sábado, 30 de maio de 2009

A voz dela

Atendeu o telefone, apesar de ser um domingo de manhã. Desejou bom dia à voz que saía do telefone, apesar de já ter identificado que se tratava de uma ligação impessoal. O barulho de fundo era povoado de vozes forçosamente simpáticas. Mas aquela voz que tentava lhe vender um seguro de vida era muito agradável. Ele chegou mesmo a fazer perguntas à moça, para poder continuar a conversa e assim deleitar-se com o timbre escuro daquela voz envolvente. Quando ela perguntou se ele estava interessado no produto que ela queria vender, ele confessou tudo.

Estava completamente apaixonado por aquela voz. Será que ela poderia lhe dar o seu número, pra que ele pudesse ligar para ela de noite? Se ela preferisse não revelar o seu número, será que ela poderia, então, ligar para ele outra hora pra conversarem sobre outras coisas?

A moça ficou surpresa com a urgência dele, com essa obsessão pela sua voz. Mas ao mesmo tempo que se sentia assediada, sentia-se lisonjeada. Tentou lembrar quando tinha sido a última vez em que um homem tinha se interessado por ela assim. Sua voz tremeu um pouquinho quando revelou o seu número de telefone ao sujeito que lhe tomou uma hora de serviço e não fechou contrato.

Conversaram durante semanas pelo telefone. Ele a pressionava para um encontro, ela se esquivava sempre com uma desculpa diferente. Com o passar do tempo, as conversas se tornaram mais íntimas e mais longas. Começavam meio sem assunto, mas sempre terminavam com suspiros de ambos os lados da linha. Toda noite ele sonhava com uma mulher diferente, como se tentasse dar, em sonho, uma materialidade física àquela voz que o tinha enfeitiçado. Ela já não tinha mais desculpas plausíveis para não vê-lo, e para não se enredar ainda mais em mentiras, aceitou seu convite para jantar.

Ele chegou bem antes da hora combinada e sentou-se num lugar de onde podia monitorar a porta. A cada mulher que entrava, seu coração perdia uma passada. Ela sabia que ele era negro, alto, atlético, usava óculos e tinha rastas nos cabelos. Mas ele não sabia nada sobre ela. Conhecia a sua voz, sua risada, sabia adivinhar quando estava sorrindo e adorava ouvir os seus suspiros. Mas sobre sua aparência não sabia absolutamente nada.

Poucas mulheres entraram sozinhas. Ele temia que ela viesse com uma amiga, como por exemplo aquela loira ali, da mesa 5, que não tirava os olhos de cima dele. Chegou a flertar com uma morena de vestido cinza que estava esperando um moleque de andar gingado e gel no cabelo. Quando o relógio avisou que ela estava 2 minutos atrasada, sua ansiedade se transformou em tensão. Quando o relógio marcou 20 minutos de atraso, ela apareceu.

Seus olhos grandes imploravam desculpas pelo atraso, suas mãos nervosas se apertavam mutuamente no colo. Não foi preciso que ela abrisse a boca pra que ele a identificasse. Ela parecia ser a mulher mais medrosa, indefesa e desconfortável na própria pele que havia no recinto. Ela parou diante do degrau e olhou para ele. Ele entendeu que ela precisava de ajuda e foi até ela. Parou na frente dela, abaixou-se um pouco e perguntou:
- É você?
Tímida, ela respondeu com a voz falhando:
- Sim, Marco, sou eu.
Ele deu a volta nela, segurou a cadeira de rodas e a conduziu até a mesa.

Ela teve a sensação de estar conversando com um médico, porque ele só falava sobre a sua deficiência. Ele teve a sensação de ter sido enganado. Nem a voz não era mais a mesma! No telefone, a voz dela tinha uma aura mágica. Ali, ao vivo, não tinha nenhum poder sobre ele. Ambos fizeram questão de perder contato depois daquele primeiro encontro.

Devo a estória a Marco Esteves.

Um comentário:

bobmacjack disse...

Essa história me fez refletir sobre meus conceitos e preconceitos quanto a pessoas com deficiência física.