quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Depois de um dia de GTs

'GT' está para Grupo de Trabalho. A idéia deste congresso (CELSUL) foi de agrupar as apresentações em grupos coesos de pessoas que pesquisam coisas semelhantes. Para que haja interlocutores, pra que as pessoas tenham a sensação de que 'falam a mesma língua', foram criados uns 15 GTs. Era esperado dos participantes de um certo GT que assistissem às apresentações de todos os seus colegas de GT, que se apresentariam ao longo dos 3 dias de congresso. Muito bem. Eu estava no GT chamado Produção Textual em virtude da progressão temporal que Renato e eu analisamos no experimento. Mas, em princípio questões de discurso, gêneros discursivos, redações de vestibular e essas coisas me interessam apenas marginalmente. Por isso fui no GT do Renato pra ver a apresentação dele com a Roberta sobre os intensificadores chulos (olha só que categoria foda) 'puta' e 'pra caralho'. Mas o GT era de semântica formal, que eu não domino. Visitei um GT sobre cognição, mas logo saquei que os caras falavam de 'relevância', seja lá o que isso for.

De noite fomos todos comer picanha, porque afinal de contas estamos na capital gaúcha. 'Todos' significa gente dos mais variados GTs. Adivinha do que conversamos na mesa (além, é claro, de coisas pragmáticas como por exemplo 'me passa a polenta', 'quantos copos de cerveja devo pedir?', 'o que significa ao ponto aqui no Rio Grande do Sul?').

O Menuzzi insistia que o 'puta' do Renato tinha estatuto de adjetivo que pode até mesmo virar advérbio, tipo 'esse cara corre putamente bem'. Renato replicava com o argumento de que o 'puta' não se liga a outro pedicado através de cópula, como acontece por exemplo em 'a coisa grande' e 'a coisa é grande'. Não é possível derivar de 'puta filme' a construção 'filme é puta'. Além do mais, a ordem do 'puta' é fixa: 'puta jogador', não 'jogador puta', o que não acontece com os adjetivos: 'bom jogador', 'jogador bom'.

Mudamos de assunto, e falamos sobre preposições. Consegui convencer a todos que nem toda troca de preposição implica em alteração de significado: 'ficar em pé' significa a mesma coisa que 'ficar de pé'. Essa é uma exceção, porque nas outras trocas o sentido é alterado: 'cheguei de Recife/ cheguei por Recife/cheguei em Recife.'

Cansados de problemas cabeludos, conversamos sobre o 'pode' da Roberta e Ana. 'Pode lavar a louça!' é um imperativo e não tem jeito de escapar à ordem imposta. Esse 'pode' é muito diferente do 'pode' que a minha vó usa comigo depois do almoço, quando ela quer sentar na cadeira de balanço: 'Agora você pode lavar a louça'. O 'pode' da minha vó é mais um pedido que uma ordem, apesar dos dois terem o mesmo efeito: não tem como não obedecer. Roberta me perguntou como seria em alemão e eu respondi que não tem como colocar um modal no imperativo.

Viu só! As soluções que não achamos durante a dissertação de mestrado ou durante os GTs de ontem e hoje são postos na mesa de churrasco e são mais facilmente digeridos que a carne.


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