Caminho do Sol com chuva



Fevereiro de 2006

Essa foi daquelas aventuras em que nada saiu como planejado, e é possível que tenha sido assim porque não houve muito planejamento...

No fim-de-semana Olga e eu tínhamos pensado em caminhar um trecho do Caminho do Sol. O Caminho do Sol começa em Santana do Parnaíba e termina em Águas de São Pedro, depois de 10 dias de caminhada. Comentei com o Carlos (ciclista), que já tinha feito o Caminho do Sol de bike que Olga e eu queríamos caminhar um pouco, e ele sugeriu que não começássemos em Santana do Parnaíba, porque a estrada é de asfalto e asfalto não é legal pra caminhar.

Decidimos nos encontrar de tardezinha em Pirapora do Bom Jesus, na frente da maior igreja da cidade, pra não perder a tradição estabelecida durante a caminhada pela Estrada Real. Às 15:00 peguei ônibus de Barão Geraldo pra Campinas, lá peguei outro pra Itu. Perguntei por ônibus pra Pirapora, mas só tinha de noite, às 22:30.

Um taxista da rodoviária de Itu sugeriu que eu pegasse “o Gruta” e fosse até Cabreúva, a 26 km de Pirapora, e de lá pegasse um táxi. Fui no ponto do Gruta e esperei naquele calor de derreter o asfalto. Um moço dos dentes podres, pés estourados, feridas abertas e pus saindo do dedão sentou do meu lado e conversou. Me olhou através dos seus óculos de fundo de garrafa e disse que queria ir pra Pirapora também, que morava em Cabreúva, mas não podia ficar lá, porque estava jurado de morte. Um cara tava afim da sogra dele e jurou ele de morte. Nem ele tinha entendido muito bem como isso tinha acontecido, mas o resultado é que não podia voltar pra Cabreúva. Chegou o ônibus “Gruta”, o moço fedido sentou do meu lado, mas viu que eu não tava dando muita bola pra ele e logo sentou-se em outro lugar.

O que é que eu diria pra esse moço? Que eu estava animada pra caminhar no Caminho do Sol? Que eu estava disposta a passar o dia todo botando pé ante pé na estrada de chão – e que não tava pagando promessa nem querendo chegar a algum lugar? Que eu estava aflita com a chuva se armando no céu cinza? O moço jurando de morte tinha outros problemas.

O ônibus percorreu a Estrada Parque: uma via estreita de asfalto, estreitada pelo mato abundante, sem acostamento ou marcações de qualquer tipo, escura por causa do mato. A estrada acompanha um rio caudaloso e chocolatoso.

Choveu. De repente o mundo pra fora da janela embaçada do ônibus estava branco, de tanta água que caía em torrentes do céu. O ônibus deu meia volta no meio da pista e os que queriam ir pra Cabreúva tiveram que pegar o outro ônibus que já estava à nossa espera. Na baldeação, molhou tudo.

Chegando na rodoviária de Cabreúva, eu e o moço que queria ir pra Pirapora olhamos pros horários dos ônibus. Pra Pirapora só às 23:30. Era o mesmo que saía da Itu às 22:30. Esperar até aquela hora na rodoviária de Cabreúva, debaixo de chuva, na companhia de um moço jurado de morte, enquanto a Olga esperava na porta da igreja matriz a 26 km não me pareceu um bom plano.

Um táxi entrou na rodoviária. Fui perguntar preço, enquanto dois peões entravam no carro. Usavam chapéu de vaqueiro e bota de couro, tinham rugas no rosto e calos nas mãos, e cada um carregava um saco com coisas indecifráveis. O taxista sugeriu que eu acompanhasse os dois homens e depois fosse pra Pirapora. Tudo bem. Deixamos os dois cabras que estavam voltando de uma matança de cupins. Um deles havia perdido o facão, com bainha e tudo - que miséria! Não quero nem saber com que técnica se mata cupim em Cabreúva.

Depois que eles saíram, não fui pro banco da frente porque ainda estava chovendo, aí o taxista resolveu passar na casa dele e perguntar se a esposa queria ir com a gente pra Pirapora. Tinha sido operada recentemente e tava à toa em casa, "assim vê se distrai". Ela topou e fomos os três pra Pirapora do Bom Jesus. Chegando em Pirapora, logo achei a igreja e a Olga na frente dela. Eram 19:00 e chegamos juntas.

Tocamos a campainha da Pousada Casarão, que parecia ser a mais confortável. Nada. “Tá vendo, se tivesse feito reserva, teria alguém lá!” Fomos no Hotel Cirino, logo em frente. “Ah, não dá, hoje é dia de limpeza, não tenho quarto disponível. Tenta lá no Veneza.” Pirapora é um ponto de romaria, por isso tem três hotéis.

Rapaz, que muquifo. Tinha dois andares de quartos, todos cheios de beliches daquele tipo que você acha que não pode espirrar se estiver em cima dele, que ele desmonta. Não tinha uma cadeira, armário, mesa ou prego: nada além dos beliches. Abundavam camas com colchões furados, disformes, mofados e velhos demais. As paredes eram mofadas do teto ao chão. Da janela dava pra ver o rio. O rio Tietê com todas as garrafas e lixos que São Paulo lhe deu. O homem do hotel procurou por um quarto em que houvesse um banheiro. Achou, mas o chuveiro não estava funcionando. Alojou-nos no quarto em que ele mesmo estava dormindo. Sim, trocou a roupa de cama, deu uma varridinha no banheiro e pronto. Onde ele dormiu, eu não sei.

O rio Tietê se movia de maneira assustadoramente lenta. Aquele fedor e lixo progredia vagarosamente, numa velocidade hipnótica. É que havia um cadáver no rio. Não sabiam onde, então fecharam as comportas. Assim o fluxo diminuiu, a velocidade se tornou controlável e acharam o morto, inflado como um balão, perto do Veneza. Ainda bem que a gente não viu essa cena de pescarem o homem. Desgraça tem limite, né!

Enquanto a chuva chorava lá fora, eu dormi de roupa, me segurando pra não me mexer. Olga roncava na outra cama, os homens conversavam no bar lá embaixo. Eu pensava no mofo todo à minha volta, sentia o cheiro de cachorro molhado da cama, esgoto do rio e chulé dos sapatos. Sonhei coisas escuras.

Na manhã seguinte, o homem tinha feito café super doce e colocado um saco de pão duro, do dia anterior, na mesa. Apalpei o pão. Ele sorriu sem graça e foi ver se a padaria já tinha aberto. Buscou pão quentinho, e até colocou margarina na mesa.

E a chuva sussurrava lá fora.

Caminho do Sol... Caminho da Chuva, isso sim!