quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Tempo lento

O livro que estou lendo agora carrega o seguinte título: Mais rápido que a velocidade da luz. É de um físico que acredita que a única certeza de Einstein, de que a velocidade da luz é constante no vácuo, é uma falácia. João Magueijo tenta convencer o leitor de que a luz teve velocidade variável no momento de big-bang: muito superior aos 300.000km/seg. observados hoje.

O livro que o Renato me trouxe chama-se Slow Man. Depois dessa velocidade estonteante da luz, talvez seja meu próximo livro. Trata de um homem que perdeu uma perna num acidente e se recusa a usar uma prótese. A vida desse homem desacelera abruptamente.

O resultado do concurso de Londrina deveria ter saído na sexta passada. Esperei que saísse depois do feriado, na quarta. Apesar de ter melhores razões pra acreditar que a vaga pra professor de Língua Portuguesa e Lingüística Geral não é minha, estou muito agoniada com a passagem lenta do tempo, que protela a divulgação do resultado.

Depois de um dia de GTs

'GT' está para Grupo de Trabalho. A idéia deste congresso (CELSUL) foi de agrupar as apresentações em grupos coesos de pessoas que pesquisam coisas semelhantes. Para que haja interlocutores, pra que as pessoas tenham a sensação de que 'falam a mesma língua', foram criados uns 15 GTs. Era esperado dos participantes de um certo GT que assistissem às apresentações de todos os seus colegas de GT, que se apresentariam ao longo dos 3 dias de congresso. Muito bem. Eu estava no GT chamado Produção Textual em virtude da progressão temporal que Renato e eu analisamos no experimento. Mas, em princípio questões de discurso, gêneros discursivos, redações de vestibular e essas coisas me interessam apenas marginalmente. Por isso fui no GT do Renato pra ver a apresentação dele com a Roberta sobre os intensificadores chulos (olha só que categoria foda) 'puta' e 'pra caralho'. Mas o GT era de semântica formal, que eu não domino. Visitei um GT sobre cognição, mas logo saquei que os caras falavam de 'relevância', seja lá o que isso for.

De noite fomos todos comer picanha, porque afinal de contas estamos na capital gaúcha. 'Todos' significa gente dos mais variados GTs. Adivinha do que conversamos na mesa (além, é claro, de coisas pragmáticas como por exemplo 'me passa a polenta', 'quantos copos de cerveja devo pedir?', 'o que significa ao ponto aqui no Rio Grande do Sul?').

O Menuzzi insistia que o 'puta' do Renato tinha estatuto de adjetivo que pode até mesmo virar advérbio, tipo 'esse cara corre putamente bem'. Renato replicava com o argumento de que o 'puta' não se liga a outro pedicado através de cópula, como acontece por exemplo em 'a coisa grande' e 'a coisa é grande'. Não é possível derivar de 'puta filme' a construção 'filme é puta'. Além do mais, a ordem do 'puta' é fixa: 'puta jogador', não 'jogador puta', o que não acontece com os adjetivos: 'bom jogador', 'jogador bom'.

Mudamos de assunto, e falamos sobre preposições. Consegui convencer a todos que nem toda troca de preposição implica em alteração de significado: 'ficar em pé' significa a mesma coisa que 'ficar de pé'. Essa é uma exceção, porque nas outras trocas o sentido é alterado: 'cheguei de Recife/ cheguei por Recife/cheguei em Recife.'

Cansados de problemas cabeludos, conversamos sobre o 'pode' da Roberta e Ana. 'Pode lavar a louça!' é um imperativo e não tem jeito de escapar à ordem imposta. Esse 'pode' é muito diferente do 'pode' que a minha vó usa comigo depois do almoço, quando ela quer sentar na cadeira de balanço: 'Agora você pode lavar a louça'. O 'pode' da minha vó é mais um pedido que uma ordem, apesar dos dois terem o mesmo efeito: não tem como não obedecer. Roberta me perguntou como seria em alemão e eu respondi que não tem como colocar um modal no imperativo.

Viu só! As soluções que não achamos durante a dissertação de mestrado ou durante os GTs de ontem e hoje são postos na mesa de churrasco e são mais facilmente digeridos que a carne.


Parque da Redenção

Fui dar uma volta no Parque da Redenção (ou Farroupilha) no intervalo de dois GTs. Tem um mini-zoo lá dentro. Numa jaula tem macacos-prego, na outra tem araras, na outra tem um pavão, na outra tem mais macacos-prego e na outra tem grandes aves de rapina. Saí do mini-zoo e vi uma gaiola com uns vinte gatos. Pareciam ser de rua, a julgar pelo pêlo estropiado. Caminhei mais um pouquinho e vi uma árvore cheia de pombos. Cheia mesmo, assustador. Cheguei ao lago e vi várias tartarugas pescoçando por aí.

Essa parasita tem história: matou seu suporte e cresceu pro lado.

Me rendo. Não consegui identificar que animal não se pode alimentar no parque. Tem bico de pássaro, mas cabeça de peixe. Vejo que identificamos o desenho como referindo a um animal porque identificamos a bola branca com um ponto preto no meio como um olho.
Lembro que uma vez um aluno meu, o Boris, respondeu, numa discussão sobre vegetarianismo, que não comia nada que tivesse olhos. Pelo visto somos proibidos aqui de dar comida a seres que têm olhos.

O novo vizinho do velho

Talvez alguém se lembre de ter participado de um experimento chamado "Era uma vez", em que eu pedia que a pessoa contasse uma estória a partir de umas fotos que eu ia mostrando. Bom, esse experimento gerou uns dados que foram analisados sob o critério da progressão temporal, o que virou apresentação de congresso. Esse congresso está acontecendo em Porto Alegre.

Andando pelo centro, me espanto com a convivência do antigo com o novo. Esse elevado lembra o Minhocão, mas o trânsito não é comparável ao de São Paulo. A UFRGS é meio antiga, meio anos 60. Modernos só são os prédios que eles identificam como "Anexo".
Andando pelo Parque Farroupilha, que fica ao lado da UFRGS, pensei na idade daquelas árvores e dos prédios que faziam a skyline. Quem será que tem mais anos nas costas?

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Diversão na Bienal

Instalaram um tobogã no prédio da Bienal, que fez o mó sucesso. Não sei se é arte, mas é interação e está de acordo com a proposta deste ano: contato.


28. Bienal

Esta Bienal só tem arte no terceiro andar. Restrições financeiras. As obras expostas são de 3 tipos: vídeos, palavras e madeira. Vídeos eu não fotografei. Madeira tá aqui:


A palavra tá aqui:





sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Lar, doce cheiro de maracujá


Pra sua segurança

Seis da manhã e o ônibus para em Sorocaba. Antes que os sete passageiros previstos para desembarcar na cidade pudessem descer do ônibus, um policial de uniforme cinza subiu. Avisou que aquele ônibus estava sendo monitorado e que eles fariam uma revista. Ordenou que descêssemos todos. Lá fora ainda havia estrelas no céu e fazia frio. Vários homens fardados nos enfileiraram ao longo da parede. Olhares autoritários, peitos estufados, andares de cowboy. Os homens foram manejados para a esquerda, as quatro mulheres ficaram na direita. Dois cães labradores subiram no ônibus, acompanhados de seus senhores. Obediência treinada, nada de afobação. Os homens foram instruídos a apoiar as mãos na parede e afastar as pernas. Mãos calejadas percorrendo corpos cansados. As mulheres tiveram suas bolsas examinadas pela única mulher fardada, tingida de loira. A oxigenada de uniforme cinza deu uma olhada de relance no interior da minha bolsa e tomou o tempo que quis com as mãos na minha virilha e bunda. Os homens foram ordenados a ter o documento de identidade na mão. RGs esticados, idas e vindas ao carro das luzes piscantes. Um homem fotografava a cena. Uma mulher, segurando um bloquinho de anotações, entrevistou duas senhoras do meu lado. Elas eram domésticas e tinham seus 40 anos de idade. Apoiavam entusiasticamente esse tipo de intervenção. Hoje em dia nunca se sabe, o mundo tá tão violento. Raiva por me sentir violada transbordava dos meus olhos. Um dos homens foi entrevistado e espero que ele tenha expressado a minha opinião. Um celular tocou e o homem recebeu autorização pra atender. Já cheguei, amor, só que tem uma blitz aqui na rodoviária e já já tô indo aí. As malas no bagageiro não foram examinadas e toda a operação durou uns 20 minutos. Quando todos estavam de volta aos seus assentos, um homem de cinza subiu, agradeceu a cooperação e informou que faziam a revista pra nossa segurança.

Diálogos dispersos

O moço que tinha sentado do meu lado no ônibus pra Londrina quis ouvir a música que eu estava ouvindo e quis conversar. Conversamos bastante enquanto ele ouvia a minha música. Insistiu que eu anotasse o telefone dele. Anotei na pele do braço com uma caneta emprestada de outro passageiro. Qualquer coisa que você precisar, cê liga pra mim. Tá. Independente de você precisar ou não, liga pra mim. Pode deixar.

O taxista que me levou da rodoviária à Pousada Universitária disse que tinha morado 8 anos no Rio Grande do Sul e que admirava o povo gaúcho. Não só eu, toda dupla sertaneja que se preze tem uma música elogiando o povo gaúcho. Enumerou umas 6 duplas sertanejas e concluiu que as duplas sertanejas que não fazem homenagem ao gaúcho não tão com nada. Sei.

Antes das 22:00, toquei a campainha e me anunciei: Meu nome é Lou, eu tenho reserva pra hoje à noite. Tá, eu vou abrir, mas a dona não tá. Vamo fazê assim: cê entra e depois a gente vê. OK. Entrei e coloquei as minhas coisas do lado da única poltrona vazia naquela sala. Quatro meninos vendo TV ocupavam os outros assentos. A gente mora aqui. Senta aí que a dona deu uma saída e já volta. Cês moram aqui? É.

A dona da pousada chegou muito depois das 23:00 e não sabia da minha existência. Não tem problema, tenho um quarto pra você. Espera só um pouquinho, que eu já te atendo. Hm, hm. Muito tempo depois, ela me conduziu ao quarto, saiu e voltou com roupa de cama que depositou em minhas mãos. Hoje eu tô muito cansaaaada, então amanhã eu não vou fazer café da manhã, tá, bem?

Seis da manhã de domingo e acordo com um estardalhaço na cozinha. Em meio a barulho de louça, ouço cânticos gravemente desafinados de louvor e aleluia. Empolgada, uma das irmãs (apenas um muro separava o meu quarto da Toca de Assis) exclama: Viva Jesuis! Que inferno.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Literatura

Foi só em Londrina que eu voltei a ler textos não-acadêmicos. Fazia um mês, mais ou menos, que eu acordava e ia dormir com textos sobre coisas que poderiam cair no concurso. Peguei o "A arte de produzir efeito sem causa", do Lourenço Mutarelli e só larguei quando comecei a ficar verde, com dor de barriga e enxaqueca. Pra fugir do tom pesado e trágico que arrasta o personagem principal do romance pra loucura, decidi apelar pros quadrinhos.

Nunca tinha ouvido falar, tava no plástico e não podia abrir na livraria do shopping (até onde eu caminhei em uma hora). Resolvi comprar mesmo assim.
Com o espírito mais leve, consegui encarar o trágico fim do romance. Salman Rushdie agora, nem pensar. Acho que vou voltar a ler sobre o Universo. É mais seguro e produtivo.

UEL

Eu ia de ônibus pra UEL, mas achei que o caminho até lá estava bem sinalizado e fui seguindo as placas. Cheguei lá depois de 40 minutos de caminhada. Quando contei pra galera da pousada que eu tinha ido e voltado a pé, todos pasmaram. Londrina tem muito morro e nenhuma estrutura para ciclistas, ou seja, se não forem de ônibus, as pessoas vão de carro.

A galera das Artes ganhou a minha simpatia com essas instalações/intervenções, apesar de eu ficar com pena da árvore que teve o seu tronco pintado de azul...Reparei que o discurso é, de forma alguma autoritário do tipo de cima pra baixo, secamente proibindo que se cole cartazes ou caminhe na grama. Está escrito 'evite colar cartazes' e 'evite fazer trilhas no gramado', como se soubessem que não adianta proibir esses junkies viciados em colar cartazes e caminhar na grama, porque tudo que é proibido é gostoso. O discurso é mais pro lado de 'tente controlar os seus impulsos primitivos' e não cole cartazes ou caminhe pela grama. Este é o calçadão, vértebra do campus. As Letras ficam bem na extrema ponta oposta à entrada. Os livros de Letras e Lingüística não estão abrigados na Biblioteca Central, mas numa biblioteca setorial, que fica ali onde Judas sentou pra descansar um pouquinho.

Peneira

Eram 17 inscritos pra uma vaga de professor de Língua Portuguesa e Lingüística geral. Apenas 9 compareceram à UEL no dia da prova escrita. Destes, apenas 5 foram aprovados, tendo eu tirado a maior nota (9). O ponto tinha sido sorteado por mim mesma: Coesão e coerência textuais.

Com uma boa injeção de esperança e confiança no meu potencial, compareci ao sorteio do ponto da prova didática. Não tive tanta sorte desta vez: Fonologia do Português: aspectos históricos e descritivos. Tive 24 horas pra preparar uma aula inicial de fonologia pruma turma de graduação.

Dei a minha aula pra banca, composta por três professores cansados. Eu era a penúltima candidata a dar sua aula, não usei datashow ou retro-projetor, mas lousa e cuspe, porque achei que prenderia mais a atenção deles se montasse as tabelas de vogais e consoantes do português com eles, fazendo o som e procurando pares mínimos de fonemas. Ledo engano. Dois dormiram. Tive vontade de parar a aula e chamar a atenção do professor de olhos abertos, tive vontade de oferecer café ou mesmo de tacar um toco de giz na cabeça dos que estavam de olhos fechados. Depois da aula, os dois que dormitaram durante a minha aula me cobraram coisas que eu não tinha falado: por que você não apresentou as vogais nasais? Por que você não falou da norma? Pude perceber que aqueles dois eram fonólogos. Maravilha.

Conversando com um dos meus concorrentes, pude perceber que todos eles já estão dando aula em universidades (duas moças são professoras substitutas na UEL mesmo). Eu nem defendi o doutorado...

Saí de Londrina achando que a biblioteca é ruim, que os professores são medalhões, que tem muito morro na cidade e nenhuma estrutura viária pra bicicleta.

Não sei quando sai o resultado final de quem sobrou na peneira, mas desconfio que o meu nome não estará lá.

sábado, 18 de outubro de 2008

Hoje

Hoje
embarco num ônibus e viajo quase dez horas pra Londrina.

Amanhã
muda o horário (será horário de verão e temos que adiantar nossos relógios).

Depois de amanhã
é a prova escrita do concurso na UEL.

Daqui a dois meses,
exatamente, será a minha defesa.

Depois disso,
tudo é incerto a partir do ponto de vista de hoje.

I can see three corners from this corner. Dave Matthews.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Imprimi

Imprimi a tese hoje. A versão final está em papel. Distribuída em oito exemplares encadernados com algumas páginas coloridas. Teve drama: a impresão das páginas coloridas saiu muito mais caro que eu tinha imaginado, a minha cota de impressões no IEL não daria conta de toda a tese e tive que recorrer a uma doação de cota do Renato e por fim, passei grande parte do dia de hoje esperando a impressora ou a copiadora fazerem seu trabalho.

Me senti quase Papai Noel, quando desci o corredor no pavilhão dos professores e me pus a distribuir cópias da tese pros professores que estão na minha banca. A última tese foi entregue de bike lá na estrada da Rhodia, a 6km daqui.

Quando cheguei em casa, não tinha nenhum zumbi dormindo na sala, nenhuma louça suja na pia, nenhum lixo voando no quintal, nem tufinho de poeira e cabelos no chão (a faxineira esteve aqui, não foram os meninos que de repente mudaram sua natureza ou tolerância a sujeira e bagunça).

Eita sensação de dever cumprido...

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Bingo

Quase terminei de estudar pro concurso de Londrina. Tenho que estar preparada pra dissertar sobre dez 'pontos' e posso dizer que estudei pra nove deles:

1. Morfologia do verbo
2. Coordenação e subordinação
3. Significação e contexto: ambigüidade, pressuposição e implicatura
4. Fonologia do Português: aspectos históricos e descritivos
5. Gêneros textuais da esfera acadêmica
6. Intertextualidade e polissemia
7. Variação lingüística
8. Coesão e coerência textuais
9. Formação do leitor: mídia e educação

A maior parte destes pontos está interrelacionada, e foi legal estudar as relações entre morfologia verbal e coesão textual, por exemplo, que por sua vez está ligada a questões de coordenação e subordinação e assim por diante. Todos estes pontos, por mais que enveredem pra questões de ensino, são objeto de estudo da Lingüística e eu sei a que autores devo me voltar pra estudar quais pontos.

O décimo ponto me preocupava: 'expressividade e afetividade'.

Que área da Lingüística estuda isso? Quem escreveu sobre isso? O que eu sei sobre isso? Juntei umas informações dispersas sobre como crianças (e adultos) expressam afetividade através de diminutivos. Sobre como os sujeitos afásicos que eu conheço usam gestos, entonação e música para expressar afetividade. Percebi que descrever afetividade e expressividade no âmbito da Lingüística era um projeto deveras ambicioso. Seria um projeto de descrever não só a língua, mas também seus usos. Que autor faria isso?

Não vou dizer, porque tenho 16 concorrentes na prova escrita. Mas eu matei a charada. And there was light.

domingo, 12 de outubro de 2008

Nem...

No cardápio temos os gerúndios, que saem mais:

nem fodendo
nem ferrando
nem cagando

De gosto mais refinado são os oracionais:

nem se for de graça
nem se eu quisesse
nem que a vaca tussa

Insossos e inclassificados (mas só porque não quero gastar muitas sinapses nisso):

nem pintado de ouro
nem me fale
nem pensar

Pra fechar, temos de sobremesa os sintagmas preposicionais:

nem por decreto
nem em sonho
nem com açúcar

Quem dá mais? Estou aberta a sugestões.

sábado, 11 de outubro de 2008

Vermelho sangue

No primeiro dia em que a menstruação atrasou, ela calculou que tinha terminado com o namorado havia três dias. Teve sonhos vermelho escuros nesta noite.

No segundo dia, voltou ao calendário e demarcou todo o ciclo menstrual dos quatro meses anteriores. Era preciso considerar ainda aquela vacina contra a rubéola que tinha tomado depois de assinar uma declaração de que não estava grávida nem pretendia engravidar nos 30 dias seguintes à aplicação da vacina. Notou que tinha tomado a vacina 13 dias antes de fazer sexo em pleno período fértil. Tinham usado camisinha, mas o ciclo estava desregulado. Adormeceu segurando a barriga e sonhou em tons de preto.

No terceiro dia foi pega pelo terror de gerar gêmeos deformados e pesquisou formas de aborto na Internet. Não queria ser posta nessa situação de decidir sobre a vida de outro ser. Depois de passar a última peça de roupa, percebeu uma vibração no tecido da camiseta por dobrar. Investigou e viu que uma mariposa, passada e amassada, se debatia dentro da camiseta. Matou a mariposa sem dó, achando que tinha tomado a melhor decisão pela mariposa deformada. Voltou a estudar métodos abortivos e descobriu que existe um medicamento contra artereosclerose que tem efeito abortivo se tomado no período das primeiras 9 semanas de gestação. O medicamento é vendido em farmácias, mas é preciso ter receita para comprá-lo. Como o aborto é ilegal no Brasil, nenhum médico lhe receitaria o medicamento. Era preciso, antes de mais nada, confirmar a gravidez. Foi à farmácia, comprar um teste de urina. Na fila que se alinhava no balcão, um homem insistia em alto e bom som que não tinha receita médica porque era médico, e que era um absurdo nenhuma das 5 farmácias em que já tinha ido lhe vender o medicamento que precisava tomar. Foi dormir rezando e adormeceu pensando em rios de um líquido viscoso e escuro.

No quarto dia o teste informou que não estava grávida. Aliviada, pôde voltar a existir sem pensar em aborto ou gravidez indesejada. As espinhas começaram a aparecer no rosto, teve cólicas e entrou na TPM. Recebeu mensagem de uma amiga descrevendo sua gravidez (a moça está no quinto mês e feliz da vida), viu um convite para um chá de bebê com uma imagem de ultrasom do feto, e ouviu estórias de meninas de 14 anos dando à luz crianças sem pai. Ao chegar em casa, recolheu um pássaro morto na frente de casa e o jogou no lixo. Foi dormir fazendo força pra acreditar no resultado do teste e não teve nenhum sonho.

No quinto dia voltou a imaginar como uma gravidez desestabilizaria a sua vida e a do ex-namorado. Não era uma visão alegre. Com um gosto metálico na boca, altamente irritada e de mau humor, voltou à farmácia atrás de outro teste de gravidez. Adormeceu apreensiva, com receio de ser decepcionada com duas linhas cor de rosa no teste que faria com a primeira urina do dia seguinte.

Na manhã do sexto dia o teste insitiu em informar que ela não estava grávida. Algumas pendências de sua vida se resolveram ao longo do dia. A que mais lhe afligia se desenroscou à noite, num fluxo forte de vermelho sangue.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

A função de cada um na piscina

Quando comecei a nadar na piscina da Unicamp, me surpreendi com a distribuição de funções das pessoas. No momento da inscrição, eu tinha visto que o professor responsável era um homem de nome complicado. Na primeira aula, fui apresentada à monitora e uma colaboradora.

Nas aulas que se seguiram, pude observar que não veria nunca a cara do professor responsável. A Vanessa era a monitora, a Joyce a colaboradora e a Cici (cujo nome é Natália!) vinha de vez em quando pra dar uma força. A elas, juntava-se sempre o salva-vidas que atende pelo nome de Paulinho.

Com o passar do tempo, as temperaturas foram caindo, a força dos ventos noturnos foi aumentando e os alunos foram rareando. No começo éramos 2 ou 3 por raia (era uma desgraça, especialmente quando mandavam a gente nadar costas. A gente se trombava sempre e acabava conhecendo o corpo dos companheiros de raia de ponta a ponta), depois passamos a ter raias exclusivas (momentos felizes da minha pessoa), depois houve raias vazias (o que me fazia sentir uma heroína teimosa que não tem medo de gripe). Joyce começou a usar o tempo da nossa aula de natação para preparar as suas aulas de Step, Vanessa começou a investir na amizade de alguns meninos, Cici assumiu as funções da Joyce que ficava subindo e descendo o degrau ao som de música alta e o Paulinho teve o seu momento de glória. Não, ele não resgatou uma pessoa que não conseguisse sair da piscina por conta própria. Ele entrou em ação. Passou de observador paciente a agente ativo: tentou resgatar o meu chinelo. Sem querer, Cici tinha chutado o meu chinelo pra dentro da piscina - na minha raia. Paulino tentou pescá-lo, mas como eu tava vindo, retirou a vara da piscina e me pediu pra pegar o chinelo.

Hoje choveu o dia todo. Aquela chuva fina, digna de Holanda em seu estado natural e prototípico. Quando cheguei na piscina, vi que só tinha um aluno além de mim. Paulinho ficou olhando, Vanessa e Joyce ficaram conversando embaixo de um guarda-chuva cor de rosa e o outro aluno e eu ficamos trocando de raia, tendo nadado estilos diferentes em todas elas no final da aula.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Agenda

Me inscrevi num concurso público pra docente na UEL (Universidade Estadual de Londrina) e a minha inscrição foi homologada (= aceita). Tenho 16 concorrentes praquela uma vaga. A vaga é pra dar aula de Língua Portuguesa e Lingüística. O próximo passo é passar na prova escrita, que acontece no dia 20 agora em Londrina. Há 10 pontos (= temas, assuntos), como por exemplo morfologia do verbo, fonologia do português, coesão e coerência, variação etc. Um destes pontos é sorteado e se torna tema da prova escrita. Ou seja, nós, 17 candidatos, precisamos estar preparados pra dissertar sobre 10 assuntos. Eu vou ter que estudar semântica e fonologia e tentar entender o que eles querem dizer com expressividade e afetividade (nenhuma área da Lingüística estuda isso) ou ainda intertextualidade e polissemia (qual é a relação entre esses tópicos?). A prova é corrigida em 48 horas e depois disso tem a prova didática e argüição. Ainda não estudei essa parte do edital pra entender o que são e quando acontecem.
Agenda: estudar pro concurso.

Vou apresentar um trabalho num congresso em Porto Alegre no dia 29, e a minha passagem é Guarulhos - Porto Alegre. Isso significa que não poderei descer pro Rio Grande do Sul a partir de Londrina. Pra conseguir auxílio financeiro pra ir nesse congresso, preciso entregar o trabalho completo na secretaria de pós.
Agenda: preparar a apresentação pro congresso.

Descobrimos ontem, em reunião da pós, que devemos submeter nosso artigo pra Revista Sínteses (do IEL mesmo, sem parecerista, sobre a dissertação ou tese defendida) antes da defesa. Ontem eu desliguei o computador, certa de que tinha terminado a tese. Quando deitei na rede hoje de manhã, pra estudar pro concurso, me dei conta de que dá pra lapidar a tese mais um pouco.
Agenda: terminar a tese e submeter artigo pra Sínteses.

Voto em São Paulo. Já arrumei carona pra ir, casa pra ficar e até carona pra voltar.
Agenda: descobrir quem são os candidatos e decidir em quem votar.

Fui na casa do Telmo, buscar mais seriados americanos. Voltei com 3kg de jabuticaba que eu mesma colhi.
Agenda: dividir 3kg de jabuticaba com a galera de casa.


quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Pequena observação antropológica

Quando peço carona pra São Paulo, sempre aviso que estou na saída de Barão, e que é mais cômodo pra mim esperar na frente do supermercado Dalben. Aviso que ao lado da entrada do estacionamento tem um recuo e que estarei lá, esperando.
Os homens concordam com a minha proposta.

A mulher que vai me dar carona daqui a dois dias insistiu em me pegar dentro do estacionamento. Argumentei que ela vai ter que atravessar todo o estacionamento, porque o local da entrada não é igual ao da saída, que ela vai gastar tempo e gasolina atravessando o estacionamento, que parar no recuo não atrapalha o fluxo do trânsito, que eu serei mais facilmente identificável fora do estacionamento que dentro dele (não nos conhecemos, e não tenho certeza se ela sabe que eu não sou homem: meu nome não é transparente, e ela só viu o meu nome por escrito, não ouviu a minha voz).

Não teve jeito. Estacionamento.

Ela não explicou os motivos pra preferir um lugar protegido, com grade, em que é normal que a velocidade dos carros seja baixa. Ao invés de acreditar que ela seja uma motorista inexperiente, prefiro acreditar que ela simplesmente esteja projetando o modo como sempre foi tratada: com proteção, resguardo e discrição.