domingo, 24 de maio de 2009

Linguagem própria

Enquanto seres humanos, somos contadores e consumidores de estórias. Contamos e absorvemos estórias em diferentes mídias: escrevemos/lemos livros, encenamos/assistimos peças de teatro, dirigimos/assistimos filmes no cinema, fazemos/lemos quadrinhos, lemos/ouvimos audiobooks.

Cada um desses meios dispõe de diferentes recursos narrativos, exclusivos de cada forma de contar a mesma estória. Percebemos com clareza que esses meios dispõem de linguagem própria quando uma estória, contada num meio, passa a ser contada em outro meio. É nessa passagem de um gênero textual para outro que podem acontecer grandes saltos qualitativos.

Saltos escada abaixo. Olga e eu fomos ver uma peça de teatro chamada Por um fio. Trata-se de uma adaptação do livro homônimo de Drauzio Varella. Nunca li nenhum livro do médico, mas aposto que ele seja um escritor no mínimo cuidadoso com as palavras. Em Por um fio, o médico reúne experiências, conversas e confissões de pacientes terminais. Mostra como vítimas de câncer e doenças decorrentes da Aids e seus parentes/amigos próximos lidam com a (iminência da) morte. Imagino um livro sóbrio e triste. A peça de teatro não passava do texto do livro, proferido por duas pessoas, alternadamente. O cenário se manteve o mesmo parque com ávores sem folhas e bancos demais pra ser verdadeiro. O figurino não mudou durante a peça. Além do texto não havia quase nada de cênico. A linguagem própria do teatro foi ignorada nessa peça teatral.

Pulinhos no mesmo degrau. A maioria dos best-sellers não passa de um roteiro. Dariam ótimos filmes de ação. Por isso Anjos & Demônios, ou o Código Da Vinci ou qualquer livro do John Grisham (só menciono aqui os que li) viram filme sem grandes mudanças no texto. O livro já era um roteiro. Acontece tanta coisa dramática, existe tanta grandiosidade nos atos, na tragédia das ações, que o livro prende. Mas ele não prende pela experiência literária, pelo sabor das palavras, pela textura do som, pela cor das metáforas. A linguagem própria da prosa literária é ignorada nesses livros que viram filme e vice-versa. Talvez por isso O Amor nos Tempos do Cólera em versão cinematográfica tenha decepcionado tanto: perdeu-se a poética e manteve-se a estória.

Saltos escada acima. Gosto muito de Neil Gaiman, um escritor/quadrinista inglês que passou alguns anos nos EUA. Além de transitar por diferentes sotaques, o homem também se move por diferentes gêneros: Sandman é sua mais consagrada série em quadrinhos; Neverwhere, Anansi Boys e American Gods são romances; Fragile Things é uma coletânea de short stories; Stardust é um conto de fadas para adultos; Coraline é um conto de fadas para crianças. Neverwhere, Coraline e Stardust viraram filme. Só posso comparar o livro com o filme no caso de Stardust, e percebo que a linguagem cinematográfica foi muito bem explorada na adaptação. A 20 minutos do fim do filme, a bruxa-rainha tem nas mãos um boneco de vudu que transmite as dores para Septimus, o último herdeiro do reino. Ela quebra um braço e uma perna do boneco, Septimus sente a dor dos ossos fraturados. Ela solta o boneco na água, e antes do boneco cair na água, Septimus enche os pulmões de ar. Assim que o boneco mergulha na água, Septimus começa a flutuar no meio do salão. Seu corpo bóia e ele se movimenta como se estivesse embaixo da água. A trilha sonora e o close nos cabelos que se movimentam lentamente na água dão relevo à cena. No livro, Septimus não morre afogado, nem não há nenhum boneco de vudu. A imagem que criaram para a morte do personagem no filme é genial, justamente porque lança mão da linguagem própria do cinema. Outra surpresa agradável foi ouvir o audiobook Anansi Boys, porque o leitor do livro soube imitar magistralmente os três sotaques predominantes no texto: britânico, americano e jamaicano. Ouvir os sotaques foi infinitamente mais divertido do que lê-los.

Minha mais recente fonte de curiosidade é Budapeste. Sei que se trata originalmente de um livro escrito por um músico. Não li este livro do Chico Buarque, mas vi o filme. No filme, há vários recursos cinematográficos que despertam a minha curiosidade: como é que isso tava no livro? A cena em que ele vê a majestosa estátua cortada de Lenin passando no navio é marcada pela trilha sonora. Tem uma cena em que a câmera fixa no rio e vira de ponta-cabeça. Na estória, o personagem principal aprende húngaro e a gente (que não sabe húngaro) tem que ler as legendas em português. Essas soluções cinematográficas correspondem a que problemas narrativos? Foram usadas cores de tinta diferentes, como acontece na História sem Fim, de Michael Ende? Foram usadas fontes diferentes ou foram inseridas imagens, como em Extremely loud and incredibly close, do Safran Foer? Minha curiosidade me diz que Budapeste será o meu próximo livro.

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