segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

O limite entre ficção e propaganda

Ainda fico escandalizada com a publicidade (merchandising, branding, product placement) massiva presente em obras de ficção. No cinema, o primeiro choque foi com o Náufrago, que me pareceu ser uma grande propaganda da FedEx (e das bolas Wilson). Na literatura, o susto foi no 1Q84, em que Haruki Murakami descreve a cor, o tamanho, a textura - e marca (!) de um montão de objetos.

Recentemente vi um pouquinho de televisão (no celular!) e fiquei impressionada com as propagandas. Talvez elas tenham sido planejadas para serem engraçadas. Além de não conseguir ver graça, eu não vi sentido (tipo coerência e coesão, que garantem a boa tessitura da peça) e achei tudo meio aloprado. Mas havia um denominador comum: os comerciais se esforçavam muito para contar uma história - mesmo que ela não tivesse nenhuma relação palpável com o produto que aparecia no final.

Luis Fernando Veríssimo publicou, no Comédias da Vida Privada, uma crônica chamada D. Leonor; em que a personagem principal passa, de repente, durante o café da manhã em família, a anunciar os produtos à mão para uma câmera invisível. Neste texto, o autor faz com que o discurso publicitário invada o discurso familiar, causando estranhamento no marido e filhos - e humor no leitor.

Mas como esse texto é lido? Por coincidência e sorte, encontrei um texto de Vilma de Sousa justamente sobre a leitura desse texto do Veríssimo. Para o seu espanto (e meu também), os quatro leitores desse texto que ela entrevistou não entenderam a intenção crítica do autor, sendo que três disseram que era normal a mãe de família só querer os melhores produtos para a família dela.



Terminei de corrigir as resenhas dos meus alunos de Publicidade e Propaganda sobre um curta de José Roberto Torero chamado A alma do negócio (1996). Não consegui incorporar aqui a versão que está no portacurtas.org.br, por isso tive que buscá-la no Youtube (onde, por ironia do destino, o curta vem introduzido por um anúncio publicitário).

Quando assistimos ao curta na sala de aula, a primeira pergunta (imediata) foi: esse é um comercial da Band-Aid? Ou seja, alguns alunos interpretaram o texto ficcional como sendo uma peça publicitária. Quando li suas resenhas, percebi que as fronteiras entre ficção e propaganda estão se desintegrando para os jovens bombardeados por propagandas (narrativas).

Alguns contaram o número de produtos anunciados, outros verificaram a autenticidade dos produtos anunciados, muitos cronometraram o tempo de cada anúncio e avaliaram que estavam dentro do padrão, outro confessou sentir vergonha pelos efeitos toscos, os clichês e estilo over. Alguns tomaram o curta como laboratório para aprender como não fazer comerciais, outros apresentaram teorias da Comunicação, outros explicaram a fidelidade que consumidores têm em relação a marcas.

A maioria entendeu que o curta era uma crítica ao consumismo, à invasão do discurso publicitário na vida privada e cotidiana e à felicidade que é constantemente associada a cada produto anunciado. Alguns refletiram sobre suas futuras profissões, um se confessou confuso e abalado por ter que refletir sobre o caminho profissional que escolhera. Um punhado escreveu sobre ética: via de regra em termos abstratos (é preciso ser ético); mas um me intrigou, porque citou Zeca Pagodinho (que foi garoto-propaganda de uma marca de cerveja e depois de outra, concorrente) como anti-ético.

Vinte anos atrás, quando eu sabia os nomes dos jogadores do Corinthians, eu me espantava com a fidelidade dos torcedores ao time. Mas nunca considerei os jogadores que mudavam de time como anti-éticos. Por que se espera que alguém, que recebe dinheiro para fazer propaganda para um determinado produto, use esse produto fora dos comerciais? A estratégia de vestir a camisa (ou fumar o cigarro, como fazia o Marlboro Man) não é regra, afinal, não é o produto que interessa.

A vida privada mesclada com a ficção já é difícil de desentranhar. Percebo que atualmente, na mídia, a ficção se mescla com a publicidade. E a publicidade se mescla com a vida privada.

domingo, 12 de janeiro de 2014

Coração

Acordei às 4 da manhã. Estava disposta para o novo dia - mas o dia ainda não tinha chegado. Tirei o veneno contra mosquitos da tomada, lavei as mãos e fui no banheiro. Não me pareceu adequado tomar café e começar o dia em plena escuridão.

Voltei pra cama, me cobri e fechei os olhos. Mas o sono não vinha. Mudei de posição, passei a ouvir a minha respiração e continuei esperando o sono. Pensei como costuma ser fácil adormecer ao lado do Luis: entro no mundo do sono escutando o seu coração (e o meu).

Fiquei com saudades de ouvir o coração do meu marido e com pena de mim por não conseguir dormir. Tentei escutar o meu coração. Senti o pulso, mas não havia movimento ali. Concentrei as minhas atenções nos batimentos, mas não ouvi nada no silêncio da madrugada.

Acho que o meu coração está no Rio, no coração do Luis.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Burocracia e violência

Era madrugada quando Luis e eu compramos a minha passagem de volta de Cachoeiro para o Rio (onde eu pegaria o avião para Porto Alegre, de onde eu pegaria outro ônibus para Santa Maria). Junto com o RG, guardei a passagem no bolso da calça - que foi pra máquina de lavar na manhã seguinte. Enquanto a máquina trabalhava, consegui pescar o RG. Mas a passagem não foi localizada.

Voltamos na rodoviária, explicamos que a máquina de lavar desintegrara a passagem e pedimos uma segunda via. O supervisor me disse que me daria uma segunda via se eu apresentasse um BO em que constasse o código da passagem extraviada. Pra facilitar, ele indicou o endereço da delegacia online em que eu podia fazer o boletim de ocorrência.

Fiz o boletim de ocorrência e relatei que a passagem tinha sumido na máquina de lavar. Recebi resposta por e-mail afirmando que o meu BO foi indeferido, "pois não houve perda, mas dano". Deu vontade de responder que os farelos de papel que consegui encontrar nas roupas não configuravam exatamente uma passagem danificada. Respirei fundo e decidi não apelar para a violência verbal.

Fomos até a delegacia de polícia, prestar BO. A delegacia que Luis conhecia tinha fechado e fomos, debaixo de chuva e trânsito lento, até o outro lado da cidade. O homem sentado atrás do computador não sabia onde estavam os formulários de BO, digitava como quem se depara com um teclado pela primeira vez, estudava a procedência do RG do Luis e acompanhava com muito mais interesse todos os casos circundantes: os três presos que tinham chegado e estavam enfileirados na parede, aguardando uma decisão; a mulher que vinha prestar queixa do genro que bateu na filha e levou a neta embora; o casal de turistas que tinha sido roubado, sabia que a moto estava no pátio aguardando perícia e tinha passagem de volta marcada naquele dia; a mulher que queria levar o BO impresso, feito no dia anterior.

O nosso caso parecia tão banal e irrelevante perto dos outros todos. Pedindo que constasse o código da passagem no relato do BO, Luis adotou uma postura de militar diante do burocrata que paulatinamente descobria as teclas do computador - e como se preenche um BO. Ficamos uma hora naquela delegacia, expostos à violência com que são tratados os cidadãos pobres e mal informados. Ficamos chocados com a burocracia anestesiada que se traduzia em machismo e impedia qualquer gesto de empatia.

Voltamos na rodoviária com o BO na mão. A moça que emitiu a segunda via no guichê me perguntou se eu tinha perdido a passagem ou se eu tinha sido assaltada. Expliquei que tinha perdido a passagem na máquina de lavar e ela concluiu, aliviada: "então não houve violência".

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

A nova família

Dona Hermelinda e suas filhas: Mariinha e Madá
Paulo nos buscou no aeroporto de Vitória e nos levou no carro da Madá para Marataízes, onde todos os Cachoeirenses se refugiam do calor que faz nessa época do ano na cidade natal de Roberto Carlos. E em Marataízes a casa estava cheia. Os pais da Madá (ambos muito perto de completarem 100 anos), acompanhados pelas enfermeiras, dois irmãos (Matheus e Mariinha com família), Rafael, Madá e Luis Alberto estavam lá.
Luis Alberto e Gabriela, a neta de Mariinha

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Virada megaevento

Luis e eu nos despedimos com calma de Lucena e voltamos pelos coqueirais (e não pelo ferry-boat) para João Pessoa. Almoçamos e cortamos cabelo para terminar o ano velho e começar o ano novo bem e conseguimos nos comunicar com o Ninno por telefone.

O drama do telefone foi o seguinte: Luis tinha ganhado um telefone moderno (touch) de Natal, mas o devolveu pra mim, porque achou que teria dificuldades para manusear o aparelho. Digitar naquele teclado era difícil, atender chamadas foi um drama (que botão se aperta - e como?), coordenar os chips uma agonia (que saiu cara).

Conseguimos aprender a usar o telefone quando tivemos que combinar com a locadora de veículos a devolução do carro. Como a agência fica na beira da praia - que ficaria interditada por causa do réveillon - marcamos lugares e horários alternativos. O último combinado foi deixar o carro no estacionamento do aeroporto. E como ninguém receberia o carro, o horário da devolução ficava meio a nosso critério - contanto que antes da partida do avião.
Lírio aos 4 de quatro por Angry Birds
Seguimos as direções recebidas e paramos num bar perto da universidade para ligar pro Ninno. Estávamos a duas quadras de sua casa e fomos recebidos pelo Ninno e Lírio.
Ninno e Renata
Além da surpresa de ver o Lírio desse tamanho e tão a cara da Andréia, tivemos outras várias surpresas, como por exemplo encontrar o Luis Lafuente, ex-aluno meu da Unir, hospedado ali e reclamando do calor de Porto Velho. É que no Nordeste tem brisa... ou, formulado de outra maneira, ele era infeliz e não sabia.
Luis Lafuente
Passamos grande parte do tempo na casa de Ninno e Renata descansando, recobrando forças e baterias. O nosso voo partiria às 2 e meia e o plano do Ninno era que fôssemos todos à praia, ver a queima de fogos. Até que cada um tomasse banho, arrumasse cabelo, até que a comida no forno ficasse bem assada, demorou mais que o planejado. Luis estava com mais medo que não conseguíssemos voltar a tempo de pegar o carro estacionado na frente da casa do Ninno que eu, que ouvia do Ninno que daria certo e ouvia do taxista que em meia hora dava tempo de chegar da praia no carro.
Na cozinha-sala tem um balanço. Foto: Luis
Entramos todos num táxi e fomos pra beira da praia, olhando sempre no relógio. O trânsito estava pesado, mas não parado. Caminhamos bastante no calçadão até os amigos de Ninno e Renata e tivemos 5 minutos de espera até a meia-noite (que já tinha passado no resto do Brasil em que há horário de verão). Demos um abraço de feliz-ano-novo e de despedida nos nossos anfitriões e refizemos o caminho até o lugar onde pretendíamos pegar um táxi.

O trânsito fluía, esse não era o problema. O problema foi achar um táxi vazio. Todos estavam com passageiro, os pontos de táxi tinham deixado de existir e os pontos de ônibus estavam lotados, assim como os poucos ônibus. O tempo passava e o nosso desespero foi aumentando. Sabíamos que o nosso carro estava no Castelo Branco, o que dá uma corrida de R$ 40, mas não sabíamos o caminho, nem tínhamos meios de chegar até lá. A sensação de impotência era similar à que tivemos em Gramado, no Natal Luz, quando saímos para buscar os pais do Luis depois do Nativitaten e acabamos presos no trânsito parado por uma hora numa noite de frio. E eles lá, na beira do lago, passando mais frio ainda, esperando por nós.

Luis teve a ideia de abordar o primeiro que víssemos entrando num carro e pedir que nos levasse pelo dinheiro que tínhamos no bolso até o carro no Castelo Branco. Mas demorou pra isso acontecer. E quando aconteceu, já era 1 hora da manhã. O casal de velhinhos que nos ouviu, sentiu o desespero de perder o avião na nossa voz. Com toda a calma do mundo, nos levaram até o carro e receberam de bom grado os R$ 43 que nos restavam.

Claro que eu errei o caminho até o aeroporto uma vez e tive que pedir informações duas vezes (parece que estou desenvolvendo meu senso de desorientação e parece que ele tem picos em momentos de estresse). Claro que nos arrependemos de termos nos metido em outro evento de massas perto da água com queima de fogos com o tempo contado. Claro que aprendemos (na marra) a evitar multidões e megaeventos. Promessa de virada de ano: nunca mais ler horóscopo. O meu e o do Luis tinham alertado para evitar multidões na virada. O horóscopo se mostrou mais eficiente que a previsão do tempo!