sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Modernity

Sua bicicleta anterior tinha sido batizada de Evolution. Não era mais uma bicicleta nacional, comprada em supermercado: era importada e tinha lhe custado quase todo um salário. Evolution era ágil, robusta e bonita. Talvez esses tenham sido os motivos que ocasionaram seu furto.

Luis não podia viver sem bicicleta, especialmente depois que descobriu que existem bicicletas boas. Endividou-se e comprou um novo meio de transporte. Modernity era veloz, leve e linda. Luis falava de sua mais nova aquisição como quem suspira de paixão. Em casa, guardava a Modernity na sala; no trabalho, prendia-a num poste de luz na frente da entrada. Não deixava a bicicleta na garagem porque queria vê-la sempre.

Modernity chamava atenção. Presa no poste de luz da torre de escritórios, a bicicleta estilosa personificava o contraste entre a simplicidade branca e a opulência do vidro-espelho escuro. No trânsito, Modernity só parava nos semáforos, nunca nos engarrafamentos. No escritório, somente Luis era ciclista.

Luis era visto pelos colegas sedentários e acima do peso como atleta, alternativo, ecologicamente correto. Por tabela, atribuíam-lhe hábitos coerentes com a visão que tinham dele: vegetariano, abstêmio, não-fumante e revolucionário. Por ser diferente dos outros e inspirar possibilidades, tinha um certo número de admiradoras. Enquanto elas fumavam seus cigarros na frente do prédio e ele destrancava as correntes que prendiam Modernity ao poste de luz, puxavam conversa sobre hábitos saudáveis, a natureza agradece, pedalar na chuva, no sol, na poluição, medo do trânsito e o capacete que ele não usava. Era educado, sorria sempre e concordava com tudo.

Numa sexta-feira, final de expediente, Ana anunciou que na semana seguinte viria ao escritório com ele - de bicicleta. Mesmo sendo mais alta que ele, olhava-o de baixo para cima. Disse que queria aprender a pedalar na cidade. Despediram-se com o evasivo "vamos conversando no fim de semana" e logo Luis apagou a conversa de sua memória. No domingo à noite, recebeu uma mensagem pelo celular. Era Ana, perguntando quando e onde se encontariam na manhã seguinte para irem ao trabalho de bicicleta. Luis apenas removeu Ana de sua gaveta mental destinada às 'colegas' e a alocou na gaveta mental das 'pretendentes'. Não respondeu, nem ligou, nem mesmo imaginou o encontro.

No escritório, se trataram como de costume, ignorando completamente o episódio da bicicleta. Naquela semana, o número de pretendentes de Luis aumentou. Dessa vez, tratava-se de um colega que tinha migrado da gaveta dos 'camaradas' para a gaveta dos 'pretendentes'. Não tinha certeza absoluta, mas sentia que o nervosismo nas mãos, as falhas na voz e os constantes contatos para manter contato confirmavam a nova condição do Oscar. Este não era o primeiro homem a manifestar interesse por ele.

Chovia no dia que acabou numa confraternização. Luis percebeu que Oscar orbitava à sua volta e que havia uma bicicleta vermelha presa no orelhão ao lado da Modernity. Justo num dia de chuva aparecia uma nova bicicleta na frente do escritório. Pediu carona pro gerente e saiu da festa à francesa.

Ana e Oscar foram os últimos a voltar pra casa naquele dia. Ana foi de táxi, Oscar esperou ao lado da Modernity até o frio penetrar seus ossos. No dia seguinte, Oscar faltou ao trabalho: avisou que estava constipado. Ana e Luis foram sobrecarregados de números e se trataram como camaradas. 

No fim do expediente daquele dia, quando o elevador parou no sétimo andar, Moira entrou e cumprimentou Luis toda sorridente e jovial. Perguntou da Modernity. Luis estranhou que uma moça que trabalhava no sétimo andar soubesse o nome de sua bicicleta, mas devolveu o sorriso e disse que a Modernity ia bem, obrigado. Moira tocou seu ombro e saiu do elevador no sexto andar.

Da entrada do prédio, reparou que havia algo colado no guidon da Modernity. Chegou perto e identificou um bilhete preso com fita crepe. A caligrafia redonda expressava um elogio. O bilhete de duas linhas não trazia assinatura. Mentalmente, Luis computou: pretendentes = n+3.

2 comentários:

Leonardo disse...

relato autobiografico ?

iglou disse...

Meu nome não é Luis, não trabalho em escritório e a minha bicicleta não se chama Modernity.