segunda-feira, 22 de abril de 2013

Frio

Faz frio aqui. Faz muito tempo que eu não sentia frio. Ando agasalhada em mangas longas faz mais de semana. Quase não vejo meus braços e pernas. Contra a pele ressecada, tenho cremes e contra a insônia tenho cobertores e meias de lã. Mas e a memória de temperaturas mais amenas? Não lembro do que é sentir calor, usar roupas curtas, suar e reclamar do sol.

Meu pé direito dói. Faz anos que eu não sentia dor no pé. E agora os sete parafusos de titânio reclamam da baixa temperatura. Ainda não estou mancando de dor. O inverno ainda não chegou.

Ontem fui no supermercado às 4 da tarde e trouxe um frango congelado. Botei na bacia e em cima da pia. Cinco horas depois, estranhei que não havia juntado água na bacia. O frango continuava congelado.

Espero muito que Luis passe o inverno comigo, porque o frio sem ele me parece maior.

domingo, 21 de abril de 2013

Saberemos se mentes?

Nas nossas andanças de bicicleta pela região, pedalamos por estradinhas de terra e sempre voltamos pra casa com frutas colhidas pelo caminho. As bergamotas e os limões cravo colhidos na última excursão continham uma quantidade surpreendente de sementes. Cheguei a ouvir a frase: "De agora em diante, só consumirei limões com sementes". Semente é vida - e garantia de ausência de transgênicos.

Como pode ser conferido no documentário Sementes da Liberdade (2012) feito pela Gaia Foundation em homenagem a José Lutzenberger, houve um momento na história (mais precisamente em 1995) em que foi inaugurada a possibilidade de se patentear microorganismos ou processos microbiológicos. A Monsanto patenteou sementes geneticamente modificadas para resistirem a um pesticida que mata tudo, exceto essa semente geneticamente modificada. Vandana Shiva fala de um 'casamento' entre a semente e o pesticida.

Em outro documentário, O mundo segundo a Monsanto (2008), de Marie-Monique Robin, a mesma Vandana Shiva explica que a diferença entre a Primeira e a Segunda Revolução Verde é que na primeira, o setor público dirigia a "missão de alimentar o mundo faminto" e estabelecia os critérios de segurança alimentar, ao passo que na segunda, uma única empresa assumiu esse papel. A diferença é apenas uma questão de gradação, porque as pessoas que pressionavam o governo a agir eram pessoas ligadas à empresa ou as duas coisas, como o caso do elaborador da regulamentação do FDA que foi o vice-presidente da Monsanto. Público e privado se misturam a ponto do setor privado determinar as ações do poder público em nome da economia, do crescimento e progresso.

A questão não é escassez de alimentos no mundo. Sabemos que é produzido um excesso de alimentos - que não chegam aos que morrem de fome. Ecoando a fala de Virgínia Fontes no Seminário Marx: Criação destruidora, traço o paralelo: A crise atual na Europa não se dá em tempos de miséria e penúria, mas no auge do consumismo. A lógica da acumulação de capital cria essas discrepâncias entre o pornograficamente excessivo e o vergonhosamente ausente.

A centralização de sementes na Monsanto se dá através da patente: para se precaver contra o estoque de sementes por parte do pequeno agricultor, a Monsanto vende suas sementes mediante assinatura de um contrato em que o agricultor se compromete a não guardar sementes, nem distribuí-las. Via de regra, as sementes criadas e comercializadas pela Monsanto são inférteis, ou seja, geram plantas que não desenvolvem novas sementes. E quando dão sementes, a segunda ou terceira geração não dá frutos. Como a relação entre a Monsanto e o agricultor se dá pela via do contrato (e quem compra semente é obrigado a comprar o pesticida específico pra semente junto), o surgimento de plantas geneticamente modificadas em plantações de agricultores que não compraram as sementes da Monsanto significam apropriação indevida.

Assim a Monsanto passou a controlar plantações de agricultores que não tinham controle sobre a contaminação de suas plantações por plantações de transgênicos de vizinhos. Seja por que via for (pólens no ar, sementes carregadas por animais de uma plantação a outra, água do lençol freático etc.), apareciam plantas transgênicas em plantações de agricultores que desde sempre usavam sementes nativas (crioulas). Foram considerados culpados. E assim se quebra as pernas do pequeno agricultor.

O agronegócio envolve tecnologia. Por envolver tecnologia para exploração dos recursos naturais, tem recebido incentivos financeiros enormes - que por sua vez justificam ajustes jurídicos às necessidades desse setor tão produtivo. O aumento da produção para exportação "para saciar a fome do mundo" anda junto com o aumento do uso de produtos químicos nocivos (agrotóxicos, hormônios, antibióticos etc.) que causam doenças e destroem o meio ambiente.

A destruição do meio ambiente não se dá apenas no nível da poluição, mas na eliminação da biodiversidade. Sementes têm um tempo de validade. Se não forem plantadas antes do fim desse tempo, não germinam. Quando os agricultores são seduzidos pelo sonho da alta produtividade e plantam sementes estéreis ao invés de sementes nativas, as sementes indígenas se perdem junto com a tradição. Quanto menos diverso, mais vulnerável se fica.

No documentário O veneno está na mesa (2011) de Sílvio Tendler, vislumbramos outras estratégias da empresa de transgênicos e pesticidas casados para firmar posição. Quando o agricultor vai pedir empréstimo ao banco, se vê obrigado a comprar sementes transgênicas e todos os produtos que a acompanham. Se não, o banco não libera o dinheiro. E quando os agricultores morrem contaminados, são culpados pela empresa de usar mal o defensivo agrícola. E a empresa se defende prometendo ensinar a aplicar o veneno.

A última estratégia da Monsanto para dominar o setor alimentar através da exclusividade das sementes transgênicas é descreditando os cientistas que provam que seus produtos são tóxicos, pouco seguros e ecologicamente insustentáveis. Manipulação genética é ciência do tipo que não se faz em casa. É preciso acreditar em quem tem as condições e os meios para realizar pesquisas desse naipe. Faltar com a verdade ou manipular dados para obter resultados que sustentam interesses privados é tão antiético como roubar sementes.

domingo, 14 de abril de 2013

Quem é afásico aqui?

Desde o início do ano, participo de grupo de convivência de afásicos na UFSM, coordenado pela Elenir. Além dos sujeitos com afasia e seus familiares, participam dos encontros (no sentido de planejar e executar atividades) alunas de Fonoaudiologia e Terapia Ocupacional. De linguista tem eu; as outras são terapeutas. Enquanto eu olho pras soluções comunicativas dos sujeitos afásicos, elas olham pros déficits deles para que elas possam classificá-los e pensar em soluções.

Ficamos assombradas quando o sujeito diz 'múmia' em vez de 'pirâmide', mas as nossas parafasias viram motivo de piada: depois de uma dessas longas reuniões, uma aluna chegou pra Elenir pra combinar detalhes referentes ao congresso em Pato Branco. Pato Branco? É Porto de Galinhas!

Outra manifestação afásica é a incompreensão de piadas, por exemplo, que no IEL rendeu teses e dissertações. Lá foi coletado um dado do tipo: "Feliz o Adão, que não teve sogra" - ao que o sujeito afásico reagiu: "Por que? Ele não casou?"

Na reunião passada, uma das atividades envolvia receitas culinárias. Caiu uma receita na minha mão, que eu tinha que ler em voz alta. Na lista dos ingredientes tinha lá '3 ovos inteiros'. Em outro tom de voz, perguntei se era com a casca (dos ovos inteiros). E não é que a aluna de Fono me explica com toda a paciência do mundo que 'ovo inteiro' significa gema + clara?

Lembro da Christine definindo criança a partir da observação dos próprios filhos: "Eles fazem tudo que a gente faz, só que quando eles fazem, fica engraçado." Quando a gente erra, fica engraçado; quando os afásicos falam, tudo vira dado.


quarta-feira, 3 de abril de 2013

Os cicloativistas

Saí do estado de São Paulo em 2009, ano em que deixei de participar da agenda cicloativista. De lá fui pra Porto Velho e Santa Maria, dois lugares em que não encontrei outro cicloativista.

Desde então não me reuni mais com pessoas preocupadas em divulgar a bicicleta enquanto meio de transporte e as regras de trânsito que a concernem (tanto para motorizados como para não-motorizados). No meu círculo, essas pessoas eram ligadas ao Cicloviável, o grupo que tínhamos em Campinas. Pra mim, esse grupo foi uma plataforma de discussão sobre mobilidade urbana. Outra forma de ativismo que encontrei na época foi a bicicletada paulista. Logo percebi que muitos dos participantes da bicicletada produziam, na internet, material sobre a bicicleta enquanto meio de transporte.

O meu cicloativismo sem os outros se resume ao uso da bicicleta. Decidi que não quero ter um carro (assim como não quero ter uma televisão) porque não quero me tornar dependente dele. Simples assim. Usar um carro implica em custos (gasolina, manutenção, IPVA, licenciamento, estacionamento etc.), poluição do ar, maior ocupação da via pública por um bem privado (o que se mostra grave nos engarrafamentos) e stress. A responsabilidade pela vida do outro é maior quando se dirige um veículo motorizado.

Não é fácil entender esse cicloativismo. É a terceira vez que alguém diferente no meu prédio toca a campainha da minha casa perguntando se eu uso a minha garagem. As pessoas olham pra minha vaga e concluem que ela está livre, já que ela está ocupada por três bicicletas aparentemente invisíveis. Na verdade, agora são cinco, porque dois outros moradores resolveram abrigar suas bicicletas na minha vaga espaçosa.

Os cicloativistas de hoje são pessoas que decidiram não usar carro. E isso é difícil de entender numa sociedade em que é natural que todos tenham carro. A oferta gera demanda: a casa prototípica vem com a garagem, as ruas são asfaltadas e largas para acolherem carros, é possível adquirir um carro mesmo sem ter dinheiro para pagá-lo.

Os cicloativistas de hoje são de classe média, ou seja, poderiam ter um carro. Ao invés disso, usam a bicicleta e, através do exemplo, esperam gerar demanda por infraestrutura para a bicicleta como meio de transporte seguro na cidade. Alguns deles não esperam, vão lá e dialogam com o poder público, marcam entrevista com o prefeito às 6 da manhã. Renata Falzoni relata sobre essa entrevista aqui.

Os cicloativistas de hoje são indivíduos (agindo de variadas maneiras, pensando por escrito em seus blogs). Não necessariamente fazem parte de um coletivo, muito menos sob a liderança de qualquer guru. Em 2009, me debati muito com o tema da horizontalidade na bicicletada paulista. Dionizio e eu não acreditávamos nessa horizontalidade e desconfiávamos que havia (não um líder, mas) um grupo que direcionava a massa crítica. No podcast acima citado (e indicado pelo Dionizio), Renata Falzoni confirma nossas hipóteses: "Esse movimento, que é horizontal, até sem a minha aprovação - mas quem sou eu pra aprovar".

Por fim, os cicloativistas de hoje não querem ser identificados como esportistas. Recentemente li um texto de uma professora do IEL em que ela critica o encantamento dos ciclistas com o movimento Cycle Chic, que consiste em usar roupas "chiques" quando se pedala. Sabendo da multiplicidade de cicloativistas e sabendo que a autora do texto desconhece o movimento, vejo o cicloativista entre os dois extremos: nem esportista, nem de terno e gravata ou salto alto, mas de acordo com a ocasião. A bicicleta é meio de transporte, então, se o caminho leva ao parque, roupas esportivas são adequadas; se o caminho leva ao trabalho, roupas de trabalho são adequadas.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Acabou em pizza

Objetivamente falando, eu sei que pizza boa se come em São Paulo; mas é claro que isso é subjetivo. Pois o fato é que a geladeira tava tão vazia e a chuva tão fria, que recorri a um dos panfletos de tele-entrega de pizza no Camobi. Escolhi aquele que tinha as cores menos gritantes, as letras menos garrafais e o papel menos brilhante. Vi que eles tinham opções de combos (com refrigerante, com sobremesa, com sei lá o que), mas não estudei nenhuma delas, afinal de contas eu queria pedir uma pizza.

Liguei. O sabor que eu queria não tinha, porque o abacaxi tinha acabado e era possível que o rapaz não voltasse a tempo, já que a encomenda era grande e tava chovendo. Escolhi outro sabor; a outra metade era de tomate seco com rúcula. Achei o valor meio salgado, mas na verdade o quilo justo se comparado com os preços de São Paulo.

Ouvi a buzina, abri a janela, vi um vulto e uma moto, abri a porta, cheguei no portão e vi que o cara equilibrava um bujão de gás no ombro.
- Eita, eu pedi pizza, não gás.
- Ah, moça - frustrado por fazer força à toa, ele depositou o butijão no chão.
O moço achou quem abrisse a porta pra ele, eu voltei pra dentro de casa. Em seguida, tocou a campainha. Duas motos, um vulto de mochila quadrada e o portão aberto.

A primeira coisa que o rapaz tirou da mochila quadrada foi uma garrafa de Coca-Cola. Não pedi refrigerante. A segunda coisa que ele tirou do isopor fumegante foi uma pizza gigante. Não pedi gigante. A terceira coisa - me dou conta agora - que ele deveria ter tirado da bolsa quadrada é o saquinho de rúcula; mas a pizza veio sem nada de verde.

Entendi que nessa pizzaria, eles funcionam em piloto automático - e o que a gente pede, não interfere muito na vida deles. Justiça seja feita: a pizza estava ótima, pena que o que sobrou não cabe na geladeira (e só amassando muito, coube no forno. Ainda bem que está frio).