quarta-feira, 17 de junho de 2009

Tempero secreto

Era uma vez um homem casado com uma mulher. Foram felizes no casamento, mas um dia ela morreu. Ele logo percebeu que arranjar uma nova esposa era uma questão de sobrevivência, porque ele não sabia cozinhar, operar a máquina de lavar roupa ou o ferro de passar, para que serviam todos aqueles produtos de limpeza e como fazia pro lençol ficar esticadinho. Não teve dificuldades para conseguir uma nova esposa. Essa era até mais jovem, mais bonita, mais dedicada e mais prendada. A moça adorava cozinhar e receber aplausos de seu marido pelas obras de arte que produzia na cozinha.

Um dia, depois do almoço, o marido ficou amuado. Depositou o cotovelo na mesa e deitou o queixo sobre a palma da mão. Ela pensou que a comida não lhe tinha caído bem, perguntou toda preocupada o que ele estava sentido, e ele só suspirou. Insistiu em descobrir o motivo para tal comportamento peculiar, até que ele lhe confidenciou, meio sem graça, que sentia saudades de um certo tempero que a finada esposa usava sempre. Disposta a agradar o marido, a segunda esposa perguntou qual era tal tempero. Ele não soube responder.

A moça focou toda a sua atenção nos temperos locais, frescos, depois experimentou os secos e por fim os importados. Conheceram juntos uma enorme variedade de temperos e combinações de temperos, e toda refeição era uma explosão de sabores que não se repetia. Porque o tempero secreto da finada falecida não vinha parar no prato do marido. A moça parou de usar os temperos afrodisíacos quando deu à luz uma criança muito dócil.

Um dia, enquanto as panelas estavam no fogo, a criança começou a chorar de cólicas. A mãe foi acudir e gastou mais tempo verificando o bebê que a água do arroz precisava para evaporar. Quando voltou à cozinha, o estrago estava feito: almoçariam arroz queimado. Ela não faria outra panela de arroz pra esse marido que há quase um ano sentia saudades da comida da ex-esposa! Estava cansada desse jogo de buscar pelo ingrediente secreto. Com muita naturalidade, avisou ao marido que o arroz tinha queimado. Ele não discutiu, apenas serviu-se. Enquanto mastigava, seus olhos se encheram de lágrimas. Quando engoliu a primeira garfada, já estava aos prantos, abraçando a esposa: Você encontrou o tempero secreto!

Acho que ouvi essa estória na mesa dos meus avós, mas desconfio que a tenha ouvido da minha mãe. Posso estar enganada. O que importa é que a estória sempre me conforta quando minhas idéias culinárias mirabolantes não saem como eu queria, e fico mastigando um pão que não cresceu nem tem gosto de abóbora, por exemplo.

Um comentário:

bobmacjack disse...

Adorei! Vou usar pra me confortar, também. Há uns dois meses inventei de fazer pão. Os primeiros saíram com um tempero especial, rs! E a minha geléia de tangerina que virou bala dura?