segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Primeiro dia de aula


Dou aula pra calouros. Os meus alunos são bixos de Matemática e de Letras. De manhã, meu público são em grande maioria meninos que dizem que detestam língua portuguesa. De tarde, minha audiência são mulheres que dizem que adoram ler (algumas lêem a Bíblia todo dia). No intervalo, meus ex-alunos de Física, Inglês e Espanhol vêm me cumprimentar sorrindo, radiantes, apertar minha mão e me abraçar. Esses aí se sentem renovados no início do semestre. Os calouros, no entanto, estão perdidos.

As aulas que dei foram bem diferentes uma da outra. É possível até que os alunos tenham pensado que eu dei um trote neles. Talvez tenha dado mesmo. Os calouros passaram as duas horas da aula distraídos pelos veteranos, que apareciam na janela com cartazes do tipo:

A sua hora vai chegar!
Bem-vindo ao inferno!
Corte de cabelo grátis...
[carinha com os olhos fechados e língua de fora]

Essas intervenções de fora começaram quando expliquei pros alunos de Matemática que só escreveriam bem quando fossem bons leitores, e que seria legal eles compartilharem com a turma alguns textos legais. Quem quisesse, podia ler textos curtos em voz alta pros colegas. Eu começaria lendo trechos retirados do Dança do universo do Marcelo Gleiser, em que a vida de alguns físicos que se debruçaram sobre o o modelo do universo é descrita. Antes de começar, anunciei que desistiria, pra que os calouros pudessem usufruir do trote que os veteranos queriam lhes dar. Não, professora! Eu estou me sentindo acuado. Lê aí pra gente, que a gente não vai sair dessa sala. Li um trecho longo, referente a Copérnico. Amanhã é a vez de Galileu.

Os alunos de Letras não foram tão assediados pelos veteranos. Acho que o fato de tanto os veteranos como os calouros serem majoritariamente mulheres tem algum peso. Pra esses, li crônicas do Luis Fernando Veríssimo. Não riram quando eu riria. Devo ter exagerado na mímica, ou pronunciado mal alguma palavra-chave crucial.

Perguntei a todos por que tinham escolhido aquele curso e não outro. A grande maioria dos alunos de Matemática quer usá-la como degrau para chegar em outra graduação: Engenharia, Ciências Contábeis, Administração, Economia. O restante disse que tinha facilidade e gosto por números. Os alunos de Letras eram mais heterogêneos: muitas tinham tido professores de Português admiráveis, muitas não tinham passado no vestibular pra Direito, alguns queriam o curso superior pra poderem passar em concurso, e a grande maioria queria aprender a falar bem e escrever bem. Neste exato momento desconfiaram que eu estava dando trote neles: disse que eu sou lingüista. Mais, disse que falar bem e escrever bem é uma questão de formação, não de fórmula mágica.

Um comentário:

Silvio Tambara disse...

Sugiro livros do Ian Stewart, Martin Gardner e esses divulgadores da matemática que escrevem livros divertidos. Não tenho nada digital deles, só fotocópia. E não é tão fácil encontrá-los por aqui. Mas valem a pena.