sábado, 31 de março de 2012

sexta-feira, 30 de março de 2012

Na bolha de lata e vidro

Ninno viajou e deixou o seu carro com o Narcísio que viajou e deixou o carro (do Ninno) comigo por um dia e meio. Não andei muito com a carro, mesmo porque (i) me dá agonia de ver o mostrador de combustível indicando sempre menos gasosa no tanque e (ii) tenho que desviar quatro (!!) rodas dos buracos de Porto Velho.
Mas o que mais me chamou atenção dessa vez (até parece que estou relatando uma experiência exótica ao narrar as sensações atrás do volante) foi que eu via mais a minha cara no espelho retrovisor do que a cara dos outros motoristas, escondidos atrás de vidros escurecidos. Assim fica claro que o carro é um grande promotor do individualismo.

terça-feira, 27 de março de 2012

Aluguel em Porto Velho

Em dois anos, morei em 3 casas em Porto Velho. A primeira alagava e saí dela porque não vi condições de continuar ali. Na segunda, havia goteiras e muitas telhas ruins que não se produz mais. Quando fiz orçamento para trocar o telhado, a proprietária disse que queria derrubar a casa. Me forçou a sair, mas a casa continua lá. A terceira, que habito no momento, alagou. O piso da área (chamaria de garagem se tivesse carro) começou a rachar. Informei a proprietária do ocorrido. Quinze dias depois, aparecem potenciais compradores desta casa. Liguei pra imobiliária apavorada. A mulher responsável pelo aluguel desta casa não sabia de nada. Mas eu olhei no site da imobiliária e constatei que a proprietária colocou a casa à venda.

Sem me avisar.

Qual é a dessas proprietárias de casa velha? Não se pode apontar os defeitos da casa que elas logo te jogam pra fora da casa! Como pode a minha vida ser determinada por locadores desse naipe?

domingo, 25 de março de 2012

quarta-feira, 21 de março de 2012

Sobre ficar adulto

Acho que a gente se convence de que virou adulto quando não entende mais as crianças. Hoje, na saída da escola, um grupo de crianças se ajuntou na sombra da sibipiruna na frente de casa. Desligaram o disjuntor e fiquei sem energia. Riam enquanto corriam. Quando saí na rua, uma retardatária me fez sinal de que não tinha sido ela a desligar a força. Não entendo a graça de aborrecer desconhecidos.

Logo em seguida veio a chuva, raios e trovões. Me senti vingada nos trovões imensos, densos e assustadores. Pena que os raios provocaram o corte de energia.

Ao anoitecer, de maneira totalmente inadvertida e aparentemente desmotivada, caiu a força de novo. Fui ver o disjuntor, não era travessura de criança. Era a sorte de morar nessa parte do Cohab.

terça-feira, 20 de março de 2012

Cajarana

No sacolão, decidi levar cajarana - que é uma fruta que agora está aparecendo muito nas vendinhas. Pedi pra moça do caixa me explicar como se come.
Ela disse:
- Descasca ela. A casca é bem fininha. Aí você come só em volta do espinho. É gostosinha, pena que eu não posso comer (e apontou para o aparelho nos dentes).
Descasquei, percebi que era fibrosa, durinha, azedinha e doce. Depois da terceira mordida, entendi a dificuldade de quem usa aparelho para comer cajarana: trata-se de esculpir a carne com os dentes por entre os espinhos.

quinta-feira, 15 de março de 2012

A pele

Quando a gente tava lá no igarapé, me chamou atenção que todo mundo entrava na água de roupa. Que os homens entrem de bermuda na água, estou acostumada a ver, mas as mulheres de camiseta/ regata e short? Havia gente usando a parte de cima do biquini mais um short. Lembro de ter visto uma moça de maiô, mas ninguém de biquini. Comentei essa observação com o Ninno e ele disse que os amazonenses tinham vergonha do corpo. Minha intuição me dizia que o problema das mulheres no igarapé eram os pêlos, não as curvas ou celulites.

Outra coisa que me chamou atenção foi a competição feroz em torno do som. As pessoas traziam caixas de som enormes para impor sua música aos outros. Um do lado do outro, havia pelo menos três poluidores sonoros tocando a todo vapor. E tudo coisa ruim!

Em casa, dei uma folheada no Gesten, do Flusser. Esse é um livro sobre a fenomenologia de diversos gestos (de escrever, fotografar, amar, telefonar, procurar, fazer etc.) segundo o que ele define como "gestos". Li dois capítulos: o gesto de se barbear (Die Geste de Rasierens) e o gesto de ouvir música (Die Geste des Musikhörens).

Rasieren tem mais a ver com o instrumento usado para cortar pêlos do que com o tipo de pêlos a serem eliminados (que é o caso de barbear, em que os pêlos da barba são cortados). Do mesmo modo, depilar não diz sobre quais pêlos serão retirados da superfície da pele. Mas o texto não era sobre depilação, como eu deveria ter imaginado. Na Europa, ao menos na de Flusser, as mulheres não têm mesmo o costume de se depilar. E assim rasieren assume as feições de barbear. Achei uma pena Flusser não falar das modas depilatórias a que tanto mulheres como homens estão sujeitos (em Porto Velho, muitos homens tiram a sobrancelha, por exemplo) - dependendo do tempo e do espaço. No tempo e espaço de Flusser, apenas a barba é objeto direto de rasieren.

Para Flusser, o gesto de barbear-se não é um ato de mostrar o rosto, de expor o queixo ao sol e vento, de limpar a cara. Para ele, barbear-se é um gesto de evidenciar os limites entre o eu e o mundo. A pele é o órgão que agrupa nossa identidade corpórea, separando-nos do mundo exterior. Misturar-se com o meio seria natural (barba), ao passo que barbear-se seria artificial.

O outro capítulo, sobre ouvir música, igualmente trata da pele. Existe um órgão específico para a audição, mas quem absorve as ondas sonoras é o corpo como um todo. Segundo Flusser, quem ouve música concentra as ondas sonoras no seu corpo e então a música toma o corpo. A pele funciona como uma membrana permeável e a massagem sonora promove a união entre o espírito do ouvinte e de quem envia a mensagem musical. A pele, que no capítulo anterior funcionava como divisa entre eu e o mundo, agora funciona como órgão do conexão, que permite ao ser humano transcender seus limites.

Seria interessante saber o que Flusser teria a dizer sobre todos aqueles que impõem sua música aos outros (celular ou rádio tocando no ônibus, som de carro no igarapé, evagélicos cantando no microfone etc.) e por que eu tenho sempre a sensação de estar sendo violentada quando sou obrigada a ouvir músicas que eu não quero ouvir. Seria interessante estudar a relação entre o tipo de ambiente (igarapé, balneário em que se paga entrada, clube, piscina de natação) de banho na Amazônia e os trajes de banho das mulheres amazônidas. É possível que haja uma relação entre ambientes naturais e pêlos. Mesmo entre os homens que se depilam deve haver uma relação com ambientes naturais e urbanos: os metrossexuais vivem na cidade, não no mato.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Abre aspas que eu quero passar

O ponto de interrogação foi logo perguntando que negócio era esse de dividir os sinais de pontuação entre aqueles que marcam pausas e aqueles que marcam melodia. Indignado, questionou a Gramática Tradicional se a única função dos sinais de pontuação era refletir a fala. O ponto de exclamação gritou lá de longe que o pessoal da Literatura já tinha superado há tempos esse papo de que a escrita representa a fala. Até fez um parênteses e lembrou que historicamente os sinais de pontuação tinham a função de ajudar a orientar a leitura em voz alta; mas hoje a escrita pode ser considerada um sistema autônomo de criação. Só não abriu aspas para citar alguém, porque não tinham nenhum livro à mão.

O ponto de interrogação quis colocar um ponto final na conversa com o argumento de que tanto pausa como melodia mudam de uma língua para outra - tanto é que alunos de língua estrangeira nunca "entendem" a curva entonacional das perguntas na língua que estão aprendendo - e que os sinais de pontuação igualmente variam de língua para língua. O melhor exemplo eram os sinais de interrogação e exclamação invertidos que os hispanohablantes usam na escrita para anunciar perguntas e exclamações. Além disso, algumas línguas que são escritas da direita para a esquerda usam o sinal de interrogação espelhado, não invertido.

Aflito com o argumento na ponta da língua, o ponto de exclamação atravessou a fala do outro:
- E uma pergunta não pode ser descrita apenas como uma questão de "melodia" da frase! Uma pergunta altera a estrutura de um diálogo. Se alguém faz uma pergunta, abre-se espaço para uma resposta. Outra pessoa/ personagem pode tomar a palavra e responder.

A Gramática Tradicional se mostrou reticente. Até então seus usuários tinham aceitado que as vírgulas servem para respirar, que o ponto final marca o fim de uma sentença e que os outros sinais servem sobretudo para marcar a melodia e portanto não eram vitais para o texto.

- Não são vitais, vírgula! - exasperou-se o ponto de exclamação. Sentou-se em cima do ponto e respirou fundo. Arregimentou os outros sinais de pontuação em volta de si e fez um discurso sobre o papel sintático, semântico e fonético dos sinais de pontuação.

:o)          ):0          ; )          ->          [ ]          "_"        

A Gramática Tradicional, conservadora como é, nem ficou pra ouvir. Foi saciar a ansiedade dos famintos por regras e exceções.

Sítio e igarapé

Era domingo e eu tava à toa
Ninno passou em casa 
e nos levou pro sítio dos pais da Manu
Passamos pelo buraco na BR e nos perdemos nas linhas
Quando finalmente chegamos, esquentaram comida pra nós
Toda a família da Manu se ajuntou no sítio para se despedir dela
Depois de comer, quase todos mergulharam na água gelada
A disputa violenta para ensurdecer o mundo não aparece: cada família trazia o seu som amplificado

domingo, 11 de março de 2012

Tempo de cheia


Igarapé que a Prefeitura mandou aterrar
Mesmo igarapé, do outro lado da rua
Rio Madeira cheio
Muita água
A água chega na beira do parque
Parque Madeira-Mamoré visto do Mirante II
Vista do Café Madeira, usina ao fundo
Antes de chegar no Mirante III

sábado, 10 de março de 2012

A força da água

Fonte: Diário da Amazônia

A 10 km de Porto Velho, na BR 364 (que faz a ligação de Porto Velho com o resto do Brasil) se abriu uma  cratera que engoliu a estrada. Com as chuvas, o buraco tende a aumentar. E tem chovido muito ultimamente. Os rios estão cheios, os igarapés estão nas tampas. Pelos noticiários, entendo que dois bueiros estouraram, causando pressão no córrego que passa por baixo da BR. A água das chuvas fez o resto.

G1
Rondônia ao vivo
Diário da Amazônia

Meu medo é que fiquemos isolados (nós e o Acre). O abastecimento da cidade é feito pela BR 364.

terça-feira, 6 de março de 2012

Mus__a

Naquela manhã, todas as mulheres da cidade acordaram aliviadas. Independente de quanto tinham dormido ou do que tinham sonhado, todas acordaram bem dispostas, leves e frescas. Não tardaram a entender o que lhes fora subtraído durante a noite: a capacidade de ouvir música.

Ainda nas primeiras horas da manhã ensolarada, todas elas tiveram pelo menos uma experiência desagradável com sons desorganizados. Ou era o marido que assoviava sequências impossíveis de sons estridentes, ou era o rádio que cuspia uma nuvem de fumaça cinzenta, ou era o filho que produzia sons desarmônicos debaixo do chuveiro. Toda e qualquer forma de música parecia poluir o mundo.

Demorou até o meio-dia para que os homens percebessem que as mulheres sentiam-se fisicamente agredidas pelo barulho que saía do rádio, da TV, da boca do companheiro, pai, filho. Durante a tarde toda, a cidade não registrou nenhuma nota musical. As mulheres da cidade se deram conta de que não tinham mais memória de nenhuma canção, cantiga, balada ou qualquer peça musical. Todas as músicas de seu repertório haviam sido sumariamente apagadas. As professoras de piano, violino e flauta doce, suas alunas, as mulheres que cantavam no coral, a regente e a filha do fagotista sentiam-se ocas. Afazeres simples, que demandavam um certo ritmo, não fluíam de suas mãos ou pés. Estacavam enquanto andavam, nadavam, pedalavam, lavavam louça, passavam roupa ou limpavam a casa.

Ao final do dia, uma neblina rodeou a cidade. O cerco de neblina se fechou e foi sendo atraído para o centro da cidade: a praça. Conforme a neblina se movia em direção ao atrator, os habitantes da cidade a acompanhavam e se aglomeravam no gramado, por entre as árvores, na frente da concha acústica. Não havia nada programado para aquela noite agradável, no entanto quase todos seguiram o chamado inaudível que se escondia no ar condensado.

Luzes direcionaram a atenção de todos ao palco. Um homem de cabelos longos e negros fez seus dedos deslizarem pelas cordas do baixo. O som que vibrava das cordas do baixo reverberava no estômago do público. A voz aguda e clara transportou todos a uma paisagem de sonho. Os outros instrumentos foram entrando aos poucos na composição e logo tudo voltou a ter sentido e beleza.

domingo, 4 de março de 2012

Mudança radical

Tenho dois celulares, mas é mais provável que estejam desligados ou longe de mim do que o cenário de pequena Lou dirigindo carro enquanto conversa no celular. No entanto, veio uma multa desse naipe para a proprietária de um veículo que me tinha sido emprestado no dia em que alguém foi pego ao volante daquele carro falando no celular. Como eu não era a única motorista que entrava em questão, pedimos para ver a foto do infrator no ato da infração. Não tem foto ou valor da multa (como também não tem radar ou fiscalização de trânsito em Rondônia). Mas era preciso assumir os pontos e pagar a multa, já que o carro estava sob minha responsabilidade no dia da infração. O prazo para apresentar o condutor (que assume os pontos na carteira de motorista) e o recurso (pedido de transformar a multa em advertência) era bem no meio do carnaval. Um dia depois do feriado olhei na carta da SEMTRAN, procurei o endereço no Google maps, montei na minha bicicleta e tomei chuva. Quando cheguei no endereço indicado, dei de cara com um prédio abandonado. Pingando, perguntei na loja ao lado onde era a SEMTRAN. Tomei mais chuva.

Enlameada, pingando e sob choque do ar condicionado, fui direcionada à mesa da funcionária que trata de multas de trânsito. Logo que me viu nesse estado, a mulher se derreteu: coitadinha, tomou essa chuva toda, que judiação, agora está com frio por causa desse ar condicionado, não, não tem problema se molhar o chão, querida. 

Quando ela viu que eu não tinha trazido nenhum xerox de nenhum documento, assinatura de proprietário ou condutor, nem os formulários adequados para abrir processo de recurso, todo aquele cuidado com a gata pingada sumiu. Tratou-me como trata todos os ignorantes que não entendem a burocracia.


sexta-feira, 2 de março de 2012