quinta-feira, 28 de junho de 2012

Última aula de campo de fitogeografia

FloNa
Quando cheguei na Unir Centro, pontualmente às 7:30 da manhã, só havia lá o motorista. Desconfiada, liguei pro Narcísio, confirmando a viagem. Aos poucos, as pessoas foram chegando. Dessa vez, partimos em direção a Ariquemes (sudeste). A primeira viagem, em direção a Humaitá, tinha sido no rumo norte (para ver manchas de cerrado) e a segunda foi em direção a Guajará-Mirim (sudoeste, para ver campinas e campinaranas).
A FloNa é uma unidade de conservação enorme em que três empresas exploram minério. Outras empresas trabalham na recuperação de áreas degradadas.
Na trilha para a Pedra Grande
Um brigadista abria a trilha, outro a fechava. Assim controlavam o grupo em dois sentidos: cuidavam para que ninguém se desviasse da trilha e para que nenhum taxonomista (Narcísio) coletasse plantas. Essa parte da proibição de coleta foi a mais penosa para o Narcísio, porque ele encontrou uma espécie de bromélia (com flor!) que uma colega dele do Rio de Janeiro estava pesquisando e somente identificou no Pacaás.
Pedra Grande
Na Pedra Grande, novamente pudemos confirmar como o solo determina (limitando) a vegetação. Vimos na formação rochosa plantas recorrentes no cerrado amazônico, como por exemplo essa (Ficus Devendus o nome) da flor amarela e a Pseudobombax (que nome da hora!), que eu não lembro de ter visto nunca.
Muito recorrente: flor do cerrado

Pseudobombax
Nessas formações rochosas, havia várias ilhas de orquídeas, que proliferavam em fendas que acumulam água e nutrientes.

Orquídea nas fendas da rocha
Caminhando pela trilha na floresta ombrófila aberta com palmeiras, reparamos que o solo era arenoso pacas. A floresta é "aberta" porque as copas das árvores não se tocam: há luz entrando na floresta.
Castanheira
Caminhando na floresta, observamos a trilha (pra não tropeçar em raízes), os troncos das árvores e o que caiu delas (frutinhas, sementes, flores, folhas). Por essas pistas, os professores da disciplina (Laffayete e Narcísio) determinaram que a árvore na foto acima é uma castanheira.
Ombrófila aberta com palmeiras (babaçu)
Quando visitamos uma floresta de transição, duas semanas atrás, também estávamos numa ombrófila aberta com palmeiras, mas as palmeiras de lá eram predominantemente de açaí. Aqui predominava o babaçu. Nas florestas, a disputa é pela luz. Quando abre uma clareira (porque uma árvore caiu, por exemplo), é hora de ocupar esse lugar. As plantas da floresta têm duas estratégias básicas para ocupar esse lugar ao sol: banco de sementes e crescimento veloz. O babaçu, por exemplo, tem sementes muito bem protegidas contra água, que podem esperar pra germinar por 40 anos. Outras árvores fazem suas sementes germinar logo, mas o tamanho das árvores é médio. Elas ficam meio que em standby. Quando abre a clareira, elas disparam e atingem a altura das copas das outras em um prazo relativamente curto.
Curcubitaceae
Sentirei saudades dessas aulas no meio do mato, ó?

Nossos caminhos na FloNa. Na foto acima, estamos numa área de recuperação. O trabalho de recuperação consiste em plantação de espécies robustas, adubagem química, plantação de outras espécies e mais adubagem. Esta região de recuperação depois da mineração nos foi apresentada como região prototípica. Já há plantas que germinaram espontaneamente (sementes trazidas por animais) e todas parecem bem alimentadas. Os trabalhos começaram 15 anos atrás e as árvores não são de grande porte. Voltar ao original é impossível.
Passiflora
E pra encerrar, mais um lindo maracujá. Desconfio que este seja diferente daquele que vimos na aula anterior.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

O fio fantástico

Segundo a mitologia grega, Teseu tinha sido oferecido como sacrifício ao Minotauro e lançado ao labirinto complexo em que habitava o monstro. Ariadne deu-lhe uma das pontas de um fio, para que seu amado pudesse achar o caminho de volta. E assim o fio de Ariadne entrou pras estórias que contamos uns aos outros.

O mestre dos labirintos é Jorge Luis Borges. Num conto curto, chamado Os dois reis e os dois labirintos, um rei da Babilônia mandou construir um labirinto fabuloso, que maravilhava e confundia qualquer um que se aventurasse a entrar naquela paisagem de portas, escadas e muros. Um rei árabe visitante foi convidado a aceitar o desafio de encontrar a saída daquele labirinto complexo. Vagou, desorientado, o dia inteiro por entre suas paredes. Quando finalmente foi resgatado, disse ao seu anfitrião que também tinha um labirinto em suas terras. O rei árabe regressou ao lar, juntou seus exércitos, devastou o reino da Babliônia, aprisionou o rei e o vendou. Cavalgaram por três dias no deserto e então o rei árabe o soltou. Disse ao outro que aquele deserto era o seu labirinto.

Se Ariadne quisesse sair deste labirinto, não teria onde prender o seu fio.

Outro autor fantástico é José Saramago. Não li o conto Embargo, mas vi o filme baseado no conto. Numa época de embargo petrolífero, a gasolina passa a valer mais que ouro. Os postos de gasolina não a vendem mais, apenas mãos sujas manipulam garrafões plásticos cheios do combustível no mercado negro. Nuno está a caminho de uma reunião de negócios que promete mudar sua vida, quando subitamente perde o controle sobre a direção do carro. Tenta sair do carro parado, mas não consegue. Parece haver uma parede invisível que o impede de sair do veículo. Enclausurado, desespera-se ao ver que todas as suas tentativas de interação falham. Seu Alvez lhe vende uma peça de máquina por 3 litros de gasolina, a mulher não entende por que ele dorme na garagem, o caixa eletrônico engole seu cartão, os homens de negócios se escandalizam com uma reunião no estacionamento.

Se Ariadne prendesse o fio ao volante e jogasse o novelo em todas as direções, ele voltaria como um bumerangue - e faria o desenho de uma Margarida (por coincidência, o nome da esposa de Nuno).

A Julio Cortázar tomo emprestados dois tipos de personagens: cronópios e famas. Cronópios contam com o acaso, não se constrangem, explicam como se complicam e fazem festa. Famas premeditam, desenham, calculam, antecipam e preparam. Pois bem, não se pode dizer que a cronópio que me trazia para casa sofra de absoluta falta de orientação espacial, mas ela se perdeu bonito num bairro que frequenta há mais de ano. Quando, mais tarde, a fama escolheu um caminho pouco ortodoxo, a cronópio reclamou durante o caminho inteiro, que - para infelicidade dos passageiros - se prolongou devido ao imprevisto de obras na pista, desvios, chuva e lama.

Se Ariadne tentasse traçar com um fio vermelho os caminhos que cronópios e famas fizeram na cidade, não passaria no exame psicotécnico.

sábado, 23 de junho de 2012

Maré de azar

Heliene, a moça que faz faxina aqui, chegou por volta das 10:00, cansada. Quando mostrei a sujeira do forro dentro do quarto de hóspedes e espalhada sobre tudo o que lá jazia, ela desanimou. A única escada que eu tenho não era suficiente para encaixarmos as lâminas de PVC, então manejamos a mesinha que o Marcelo deixou pra dentro do quarto. Usamos pregos, martelo e chave de fenda para recolocar o forro, que não ficou uma Brastemp, mas separa a casa em dois andares (num a gente anda, no outro, melhor não). Quando estávamos remanejando a mesinha de volta, esbarrei no espelho de parede, que ficou pendurado num só parafuso. Heliene entrou em pânico. Aquele espelho não podia quebrar, porque a vida dela já estava difícil. Recoloquei o espelho no parafuso e ela voltou a respirar. Contou que o ônibus em que ela tinha vindo tinha pegado fogo (ela viu fumaça, mas onde tem fumaça, tem fogo, né).

Fui pra cozinha, preparar o almoço. Senti o cheiro de gás, mas não olhei pra chama. Quando olhei pra debaixo da panela, vi que o gás tinha acabado. Liguei pra distribuidora que me traz água. Hoje tavam sem gás. Peguei a bicicleta e fui até a praça, perguntar nos bares onde eu conseguia gás. No bar do Artur, mas ele não entregava. Se eu esperasse, o rapaz que tava pra chegar me levava o gás. Anotei o número do telefone e voltei pra casa. Quando a fome apertou, liguei pro Artur, que tinha esquecido de mim. O rapaz ainda não tinha chegado, mas ele ia ligar. Enquanto isso, procurei na lista telefônica por gás. Liguei, ninguém atendeu. Artur ligou, dizendo que o filho dele vinha num Palio. E veio mesmo. Assim que ele trocou o gás, acabou a luz.

Quando Akari sobe no forro

Akari só dá trabalho quando sobe no forro. Ela anda pelo forro, mia, pede socorro, mas quando eu pego a escada e subo no forro pelo teto do banheiro, ela não vem até mim nem se deixa pegar. Quando ela se entoca atrás da caixa d'água do outro banheiro, eu deito no chão e puxo a gata pelos cabelos. Saio de lá suja e cansada da peripécia que é resgatar a Akari do forro.

Mustafá é um gato mais esperto. Quando apareço com a cabeça no forro, ele já vem e se deixa pegar e trazer para baixo. Para ele, subir ao forro é muito mais um exercício que uma fuga. Aí ele aprendeu a descer sozinho, e é só raramente que preciso buscar a escada e descer o gato.

Andar no forro não é fácil, porque além de ser baixo e sujo, só se pisa nas vigas. A sala, o meu quarto e o meu banheiro são forrados com madeira (fina, não dá pra eu pisar, mas sustenta a Akari), já o quarto de hóspedes, o outro quarto e a cozinha são forrados em PVC (que é super frágil).

Desde a primeira vez em que desisti de resgatar a Akari, ela furou o forro com o peso dela. Caiu na cama de hóspedes e deve ter achado o atalho interessante. Protegi os PVCs estragados com portas de guarda-roupa, que dispus sobre as vigas, impossibilitando a passagem da Akari. Mas ela insiste. Akari nunca aprendeu a descer do forro por onde entrou. Sempre estragou a casa e me deu trabalho.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Tudo parente

Izaque no cipó
Ontem foi feriado (só) em Rondônia: dia do evangélico. Izaque, hóspede da Cynthia, encontrou uns parentes (todos os índios se chamam, entre si, de parentes) e montamos uma programação turística (...) em Porto Velho.
Izaque e Cynthia no Parque Natural
Izaque é do Amazonas, perto de Parintins e prestou vestibular para Medicina. Vem se preparando para esse vestibular faz aproximadamente 3 anos, quando saiu da aldeia e foi pra Belo Horizonte. Fala português com sotaque e é batista.
Josimar
O parente que passou o dia conosco é Josimar, militar há 5 anos, vindo de São Gabriel da Cachoeira. Seu trabalho é guardar a fronteira entre Brasil e Colômbia, portanto está acostumado a caminhar na floresta. Está prestando vestibular para Ciências Biológicas e gosta mais das plantas que dos animais.
Rio Madeira visto do Mirante 3
Depois do passeio na mata, fomos ao rio. Primeiro observamos o rio de diferentes mirantes, depois fomos nos aproximando pela Praça Madeira-Mamoré até entrarmos no barco que faz o passeio até a usina.
Os parentes
Ali, perto do barco de passeio, sempre tem karitianas vendendo seus artesanatos. Eu mesma já tenho um anel e três colares deles. Eu vou nessas banquinhas para ver as biojoias. Izaque foi para cumprimentar os parentes. Onde ele via índio, ia lá, cumprimentar o parente e perguntar de onde era. Achei legal a postura dele.

domingo, 17 de junho de 2012

Espinho no olho

Usina Santo Antônio
 Achei que a tradução da expressão alemã "Dorn im Auge" era mais apelativa que o original que, por ser uma expressão cristalizada, perde em valor referencial. As usinas são um espinho no olho e muito mais.
Paisagem alterada
O lugar em que havia a cachoeira de Sto. Antônio continua sendo atração para os residentes em Porto Velho. Todos vêm ver o impacto das usinas sobre suas memórias de pesca, banho e alegria infantil.
Cynthia e Izaque Karibi
Pra esse cenário, Cynthia e eu levamos o Izaque que é visita dela enquanto presta a prova do vestibular pra UnB. Quem presta vestibular por cotas para indígenas pode fazer a prova (que é diferenciada) em outras cidades. Izaque estava mais perto de Rondônia e já conhecia a Cynthia. Veio pra cá, passar calor.
Igrejinha de Sto. Antônio

sábado, 16 de junho de 2012

Abriu!

Bananas
Eu acho a dinâmica da bananeira muito interessante. Primeiro sai uma gota da bananeira. Como uma cebola que se descasca, a gota vai abrindo camadas com flores que vão dar em bananas. Se deixar a banana amadurecer no pé, perde muita fruta (por causa dos passarinhos, porque a casca racha, porque cai). Depois que a fruta acabou, o pé que deu banana morre.
Florzinhas
 Tive que subir na escada pra fazer essa foto.
Palmeira de touceira
Toda palmeira tem coquinho, todo coco é oleoso. Toda palmeira tem palmito (em alemão, palmito é, traduzindo, "coração de palmeira" = Palmherz).
Palmeira de vaso

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Outra ida a campo


Ontem teve outra aula de campo da disciplina de Fitogeografia. Havia bem menos alunos dessa vez, o que me espantou, já que as aulas de campo me soam mil vezes mais atraentes que as aulas em sala de aula. Na aula de campo passada, tínhamos visto manchas de cerrado na floresta amazônica. Dessa vez vimos campinas, campinaranas (falsas campinas), floresta de transição e floresta.
Achei a flor parecida com uma orquídea
A Ruisterana nos acompanhou em todos os biomas, sempre com portes diferentes: alta na beira de estrada e na floresta, quase um arbusto na campina.
O caule estava seco, as folhas caídas. Nas pontas, apenas algumas flores.
Nosso caminho nos levou em direção a Guajará-Mirim, sempre margeando o Rio Madeira. Passamos, assim, pelas duas usinas hidrelétricas no Rio Madeira. Isso significa, também, que praticamente toda a paisagem ao longo da estrada está condenada a ser alagada. Havia obras em todo o trecho, subindo o nível da estrada.
Trilho da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré
As campinas são formadas em antigos leitos de rio. O curso do Rio Madeira tem mudado ao longo dos anos, até encostar na serra. Por onde passou, deixou manchas de campinas e campinaranas.
Bicho geográfico?
A floresta amazônica, então, não é uma floresta homogênea, mas um mosaico de biomas, em que ocorrem, dentre outras formações vegetacionais, cerrados, campinas, campinaranas, mata aberta e mata fechada.
Inseto zoiudo
Tanto o solo do cerrado quanto o da campina são arenosos, mas somente o cerrado tem solo argiloso, o que impede a drenagem da água. Com a água empoçada, há baixos teores de oxigênio no solo. Na campina, a drenagem da água é alta, porque o solo é composto por areia (branca), sem argila. A vegetação da campina é mais densa que a do cerrado, apesar dos indivíduos serem recorrentes nos dois biomas.

Tronco retorcido

Maracujá nativo: Passiflora Araujoi
Eu vi a flor vermelha de relance pela janela do ônibus. Quando Narcísio pediu pro motorista parar, desci junto pra ver aquela flor grande. Era uma passiflora linda, com frutos que pareciam mini-melancias.

Sol que morde a cara da gente, ar condicionado no ônibus, a umidade da mata e a falta de movimento ao ouvir explicações foram um pouco torturantes, mas as piadas, as risadas e a maravilha que é a natureza compensaram o desconforto causado pelo calor.
Jardim de formigas
A diversidade de cada um desses biomas é relativamente baixa, mas sempre aparecem pequenos tesouros, como por exemplo esse jardim de formigas, característico das campinas. As formigas se instalaram num tronco arbóreo e outras plantas (nesse caso, uma suculenta e uma bromélia) se instalaram em cima do formigueiro para formar essa simbiose.
Tirei foto desses coquinhos de palmeira espinhenta e não chamei a atenção de ninguém para a existência da planta. Quando Narcísio viu as minhas fotos, brigou comigo, porque ele queria ter coletado esse exemplar. 
Mata de transição
Muitas palmeiras e pseudo-bananeiras caracterizam a mata de transição. Sabemos que estamos na floresta e não mais na campina ou campinarana ao observarmos o solo, que é fofo. As folhas em decomposição formam um tapete orgânico.
Todos nós: bem menos que da outra vez
Ironicamente, vejo pela janela de casa que estão recapeando o asfalto (recapeando do lado de lá, asfaltando do lado de cá o que a chuva lavou) da rua no momento em que escrevo sobre o mosaico amazônico e mostro imagens de estrada de terra.
Coleta
Quando estávamos prestes a entrar numa campinarana, Narcísio avistou a flor de uma hemiepífita (as folhas se instalam no tronco hospedeiro, as raízes estão no solo) lá no alto (que nem aparece na foto). Ninguém se habilitou a subir na árvore e trazer a flor e folha, então Narcísio subiu. Com o podão (espécie de tesoura de poda na ponta da haste que Lafayette está passando pro Narcísio), conseguiu coletar o que parece ser uma nova espécie.

P.S.: Obrigada pelas correções e especificações, Narcísio!

P.S.2: No caminho, passamos por uma cidade-fantasma: Mutum-Paraná. A não ser pelos caminhos e os pés de jambo, manga, banana e bambu, sumiu tudo. Não há sinais, fora esses, de que ali, na beira da BR, existiu uma cidade. Muito louco, o poder das usinas e do progresso em nome do qual elas vieram...

terça-feira, 12 de junho de 2012

Parte 2: a televisão


Hans Weingartner lançou, em 2004, o famoso Die fetten Jahre sind vorbei (Edukators). Em 2007, deu sequência ao projeto de mostrar na tela revoluções provocadas pelos jovens, com o Free Rainer: dein Fernseher lügt (Reclaim your brain). Os paralelos entre os dois filmes são evidentes: no fim de Die fetten Jahre sind vorbei, os três vão a uma ilha onde estão instaladas antenas de TV para desligá-las por alguns minutos. Se no filme de 2004 a intenção era interromper o sistema por um breve momento e assim chocar e assustar os que confiam na perenidade, no filme de 2007 os jovens partem para a ação: manipulam os índices de audiência televisiva e assim forçam a mudança da programação da TV alemã.

Em Die fetten Jahre sind vorbei, o cara que foi sequestrado pelos garotos promete não denunciá-los, mas acaba invadindo o lugar onde eles moram com a cavalaria montada. Em Free Rainer, o antigo empregador do nosso heroi igualmente tenta surpreender os revolucionários com a polícia armada. Em ambos os filmes, os jovens já estão longe e os conservadores ficam com cara de tacho.

Nos dois filmes, os personagens principais (o trio de Die fetten Jahre sind vorbei e Rainer, Philip, Pegah mais os "funcionários" que "contratam" em Free Rainer) são socialmente desajustados. Por terem ideais, por lutarem contra a desigualdade social, por desacreditarem na força do capital, Jan Jule e Peter vivem à margem da sociedade de consumo. Rainer, ao contrário, é um produtor economicamente bem-sucedido de um canal de TV que basicamente só passa novelas, reality shows e talk shows. As drogas, a mulher linda e as ideias estúpidas de programas de sucesso não saciam. Ele se pergunta como pode o público engolir todo aquele besteirol. Quando bola um programa que ele acha interessante, os índices de audiência do canal caem. Rainer passa a se interessar pelo elemento que controla os índices de audiência. Já sua antagonista, Pegah, foi criada pelo avô, que cometeu suicídio após ter sido difamado por um programa de TV elaborado por Rainer. Abandonada à própria sorte, decide tirar a vida de Rainer. Outro tipo de desajustado é Philip, o típico nerd que curte literatura e informática e parece sofrer de fobia social. Trabalha como segurança no IMA (Institut für MedienAnalyse), que Rainer vai invadir. Com a ajuda de Philip, Rainer e Pegah descobrem que a audiência é calculada por amostragem: cada clique de uma certa pessoa responde por 15 mil telespectadores. Os cliques dos escolhidos são registrados por uma caixa especial. O plano é conseguir os endereços dessas pessoas-controle e trocar as caixas. Para isso é preciso uma equipe. Os "funcionários contratados" são os que se demoram na fila dos desempregados.

O último elo de ligação entre os dois filmes de Weingartner é uma referência direta e explícita no Free Rainer ao Die fetten Jahre sind vorbei: aparece, na tela da TV, a cena da garotinha que encontra a carta deixada pelos "edukators" na pilha de móveis no meio da sala, em que se lê: "Die fetten Jahre sind vorbei".

Do pouco contato que eu tenho com o cinema alemão, diria que os dois melhores atores são Moritz Bleitreu (Lola rennt, Das Experiment, Soul Kitchen, Elementarteilchen, Solino, The Keeper: The Legend of Omar Khayyam) e Daniel Brühl (Goodbye Lenin, Die fetten Jahre sind vorbei, Salvador (Puig Antich), Ein Freund von mir, Krabat, A Condessa, Bastardos inglórios, Der ganz grosse Traum). Sempre um prazer ver um desses dois fazendo a revolução. O que me espanta, no entanto, é como esse segundo filme de Weingartner (de 2007) não atingiu a fama que o de 2004 alcançou.

Percebo algumas inconsistências no Free Rainer:
(i) Nas primeiras cenas, Rainer se entope de álcool e cocaína. No meio do filme, nenhuma alusão às crises de abstinência. Mais pro final, uma cena em que ele quer comemorar uma pequena vitória com um pouco de pó branco, mas joga tudo na pia. Se largar as drogas fosse tão fácil, não haveria tanta gente sofrendo.
(ii) Pegah espreita Rainer com uma arma na mão. Não tem coragem, sai correndo. Em seguida, ela acelera o carro pra cima do carro dele e os dois vão parar no hospital. No fim do filme, são um casal. Ah, o amor e o ódio...
(iii) Philip corre atrás do sujeito que sai correndo da empresa que ele deve guardar. Rainer tinha roubado uma daquelas caixas, mas promete explicar tudo. No fundo da cena, os colegas de Philip chamam-no pelo primeiro nome (na Alemanha, o código de postura e bons costumes não permite isso).
(iv) Philip se deixa convencer por Pegah quando ela lhe diz que a situação é como em Admirável Mundo Novo. Ele testa a garota, perguntando quando o livro foi publicado pela primeira vez. Ah, se pessoas versadas em literatura fossem incondicionalmente confiáveis...
(v) Philip entra no carro, os colegas no encalço. Pra onde ele, praticamente na condição de sequestrado consentido, leva os dois desconhecidos que anunciaram uma explicação, mas até o momento só demonstraram conhecimentos literários? Pra casa dele. Justo o cara que sofre de fobia social!
(vi) Já na segunda semana de troca de caixas, acaba o dinheiro de Rainer, porque um dos "funcionários" colidiu, bêbado, contra uma parada de ônibus, foi preso e resgatado mediante fiança. Quando Rainer paga os 50 mil euros para soltar o Bernd, todos os "funcionários" decidem trabalhar de graça. E Bernd descobriu que não era preciso entrar nas casas e trocar as caixas, bastava manipular a caixa de telefone que fica na rua. Não fica claro, no filme, o que Rainer fez com as mil caixas que ele tinha comprado e que agora são obsoletas, e de onde saiu o dinheiro para pagar os custos (gasolina, estadia, comida) de se manipular caixas de telefone espalhadas no país inteiro.

Fora essas pequenas distorções, gostei bastante do filme. Gostei da questão do círculo vicioso que se instala em relação à TV: a qualidade dos programas é determinada pela audiência. Só que a audiência não parece ser calculada de maneira justa: uma minoria decide o que a totalidade vai ver na TV.

Ao manipular os índices de audiência, Rainer e seus companheiros (porque na revolução, todo mundo que milita do mesmo lado é companheiro) tiram pontos de programas que eles consideram trash e dão pontos para programas que eles consideram edificantes (documentários, jornais, filmes cult). Como a mídia vive da audiência, todos os canais passam a investir em programas que dão muitos pontos. Quando a TV alemã passa quase só conteúdos intelectualizados, acontecem duas coisas: metade das pessoas elogia a programação da TV e a outra metade deixa de ver TV. Ou seja, quando a programação finalmente melhora, as pessoas preferem passear no parque, ler livros, escutar música, brincar com os filhos. Daí eu me pergunto qual é o papel social da televisão: entreter? informar? A resposta do filme é pacificar, anestesiar, emburrecer. Só por isso, já ganhou pontos comigo, que parei de assistir TV há 10 anos.

domingo, 10 de junho de 2012

De volta ao verde do jardim

Palmeira que plantei a partir de um coco

Mais bananas!

Samambaia

Outra pteridófita
Quando saí de Gramado, a imagem do termômetro marcando -2°C ainda me causava forte impressão. Desembarquei em Porto Velho e tive que me proteger contra a friagem que havia se instalado aqui. Ao menos o choque de temperaturas foi amenizado.

Graviola

Acho que isso vai dar uma graviola

Essas borboletinhas andam sumindo com o avanço da "civilização", assim como os pirilampos. Aqui em casa, elas preferem o pé de graviola.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Infância

Caixa de areia na escolinha da Casa da Juventude

As férias eram aqui

Lago Negro

Helena

Helena e Gabriela