sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Pra sua segurança

Seis da manhã e o ônibus para em Sorocaba. Antes que os sete passageiros previstos para desembarcar na cidade pudessem descer do ônibus, um policial de uniforme cinza subiu. Avisou que aquele ônibus estava sendo monitorado e que eles fariam uma revista. Ordenou que descêssemos todos. Lá fora ainda havia estrelas no céu e fazia frio. Vários homens fardados nos enfileiraram ao longo da parede. Olhares autoritários, peitos estufados, andares de cowboy. Os homens foram manejados para a esquerda, as quatro mulheres ficaram na direita. Dois cães labradores subiram no ônibus, acompanhados de seus senhores. Obediência treinada, nada de afobação. Os homens foram instruídos a apoiar as mãos na parede e afastar as pernas. Mãos calejadas percorrendo corpos cansados. As mulheres tiveram suas bolsas examinadas pela única mulher fardada, tingida de loira. A oxigenada de uniforme cinza deu uma olhada de relance no interior da minha bolsa e tomou o tempo que quis com as mãos na minha virilha e bunda. Os homens foram ordenados a ter o documento de identidade na mão. RGs esticados, idas e vindas ao carro das luzes piscantes. Um homem fotografava a cena. Uma mulher, segurando um bloquinho de anotações, entrevistou duas senhoras do meu lado. Elas eram domésticas e tinham seus 40 anos de idade. Apoiavam entusiasticamente esse tipo de intervenção. Hoje em dia nunca se sabe, o mundo tá tão violento. Raiva por me sentir violada transbordava dos meus olhos. Um dos homens foi entrevistado e espero que ele tenha expressado a minha opinião. Um celular tocou e o homem recebeu autorização pra atender. Já cheguei, amor, só que tem uma blitz aqui na rodoviária e já já tô indo aí. As malas no bagageiro não foram examinadas e toda a operação durou uns 20 minutos. Quando todos estavam de volta aos seus assentos, um homem de cinza subiu, agradeceu a cooperação e informou que faziam a revista pra nossa segurança.

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