quinta-feira, 27 de março de 2014

Cota e quinhão

Cota significa, na linguagem técnica que os rondonienses aprenderam a usar nos últimos meses: o nível da água do rio. O mesmo Rio Madeira tem diferentes cotas em lugares diversos.

 No mapa se vê, na fronteira com a Bolívia, Abunã. Seguindo o curso do rio, vê-se a UHE Jirau (antes de Jaci-Paraná), a UHE Santo Antônio que fica a 7km de Porto Velho e Humaitá, já no estado do Amazonas.

Segundo a Agência Nacional de Águas (ANA), as cotas estão subindo a cada dia nos diversos pontos:
       
             Abunã   Jirau  Santo Antônio Porto Velho  Humaitá
18/02     23,68   88,33      69,89           17,76          23,95
19/02     23,77   88,33      69,93           17,82          23,58
20/02     23,88   88,55      69,88           17,87          23,61

21/03    25,29    89,22      69,47           19,36          25,14
22/03    25,38    89,36      69,48           19,41          25,58
23/03    25,49    89,51      69,52           19,47          25,18
24/03    25,53    89,51      69,55           19,53          25,24
25/03    25,54    89,54      69,55           19,60          25,26
26/03    25,52    89,53      69,44           19,63          25,29
27/03    25,50                                       19,66          25,33  

A partir desses dados, pode-se observar que em um mês as cotas dos reservatórios de Jirau e Santo Antônio não sofreram grandes alterações, ao passo que houve um incremento de quase dois metros na cota dos outros pontos do rio (Abunã a montante de Jirau, Porto Velho e Humaitá a jusante de Santo Antônio). Pode-se observar também uma leve queda da cota em Abunã nos últimos 3 dias e também uma leve queda nas duas UHEs nos dois últimos dias em que houve divulgação de dados.

Na cidade de Porto Velho, o trânsito é constantemente remodelado: rotas antigas estão sendo tomadas pelos igarapés, novas rotas são desbravadas. Moradores que usam a Estrada de Santo Antônio como única via de acesso estão prevendo o isolamento. As águas que entram pelo rio Madeira ou pelos igarapés estão contaminadas (não há saneamento básico na cidade: cada casa tem sua fossa, cada prédio/condomínio tem seu córrego). Nos abrigos (escolas e igrejas) só tem cesta básica e os desabrigados, que já se sentem menos gente, ficam sem mistura. Ouvi relatos de crianças pedindo frango em supermercado.

Será que nada disso era previsível? Em Jaci-Paraná, todas as obras de compensação erigidas pelo consórcio Energia Sustentável do Brasil (ESBR), responsável pela usina de Jirau, estão embaixo d´água. Todo asfalto que está submerso agora está se dissolvendo e precisará ser refeito. Todas as casas alagadas estão condenadas. Ambos os consórcios investiram em compensações antes e reparos agora. Pode ser que tenham gastado muito (para os nossos padrões pedestres), mas as usinas ganharam muito com a cheia.
Pelo gráfico publicado no boletim diário da ANA, pode-se observar a linha pontilhada que indica a cota de emergência segundo a CPRM de 16,68m e a linha preta que indica a cota do rio ao longo dos meses. Observa-se claramente a variabilidade do rio conforme o regime de chuvas na Amazônia e um pequeno detalhe: a partir de fevereiro, a linha preta disparou.

Em fevereiro, a UHE Santo Antônio desligou 11 turbinas e deixou de vender sua mercadoria (megawatts) para o governo (que paga R$ 78,87), para quem 70% da energia gerada é repassada. Continuou operando com 7 turbinas, que geraram energia para ser vendida no mercado livre (em que o mw/h está custando por volta de R$ 828,00). Na última semana de fevereiro, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) determinou que todas as turbinas de Santo Antônio fossem desligadas.

Agora, as usinas simplesmente não estão ganhando rios de dinheiro, mas tiveram o seu quinhão quando a cota estava alta nos reservatórios devido à retenção de água.

quinta-feira, 20 de março de 2014

Sobre obviedades irrelevantes

Replico aqui um texto Roberto Smeraldi, publicado em: http://amazonia.org.br/2014/03/a-senhora-de-la-palice/

A Senhora de La Palice
18 de março de 2014    

De Roberto Smeraldi*

O Senhor de la Palice, marechal do rei Francisco I de França, se tornou desde o século XVI ícone da obviedade irrelevante, da afirmação de alguma verdade tão redundante que acaba desviando do que interessa. Tanto que seu epitáfio reza: “se não tivesse morrido, ainda estaria vivo”. Uma típica argumentação lapaliciana é aquela, por exemplo, de negar terminantemente o que ninguém disse, na ausência de elementos para poder afirmar alguma coisa sobre determinado assunto. A história mostrou depois que a fama do marechal foi causada mais por seus ajudantes de ordens: mas até hoje ele carrega o estigma.

Algo do gênero parece ter ocorrido com assessores da nossa presidente em ocasião de sua recente passagem pelos estados de Rondônia e Acre, para sobrevoar áreas alagadas. Mandaram a presidente afirmar em tom alto que “é absurdo atribuir às usinas a culpa pela cheia do Madeira”. Como discordar disso? Ora, se há muita água é porque houve muita chuva nas cabeceiras. Trata-se de uma frase tão óbvia que obrigaria até uma liderança dos black-blocs e o dono de um banco multinacional a assinarem juntos.

A visita da presidente visava atender obrigações imediatas de chefe de estado, como aquela de conhecer de perto uma conjuntura de calamidade e a de anunciar os devidos socorro e solidariedade para as populações atingidas. O que ela fez, ou prometeu fazer logo. Possivelmente queria se limitar a isso. Ou, caso quisesse ir além, inclusive para assegurar que é preocupação presidencial saber o que pode acontecer no futuro frente a situações como esta, podia determinar que se realizem estudos e projeções de cenários que deixaram de ser realizados, ou utilizados, quando do licenciamento das usinas.

É fato que os gestores do licenciamento na época assumiram a responsabilidade explícita de desconsiderar o parecer assinado por seu próprio corpo técnico, que alertava para a falta de estudos sobre os impactos do novo regime hidrológico nas beiras do rio à jusante do empreendimento (é o caso de Porto Velho). É também fato que os mesmos gestores assumiram a responsabilidade de desconsiderar parecer contratado pelas próprias empresas, a pedido do Ministério Público, que alertava sobre o efeito da curva de remanso (é o caso da Bolívia e de parcela de território brasileiro a montante de ambas barragens, incluindo a rodovia). E ainda é fato que tais gestores assumiram a responsabilidade de desconsiderar as consequências da mudança de localização da usina de Jirau sobre a cota do reservatório de Santo Antônio, negando de antemão que existissem. A tais três fatos, acrescente-se que se resolveu não estudar, talvez por considerá-lo improvável, um cenário com vazão como aquela que acabou sendo atingida logo neste primeiro ano após o início da operação de ambas usinas.

Anunciar que, embora tardiamente, se estudariam tais questões com consistência e transparência, pelo menos com o objetivo de controlar ou limitar ocorrências futuras, seria a opção mais prudente por parte da presidente. Até porque estaria alinhada com a decisão cautelosa do Operador Nacional do Sistema elétrico (ONS), que há semanas já resolveu suspender a geração de energia nas usinas em decorrência da atual situação. Ao desconhecer – pois ninguém estudou – quais impactos as usinas têm sobre um cenário de vazão como aquele atual, o ONS entendeu que devia eliminar o risco de agravar ainda uma situação já emergencial. Das duas, uma: ou o ONS agiu irresponsavelmente, ao interromper indefinidamente um serviço importante para o país e que sabidamente não guarda relação com a calamidade, ou agiu com prudência, justamente porque ignora como se dá esta relação.

E aqui vem o assunto de interesse público que a assessoria palaciana não deveria dispensar com motes lapalicianos. Não interessa à sociedade discutir da culpa da cheia, e sim saber como o conjunto das usinas interage com ela. Lembre-se que neste ano, ou seja no início de seu ciclo de operação, estamos ainda lidando apenas com a variável água. Progressivamente, nos anos vindouros, passaremos a lidar com a variável água e com a variável sedimentos, na medida em que os mesmos se acumularem, pois aquele sobrevoado pela presidente é o rio com maior carga sedimentária do mundo, contribuindo com apenas 15% do volume de água do Rio Amazonas, porém com 50% de seus sedimentos.

É isso que Ministério Público, Defensoria Pública, OAB, assim como instituições da sociedade civil organizada que se dedicaram a estudar o tema querem saber. É isso que o ONS assume desconhecer quando interrompe a geração elétrica, apesar de se tratar do momento mais favorável para a mesma, e portanto com expressivos prejuízos econômicos resultantes (até porque as usinas já custaram aos cofres públicos mais do que o dobro do valor previsto quando se decidira construi-las). E isso também pode acabar com a peculiar troca de acusações entre os dois consórcios – ambos com empresas estatais como principal acionista – que não perdem ocasião para reforçar que, se fizeram algo errado, só foi para se defender de algo pior feito pelo outro.

O que a cheia histórica do Rio Madeira sugere é de acabar logo com este desconhecimento. O pior cenário é o de conviver com uma perspectiva de vulnerabilidade episódica do território nas cheias – que inviabiliza qualquer investimento e planejamento – e, ao mesmo tempo, com o desligamento periódico das usinas nos momentos mais propícios para a geração elétrica, como forma de mitigação parcial dos impactos a jusante, mesmo sem saber se isso tem efeito.

* Roberto Smeraldi, 53, jornalista, é diretor da OSCIP Amigos da Terra – Amazônia Brasileira.

domingo, 16 de março de 2014

Dilma e o lobo

Ontem (sábado, 15 de março) a presidente do Brasil, Dilma Rousseff, esteve em Porto Velho para apreciar a extensão da enchente que ainda não recebeu a devida atenção no Brasil. Ontem foram registrados 19,5 metros acima do nível normal do rio Madeira - e a tendência ainda é subir. Ela sobrevoou o Rio Madeira e só então acolheu o pedido de calamidade pública pleiteado pelo prefeito da cidade.

Segundo matéria publicada na Folha, Dilma colocou a culpa pela cheia histórica do Madeira na Natureza, isentando as usinas (Santo Antônio e Jirau) de qualquer responsabilidade pelo desastre que é
(i) o isloamento do Acre por terra,
(ii) o alagamento extenso de Bolívia, Acre, Rondônia e Amazonas,
(iii) os desalojados e desabrigados que perderam seu chão, casa e território e
(iv) as futuras doenças que virão depois que a água baixar.

Dilma defendeu as usinas usando a fábula do lobo e do cordeiro (na versão de La Fontaine, porque a de Esopo não apresenta a argumentação baseada na posição do cordeiro e do lobo em relação ao rio) da seguinte forma: o cordeiro argumenta que está abaixo do lobo, portanto não pode ter sujado a água que o lobo bebe. Para Dilma, a Bolívia está acima, "sujando" nossa água. E as usinas, pergunto eu: onde estão? Fora do rio? Santo Antônio fica 7 km acima da capital de Rondônia e a energia acumulada ali vem em linha reta contra Porto Velho (que fica na curva do rio). Santo Antônio fica acima do Baixo Madeira - que agora está dentro do Madeira.

O terceiro parágrafo do texto da Folha explica: não é a Bolívia que precisa ser responsabilizada, mas as chuvas que caíram na Bolívia. Na fábula, o lobo representa o tirano que impõe sua razão arbitrária para satisfazer seus desejos e o cordeiro representa a vítima. Nas palavras de Dilma, a chuva é o tirano que impõe sua razão arbitrária para satisfazer seus desejos e o povo ribeirinho é a vítima. E as usinas? Para Dilma, estão fora de questão, estão fora do rio Madeira.

A moral da história (porque as fábulas sempre trazem uma moral) contada por La Fontaine ficou assim na tradução de Ferreira Gullar:
Onde a lei não existe, ao que parece,
a razão do mais forte prevalece.
Na história de Pedro e o lobo, de Prokofiev, que igualmente existe em várias versões, temos novamente dois pólos. Se no Lobo e o cordeiro os pólos eram ocupados por vilão e vítima, o lobo de Pedro está num pólo e no outro estão Pedro e o pássaro e o pato e o gato e o avô e os caçadores. Contudo, o lobo nessa história não é vilão, é apenas um lobo subordinado às leis da Natureza. E Pedro, pássaro, pato e gato não são vítimas, mas um coletivo doméstico que, sem preparo algum, mas com muita vontade de se divertir, se aventura na natureza selvagem.

Na história contada pelo músico russo, Pedro tinha sido proibido pelo avô de passar (sozinho) da cerca que delimitava a floresta. Pedro abre a porteira na cerca e o pato, gato e pássaro o seguem, felizes por poderem explorar uma nova região. Na versão da Disney, Pedro tinha 6 anos e queria caçar. Ainda nessa versão, ao entrarem no terreno desconhecido, o pato vê o lobo em todos os lugares - o que não se confirma - e todos brigam com ele. Essa briga barulhenta chama a atenção do lobo que vem e engole o pato (o pato é vítima fatal em todas as versões). Pedro então rapidamente traça um plano com o pássaro de capturar o lobo e salvar a todos de suas garras.

Implantar usinas hidrelétricas de fio d'água nos rios amazônicos significa, metaforicamente falando, atravessar a cerca que separa o mundo conhecido e controlado da floresta em que há um lobo. Sair destemidamente à caça do lobo e levar outros desavisados consigo é irresponsável como foi irresponsável construir e fazer funcionar duas usinas numa das maiores sub-bacias amazônicas apesar da escassez de estudos apontada por vários órgãos, inclusive o Ibama. Abrir a porteira sem antes calcular os riscos foi tão desastroso como liberar as licenças para as usinas com estudos de impacto contestados. Por isso, através de uma liminar, a Justiça Federal determinou no dia 10
que as usinas Jirau e Santo Antônio, em Rondônia, atendam as necessidades básicas - moradia, alimentação, transporte, educação e saúde - das famílias atingidas pela cheia do rio Madeira que moram acima de cada uma das hidrelétricas, sob pena de multa diária de R$ 100 mil para cada uma delas.

Segundo o juiz federal Herculano Martins Nacif, da 5ª Vara Ambiental e Agrária de Rondônia, há vínculo entre a cheia histórica do rio e as usinas instaladas no local. A decisão também prevê que um novo estudo de impacto ambiental seja feito no local. (Fonte: Folha 11/03/2014)
Os ribeirinhos e (sócio)ambientalistas foram os primeiros a prever as inundações e os desbarrancamentos. Suas vozes não tiveram eco nas audiências com os consórcios nem fora delas. Os ribeirinhos foram removidos, reassentados, desalojados, desabrigados primeiro. Como o pato que previu a desgraça e pagou o preço, os ribeirinhos pagaram o pato.

O lobo de Pedro não é o vilão, mas a conjuntura desfavorável. As chuvas deste ano foram mais intensas em janeiro/fevereiro que nos anos anteriores. As usinas não previram tanta chuva e não reagiram a tempo. Represaram a água que vinha da Bolívia (inundando tudo pra cima das usinas), Santo Antônio represou a água entre as usinas e aumentou sua cota de produção de energia em pleno dilúvio e ambas não reconhecem que, mesmo tendo diminuído a intensidade das chuvas aqui, a água do rio continua subindo.

Ninguém jamais culpou as usinas unica- e exclusivamente pela cheia do Madeira. A ação delas provavelmente teve o mesmo peso que a ação das chuvas. Mas as chuvas não assinam termo de responsabilidade, contrapartida, compromisso moral e social.

Dilma tem um compromisso com o assim-chamado desenvolvimento. No âmbito do PAC, o governo federal liberou recursos para a construção das usinas de Santo Antônio e Jirau. Quando Dilma relembrou a fábula do lobo e do cordeiro, ela foi porta-voz do empresariado: O mais forte sempre encontrará pretexto para fazer a sua razão prevalecer.


quinta-feira, 13 de março de 2014

A água da cidade

Estação de Captação de Água da CAERD em Porto Velho
O nível da água do Rio Madeira continua subindo. Muitos distritos do Baixo Madeira estão submersos: São Carlos está embaixo d`água até os telhados, Nazaré, que fica na curva do rio, teve suas casas levadas pela correnteza. Os desabrigados do Baixo Madeira estão vindo para Porto Velho. Luis e eu notamos até mesmo um leve aumento dos preços de aluguel em algumas imobiliárias.
UHE Santo Antonio

A água da cidade é tratada pela CAERD, que tem sua estação de captação no rio Madeira e está sofrendo para se isolar do rio que está comendo a cidade (no ano passado houve os desbarrancamentos, agora a inundação).
Quando Luis e eu chegamos, quase moramos numa casa e quase moramos num apartamento no centro com vista para o rio. Nas duas quase-moradias, a água era de poço artesiano. Sabemos que no Norte a incidência de contaminação de água de poço é grande, por isso preferimos água da Caerd (mas não foi por isso que não ficamos naquelas quase-moradias - a estória é longa). Agora já não sabemos mais se a Caerd está conseguindo tratar a água que sai da torneira do apartamento em que moramos na Avenida Rio Madeira.

Desastre é resultado de uma convergência de desvios e erros

Bairro Nacional
O posto debaixo d`água

A Farquar ficou interrompida

Cheias do Madeira

Replico aqui o que encontrei na Carta Capital


Blog do Felipe Milanez
Amazônia
Cheias no rio Madeira: um desastre anunciado
Resultado da intervenção das usinas na região mostram que as inundações observadas neste mês podem ser ainda pior no futuro
por Felipe Milanez — publicado 13/03/2014 14:39, última modificação 13/03/2014 16:09
 
Secom / Rondônia

O rio Madeira não se adaptou ao "mecanismo de barramento"
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Cheia no Madeira vai continuar com águas do Mamoré , afirma pesquisador


Rondônia, historicamente, fica longe. Extremo oeste do Brasil, o alto rio Madeira sempre foi relegado como um lugar distante dos centros de poder, pouco merecedor de atenção. Bom lugar para fazer experiências políticas e de engenharia. As catástrofes que acontecem por lá demoram a chegar na "opinião pública" que senta sobre o poder e o dinheiro. Foi assim com a Ferrovia do Diabo, a Estrada de Ferro Madeira–Mamoré (construída entre 1907 e 1912), e logo depois, quando Rondon esticou as linhas telegráficas (concluída em 1915 com o telégrafo instalado em Santo Antônio do Madeira), pouco antes de o rádio tornar o telégrafo obsoleto. Foi para Rondônia onde os militares, durante a Ditadura cujo golpe completa 50 anos nos próximos dias, decidiram enviar os pobres do sul do País para não ter que dividir a terra dos latifúndios. Lá longe, os migrantes do sul morriam de malária, em conflitos com povos indígenas, ou nas balas de pistoleiros. E tudo ficava por isso mesmo, com a pressão social mais aliviada. Ao longo do último século, Rondônia foi o retrato de um "triste trópico" de exploração e saque.

Não é a tôa que foi justamente Rondônia o local escolhido de experimento para o governo Lula iniciar seu plano neodesenvolvimentista de construção de usinas na Amazônia, cujos projetos atualmente passam de centenas. Os majestosos rios amazônicos vão tornando-se cada vez mais "as veias secas da Amazônia", como escrevi em uma reportagem na revista RollingStone. Em Rondônia, um laboratório político para testes socioecológicos, é tolerado errar. Pode-se errar feio, grosseiramente, violentamente. E assim Lula decidiu iniciar a exploração energética do Complexo Madeira com duas usinas simultâneas, logo de cara: Santo Antônio e Jirau. Foram licenciadas durante a gestão de Marina Silva no Ministério do Meio Ambiente que, em 2007, havia declarado o licenciamento das usinas uma "vitória da sociedade". Qual sociedade? A de Rondônia, ou a que vive "longe" de lá?

A atual cheia histórica, batendo os 19 metros, tem provocado uma catástrofe humana e ecológica em Rondônia, no Acre e na Bolívia. No entanto, apesar das águas estarem altas há semanas, o problema apenas tem começado a receber atenção do distante sul do Brasil, o "sul maravilha", terra do samba e do carnaval nessas mesmas últimas semanas.

O problema não é a cheia em si, que sempre ocorre, anualmente. Ainda que nesse ano haja mais águas. Não é o Madeira o culpado. Como disse o superintendente do Ibama, em Palmas, a respeito das usinas no Tocantins: "a natureza não se adaptou ao mecanismo de barramento do rio". Definitivamente, a análise, de tão absurda, pode ser estendida para o Madeira, que também "não se adaptou ao mecanismo de barramento". É de se esperar que o Xingu, que rompeu a ensecadeira feita para a construção de Belo Monte, também nos últimos dias, igualmente não se adapte ao barramento proposto. Tampouco o Tapajós. A Natureza insiste em "não colaborar" com o neodesenvolvimentismo (para seguir a linha de pensamento dos analistas ambientais que licenciam as obras no Ibama).

Mas a culpa não pode ser atribuída à vítima, seja ela a Natureza ou quem vive nesse ambiente. Não é o Madeira, nem quem sempre viveu nas suas margens, o culpado pela catástrofe. Há uma novidade: as duas usinas. O Movimento dos Atingidos por Barragens tem uma análise certeira de quem sofre, além do rio e do sistema ecológico: a população local. "Com as usinas operando no limite e enquanto os consórcios construtores disputam as possibilidades de gerar mais lucro, as comunidades e população que vivem à margem de todo o rio Madeira continuarão sofrendo com a maior enchente dos últimos cem anos da região, causada e potencializada pelas obras das hidrelétricas do rio Madeira."

Enquanto Jirau doou 250 cestas básicas e mil frangos congelados "visando prestar auxílio aos atingidos", Santo Antônio, publicamente, tem tentado ver se a água passa depressa. Ambas mostram-se sorrateiramente acuadas diante do desastre, em um silêncio constrangedor só rompido para cada uma atacar a vizinha, numa briga pública que coloca em risco milhares de pessoas. E começam, ainda de forma incipiente, a ser pressionadas por algumas autoridades no âmbito do Judiciário. A participação delas nessa catástrofe, uma vez passada a crise quando as águas escorrerem para o Amazonas, vai ser medida junto com a quantidade de mortos (pelo menos 60) e dos milhões em prejuízo.

Procurei dois destacados pesquisadores para uma breve análise da catástrofe. Antes mesmo dos licenciamentos, eles já alertavam para os problemas decorrentes dos possíveis barramentos do rio Madeira, que carrega metade dos sedimentos do Amazonas: Philip Fearnside, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), e Jorge Molina, do Instituto de Hidráulica e Hidrología (IHH) da Universidad Mayor de San Andrés (UMSA). Um de cada lado da fronteira do Madeira, que nasce nos Andes e deságua no Amazonas.

Para Molina, "há fortes suspeitas" de que as usinas pioraram as coisas no Brasil. E o problema, completa Fearnside, é que a credibilidade do Ibama e da ANA foi posta em dúvida, no momento em que o governo prepara-se para leiloar mais uma série de usinas na Amazônia. A questão é tão grave que a Justiça Federal determinou que os estudos de impacto ambiental sejam refeitos.

Pior: no futuro, lembra Fearnside, as mudanças climáticas devem aumentar a ocorrência de eventos extremos.

Fearnside entrou no INPA em 1978, e publicou trabalhos científicos que são referências fundamentais sobre 10 barragens na Amazônia brasileira: Balbina, Tucuruí, Samuel, Curuá-Una, Santo Antônio, Jirau, Teles Pires, Jatapu, Cotingo, e Belo Monte). Os trabalhos e outras informações sobre barragens estão disponíveis no seu site http://philip.inpa.gov.br e na coluna que escreve em Amazonia Real

Abaixo, entrevista com Fearnside, feita por e-mail. Logo após, um breve texto de Molina, que responde a perguntas que lhe enviei.



Felipe Milanez   Quais as perspectivas?

Philip Fearnside O futuro? Cheio de incertezas. Esta cheia excepcional e o que aconteceu nos últimos três ou quatro anos anteriores, como a erosão que Santo Antônio provocou em Porto Velho, colocam em dúvida muitas coisas: os estudos e os projetos das duas usinas, a operação dos reservatórios, os níveis d'água de inundação reais, as verdadeiras consequências do impactos destes projetos no Brasil e na Bolivia e o que pode ocorrer no futuro. Eu temo que também foi posta em dúvida a credibilidade do IBAMA, da ANA e a sua capacidade de cumprir suas próprias normas e condições.



FM Quais as relações entre as usinas e os efeitos dessa cheia? Quais os riscos envolvidos?

PF As duas usinas devem estar contribuindo, de maneiras diferentes, ao agravamento dos impactos da enchente atual.  A presença da barragem de Santo Antônio, logo acima de Porto Velho, pode estar aumentando a erosão da orla da cidade.  O vertedouro da barragem modificou as correntezas em frente à cidade, jogando mais água contra a orla, como foi demonstrado em 2011-2012 quando cerca de 300 casas foram derrubadas ou condenadas. A velocidade da água neste local também deve ser maior do que no rio natural, sendo que toda a liberação da energia está agora concentrada em uma única queda só 7 km acima do centro da cidade.

No caso de Jirau, deve estar contribuindo à inundação na Bolívia no trecho logo acima do final do reservatório propriamente dito em Abunã, na divisa entre Brasil e Bolívia. Os sedimentos amontoados, justamente no início do reservatório em Abunã, devem represar a água rio acima, aumentando a inundação. As afirmações das empresas de que este fenômeno de “remanso superior” não aconteceria no caso de Jirau foram contestadas por mim em um artigo em 2013 na revista Water Alternatives (versão em português disponível em http://philip.inpa.gov.br).



FM Esse é um problema decorrente da disputa entre as usinas ou, mesmo que tivessem cumprido o plano inicial dos projetos, esses riscos já existiam?

PF A alegação de Jirau de que a usina de Santo Antônio não abaixou o nível do reservatório como planejado quando a vazão começou a subir, se confirmado, indica um forte impacto sobre a população próxima ao lago, inclusive em Jaci Paraná. O mesmo pode aplicar a Jirau, sendo que se o nível do reservatório tivesse sido rebaixado ao máximo para aproximar o rio natural, a inundação teria sido menor, inclusive nos trechos hoje interditados da rodovia BR-364.



FM Quais as perspectivas no futuro?

PF As mudanças climáticas em curso estão previstos a aumentar a ocorrência de eventos extremos, incluindo inundações. Os planos do governo brasileiro para construir dezenas de barragens na Amazônia teriam grandes impactos dos mais variados tipos. A história das usinas do rio Madeira mostra como o sistema atual de tomada de decisão não consegue dar o peso adequado aos custos sociais e ambientais. Há extensa documentação dos impactos das usinas do Madeira, e de outras barragens existentes e planejadas na Amazônia, disponível em http://philip.inpa.gov.br.