sábado, 31 de outubro de 2009

Die Welle

Quem já viu o filme sabe que não se trata de uma nova onda de nazismo. Quem já leu a respeito sabe que o filme tem um predecessor americano de '81 chamado The Wave, que é baseado num livro, que relata os fatos acontecidos num experimento em '67 na Califórnia. Em Palo Alto, um professor vivenciou um experimento chamado The Third Wave com os seus alunos.

A pergunta central do filme Die Welle é se ainda hoje regimes autocráticos (facistas) são possíveis. A humanidade já passou pelo III Reich, Mussolini, Franco, Stalin, Mao, Getúlio e tantos outros ditadores. No entanto, a idéia de um grupo disciplinado tomando o poder parece atraente.

E é aí que Die Welle fica interessante. O grupo de alunos que integra Die Welle se veste de maneira igual (camisa branca e calça jeans), tem um logo (a onda), comunga um cumprimento (símbolo da onda feito com o braço direito), segue uma disciplina (pedir a palavra, levantar-se quando fala) e um líder (o professor). Esse grupo de alunos tem apenas Die Welle. Eles não têm uma ideologia, uma agenda, um programa de ação. Não pretendem exterminar, salvar ou revolucionar nada. Quando os alunos escrevem sobre a Welle, relatam que finalmente fazem parte de um grupo, que não são mais vistos como 'o turco', o 'ossi' (alemão oriental), 'o riquinho que não tem amigos', 'a mocinha insegura na sombra da amiga', 'o nerd que tenta ser amigo mas não é cool'. Todos são iguais agora e fazem parte desse coletivo que é facilmente identificável.

Não sou socióloga para saber em que momento da história os cidadãos passaram a indivíduos. Não tenho dados sobre o número de pessoas jovens que vivem sozinhas (eu sou uma delas, mas não sei do resto, só sei de mim). Não sei até que ponto a individualidade precisa chegar para se transformar em egoísmo e depois solidão. Fazemos parte de uma sociedade de consumo, não admitimos mais dividir/reutilizar/reciclar coisas. Compramos, cada um por si, produtos novos que descartamos depois de um tempo. Estamos gradualmente perdendo o contato com a Natureza e o Coletivo.

Lembro de uma propaganda para a tecnologia wireless que me impressionou muito. A câmera mostra o sol na linha do horizonte. O horizonte é desenhado pelo contorno de uma montanha em cima da qual se estende uma corrente de pessoas que se dão as mãos. Como a fonte de luz está atrás das pessoas, apenas vemos vultos pretos. A câmera se aproxima lentamente e - de uma vez - as pessoas soltam as mãos. A música entra, triunfante, e um sorriso beatificado enfeita o rosto de cada um. Uma voz de fundo anuncia: wireless.

A propaganda glorifica a independência (do cabo) e autonomia/ mobilidade (da pessoa). Não lance raízes, não se prenda, seja móvel e independente.

Pois é, somos seres sociais. Nos sentimos acolhidos num grupo. Não vejo Die Welle como um filme que apenas mostra um experimento que fugiu do controle e te força a pensar sobre regimes autoritários e a fragilidade da democracia. Vejo o coletivo como ímã para os indivíduos e motor que dá força para ações estúpidas que os indivíduos não conseguem justificar depois.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Frustrações no banco

Na porta das agências dos bancos há um aviso sobre o horário de funcionamento. Agora, em virtude do horário de verão adotado em Brasília (e o ponto de referência para horários de banco é Brasília), os bancos no Norte passam a funcionar das 8:00 às 13:00.

Além de funcionar uma hora a menos que nos outros estados, fecha muito cedo.

Abro a porta e me deparo com um mar de gente. Passo a porta giratória e penso que estou na Índia. Tem tanta gente, que nem consigo identificar onde se pega a senha ou onde é o caixa.

Volto para a sala dos caixas eletrônicos. Cinco caixas de madeira ocupam a sala. Imagino que sejam novos caixas eletrônicos. Já estão lá, na mesma posição e fechados, faz duas semanas, no mínimo.

Fora das caixas de madeira, há 7 caixas eletrônicos. Dois são para depósitos, um é para cheques, três são para saques e o último está desligado. Dos caixas de depósito, um não imprime. Dos caixas para saque, um apresenta defeito no botão direito de cima, do outro acabou o dinheiro.

Há uma placa avisando que os clientes devem formar fila única, mas há duas filas para saque até acabar o dinheiro de um caixa eletrônico. Aí todos fazem fila única para operarem o único caixa que cospe dinheiro.

Os analfabetos dependem dos funcionários que usam camisetas amarelas e são requisitados por pelo menos 3 pessoas ao mesmo tempo. Toda vez que a tela muda, cutucam o funcionário que está atendendo um aglomerado de gente em outro caixa.

Pacientes, lemos as mensagens que aparecem na tela dos outros:
Senha não confere
SALDO INSUFICIENTE
Imprimindo próxima página.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Contorcionista

Ela tava dormindo concentrada, quando um barulhinho de asas de inseto a despertou. Seguindo o bichinho, se meteu entre a grade e tela.





Sozinha, não conseguiu voltar pra dentro de casa. Tive que sair, dar a volta na casa e lhe dar apoio para os pés. Neste momento, está caçando uma mariposa que vive pousando perto do computador. Estou numa zona de alto risco!

terça-feira, 27 de outubro de 2009

_oo_le

Google indica um caminho no jungle
Doodle é o mapa do labirinto do ego
Moodle é tão atrativo quanto noodle
Poodle agrada à madame, não ao frugal

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Microphone abuser

Já falei mal do curso de web design em Ensino à Distância. Desisti do curso na tarde do segundo dia e sinceramente não me importo se não receber o certificado. Quem resistiu bravamente e seguiu o curso, beneficiando-se (apenas) dos coffee breaks que ofereciam banquetes tropicais, porém requintados, esperava que o palestrante propusesse alguma atividade, alguma prática, qualquer coisa que o tirasse da posição sonífera detrás do microfone.

Me disseram que antes da pausa para o almoço do último dia, ele de fato propôs a tão esperada atividade. Ficou combinado que depois do almoço os grupos apresentariam suas discussões e seus resultados. Mas depois do almoço o homem continuou agarrado ao microfone e o tempo foi se encaminhando, sem dó, para a reta final do curso.

Antes que o tempo se esgotasse completamente, a coordenadora do curso e pessoa que trouxe o palestrante, tomou-lhe o microfone. Informou que a realização deste curso era pra ela a realização de um sonho, falou um pouquinho de Educação e chorou. Chorou, chorou, chorou, como diz minha amiga. No microfone, claro.

* * *

Hoje o feriado antecipado do dia do funcionário público era ponto facultativo, ou seja, semi-feriado. O ônibus da linha Unir - Cidade baixou o número de viagens pela metade, nenhum professor deu aula, nenhum funcionário trabalhou. Não obstante, o curso de Contação de Histórias não foi cancelado.

E lá fui eu, aprender técnicas de contar estórias. A palestrante nos tratou como crianças de 5 anos, cantou musiquinhas de saudação, "que bom que você veio", disse que Einstein era o pai da Química moderna, que devíamos relaxar e nos conectar com a gravidade da Terra, que Deus era Luz e que ela tinha dado esse curso em Massachusta, Estados Unidos.

Passou uns slides com imagens de Jesus azul, Jesus com a coroa de espinhos e sangue escorrendo pela testa, anjinhos derrubando um balde de estrelas, Jesus e uma pomba gigantesca, cachoeiras, Jesus verde, flores, Jesus com criancinhas alegres. Por cima dessas imagens estavam palavras: mensagens profundas e ensinamentos sobre como a catequese é um momento ideal para se contar histórias.

Contou algumas estórias (bíblicas, claro) enquanto gesticulava com os dedos e nos fazia imitar seus gestos, enquanto manipulava um lenço com um nó no meio, enquanto vestia seus braços com duas meias de bolinhas, enquanto cantava musiquinhas de louvor. Nos botou de pé, em roda, imitando os gestos um do outro, enquanto cantava uma musiquinha repetitiva no microfone.

Depois do intervalo, abdicou do microfone. Nos propôs uma atividade: montar um livro. O meu ficou não muito diferente de todos os outros.

Todos nós recortamos e colamos e pintamos o material que nos foi entregue. Esse livro, como todos os outros livros-tartaruga, tem 3 páginas em branco. Estória que é bom, ninguém tem.

domingo, 25 de outubro de 2009

Ligações químicas

Fora Vagner e eu, todos na mesa são químicos. O que segue é uma breve apresentação dos meus queridos químicos e suas ligações.
Miyuki e Wilson. Ela é descendente de japoneses, como se vê, ele é de Maringá (PR). Miyuki é a mais festeira de todos; Wilson tem sido o meu guia em assuntos financeiros e burocráticos da universidade. Myiuki e eu trocamos figurinhas sobre a condição de morar sozinha. Wilson me assusta com histórias sobre germes, bactérias e vermes.
Wilmo veio de Araraquara e fala um R tão retroflexo quanto o meu (aqui eu percebo o quanto eu falo caipira). Toda a nossa programação noturna atrasou em função dele, que estava passando creme no cabelo.
Vagner, filósofo e natural de Porto Velho, com a Ana Carolina, minha ponte com os químicos. E o Ruy (que morava na minha república) é a minha ponte até ela. Ana esteve recentemente em Barão, por causa do doutorado dela, e por coincidência encontrou com o Ruy. Trouxe um abraço dele.
Como não é difícil de perceber, Vagner e Ana Carolina formam um casal. Vagner tinha planos de voltar para a cidade natal dele, prestou concurso na Unir, foi aprovado mas não conseguiu tomar posse porque não tinha graduação em Filosofia (mas em História), como pedia o edital. A rigor, ele deveria ter sido barrado logo na inscrição.
Enfim, quando chegamos na choperia, ele estava conversando amigavelmente com o terceiro colocado, que tomou sua vaga. Esse filósofo tem um nome complicado, mas todos o chamam apenas pelas duas primeiras sílabas de seu nome. Já me deu carona e é super simpático. Gaúcho, estuda Hegel em alemão.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Pneu furado

Alguns professores do meu departamento e eu estamos assistindo a um curso sobre como fazer Educação à Distância. Como o curso prega ação mas só apresenta teorias, conceitos e o que não se deve fazer, não estamos cumprindo o curso integralmente e estamos fugindo do curso para dar nossas aulas na Unir.

Foi assim que me despedi das minhas colegas no centro e fomos pra Unir. Elas foram cada uma no seu carro, eu fui de Amarilda. Ana Rosa passou por mim buzinando. No fim da primeira subidona, notei que o meu pneu traseiro estava furado. Sempre fura o traseiro. E demorou pra furar esse pneu! O acostamento é muito mais sujo do que permitiria a minha sorte de trafegar por ali ilesa durante um mês e meio. Tirei o alforje da bicicleta, as ferramentas do alforje, a roda da bicicleta, o pneu da roda, o caco de vidro do pneu.

Se não sou eu a passar pelos peões de obra da BR 364, eles passam por mim. Dessa vez não me chamaram de 'princesa' (nem nada daí pra cima - ou pra baixo, dependendo do ponto de vista). Um deles gritou do alto do caminhão: aê, companheira, furou o pneu? Outro ofereceu ajuda.

Heloisa passou, parou, preocupada, deu ré e quis colocar a minha bicicleta no carro dela. Como só faltava encher o pneu e botar a roda de volta na bicicleta, rejeitei a oferta. Terminei de encher o pneu, ela segurou a bicicleta enquanto eu mirava a gancheira, ela entrou no carro e eu montei na bicicleta. Na descida antes da última (de duas) subidonas, ouvi um barulhinho atrás de mim. Como não estou acostumada a ter celular, não me liguei que era alguém querendo falar comigo.

Quando eu estava prendendo a Amarilda na grade do bloco dos departamentos, Ana Rosa veio do estacionamento em minha direção. Geane tinha ligado pra ela dizendo que eu estava na estrada, com a bicicleta no chão. Pediu pra ela ir me socorrer. Foi, não me achou e voltou. Quando cheguei no departamento, o meu chefe respirou aliviado. Geane também tinha ligado pra ele (que depois ligou no meu celular enquanto eu vinha), dizendo que eu estava na estrada, com a bicicleta totalmente desmontada e precisando de ajuda.

Achei legal que o peão me chamou de 'companheira', identificou logo que o pneu tinha furado e se solidarizou com a minha situação. Achei sintomático o drama que os meus colegas fizeram por não identificarem o meu pneu furado. Foi como se eu lhes tivesse dado a oportunidade para dizerem: Tá vendo? Eu te disse! É muito perigoso andar de bicicleta em Porto Velho! Sua bicicleta pode cair no chão e se desmontar!

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Se non è vera, è ben trovata

Recorto aqui trechos de um texto de Fernando de Barros e Silva intitulado Nós, o gorila e a máquina budista, publicado na Folha de S. Paulo em 13/02/2000 e parte integrante do livro Prática de Texto, de Faraco & Tezza (2008: 166, 167) que os meus alunos de Inglês e Espanhol adotaram para o curso de Produção de Textos e Revisão Gramatical.

História que me foi contada por um amigo durante as férias: um zoológico norte-americano queria fazer cruzar um casal de gorilas, tarefa, como se sabe, complicada para muitos animais postos em cativeiro.

Depois de várias tentativas frustradas, surgiu a idéia de driblar a ausência de libido do casal de primatas colocando na jaula uma grande TV, que exibiria um documentário com gorilas copulando na selva, em seu hábitat natural. Seria uma maneira de, quem sabe, estimular o apetite sexual dos semelhantes.

Coisa típica de americano, o vídeo pornô dos gorilas não surtiu o efeito desejado. Macho e fêmea não se entusiasmaram diante da engenhoca. A TV, no entanto, provocou alteração inesperada no comportamento do gorila macho. Desligado o documentário pornô, o aparelho de TV permaneceu na jaula durante mais algum tempo. E, diante dele, o gorila, sentado e prostrado, olhando fixamente para a tela vazia, absorvido horas a fio pelas profundezas do nada.

[...]

Não havia jornais, mas numa das pousadas onde costumávamos comer, debaixo de um grande quiosque redondo feito de palha, ela estava lá: uma imensa TV, que permanecia o dia inteiro ligada. Na Globo, obviamente.

[...]

(...) A TV funcionava com antena parabólica e, durante os intervalos comerciais, a tela permanecia a maior parte do tempo negra, sem sinal, idêntica à que cativou o nosso gorila. (...) Quase sem exceção, ficávamos às vezes 20 ou 30 pessoas com o olhar fixo diante da TV, como que hipnotizados, à espera da volta do sinal, das imagens, quando a hipnose recomeçaria seu novo ciclo. (...)

Com a história do gorila e as cenas da Bahia na cabeça, já de volta a São Paulo, fui reler um artigo de Hans Magnus Enzensberger, crítico, ensaísta e poeta alemão (...).

[...]

(...) [O texto conclui] que o espectador sabe que ela, a TV, "não é um meio de comunicação, mas um meio para a recusa da comunicação", um "método bem definido de agradável lavagem cerebral", que funciona como "higiene pessoal" e "automedicação" - a "única forma universal e amplamente distribuída de psicoterapia". O televisor, diz Enzensberger, "é uma máquina budista", diante da qual a extrema concentração do espectador se confunde e se torna indiferenciável da mais elevada dispersão, ambas reunidas numa espécie de "absorção hipnótica".

Não há dúvida de que a conclusão de Enzensberger é radical, tipicamente alemã - "exagerar é a minha profissão", dizia Max Weber. Mas dá muito o que pensar quando observamos a família em estado de nirvana involuntário diante da novela, ou a fúria do adolesccente zapeando com o controle remoto na mão. O que, afinal, eles estão vendo?

O gorila tinha algo a nos ensinar quando, em sua catatonia, parecia embevecido pelo nada da TV.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Poluição luminosa

Em São Paulo não dá pra se observar estrelas, porque elas não se deixam ver. Não que elas sejam tímidas ou fiquem acanhadas com tanta gente olhando pra elas, nada disso. Não é possível discernir a Via Láctea com os pés na metrópole porque a cidade é muito iluminada.

Além dos postes de iluminação que clareiam as ruas, as casas estão praticamente todas iluminadas de noite (sendo que muitas das luzes ligadas não estão contribuindo para que a pessoa se oriente, leia, costure etc., mas são meros sinais de que a casa está ocupada), os outdoors luminosos piscam, as vitrines das lojas fechadas continuam emitindo e desperdiçando luz, os automóveis iluminam ainda mais o seu caminho. Confesso que depois de ficar uns anos fora de São Paulo e voltar depois da lei do Kassab proibindo a poluição visual, tive dificuldades para me orientar de noite. Os outdoors luminosos que me indicavam que eu estava na metade do caminho para casa haviam sumido. Mas essa restrição da poluição visual ainda não resolve o problema da poluição luminosa.

Achei que tivesse mais sucesso na aventura de observar as constelações celestes em Porto Velho, que não é tão grande e iluminada como São Paulo. Esperava finalmente poder aplicar o meu guia de astrononomia e mapear as constelações no céu noturno. Pro meu espanto, reconheci apenas as mesmas estrelas que eu já conhecia do céu paulista: as que compõem o Cruzeiro do Sul, Orion e o planeta Vênus. A Via Láctea não se faz visível por se destacar como uma mancha clara no céu escuro, porque o céu não é escuro.

Guilherme de Almeida escreveu um trabalho interessante e ilustrado sobre poluição luminosa. O desperdício de luz, que ilumina partículas de poeira/ fumaça suspensas e também ilumina as nuvens
  • nos impede de apreciar as estrelas;
  • nos custa dinheiro (pagamos a taxa de iluminação pública);
  • contribui para o aquecimento global (a energia gerada vem de usinas de grande impacto ambiental);
  • desequilibra ecossistemas noturnos;
  • não nos deixa dormir tranquilos.
E eu, que achava que ia me meter no meio do mato, estou rodeada de poluição luminosa, do ar (as queimadas do lixão atrás da Unir cobrem o mundo com uma névoa grossa), das águas (estão construindo a Usina Hidrelétrica no Rio Madeira e todo mundo chama isso de progresso) e sonora (principalmente no fim de semana o vizinho de trás me perturba o dia inteiro com o som de funk carioca da pesada e forró: as bandas se chamam Calypso, Calcinha Preta, Desejo de Menina e por aí vai).

domingo, 18 de outubro de 2009

Experimento improvável

Tirei o domingo pra corrigir as redações dos meus alunos. Para melhor administrar as minhas turmas, guardo todo o material referente às minhas turmas em pastas diferentes. Abri uma pasta e dela caíram papelzinhos da aula passada. Li o que estava escrito naquelas tiras de papel, rasgadas de diferentes cadernos e lembrei da aula de produção de textos.

Eu tinha que ensinar sobre coesão e coerência, sobre como um texto é tecido, sobre como nada pode ficar deslocado ou sobrando no texto. Queria mostrar como todos os fios do texto precisam estar entrelaçados. Em vez de analisar textos incoerentes ou ruins, quis que produzissem textos. Quis que criassem coerência a partir de contextos improváveis.



Inspirada nesse jogo de auditório, pedi que os meus alunos anotassem frases, que dois colegas colocaram no bolso e leram em momento oportuno. As frases anotadas pelos alunos me surpreenderam um pouco, porque eram grandiosas demais pruma cena numa boate:

A leitura como instrumento para levar a cidadania.
O homem é fruto do meio em que vive.
Não pergunte-me se sou capaz, dê-me a missão.
Tudo que vem, tem uma razão.
A fé move montanhas.

Mas o jogo deu certo e eles sentiram na pele o que é o esforço de fazer um texto coerente.

Horário de verão

O telefone tocou às 8:15 aqui, mas em Gramado, minha vó me ligou às 10:15. Se o domingo não tivesse amanhecido nublado, minha vó não teria me tirado da cama. Enfim, agora são 2 horas que me separam da região sul (além dos vários mil quilômetros).

sábado, 17 de outubro de 2009

Festa dos professores

As pessoas do sindicato dos professores fizeram propaganda da festa, abaixaram o preço do ingresso de 25 pra 15 pila, fizeram e divulgaram a lista dos participantes (160 inscritos) e dispensaram os alunos na noite após o dia do professor. Eu ainda tenho duas aulas (de sexta à noite) com os bibliotecônomos. Achei que seria egoísta da minha parte dispensá-los pra ir numa festa.

Na quinta, avisei lá no sindicato que eu já tinha aderido, pagado e tudo, mas sentia obrigação de dar aula. Não, que é isso! Seus alunos foram dispensados. Desconfiada, fui à procura do departamento de Biblioteconomia. Eu precisava dos diários de classe e confirmar essa dispensa. Conversei com ex-chefe do núcleo que abriga a Biblioteconomia (que ainda não tem departamento). Um figura. Quis me mostrar o Projeto Pedagógico do curso, elogiou os alunos, me deu conselhos e confirmou que os alunos provavelmente tinham sido dispensados.

Na sexta eu estava no dilema de ir à Unir pra dar aula às 19:00 ou à festa no Clube Ferroviário (centro), que começava às 20:00. Confiei que os alunos tinham sido de fato dispensados, não preparei a aula deles e me deitei na rede com um livro até a hora da festa. Fui de bicicleta, sem vestido mas com salto alto.
Rapaz, como é ruim chegar numa festa cheia de espaços vazios e rostos desconhecidos. Fui reconhecida por uma professora do meu departamento e convidada para sentar na mesa com eles (ela, marido, irmão e cunhada). Falar dos pepinos do departamento não rolava, e quando falaram da construção que estavam fazendo, eu não acompanhava. Quando a banda começou, todas as conversas calaram porque era impossível competir com o som alto e desafinado que nos ensurdecia. Nos pusemos a observar as pessoas que chegavam.

Distintas senhoras sufocadas em espartilhos vermelhos, senhores barrigudos de camiseta e tênis, filhas de professores metidas em vestidos esquisitos, mulheres exageradamente maquiadas, homens notoriamente tingidos. Senti falta de todos os professores jovens que entraram recentemente na universidade. A velha patota bebeu a noite toda, comeu às 22:00, dançou até perder o fôlego, se homenageou mutuamente no microfone e traçou planos de candidatura à reitoria em particular.

Como eu já sei que ano que vem será tudo igual (até a comida), vou preferir dar aula na noite da festa dos professores.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Será?

Será que essas mudinhas que estão vindo serão um dia o maracujá doce que eu tanto quero ter no meu jardim? Sobreviverão ao calor, será? Será que não são ervas daninhas? 

desculpem, fotos perdidas para todo o sempre...

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Foi

Todo o trânsito diminuiu a velocidade, foi.
Todos precisavam ver o corpo estendido no chão
As crianças se empoleiravam no muro da escola
Era um cacho de crianças olhando na mesma direção

Os passantes procuraram pelo carro, moto ou bicicleta
Onde estão os cacos de vidro, a lataria amassada?
Foi acidente, não foi?
Nada disso compunha a cena que hipnotizava os coleguinhas
O menino atropelado estava sozinho
Quando foi.

De olhos fechados, a cabeça amparada por um homem
O menino deixava seu corpo metido num uniforme azul e branco
Pra apreciação geral de amigos e desconhecidos.
Mais um se foi.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

O causo da bicicreta

Publicado

Depois de muita aventura e emoção, longas discussões, reuniões de quase 12 horas de duração, tardes tensas na porta do setor jurídico, recalculações infinitas dos prazos que compõem o calendário, revisões ortográficas de última hora e algumas noites mal dormidas, conseguimos publicar o edital do Mestrado em Letras.

Não sei se eu vou dar aulas no mestrado a partir do semestre que vem, mas certamente vou trabalhar durante o processo seletivo. Terei que, juntamente com mais 4 professoras novas, receber e homologar inscrições, ler projetos de pesquisa, elaborar a prova, corrigir as provas, atribuir projetos a docentes, avaliar pedidos de recurso e aguentar as minhas dores de cabeça.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Livros nas prateleiras

Meus dedos estão levemente estourados. Os buraquinhos abertos pelas ferpas da madeira que lixei já cicatrizaram, as manchas de verniz o thinner já levou, as bolhas causadas pela chave de fenda ainda estão pra se formar. Tudo isso porque eu fabriquei as prateleiras para os meus livros. Tive que fazê-lo não só porque eu gosto de marcenaria, mas porque não encontrei nenhuma estante de livros em todas as lojas de móveis que visitei. No final das contas, gastei R$ 195,- em material e tive os fins de semana e dias de espera dos móveis preenchidos.

Olhando assim, até parece pouco livro. E é mesmo. Dei muito livro embora, vendi outros tantos e não cobrei vários emprestados de volta. Fora isso, os quadrinhos, mapas e guias de viagem, livros de arte e livros da minha infância estão na estante da sala.

Agora tenho várias caixas de papelão obsoletas. Talvez ainda tenha uma idéia mirabolante do que fazer com elas. Não tenho pressa. Espaço é o que não falta aqui.

Quando as caixas de livros sumiram, Akari ficou sem o mirante dela. Daí eu fiz uma prateleira pra ela, tipo uma Fensterbank, pra ela acompanhar as atividades dos passarinhos.

Jungle Park

Tem vezes que é preciso que alguém me tire de casa. Alguém que me liberte dos prazos que eu mesma me impus, alguém que me coloque de volta na roda do convívio entre amigos. Em Barão Geraldo, esta pessoa era a Maíra. Sempre me salvava em momentos de escrita de relatório, artigo, tese e outras coisas cabulosas.

Aqui em Porto Velho, foram os meus amigos químicos (Miyuki e Wilmo. Ana Carolina está em Barão Geraldo e Wilson tem medo de mato) que me tiraram de casa. Fomos pro Jungle Park Salsalito, a 30km daqui, em direção a Cuiabá. Trata-se de um parque às margens de um rio. O parque oferece chalés, restaurante flutuante, passeios de barco, cavalo, trilhas etc. e tal. E o estacionamento, pasmem, custará R$ 45,- a partir do mês que vem. Pena que eu esqueci de levar a máquina fotográfica, pra registrar a minha primeira e última excursão ao Jungle Park.

sábado, 10 de outubro de 2009

Coisa de homem

Na loja de materiais de construção eu perguntei se eu era capaz de instalar um chuveiro elétrico sozinha. Esses caras já me venderam furadeira, serrote e martelo, entre outras coisas hard core. Sim, me disseram, você consegue. Expliquei que a tomada era 220. Xi, não vai dar, ele respondeu, porque eu não tenho a tomada.

Dias mais tarde, voltei naquela mesma loja com uma tomada na mão. Se você colocar a tomada no chuveiro, eu levo. Viu? Os homens servem para aplacar o meu medo de circuitos elétricos.

Pendurei o chuveiro pelo cano porque o peso dele fazia com que emborcasse. Preciso pensar numa solução esteticamente mais viável...


Os móveis que eu tinha visto em 3D na loja vieram em versão 2D pra minha casa. Na verdade foi mais complicado, porque o caminhão veio no dia em que desisiti de esperar por ele. Depositaram as minhas quatro coisas na varanda do vizinho e foram embora. Na manhã seguinte, Leandro e eu transportamos os meus móveis em versão compacta pra minha casa. Hoje vieram os montadores. Demoraram exatamente 3 horas pra montarem a estante e o armário. Eu certamente teria demorado 3 dias.

Comprei o cano e registro para o butijão de gás, que instalei no fogão novo. Mas e agora? Posso simplesmente desenroscar o registro do fogareiro e enroscar o do fogão, sem que o gás vaze? Nem consegui tirar essa dúvida sozinha, porque não tive força pra desenroscar o registro do fogareiro. Fui na Fogás e pedi pro homem fazer uso da sua força. Só isso mesmo? Perguntou, ao sair daqui. Homem, você fez muito mais do que eu seria capaz de fazer!

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Why? Tell me why

Comprei fogão, ventilador, armário e estante na sexta de tarde. Sábado não conta como dia útil, então a contagem do prazo de 48 horas pra entrega começa a contar a partir da segunda. O vendedor me disse que os meus móveis poderiam chegar na segunda, já que eu fazia parte do grupo de risco (pessoa que nunca está em casa). Não fui pra Unir na segunda. Não participei da reunião de organização da Semana de Letras (pra qual fui convocada no domingo).
Minhas quatro coisas não vieram ontem, segunda. Hoje o vendedor me disse que as minhas coisas estavam no caminhão do Alan, que tinha acabado de sair. Era possível que a entrega ainda acontecesse de manhã. Não saí de casa o dia inteiro. E na Unir, enquanto isso, teve reunião sobre o edital do Mestrado em Letras que deveria ter sido publicado faz uma semana e não foi. Fiquei presa em casa e nada de fogão, ventilador, armário, estante.
Where did you go?
Why, tell me why do you not treat me right?

* * *

Quando ouço o telefone tocar, já assumo que é engano. E na maior parte das vezes é mesmo. Atendentes com vozes pasteurizadas pedem pra falar com [nome e sobrenome lidos devagar e com timbre titubeante]. Mas a senhora conhece [nome e sobrenome]?
Na ligação de hoje, uma voz de telemarketing me deu as boas vindas na BR Turbo. Perguntei o que era isso, e ela disse que se tratava do meu provedor de internet, que custava só R$ 7,90 por mês. Fui atacada por uma súbita confusão mental aguda. Eu já tenho provedor, e é a UOL. Ela retrucou que consto como cliente ativa na BR Turbo desde 11 de setembro de 2009 e que a cobrança virá na conta telefônica. Insisti que eu não contactei a BR Turbo em momento algum, que não fechei contrato com eles, que não assinei nada, que não entendo por que nem como virei cliente deles. Ela sugeriu que eu cancelasse a assinatura na BR Turbo. Foi o que eu fiz. Mas pelo visto o processo é lento e alguém de lá vai me ligar nas próximas 48 horas pra confirmar o cancelamento.
Quando desliguei o telefone, olhei na minha super agenda. Dia 11 de setembro o meu telefone foi instalado. Eu ainda não tinha internet, nem sabia que teria que correr atrás de provedor. Tenho cá pra mim que isso é enganação da Oi (ou Brasil Telecom), já que a conta da BR Turbo vem na conta de telefone.
I´m looking through you
Why, tell me why do you not treat me right?

* * *

Adivinha onde estarei amanhã, depois de amanhã e na sexta? Na Unir, isso mesmo. Os meus móveis estão pagos, mas só me serão trazidos num futuro distante e incalculável. E essa assinatura doida da BR Turbo igualmente será cancelada em data incerta. Why, tell me why do you not treat me right? Love has a nasty habit of disappearing over night.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Leva Eu

Essa vai em homenagem ao Ariel, meu mais novo seguidor. Eu lhe contava, pelo Skype, que agora tenho o cartão de integração de ônibus local. O Bilhete Único daqui se chama Leva Eu e só faz integração de um ônibus (não há outro meio de transporte coletivo além dele aqui) para outro. Na verdade, lá no fundo, quando você for examinar direito, assim, nos detalhes, a integração é só do UNIR CAMPUS com qualquer outro ônibus. Pra mim basta, mas talvez não seja justo.

Ariel perguntou se esse nome não feria a gramática. Respondi que vai contra a gramática normativa. De momento, consigo pensar em pelo menos 3 gramáticas:
  • a normativa, que dita regras e está intimamente ligada à linguagem escrita e distante da língua falada. Pelo fato dos falantes não conhecerem esta gramática, acham que não sabem o português e gastam seu dinheiro com manuais de redação e adoram o Pasquale.
  • a histórica, que registra as transformações de sons/ formas de uma língua (em outra língua, tipo latim> português) ao longo do tempo.
  • a descritiva, que registra e analisa o funcionamento da língua. Enquanto linguista, é essa que eu pratico.
Lado A

A ordem canônica das palavras em português é sujeito - verbo - objeto (SVO). O que vem antes do verbo é interpretado como sujeito e o que vem depois é interpretado como objeto:

Maria enganou João > Maria é sujeito
João enganou Maria > João é o cara
No caso dos pronomes, podemos marcá-los, pra que saibamos que mesmo quando vierem antes do verbo, continuam exercendo a função de objeto:
Maria me enganou > eu fui objeto de má fé.

Leva eu, ao invés de Me Leva ou Leve-me indica que o objeto (me, no acusativo) passou a ter forma de sujeito (eu, no nominativo), mas mantém sua posição de objeto (continua sendo Leva eu, não passa a Eu leva).
Acho que não sei explicar por que o pronome está no caso nominativo ao invés de acusativo. Pode ter a ver com o desprezo desenfreado que tivemos uns 10 anos atrás contra os pronomes oblíquos antepostos ao verbo (me dá, te senta etc. eram considerados como pecados). Nessa linha, Me Leva pode ter evocado imagens do Pasquale vestido de diabinho; e portanto foi evitado.
Leve-me
soa muito mais arcaico que um cartão de integração de ônibus deveria. Perceba que o imperativo (leva? leve?) é vacilante, mas isso é totalmente periférico. O que importa é que Leve-me não é mais uma opção e Me Leva não é um bom candidato. Talvez estejamos diante de um caso de mudança linguística.

Lado B

Tá, dei conta do nome do cartão. Mas ainda falta o verso.
Parece que os acentos de básico e intransferível foram comidos. A fome não é sistemática e regular, afeta apenas algumas palavras. Algumas vírgulas foram engolidas junto, pra ajudar a descer. O imperativo oscila entre o infinitivo (procurar), adjetivo (obrigatório) e sua forma tradicional (não amasse ou dobre, nem deixe). A concordância nominal em número obedece à regular (na fala de uma camada economicamente menos privilegiada da população) marcação do primeiro item e não-marcação dos demais (temperaturas elevada), como podemos observar em os cara veio tudo de uma vez.

Analisando as coisas assim, não tem certo ou errado. Tem regularidade ou não. Funciona.

domingo, 4 de outubro de 2009

Elevador



Não resisti. Indiretamente indicado pelo Sílvio, pra quem tem vasta experiência com elevadores.

Conhecendo PVH

Um dia desses, talvez um mês atrás, eu tava passando num mural da Unir Centro e reparei num cartaz. Anunciava um lance "da lua". Não lembrava se era trilha, caminhos, passeio ou expedição. Fiquei com a lua na cabeça e resolvi me inteirar da agenda cultural de Porto Velho.

Fui na Casa de Cultura de Porto Velho, perguntar se sabiam de alguma coisa da lua. Não, mas se eu quisesse ver a exposição Olhos da Mata, eu poderia ficar à vontade. O próprio artista estaria ao meu dispor se eu tivesse dúvidas ou comentários pra soltar. Quando insisti no negócio da lua, fui direcionada ao Mercado Cultural.

No Mercado Cultural disseram que não promoviam nada que tivesse lua no nome, e que eu talvez tivesse mais sorte no Teatro Banzeiros. Fui no teatro e conversei um tempão com um moço que disse ter visto o mesmo cartaz, e desconfiava que esse passeio da lua fosse alguma atividade que envolvia bicicleta.

Depois de conhecer todos os pontos culturais do centro, resolvi continuar a minha busca dos caminhos da lua na internet. Achei. Uma agência de turismo radical, chamada Amazônia Adventure, promovia a trilha da lua. Sim, eram passeios de bicicleta em noites de lua cheia. Era bom fazer inscrição antes, e fora a Amazônia Adventure, duas outras bicicletarias tinham formulários: aquela onde eu tinha comprado a Laranja Mecânica e a Rondobikers.

Um dia desses, talvez uma semana atrás, eu tava envolvida numa dessas longas conversas de portão que eu ando tendo com um dos meus vizinhos (ou a mãe ou o filho). Leandro lembrou que era legal pedalar lá pelos lados do presídio (local de trabalho dele). Mas era bom eu ir com alguém, de preferência armado.

Heloisa, professora de Literatura, lembrava que haveria um show de qualquer coisa no Mercado Cultural. Ou era no Banzeiros? Enfim, era comemoração dos 95 anos de Porto Velho e ela ia pra ver. Eu disse que ia também, pra participar da vida cultural de PVH.

Cheguei no Mercado Cultural e percebi que estavam se preparando prum show. Disseram que começaria dali a meia hora. Sozinha, eu chamava muita atenção. Resolvi andar e fui no Banzeiros, ver o que tinha lá. Tinha aquele moço lá me convidando pra voltar no dia seguinte, pra ver uma peça de teatro. Tá.

Voltei pro show e logo um senhor meio hippie-intelectual-que-despreza-o-comum veio conversar comigo. Fumava, bebia e suas mãos tremiam, assim como os músculos do rosto. Contou que ele tinha restaurado a fachada do Mercado Cultural e feito o desenho da praça. Depois me contou como conquistou a ex-esposa. O mais impressionante de tudo eram as andorinhas que se amontoavam aos montes nas árvores da praça. Milhares de passarinhos voando, piando e cagando. E nada da Heloisa aparecer pra me tirar do foco daquele cara. Decidi que a música do show não valia os xavecos do homem e fui embora.


Ontem, voltando da lavanderia, parei na frente da Amazônia Adventure. Fechado. Mais à frente, topei com a Rondobikers aberta. Entrei, fiquei sabendo que a trilha da lua seria naquela noite mesmo e fiz inscrição. Como era de noite, dava tempo de ir no teatro.

Às 17:00 eu tava lá, no Banzeiros, pra ver uma peça de teatro. Só quando paguei o ingresso é que descobri o nome da peça: O sequestro do lobo dançarino. O número desproporcionalmente maior de crianças ali me fez deduzir que se tratava de uma peça infantil. E era mesmo.

Cheguei às 20:00 no local marcado pra trilha da lua. Meninos de 15 anos, senhores de 50. Um total de talvez 12 pessoas uniformizadas. Mas o uniforme deles se restringia às roupas de ciclismo + capacete. Nem todos tinham farol na frente e só eu e mais um tínhamos luzinhas traseiras (vermelhas e piscantes). Uma Kombi da Amazônia Adventure ia na frente e uma ambulância fechava o cortejo. Nos afastamos da cidade e li a placa indicando a Colônia Penal.

A lua estava forte e a paisagem noturna estava interessante. Entramos num sítio onde estava rolando uma festa rave. O mato foi nos rodeando. Seguir pela trilha de terra no meio do mato alto sob a luz da lua foi como voar. Mas aí a floresta fechou e havia troncos atravessando a trilha, curvas em forma de joelho, tocos, lianas, lama e pinguelas. Desmontei e declarei que aquilo era complexo demais pra mim. Os meninos deram duas voltas na trilha, eu empurrei a Amarilda até onde eles sairiam depois de se divertirem no palco da próxima competição de ciclismo.

Depois do pedal, pizza. Na pizzaria, encontrei a amiga (professora da Pedagogia) da Heloisa (que chegou tarde no show de anteontem). Ela estava com umas senhoras que pareciam donas de casa. Eu estava com uns caras de capacete e roupas coloridas e apertadas.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

É boa

Já provei a fruta do conde e está aprovada. Podem vir me visitar, que os pés estão ficando cheios de fruta!

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Nós no mundo

Estou lendo Simon Singh, sobre o Big Bang. Percebo que divulgação científica é um gênero textual muito empolgante. Especialmente quando personas como Werner Heisenberg, Marcelo Gleiser, Fritjof Capra, Stephen Jay Gould, Richard Feynman (como eu poderia esquecer?) e Simon Singh, que têm o dom da escrita, escrevem sobre coisas altamente interessantes numa linguagem acessível. Lendo sobre o Big Bang, me dou conta de como o universo é infinitamente maior do que podemos conceber. Somos uma pulga no universo e estamos detonando o nosso planeta.

Aí lembrei de uma passagem do Teia da Vida, em que o Capra cita um cara que quer ilustrar como a humanidade é um fato recente para o planeta Terra - que estamos tentando destruir com poluição e salvar com palavras. Vou copiar a citação:

Para demonstrar quão tardiamente a espécie humana chegou ao planeta, o ambientalista californiano David Brower concebeu uma narrativa engenhosa, comprimindo a idade da Terra nos seis dias da história bíblica da criação.

No cenário de Brower, a Terra é criada no domingo à zero hora. A vida, na forma das primeiras células bacterianas, aparece na terça-feira de manhã, por volta das 8 horas. Durante os dois dias e meio seguintes, o microcosmo evolui, e por volta da quinta-feira à meia noite, está plenamente estabelecido, regulando todo o sistema planetário. Na sexta-feira, por volta das 16:00, os microorganismos inventam a reprodução sexual, e no sábado, o último dia da criação, todas as formas de vida visíveis se desenvolvem.

Por volta de 1:30 da madrugada do sábado, os primeiros animais marinhos são formados, e, por volta das 9:30, as primeiras plantas chegam às praias, seguidas, duas horas mais tarde, por anfíbios e por insetos. Dez minutos antes das 17:00, surgem os grandes répteis, perambulam pela Terra em luxuriantes florestas tropicais durante cinco horas, e então, subitamente, morrem por volta das 21:45. Enquanto isso, os mamíferos chegam à Terra no final da tarde, por volta das 17:30, e os pássaros já à noitinha, por volta das 19:15.

Pouco antes das 22:00, alguns mamíferos tropicais que habitavam árvores evoluem nos primeiros primatas; uma hora depois, alguns destes evoluem em macacos; e por volta das 23:40 aparecem os grandes símios antropóides. Oito minutos antes da meia-noite, os primeiros símios antropóides do sul se erguem e caminham sobre duas pernas. Cinco minutos mais tarde, desaparecem novamente. A primeira espécie humana, o Homo habilis, surge quatro minutos antes da meia-noite, evolui no Homo erectus meio minuto mais tarde e, nas formas arcaicas do Homo sapiens, trinta segundos antes da meia-noite. Os Neandertais comandam a Europa e a Ásia de quinze a quatro segundos antes da meia-noite. Finalmente, a espécie humana moderna aparece na África e na Ásia onze segundos antes da meia-noite, e na Europa, cinco segundos antes da meia-noite. A história humana escrita começa por volta de dois terços de segundo antes da meia-noite.

(Capra, 1996: 206 - 207)


Percebe como somos auto-centrados? Acabamos de chegar e já achamos que tudo depende de nós, que tudo existe em função da gente.