar de suas observações para negociar com seus clientes. Talvez a moça que diz não fazer nada esteja apenas esperando pela grande inspiração que lhe dirá em que formato colocar suas idéias. Talvez o vendedor na livraria seja recompensado por saber escrever os nomes dos filósofos alemães no campo de busca do computador. Vai saber.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Empolgada

Esperei o tempo passar, pra ver se a empolgação se desfaz aos poucos, mas não adiantou. Continuo maravilhada com o Teatro Mágico. Quando passo o dia sem ouvir o Mp3, a música continua tocando dentro da minha cabeça. Parece coisa de adolescente, essa empolgação com uma banda.Dou toda a razão a Adorno, que dizia que gostar de uma música na verdade é reconhecer essa música (por isso o rádio repete tanto as músicas que toca: pro ouvinte reconhecer as músicas e achar que gosta daquilo). Reconheço muitas coisas nO Teatro Mágico: Raul Seixas, Los Hermanos, Lenine, Luis Tatit, Cordel do Fogo Encantado, Legião, Zeca Baleiro, Neil Gaiman (!), Xangai, Engenheiros do Havaí, Cat Stevens e por aí vai. Repare que as coisas que eu reconheço são totalmente desencontradas entre si e não definem, de forma alguma, O Teatro Mágico.
Tenho muita vontade de ir a um show deles, porque deve ser um espetáculo para os sentidos. O público é super participativo, a banda se apresenta como num circo, há números de palhaço, acrobacias, poesias são recitadas pelo público e com ele.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Tenta de novo

Quis comprar passagem pra Porto Velho pela Internet. Desculpe, não podemos aceitar o seu cartão. O pagamento não foi efetuado. Tentei outro cartão, de outro banco. Desculpe, não podemos aceitar o seu cartão. Fiquei com medo de pagar coisas pela Internet e fui na agência de viagens, que me cobraria R$ 120,- a mais. A moça tentou passar o meu cartão de crédito, mas não rolou de novo. Especulou que o problema fosse o meu limite de crédito. Fui no banco, pedir que aumentem o meu limite em R$ 250. Tudo bem, mas veja, a sua última atualização de cadastro foi em 2003. Vamos atualizar seus dados? Ok, qual é a sua renda atual? Zero? Puxa, então não posso aumentar o seu limite de crédito. Saí do banco me sentindo um zero à esquerda. Tive que pedir pra Olga comprar a passagem pra mim. Viu? Sou brasileira, não desisto nunca.

Meu cartão daquele banco famigerado tinha sido clonado e o meu dinheiro tinha sumido (ok, deixaram R$ 0,35 na conta corrente e R$ 3,64 na poupança). Em uma semana o banco devolveu a grana da conta corrente, mas ignorou completamente a minha conta poupança. Fiquei ligando no banco por uma semana, e no começo da segunda semana descobri que o meu caso tinha sido encerrado (por isso ninguém se mexia). O gerente do banco teve que interceder e o dinheiro da poupança me foi estornado.
Viu? Tem que insistir.

Quis fechar a minha conta neste banco, mas antes eu tinha que esperar o novo cartão e a nova senha chegarem. Peguei-os no banco, desbloqueei o cartão, fui no caixa pra zerar a conta e a nova senha não passava. A atendente de caixa ia e voltava, sempre confiante: agora vai dar certo, Lou! Ih, não deu. Só um instantinho, vou ver o que aconteceu. E sumia atrás da porta. Depois de várias tentativas, consegui sacar tudo e voltei à mesa do gerente, que pegou o telefone e me passou um cara que insistia em me chamar de senhor Lôu. Qual o motivo do senhor querer encerrar a sua conta, senhor Lôu? Ok, mas e se eu deixar a sua conta com taxa zero? Dê uma chance para o banco hoje, senhor Lôu, o senhor não vai se arrepender. O moço dou outro lado da linha repetiu três vezes o seu texto mal-memorizado, e quando ia engatar a quarta, cortei e pedi peloamordedeus pra fechar a conta. O gerente lembrou que era bom cancelar o cartão que tinha sido clonado. Mas já está bloqueado! Mas é bom cancelar, vai por mim. Pegou o telefone, conversei com um moço. Ok, mas antes de cancelar o seu cartão, eu vou falar dos benefícios deste cartão. Não, não. Já fechei a conta, não preciso perder o seu tempo. Ok, ... e a voz do homem sumia. Eu pedia pra ele falar mais alto, o gerente esticou a mão, pegou o telefone, deu umas pancadas no bichinho e devolveu. O sujeito do outro lado da linha agradeceu a preferência e me desejou uma boa tarde. Foi difícil encerrar esta conta, mas consegui.

Escrevi e-mail pra Unir (Universidade Federal de Rondônia), perguntando quando iam homologar as inscrições, porque afinal de contas estavam atrasados em relação à promessa que consta no edital. Nada. Ontem de noite publicaram a relação dos candidatos homologados. O meu nome estava na lista dos indeferidos. Motivo: não apresentou a ata da defesa. Fui no orelhão e liguei pra Porto Velho, perguntando se eu não tinha mandado a declaração de defesa. Sim, a declaração tá aqui, mas a gente queria a ata. Isso existe? Claro que sim, você deve ter assinado a ata no fim da sua defesa. Tá, vou correr na Unicamp e perguntar. Corre lá, que você tem até às 18:00 pra mandar recurso. Como assim, mandar recurso? Ora, manda a ata e explica que você não tinha mandado antes porque não tinha. Tá. Mas se vocês queriam uma prova de que eu defendi o doutorado, porque a declaração não basta? Porque no edital consta que queremos a ata. Mandei a ata por e-mail e fax, pra garantir. Liguei lá, perguntando se tinha chegado. Ela disse: sim, pode preparar a sua viagem.
Eu sou a única inscrita pra vaga de professor adjunto de Língua Portuguesa/ Lingüística, tô com a passagem comprada faz um mês. Imagina se minha inscrição não é aceita?! Foi aceita na segunda tentativa, mas foi.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Lista completa

Acabou o meu estoque de animações menores que 100MB (este é o limite do Mediafire). Estão à direita, ali em baixo.
Divirtam-se!

Cruzamentos pensados

Tem carro vindo daquele lado? Não, posso atravessar. Hum, ele me pediu um Cd com músicas nordestinas. Acho que ele quer ouvir triângulo, sanfona e letras sobre sol e chuva. Acho que eu não tenho nada disso. Quem faz música assim? Opa, ciclistas vindo na viela. Capacete, speed, roupas apertadas e coloridas. Hm, o de trás parece acabado. É domingo, devem ter dado um bom rolê na estrada.

Blérc, minha boca tá grudando de tão seca que tá. Seria tão bom mastigar qualquer coisa agora. Não, melhor seria beber um balde de água, enfiar a cara com vontade na água até a temperatura da cabeça baixar. Cadê o meu parceiro? Ele veio ou ficou no farol? Coitado, não estava preparado pra volta que a gente deu. Até eu cansei! 

Ah, não, frango cozido de novo, não! Salada de repolho cru é o fim... devia ter ficado em casa e cozinhado qualquer coisa descombinada. Ali tem lugar. Levo a mochila ou deixo aqui? Vou deixar, a máquina de chá tá perto. Opa, a Bia ali. Ela trabalha com indígenas, talvez já tenha ido a Rondônia. Trabalho de campo, sei lá. Vou lá, perguntar.

Caralho, essa gente espaçosa não vê que eu tô sentado aqui? 

Opa, desculpa. 

Ih, ó lá, não é o ciclista de ontem? Falta um capacete, óculos e a cara de sofredor, mas acho que o cabelo encaracolado é o mesmo.

Tudo bem, foi nada.
 
Ué, eu não vi essa menina esses dias? Onde? Ela faz aula comigo? Acho que não, eu lembraria dessa bunda. Que horas são? Puta, tem que voltar pro trabalho daqui a vinte e dois minutos. Vou deixar pra tomar o café lá. 

Boa tarde.
É ele!
Boa tarde. 
É ela! 
O que tem aqui dentro?  
Éh... 
É um CD?  
Sim. 
Então vai como mercadoria. Preenche aqui, por favor.  
Ok.  
Esse aqui, pra Rondônia, vai de Sedex?  
Vai.

Exemplos

Dê-me teus exemplos e te direi quem és.

Se você não souber o que significa uma certa palavra, e acha importante saber a que ela refere, você pergunta pra alguém ou vai ao dicionário. Digamos que você vai ao dicionário e que o único dicionário à mão é o Aurélio. Você acha a palavra, lê a definição e complementa o entendimento da acepção da palavra através da leitura do exemplo citado ao final do verbete. Simples, não? Não exatamente.

Em primeiro lugar, nem todas as definições de palavras vêm acompanhadas de exemplos, em segundo lugar esses exemplos são meras transcrições de trechos literários (e se chamam abonações), que por si só apresentam uma linguagem mais preocupada com a estética que com a comunicação. Quer um exemplo? Vamos lá. Abri o meu Aurélio numa página aleatória e encontrei um trecho de um verbete entre aspas: isto é uma abonação.

marola. [De mar 1.] S.f. Bras. Ondulação na superfície do mar: "Espreitou o céu enfarruscado e as marolas repetidas que se quebravam, insistentes, contra a murada" (Reginaldo Guimarães, Uma Blusa no Cais, p.24).

Perceba que a abonação (desconsidere a definição) não ajuda em nada a compreender o significado da palavra em questão. O exemplo não é didático, é apenas uma ocasião em que a palavra marola é usada por um escritor. Pela minha experiência com dicionários, posso garantir que o Aurélio só apresenta abonações (e nenhum exemplo inventado) de escritores portugueses ou brasileiros de tempos idos.

Isso aponta para o conservadorismo do próprio dicionário (ou a equipe de dicionaristas), que somente bebe na fonte do que já é considerado como literatura. Cria-se um círculo vicioso: uma palavra só existe se estiver no dicionário, e a abonação de uma palavra só acontece se existir na literatura. Lembro que quando eu tava fazendo Literatura Portuguesa, fui consultar uma palavra. A abonação daquela palavra era justamente a frase que eu não tinha entendido no meu livro do Cesário Verde.

Já que estamos no nível da palavra, seguimos com Valter Kehdi e seu manual de morfologia. Um exemplo que ele dá de palavra composta é vinagre. Ora, uma pessoa da minha geração não vê duas palavras em vinagre (vinho + acre), só enxerga uma: vinagre. Esse exemplo mostra que o autor do exemplo é um sujeito formado em Lingüística Histórica.

Passemos ao nível da sentença. Renato Basso, meu amigo, é um semanticista formal. Sua dissertação tem mais de 300 exemplos, sendo todos com o João:

João leu o livro por x tempo
João leu o livro em x tempo

O que lhe interessa é a forma (lógica), não a função da linguagem, então ele não coleta exemplos com falantes, mas cria-os.

Marcos Bagno, que é um lingüista que escreve muito sobre preconceito lingüístico, variedades do português no Brasil, língua portuguesa ou brasileira e esteve na equipe de avaliação de dicionários de que eu participei, critica as abonações feitas pelo Aurélio, por serem altamente conservadoras, lusas, consagradas e literárias. Os exemplos que ele dá são tanto sentenças criadas por ele mesmo, como abonações de escritores brasileiros vivos que escrevem de maneira próxima ao vernáculo (a língua falada), tipo Luis Fernando Veríssimo. O que Marcos Bagno quer é mostrar que o português do Brasil é diferente do português de Portugal. Não só na fala, como na escrita (culta) também.

Ingedore Villaça Koch é uma lingüista que estuda texto e escreve para um público (semi-)acadêmico. Tanto universitários como professores de língua portuguesa lêem seus livros sobre Lingüística Textual. Como ela lida com questões que transcendem a palavra (que é o caso do dicionário e da Morfologia) e a sentença (que é o caso do Marcos Bagno e da Semântica), ela apresenta recortes de textos publicados em jornal. Ora, jornal é a fonte de dados para as provas do vestibular, os exercícios em sala de aula etc. O jornal (e não a gramática prescritiva) dita as regras da língua pelo simples fato de ter tão grande disseminação e aceitação por parte do público. Esta autora quer mostrar como funcionam anáforas, catáforas, progressão referencial e textual etc. na prática, em textos informativos (não necessariamente literários).

E você já deve ter percebido que estou estudando pra mais um concurso.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Calendário colorido

A responsável pelos calendários daqui de casa sou eu. Faz parte das minhas funções na república. Ano passado usei aquarela, este ano preferi fazer colagem. Se o Renato topar, ainda inserimos umas dobraduras no calendário (ele sabe fazer origami, eu já comprei o papel).

O que me intrigou é que eu reconheci o estilo da minha mãe na minha colagem. Diz aí, a parte aí de baixo não podia ter sido feita por você, Ma?

Matei o maracujá

Antes e depois: impressionante.
O maracujá estava fora de controle, atormentando os vizinhos idosos, ocupando metade do nosso varal, fechando a janela do quarto do Caldo e Gustavo e provavelmente comprometendo a calha. Agora que eu já colhi o que deu pra colher, que não vem mais flor e que as chuvas de verão começam a arquitetar goteiras dentro de casa, era hora de podar o maracujá. Fui podando até deixar só o caule - que ficou pingando.

Se eu tivesse visto outra pessoa podando o meu maracujá desse jeito, eu teria ódio dessa pessoa enquanto eu respirasse. Se eu visse o resultado e soubesse quem foi o feitor, eu teria mágoa dessa pessoa até o fim da vida. Por isso foi melhor que eu mesma matasse o maracujá. É possível que ele volte (Fênix), mas já não estarei mais aqui pra fotografar suas flores e colher seus frutos. Sales me ajudou com a parte em cima do telhado. Eu já quebrei o pé uma vez caindo das alturas, prefiro não subir no telhado.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Caráter em jogo

Não me lembro bem se li ou ouvi (audiobook) essa hipótese de que se tem acesso direto ao caráter de uma pessoa ao se observar o comportamento dessa pessoa durante um jogo. Lembro que era a tese central de um romance. Soa a O Jogador do Dostoiewsky, mas podia muito bem ser outro escritor russo (pelo tom dramático).

Percebo que as pessoas se entregam emocionalmente quando envolvidas em jogos, principalmente jogos de cartas. Nestes jogos, todos estão sentados à mesa, próximos uns dos outros, podem observar as reações dos outros quando olham suas cartas, calcular como ordenam as cartas na mão, perceber suspiros e contrações das mãos e sobrancelhas quando algo supostamente corriqueiro acontece na mesa.

O tipo de jogo determina quais sinais são relevantes para serem observados. Quando houver muitas cartas na mão do jogador, é interessante observar as mãos do jogador. Penso em Doppelkopf: como a pessoa deposita a carta na mesa? Com desprezo, segurança, raiva, ou indecisão? De onde saiu aquele Ás de ouros? Da ponta ou do meio (trata-se de um Schweinchen ou simplesmente de um Fuchs?)? Se saiu da ponta, tem outra carta igual aí, caramba! A dupla vira o trunfo mais alto do jogo! Se saiu do meio, é só um Fuchs. Como a pessoa recolhe as cartas que acabou de ganhar? Jogando a carta seguinte na mesa antes de recolher o monte ou recolhendo-o devagar, ordenando as cartas, para depois retirar, com dois dedos, uma carta da mão e depositá-la na mesa fazendo-a estalar? Quando os pares de Damas de paus se acham, é interessante observar o rosto do parceiro. Aquele Dez descontextualizado foi um presente, pedido de socorro ou uma rendição? Neste jogo o que conta são as cartas. Em segundo plano vem a tática de jogo. Não é possível liderar uma rodada de Doppelkopf com cartas ruins, mas é possível ler nos sinais do outro quão ruins são as cartas que segura.

Poker é um jogo bem diferente de Doppelkopf, em vários sentidos. Tem-se duas cartas (na memória, não é nem na mão), e a partir dessas duas cria-se combinações com as cartas que são gradativamente abertas na mesa. Não adianta observar as cartas do oponente, porque ele não as descarta, ordena ou mesmo segura na mão. Vale observar o rosto do outro jogador quando ele vê suas cartas (um par de Áses, Reis ou de cartas do mesmo naipe costuma alumiar levemente o semblante da pessoa). Muito mais que isso, vale observar como as pessoas se desafiam mutuamente. No Doppelkopf não existe blefe, ao passo que um bom jogador de Poker precisa justamente saber provocar o outro na medida certa, sem ter de mostrar as suas cartas. É nesse ponto que transparece o caráter da pessoa. Eu era iniciante e queria, para fins didáticos, ver as cartas de quem tinha ganhado a rodada. Eu não blefava quase nunca, por não ter desenvolvido essa habilidade e por me ancorar nas cartas. Se eu apostava alto, é porque as cartas eram boas. Joguei em modo seguro e tive um desempenho médio. Um outro jogador, que se manteve no jogo por muito tempo, mas não ganhou, se atirava nas apostas: eu aposto 10 milhos*, sem nem mesmo olhar as minhas cartas. Na vida real, ele faz o mesmo: abusa de muitas coisas e agradece à Nossa Senhora Tecnologia pelo desenvolvimento de Engovs, Aspirinas, Dorflex e outros consertadores químicos. Quem ganhou o jogo (terminado depois de 5 horas de intensa atividade) foi um cara que soube ler nas minhas apostas altas as cartas boas que me faziam selecionar um número alto de grãos de milho*; e nos olhos do outro as boas ou más cartas que abria.


*Não jogaríamos por dinheiro e não tinha feijão ou fósforos na casa. Usamos milho de pipoca.

Didiridum

Os meninos fizeram um didiridum (faça o exercício mental de cruzar um berrante de bambu com aquele instrumento longo que os aborígenes australianos sopram). Simples: arrombaram um bambu por dentro com uma vara de ferro, revestiram a boca com cera de abelha e pronto.
Régis ensinou a tocar o instrumento posicionando três quartos dos lábios na boca do didiridum. Ele, que já treinou bastante, consegue soprar aquele som grave pela boca e respirar pelo nariz, sem que uma atividade atrapalhe a outra. O som do berrante dele é mais grave que o do Sales, sendo tocado pelo Renato na foto acima.