quinta-feira, 21 de maio de 2009

Pedal do silêncio

Foi o adjetivo 'silenciosa' que me seduziu para a bicicletada ontem de noite. Estava previsto um 'pedal do silêncio', uma manifestação internacional de luto pelos ciclistas mortos e feridos em acidentes de trânsito.

Eu me incluo no grupo dos acidentados, talvez até feridos (fui pro hospital pra que eu constasse como vítima no BO e depois fiquei mancando por um mês, fiz fisioterapia e tudo). Mas, fora as cicatrizes, não carrego as seqüelas dos meus acidentes de bicicleta no corpo. Não perdi a mobilidade, o emprego ou a validez por causa de um acidente de trânsito em que eu fosse o elo mais fraco. Mas sei que outros ciclistas perderam membros, auto-estima, seu lugar na sociedade, ou a vida em acidentes de trânsito. E sei que muitos destes acidentados não tiveram apoio médico/judicial e não entraram para as estatísticas de acidentes de trânsito.

Colisões de bicicletas com veículos motorizados eram (talvez ainda sejam, não queremos precipitar otimismo aqui) contabilizadas como 'atropelamentos', ou seja, o ciclista passa(va) a valer como pedestre. Quando a bicicleta era (talvez ainda seja, deixei de dialogar com o poder público faz um tempo, por isso não sei) considerada como veículo, então elas engrossavam os números de acidentes envolvendo motos. Isso acontecia (talvez ainda aconteça) porque a categoria 'bicicleta' não existe na contagem das concessionárias de rodovias.

No meu BO tem lá espaço pro policial rodoviário preencher a marca, modelo, ano de fabricação, cor e número de placa do veículo; como se o meu veículo tivesse isso tudo. Quanto à minha lesão, consta lá 'leve' (as opções são: fatal, grave, leve, ileso), mas não é especificado que eu tinha luxado o pé direito, que eu viria a quebrar 2 anos e 24 dias depois. O cenário do acidente recebe descrição detalhada, mas não é dada atenção ao tipo de ferimento da vítima. Se o ferimento tivesse sido grave, não haveria um campo de múltipla escolha para preencher que partes do corpo foram lesionadas - e de que maneira.
Quando é que acidentes envolvendo ciclistas serão contados de maneira separada? Quando é que as vítimas deixarão de ser enquadradas como 'passageiros' ou 'pedestres'? Quando é que os ciclistas acidentados serão acompanhados e usados como base de estudo para a prevenção de acidentes?

E no caso de mortes de ciclistas, o que acontece? Lembro de uma notícia de que haviam morrido vários ciclistas de uma vez. Pedalavam speed bikes pelo acostamento e foram varridos por um caminhão. A conseqüência das mortes foi a proibição da circulação de bicicletas pelo acostamento daquela via. Simples. Não lembramos que o motorista que colidiu com um ciclista e provocou sua morte responde por um crime.

Sei que a bicicletada não vai responder a essas perguntas, nem correr atrás de mudanças no status quo, porque não é uma ong ou oscip. Mas a idéia de simplesmente pedalar em silêncio com outras pessoas me atraiu pra Praça do Ciclista.

Havia dois pontos de saída: a bicicleta-fantasma da Márcia Prado e a Praça do Ciclista. Não creio que tenhamos somado muito mais de 100 pessoas. A maioria estava vestida de branco, eu estava usando roupas de frio que eu não tinha doado naquele meu surto de em-Rondônia-não-faz-frio.

Pedalamos devagar, ocupando 2 faixas na Paulista. A massa crítica não gritava, não pedia pra 'quem gosta de bike, buzina!' não apitava, não emanava nenhum funk dos infernos. Por pedalarem silenciosos, os integrantes da massa se sentiram mais unidos. Por pedalarmos em silêncio, pudemos ouvir com mas nitidez todas as buzinadas irritadas, os xingamentos raivosos e conselhos estúpidos dos motoristas. Desta vez não chamamos as pessoas às janelas, não arrancamos sorrisos de pedestres, não fomos atração de circo. Éramos apenas um grupo de ciclistas atrapalhando o trânsito em plena quarta-feira. Eu aproveitei pra olhar na cara das pessoas presas no trânsito. Ultimamente não tenho olhado pras pessoas no trânsito: vejo carros e espaços por onde a minha bicicleta passa.

Chegamos à bicicleta-fantasma e acendemos velas, colocamos flores na bicicleta branca e fizemos uma roda pra ouvir as palavras emocionadas de um palhaço. Havia no ar uma vibração de 'não vamos esquecer', mas ao mesmo tempo também um sentimento confortante de 'não estamos sozinhos'. Bem o tom que paira numa reunião de sobreviventes que se lembram de vítimas.

4 comentários:

vagalumevermelho disse...

Você levanta uma questão interessante: como "enquadrar" na lei e nas estatísticas os acidentes envolvendo bicicletas? Apesar de isso não fazer nenhuma diferença na vida do ciclista acidentado, mostra a ausência de um lugar para as bicicletas em nossas cidades e em nossas leis.

De qualquer forma, a morte de um ciclista em acidente de trânsito é sempre um homicídio. Gera um inquérito policial e posteriormente um processo judicial. Penso que uma boa coisa a se fazer seria criar um grupo empenhado em acompanhar esses inquéritos e processos. Isso poderia diminuir a chance de não darem em nada, e poderia dar mais repercussão aos casos de condenação de motoristas. Talvez a ameaça da lei tenha um efeito bastante "didático".

Abri um tópico a esse respeito no Fórum da Bicicletada:
http://forum.bicicletada.org/viewtopic.php?f=15&t=368Imagino que ali no Fórum circulam pessoas interessadas no assunto, que poderiam dar sugestões ou, quem sabe, formar uma mobilização.

Willian Cruz disse...

Boas considerações, belo relato, parabéns.

luddista disse...

Gostei muito também. E só depois, chegando em casa e editando esse vídeo - http://blip.tv/file/2154958/ - que vi todo o sentido do que você diz sobre perceber a agressividade por todos os lados, sobre o ser "apenas um grupo de ciclistas 'atrapalhando o trânsito'".

Guardo meu pequeno comentário apenas sobre trecho que diz que a bicicletada não vai "correr atrás de mudanças no status quo, porque não é uma ong ou oscip".

Acho que "a bicicletada" não vai correr atrás disso porque não acredito que exista "a bicicletada" como um sujeito definido com vontades ou desejos. Mas acredito que a chance de alguém que toma contato com a realidade a partir de uma experiência concreta (uma bicicletada) tem um bom percentual de chance de ir atrás de explicações ou mudanças.

Se essa forma de organização e suas consequências (as conversas, a percepção coletiva, a possibilidade de articular outras coisas) são mais ou menos transformadoras do status quo que a atuação de ONGs ou OSCIPs eu não sei. Como também não sei até que ponto ONGs ou OSCIPs são agentes de transformação ou de manutenção do status quo.

Longa conversa, para os momentos de silêncio.

iglou disse...

Sim, sim, luddista, percebo que o fato de ser ong ou oscip não muda muita coisa. Deveria ter usado outras palavras.

Acho que o que eu quis dizer é que me parece mais provável que um grupo organizado - que tenha como objetivo dialogar com o poder público e cobrar mudanças no trânsito e no comportamento das pessoas envolvidas no trânsito - seja mais articulado para fazer as coisas acontecerem do que a bicicletada. Esse grupo, que eu não deveria ter chamado de 'ong ou oscip', é o que você chama de 'sujeito definido com vontades e desejos'.

Na verdade acho que eu já estava tentando dialogar com o vagalumevermelho, que tinha sugerido no fórum da bicicletada que as pessoas se organizassem para acompanhar processos judiciais em que motoristas mataram ciclistas. Usando o argumento falacioso da ong e oscip, quis alertar que a bicicletada talvez não seja o melhor grupo a acompanhar processos judiciais, porque não tem a coesão de 'sujeito definido com vontades e desejos'.

Contudo, sendo o que é, a bicicletada pode muito bem ser um bom lugar para se propor atividades como a do vagalumevermelho. Cada sujeito que participa da bicicletada pode (ou não) identificar suas vontades e desejos próprios com o acompanhamento de processos judiciais; a educação de ciclistas para o trânsito; a criação de respeito mútuo no trânsito e assim adiante.

Não vou tirar a infeliz 'ong ou oscip' do texto, mas me arrependo de tê-las mencionado.