segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Música sem chão

Quando ouvi Mustapha, de Marisa Monte (disco Mais), pela primeira vez, me senti leve. Quando ouvi a música no fone de ouvido e de olhos fechados, tive a sensação da música não ter chão. Cada instrumento faz a sua parte, e todos são levemente desencontrados. Não são paralelos, são ilhazinhas. A voz feminina costura entre todos os instrumentos de percussão. Levante, (do disco Infinito particular, também da Marisa Monte), me parece o melhor exemplo de música sem chão: os sons viajam na música, atravessam seu mar, dão voltas nas ilhas e acenam pra voz que traça seu caminho na paisagem abstrata. A melhor imagem para concretizar esse tipo de sensação era um quadro do Kandisnky na sua fase Bauhaus.
Quando ouvi Vanessa da Mata pela primeira vez nos fones de ouvido e de olhos fechados, tive a mesma sensação de falta de chão (principalmente na Onde ir, do Planet Copacana). Cheguei à conclusão de que a escolha dos instrumentos leva a isso: não há uma bateria que cadencia o tempo, um baixo que ancora o ritmo, uma guitarra pé-no chão que acompanha a voz. A lógica rock n'roll não se fazia presente, por isso a sensação de flutuar no espaço abstrato. Mesmo os violões têm um papel de instrumentos de percussão que mais enfeitam do que sustentam a música. Mas eu não entendo nada de música.
Minha grande surpresa foi revisitar essa sensação de ouvir uma música sem chão ao ouvir Dire Straits. Nem precisou de fones de ouvido ou olhos fechados. A segunda parte de Why worry (do Brothers in arms) no volume 14 (nesse volume, os vizinhos acompanham bem) já me transportou prum espaço sem chão. Ora, Dire Straits é rock n' roll na veia! Então não são os instrumentos que criam a sensação, é o seu uso.
Não tenho ouvido musicalmente educado, nem nunca conversei com nenhum músico sobre essa sensação. Mas reconheço nos quadros de Kandinsky a organização dessas músicas que tentei descrever aqui. Ele mesmo corrobora a metáfora da imagem + som:

"Em geral, a cor é, pois, um meio para exercer influência directa sobre o espírito. A cor é a tecla. O olho é o martelo. O espírito é o piano com inúmeras cordas. O artista é a mão que oportunamente faz vibrar o espírito do homem segundo o seu capricho, através desta ou daquela tecla." (Düchting, H. Wassily Kandinsky, 2005, p. 17)

2 comentários:

ogum777 disse...

vc é sinestésica? ou seja, tem o péssimo costume de atribuir cores e texturas a sons? hum... esqueci de citar o kandisnky no meu post sobre bauhaus e bikes. seu blog é menos monotemático. isso é bom.

iglou disse...

Odir,
não sou sinestésica, mas invejo quem é. Aos normais, parece ser uma aventura.