domingo, 28 de fevereiro de 2010

O argumento que funciona

Eu tenho 3 bicicletas. Cada uma serve para um propósito diferente, com cada uma tenho uma relação diferente.

A Caloi 10 é de estrada, estilosa e veloz.
A Laranja Mecânica é mais igual às bicicletas daqui.
Amarilda é a melhor bicicleta do mundo e pronto.

Tenho saudades da Caloi 10 porque ela não está aqui. Está em São Paulo, acumulando poeira na casa de uma amiga. Essa amiga me escreveu recentemente sobre a bicicleta. Na onda de ano novo, casa nova, moradora nova, vida nova, achou que ela precisava dar um novo encaminhamento pra minha bicicleta dos pneus murchos:

Coisa parada não faz bem; a fila anda e o que fica parado pára no tempo.

Ofereceu de vender a bicicleta ou mandar pela transportadora. Eu já interpretei que ela queria jogar fora (!) a minha Caloi 10. Para garantir o status quo da minha bicicleta, argumentei que a Caloi 10 tinha sido do Luisão, portanto era semi-sagrada pra mim. O discurso mudou rapidinho: puxa, era do Luisão... então eu espero você vir pegar a sua bicicleta.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Der Kontrabass

Em noites em que o barulho lá de fora é maior do que a tolerância do meu sono leve, coloco os fones de ouvido e ouço um audiobook. Música não me faz dormir, mas a voz de quem me conta uma estória no ouvido me desliga rapidinho. Vozes graves fazem efeito mais rápido.

Botei Der Kontrabass, de Patrick Süskind (autor de livros doidos como Das Parfum e Die Taube). Achei que eu pudesse usar esse livro como sonífero, mas me enganei redondamente. Der Kontrabass não é um livro. Existe um texto, mas ele não foi concebido pra ser lido. O texto é uma peça de teatro, mais especificamente um monólogo.

O narrador é membro da orquestra sinfônica, e seu instrumento é o contrabaixo. Enquanto ele conversa com quem escuta, pede licença para beber água. Conversa mais um pouco sobre a essencialidade do contrabaixo para qualquer orquestra e muda da água pra cerveja. Sente necessidade de explicar a matemática da música e toca algumas notas ilustrativas.

Vai até a janela, abre-a para provar que seu apartamento é acusticamente isolado. Ouve-se o caos da rua e a janela fechando. De volta ao seu instrumento, afirma que quanto mais longe se está do contrabaixo, melhor se percebe o seu som. Toca uma nota insistentemente. Ouve-se a vizinha de cima batendo a vassoura no teto do apartamento dele. Em seguida, ouve-se a vizinha do lado batendo na parede. Apesar de ter um apartamento acusticamente isolado, o som que sai dele incomoda os vizinhos mais que o caos da rua.


O contrabaixista continua prendendo a atenção de seu público quando teoriza sobre os antípodas grave x agudo, velho x jovem, homem x mulher, desajeitado x gracioso e confessa sua incondicional admiração pela soprano da orquestra. Termina o texto expressando sua rejeição pelo instrumento que lhe rege a vida.

Depois de uma hora e tanto de audiobook eu continuava desperta. Botei outro: um policial. Não lembro o título nem a trama. Lembro de ter acordado no meio da noite com uma voz desconhecida no meu ouvido. Funciona como sonífero.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Dessas conversas insólitas

Sabe quando você atende o telefone no Ano Novo e um completo desconhecido te deseja tudo de bom, felicidades e sucesso? Ou quando você liga pro seguro residencial pra mudar o endereço e o cara que te atende te conta altas estórias?

O sujeito da corretora de seguros quis saber de onde vinha o meu nome. Respondi que saiu da cabeça da minha mãe. Deu risada e entendeu que foi inventado. Falou do próprio nome:

Meu primeiro nome é Arsênico, que é nome de veneno, né. Vai saber o que tava passando na cabeça dos pais quando botaram esses nomes na gente. Tem um juiz, que o nome dele de batismo é Disney Chaplin. Mas ele mudou, ele conseguiu mudar o nome dele e ficou Mateus. Melhor, né, mas eu, como eu sei o antigo nome dele, chamo ele de Disney. Ele não gosta, mas sabe que é brincadeira.

-mar

Rosimar é a esposa de um amigo meu.
Lindomar mora em Paraty e tem sete irmãos parecidos com ele.
Alemmar quer ser professora de espanhol.
Francimar é bonitão e tem o meu número de telefone.
Irismar é minha aluna e fica toda contente quando lembro o nome dela.

Pelo visto, a terminação em -mar não indica gênero nem sexo, pois serve tanto para formar nomes de homens como de mulheres.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Primeiro dia de aula


Dou aula pra calouros. Os meus alunos são bixos de Matemática e de Letras. De manhã, meu público são em grande maioria meninos que dizem que detestam língua portuguesa. De tarde, minha audiência são mulheres que dizem que adoram ler (algumas lêem a Bíblia todo dia). No intervalo, meus ex-alunos de Física, Inglês e Espanhol vêm me cumprimentar sorrindo, radiantes, apertar minha mão e me abraçar. Esses aí se sentem renovados no início do semestre. Os calouros, no entanto, estão perdidos.

As aulas que dei foram bem diferentes uma da outra. É possível até que os alunos tenham pensado que eu dei um trote neles. Talvez tenha dado mesmo. Os calouros passaram as duas horas da aula distraídos pelos veteranos, que apareciam na janela com cartazes do tipo:

A sua hora vai chegar!
Bem-vindo ao inferno!
Corte de cabelo grátis...
[carinha com os olhos fechados e língua de fora]

Essas intervenções de fora começaram quando expliquei pros alunos de Matemática que só escreveriam bem quando fossem bons leitores, e que seria legal eles compartilharem com a turma alguns textos legais. Quem quisesse, podia ler textos curtos em voz alta pros colegas. Eu começaria lendo trechos retirados do Dança do universo do Marcelo Gleiser, em que a vida de alguns físicos que se debruçaram sobre o o modelo do universo é descrita. Antes de começar, anunciei que desistiria, pra que os calouros pudessem usufruir do trote que os veteranos queriam lhes dar. Não, professora! Eu estou me sentindo acuado. Lê aí pra gente, que a gente não vai sair dessa sala. Li um trecho longo, referente a Copérnico. Amanhã é a vez de Galileu.

Os alunos de Letras não foram tão assediados pelos veteranos. Acho que o fato de tanto os veteranos como os calouros serem majoritariamente mulheres tem algum peso. Pra esses, li crônicas do Luis Fernando Veríssimo. Não riram quando eu riria. Devo ter exagerado na mímica, ou pronunciado mal alguma palavra-chave crucial.

Perguntei a todos por que tinham escolhido aquele curso e não outro. A grande maioria dos alunos de Matemática quer usá-la como degrau para chegar em outra graduação: Engenharia, Ciências Contábeis, Administração, Economia. O restante disse que tinha facilidade e gosto por números. Os alunos de Letras eram mais heterogêneos: muitas tinham tido professores de Português admiráveis, muitas não tinham passado no vestibular pra Direito, alguns queriam o curso superior pra poderem passar em concurso, e a grande maioria queria aprender a falar bem e escrever bem. Neste exato momento desconfiaram que eu estava dando trote neles: disse que eu sou lingüista. Mais, disse que falar bem e escrever bem é uma questão de formação, não de fórmula mágica.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Volta às aulas

É amanhã.
Língua Portuguesa para Matemáticos convencidos que gostam de números, não de Letras.
Produção Textual para ingressantes em Letras.
O processo seletivo para o mestrado ainda não acabou.
O projeto do cineclube ainda não foi submetido.

Não tive férias, passei o Natal com o meu chefe e trabalhei durante o carnaval.
Bem-vinda à vida de professora engajada.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Twists and turns

Agora que sou professora universitária, me permito algumas excentricidades, como por exemplo a aquisição da coleção completa de Sandman. Comprei o primeiro de quatro volumes, que veio em uma semana (super rápido!). No mês seguinte, quis comprar o segundo volume.

Uma semana depois de ter pedido e pagado pelo vol. 2, veio resposta da livraria: o vol. 2 está em processo de reedição e o relançamento está previsto pra abril. Se eu quisesse esperar, tudo bem, mas se eu quisesse cancelar, também tudo bem. Pedi pra cancelar o vol. 2 e adquirir o vol. 3.

Como os preços do vol. 2 e 3 eram levemente diferentes, havia uma diferença sobrando pra mim. Troquei e-mail por uma semana com uma atendente até estabelecermos que a diferença me seria creditada no cartão da livraria.

Uma semana depois, a atendente da livraria me escreveu que o vol. 3 estava disponível, mas com a caixa (edição de luxo...) danificada. Em vez de responder se eu queria ou não o vol. 3, perguntei como tava o vol. 4.

Na segunda-feira de carnaval, às 13:00 tocou o telefone. Achando que era a Heloisa, atendi o telefone:
- Casa de massagens Flor de Lótus, boa tarde.
Era a moça da livraria, completamente atordoada. Disse que o vol. 4 teria que ser importado, o que demoraria, e que o vol. 3 tava na mão dela. Pelo fato da caixa estar danificada, me daria desconto de 10%, que me seria creditado no cartão da livraria.

Agora é só esperar o vol. 3 chegar de Recife.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Middle class way of life

Pelo fato de eu morar na Vila, o Ninno ficava me zoando. Dizia: middle class way of life. Eu dizia que ele era hippie, e ele se defendia: eu tomo banho, tenho carro e gosto de ar condicionado, pô. Quase chegamos à conclusão de que eu era hippie. Quase, porque eu tomo banho, mas tenho umas bicicletas e um ventilador que eu nunca ligo.

Aí a Miyuki entrou em casa com toda a mudança dela. Agora, sim, essa casa está classe média: temos ventilador de teto, ar condicionado no escritório, tapete, carro na garagem e televisão na estante. As contas de água e luz não vão simplesmente dobrar...


A televisão tomou o lugar dos meus dicionários. Acho que é grave, doutor.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Biribá

Davi, o boliviano que cortava grama da casa na Rua Venezuela, veio cortar grama aqui. Chamei porque os cortadores de grama daqui cobram entre R$ 35 e 50. E a classe média que mora na Vila paga isso sem reclamar. Davi quis cobrar os mesmos R$ 25 de sempre, mas eu lhe dei R$ 30, por aqui ser mais longe que lá.

Antes de ir embora, Davi me perguntou se eu gostava de biribá. Interpretou a minha expressão facial e perguntou se eu conhecia biribá. Abriu uma sacola e me deu um de presente. Tinha sido colhido do pé que ele tinha podado antes de vir pra cá, cortar grama.
Biribá é parente da fruta do conde, mas olha a diferença de tamanho e gosma.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Language Death

Os candidatos ao mestrado, mesmo não tendo sido aprovados na prova de conhecimentos específicos, fizeram a prova de língua estrangeira (que não é eliminatória). Havia duas línguas à escolha: inglês e espanhol. O texto, no entanto, era o mesmo.

Escolhi o livro do David Crystal chamado Language Death como base da prova, porque o Júlio tinha uma versão desse mesmo livro em espanhol. Faltava só o Language Death que eu encomendei pela Estante Virtual chegar. O livro chegou no dia em que aplicamos a prova. Por sorte, eu tinha achado uma versão 'free for download' na internet.

A negociação de qual parte do livro seria o texto para a prova foi árdua. Os responsáveis pela prova queriam dar aos candidatos um texto de 11 páginas, o resto da comissão achou aquilo um martírio. Foi sugerido outro trecho de 3 páginas, mas esse também não foi aceito. Chegamos ao compromisso de 6 páginas.

Durante a prova, que foi respondida em português, ouvimos alguns elogios. Além de termos fornecido o mesmo conteúdo nas duas provas de língua estrangeira, eles ainda estavam aprendendo o que é a morte de uma língua.

Quem morreu fui eu, corrigindo as pérolas tanto da prova de espanhol como de inglês:

... devido à falta de incerteza ...
... uma língua morre quando não há pessoas que pensam.
... uma língua que usufrui do mesmo idioma.
... o uso da língua extinta passa a ser um problema na comunicação.
... um homem está morto quando deixa de ter a vida.
... sobrevivente de uma reportagem.
... os Tapshin reclamam que os Met falam a mesma língua que eles.

O tiro de misericórdia:

A publicação desses dados acaba provocando confusões, pois leva as pessoas a pensar que as línguas estão morrendo.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Dejavu

Ontem teve festa na Oca. A festa era de comemoração antecipada do aniversário do Sales, nosso palhaço. Apesar de estar a muitos quilômetros de distância dos meus irmãos tapioquenses, posso imaginar como foi a festa. Imagino que teve comida que demanda pouca elaboração culinária (churras), cerveja, música feita pelos presentes (violão, chocalho, chaleira, caixa de fósforo, pandeiro e ziriguiduns estão sempre por perto) e muita gente rindo (provavelmente do Sales). A música feita por todo mundo é marca registrada das festas da Oca da Tapioca. Violão e voz de Sales e Ruy e o pandeiro e voz do PH (que não é morador, mas assíduo frequentador) sempre foram o motor da música coletiva. Foram 7 anos de afinação entre nós, e hoje eu diria que a música coletiva vale a festa.

Ontem eu tive um déjà vu quando fui na festa de aniversário do Ninno. Ninno é muito parecido com muito amigo meu, mas bem diferente de mim. Na festa teve churrasco, cerveja, palhaçadas e música feita pelos convivas. Havia vozes, violão, xilofone, chocalhos, reco-recos, agogô, pandeiro e cajón. Ouvindo aquilo, lembrei da primeira festa da Oca, em que nos auto-denominamos Inimigos do Ritmo.

Mas essa parte da música coletiva na festa do Ninno veio depois que silenciaram os alto-falantes, de onde saía o som de uma banda muito apreciada por aqui:
Dejavú.

Quando o techno-brega deu lugar à nossa disritmia e desafinação coletiva, os apreciadores daquela música de massa se foram embora, dizendo "té, já vou".

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Caçador de papagaios

Aqui pipa é papagaio. Enquanto a Akari corre atrás dos passarinhos, Shaoran traz pra casa os papagaios que caça. Ontem trouxe uma rabiola, hoje um papagaio inteiro.

Os esquemas

Depois de um mês trabalhando na Unir, me inscrevi num curso (mequetrefe) que foi oferecido lá. A mulher que recebeu a minha inscrição quis saber se eu já tinha casa, se eu morava sozinha, qual era a minha imobiliária. Explicou o interesse na minha situação: ela tinha se solidarizado com um professor novo na Unir, que tinha vindo da Unicamp e estava com dificuldades de achar uma casa decente. Aí estava sondando as outras pessoas que ela, de primeira olhada, considerava decentes.

A mulher anotou o meu e-mail e telefone, mas o moço não me procurou. Eu, no entanto, não larguei o osso, porque a ideia de dividir a casa com mais gente começou a me agradar. Procurei o Fernando, escrevi pra ele e ofereci vaga na minha casa. Uma semana depois, ele agradeceu pela proposta, e disse que estava morando com um amigo e que os dois já estavam num esquema de outra casa.

Paulo e eu conversamos bastante sobre morar sozinho ou em república. Ele estava esquematizando o futuro dele, e nesse futuro ele previa um belo aumento de aluguel no apartamento que ele habita sozinho. Robson, professor do Paulo, estava descontente com o apartamento que ocupava e de olho no do Paulo. Não seria esquema eles morarem juntos, porque o Robson é casado e prefere manter a privacidade do casal.

Continuei oferecendo a minha casa pras pessoas (homem/ mulher/ aluno/ professor), mas ninguém se habilitou. De repente, tudo se reverteu. Paulo voltou das férias que passou numas repúblicas e viu que morar em comunidade não é tão ruim. Miyuki estava horrorizada com os preços de aluguel e aceitou o meu convite de morar comigo. Fernando me escreveu dizendo que o amigo voltaria pra Campinas e que segurar a onda sozinho naquela casa seria complicado.

Minha casa é grande, mas não cabe todo mundo. Miyuki já estava no esquema, mas o dos meninos ainda precisava ser arranjado. Botei o Paulo e o Fernando em contato, mesmo sem nunca ter visto o Fernando. Deu jogo. Paulo vai mudar pra casa do Fernando (amanhã) antes mesmo da Miyuki mudar pra cá (semana que vem). Assim que o apartamento do Paulo vagar, Robson entra no esquema e todo mundo fica feliz.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Labirintos

Quando o livro do Jorge Luis Borges (Ficções) chegou pelo correio, ganhei dois parceiros de diálogo: Heloisa e Júlio. Heloisa dedicou um mestrado e um doutorado ao bom velhinho. Já o Júlio é apaixonado pelo escritor que conduz seu leitor por labirintos. E os labirintos borgianos são de diversas naturezas, o que lhes dá um encanto perturbador: são fantásticos - nos dois sentidos. Porém, por mais que meus interlocutores me ajudem a achar a saída dos labirintos borgianos, sempre me perco na erudição do autor.

Quando achei que eu precisava dar um tempo pros contos do argentino decantarem, escolhi um livro de um italiano que me tinha sido dado pelo Ferrone, muito tempo atrás: O castelo dos destinos cruzados. Esse labirinto atravessou o outro, que deixei na estante, suspenso. Ítalo Calvino teve - isso é evidente - forte influência de Borges. Ferrone lê os dois, inclusive traduziu um conto do Borges, que eu revisei. Era certo que estes labirintos estavam ligados.

A melhor parte dos destinos cruzados não são as estórias que os personagens, de repente mudos, contam através das cartas de tarô que têm à mão. Não, a melhor parte é a nota no final, em que o autor conta como arquitetou aquelas estórias, arranjou as cartas e inventou estórias insólitas a partir do mapa de cartas disposto na mesa. Influenciada pelo Castelo (ou talvez tenha sido pela taverna?) dos destinos cruzados, escrevi aquela estorieta que ninguém entendeu, três posts atrás. Talvez agora, que atesto a influência de Calvino nos Sentidos cruzados, o labirinto que inventei fique mais abstrato e fechado em si, descolado da minha vida.

Terminei o Calvino, mas ainda não quis retomar o Borges. Retomei o Paul Auster, emprestado pelo Renato, que eu tinha interrompido depois da segunda estória da Trilogia de Nova Iorque. Suspendi porque "os livros da estante do Renato são para se ler com as vísceras, não com os olhos". Enfim, suspendi porque as estórias são labirínticas e os elementos são retomados na estória seguinte e revestidos de outras roupagens. Como as cartas de tarô do Calvino. A Torre de Babel, o trabalho de detetive, as andanças sem rumo e os labirintos simbólicos são pistas de influência de Borges em Auster, mas não posso provar nada.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Dia de prova

Dia de prova para o mestrado significa ouvir a ansiedade dos colegas que tiveram pesadelos de noite. Significa chegar muito antes dos candidatos, contar carteiras e cadeiras, limpar carteiras e cadeiras empoeiradas, ensinar o caminho pros de fora, ouvir reclamações de candidatos, ouvir perguntas cretinas de envolvidos e ouvir baboseiras em geral.

Dia de prova significa verificar se não estão com livros embaixo da mesa, com o celular ligado, com folhas além daquelas que nós fornecemos. Significa acompanhar os candidatos ao banheiro, apontar lápis dos outros, informar quantos minutos faltam pro tempo acabar, levar folhas de rascunho e de resposta para mãos cansadas de ensaiar um texto adequado.

Dia de prova significa ficar em silêncio com mais 40 pessoas tensas, convencidas de que não estudaram o suficiente.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

E viva a república!

Nesse momento, a minha casa tem mais gato do que gente. No fim de semana, haverá um equilíbrio entre humanos e felinos.

Miyuki, que tinha me emprestado o carro por um mês, está pra ser despejada do apertamento que habita. Ofereci de ela vir pra cá e ela aceitou. É por um ano, porque ela está esperando o apartamento que ela comprou ficar pronto.

Outra virada na vida. Minha vida na Amazônia é uma aventura.