quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

O garçom metódico

Sentei na mesa, ele veio me atender dizendo:
- Sentaste na pior posição possível. Não quer mudar pra este lugar, pra perna encaixar melhor? É que essas mesas são meio complicadas.

Não mudei de lugar, nem pedi bebida.

Uma semana depois, volto ao mesmo restaurante num horário em que tinha poucas mesas vazias. Deixei a chave em cima da única mesa em que batia sol. Quando fui sentar, outras mesas tinham vagado e sentei na mesa ao lado daquela em que batia sol. O restaurante foi enchendo e uma guriazinha sentou-se na mesa ensolarada. De longe, o garçom veio:
- Tu veio tomar um bronze hoje?
Passou por mim, que já estava terminando o meu almoço, e confirmou:
- Tu não bebe nada, né?

Esse garçom não apenas atende: ele decide quais são as melhores mesas e como se deve sentar-se nelas. E pelo visto, mantém uma agenda mental dos clientes. Eu sou aquela que não bebe nada enquanto come e provavelmente serei ignorada completamente na próxima vez que eu for naquele restaurante.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Fim de semana em Gramado

Pequena Helena

Nina

Se o cheiro saísse na foto...

...este blog seria um tanto perfumado


Flor de laranjeira: o melhor perfume do mundo

Nem sabia que alecrim tem flor!

Flor de cera

Lírios

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Por que progresso?


Surviving progress (2011) é um documentário sobre a "armadilha do progresso" em que nos metemos. Muitas das cenas foram filmadas no Brasil, o que (pra mim) é novidade. Mas não é novidade que tenham escolhido apenas dois cenários contrastantes - e que tenham sido São Paulo e a Amazônia.

O mais interessante do documentário é a constante pergunta "por que?" Por que se trancar numa lata de uma tonelada para se mover de um semáforo a outro? Por que acreditamos que o progresso se faz através das máquinas? Por que acreditamos que nossa miopia (que mira o conforto do indivíduo) não terá consequências para o coletivo?

Um dos entrevistados, um primatologista, define que a principal característica que nos diferencia dos primatas é a capacidade de perguntar (e investigar) por que. O filme tenta oferecer uma resposta por que valorizamos tanto o progresso, o que chamamos de progresso e por que estamos presos no esquema do progresso. O que (a meu ver) o filme não consegue fazer é provocar o espectador a se perguntar por que confia no progresso, por que é preciso frear o modelo.

Lembro de um refrão do Coolio que é mais ou menos assim:
When the revolution comes, I will be on front.
A revolução não vem se ninguém a fizer. Quanto mais nos conectamos à rede de computadores, menos nos conectamos uns aos outros e à vida na Terra. A revolução teria que ser maior que o indivíduo. O apelo do filme - como em tantos outros - é que cada um reduza, simplifique o seu consumo. Soluções individuais que passam pela tomada de consciência de cada um. Sabemos, desde as redações de vestibular (em que os candidatos insistem na solução-Chapolim para resolver todos os problemas do mundo), que isso não é solução coisa nenhuma.

Bogotá não virou cidade sustentável por uma súbita tomada de consciência dos cidadãos que resolveram usar suas bicicletas em vez de se endividarem para comparar um carro. Nem a Holanda sempre foi ciclista: a preferência pela bicicleta foi negociada, planejada, arquitetada, possibilitada pela infraestrutura oferecida aos cidadãos. A revolução é também fruto de uma decisão política.

Apesar de não gostar da solução que oferecem para o problema que é a desenfreada destruição do planeta, gosto da análise que o filme faz do assim-chamado-progresso.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Da margem ao centro

Foi por causa da disciplina de editoração de texto. Foi por causa da disciplina de editoração de texto que comecei a atentar para o que tem em volta do texto. Foi por causa dessa disciplina que eu comecei a me interessar por editoras, edições, impressoras, impressões, impressos e digitais. E foi por causa desse meu interesse baseado na necessidade de ensinar sobre o que eu não sabia, que Luis, que sabia que eu não sabia aquilo que eu tinha que ensinar, que o Luis que se interessa pelo que me aflige, que o Luis me apresentou à literatura marginal. Foi por causa da disciplina. Foi por causa da disciplina de editoração de texto que entrei no universo da literatura marginal. Foi assim.

Eu já tinha lido um conto do André Sant'Anna, publicado no Essa história está diferente. Na verdade, eu já tinha lido literatura marginal antes da disciplina de editoração de texto entrar na minha vida. O conto se chama Brejo da Cruz e é inspirado na piração que é a canção do Chico. Mas eu não sabia que aquilo que eu lia era literatura marginal. E quando não se sabe, não se pode dizer o que é. Fiquei impressionada com a oralidade, com a forma espiral de progredir. Repetia para seguir. Voltava para continuar. Como um bêbado contando estória. Conta e reconta. E se ninguém rir, conta de novo. Mas eu não sabia que lia literatura marginal. Foi só quando comparei o texto que ele me trouxe com o que a minha memória ainda retinha do Brejo da Cruz, que entendi que a Companhia das Letras tinha publicado literatura marginal. Aí eu entendi que a literatura marginal estava entrando no centro. Porque a Companhia das Letras é mais centro que a Intrínseca que é mais centro que a Livros do Mal que provavelmente não existe mais.
Daí eu fui na aula de editoração de texto com um livro do Ferréz na mochila. E com outro do Plínio Marcos. Nenhum meu, todos do Luis. O Luis que me trouxe da metrópole os livros que eu leria no interior. Isso é que é doido: os livros de literatura marginal vieram do centro para a margem. Santa Maria é centro pras cidadezinhas em volta, mas não é centro em comparação com Porto Alegre ou Rio de Janeiro, que um dia já foi capital do país. Com os livros de literatura marginal na mão, eu queria falar de editoras. Queria falar do Brejo da Cruz de André Sant'Anna publicado pela Companhia das Letras, queria falar do Capão Pecado de Ferréz publicado pela Objetiva, queria falar do Inútil canto e inútil pranto pelos anjos caídos de Plínio Marcos publicado por ele mesmo, pela editora Lampião. A editora Lampião não tem ficha catalográfica ou ISBN. Tem endereço e telefone. E ponto.

Um dos alunos, um cara que lê, um sujeito que curte literatura, que conhece literatura marginal, um rapaz que tem discernimento, esse aluno arregalou os olhos. Ficou surpreso quando folheou o Capão Pecado da Objetiva que o Luis tinha trazido do centro. Ficou surpreso quando entendeu que o livro publicado pela editora mais central que a Labortexto não era mais tão marginal. Ficou surpreso quando viu que as arestas tinham sido polidas, que as imagens tinham sido lavadas, que as interferências tinham sido apagadas. Na aula seguinte, me trouxe a sua edição de Capão Pecado. Não dá pra dizer que é o mesmo livro, porque foi publicado por outra editora. A editora que publicou o livro dele é a Labortexto. A Labortexto publicou o texto do Ferréz e as imagens e as intervenções. A edição da Labortexto tem 23 páginas a mais que a edição da Objetiva. Objetivamente, isso corresponde a 37 fotografias, um agradecimento, 12 estrofes da dedicatória, a segunda parte da dedicatória, a epígrafe e as intervenções de Mano Brown, Cascão e Conceito Moral. A edição da Objetiva tem, enquanto a da Labortexto não tem, uma intervenção do Ratão e outra do Garrett. E por fim, o que era prefácio virou posfácio. Enfim.

Quanto à prosa do Ferréz, o Luis, que leu o livro de novo antes de me entregar o livro, ele me ouvia enquanto lia os diálogos da periferia:
"- E aí, Zeca! Quer uma cerva gelada?
- Não, Burgos, eu tô a pampa. Porra, o bagulho tá cheio hoje, hein, mano!
- É, o bar do Polícia é o point agora, cê tá ligado? Também, o lava-rápido lá perto da igreja fechou; lá dava umas duas mil pessoas, mano.
- O que pegava lá, Burgos, é que o som da equipe tinha uma puta qualidade, aqueles manos da Thalentos são foda, além do equipamento eles agitam o pessoal pra caramba."
(p. 42 - Labortexto, p. 29 - Objetiva)
Quando eu li o livro, reconheci as gírias paulistas e tudo mais, mas eu não me ouvia. Eu não falo assim, tá ligado? Eu ouvia o Esteves, figura que saiu da Favela Monte Azul e falava assim, cê tá ligado, bicho?
"- Vixe, nem te falo, mano, o filha da puta só acorda depois das cinco da tarde, nem adianta colá lá agora, é mais fácil vocês irem à casa do Panetone, pois ele é um dos pouquíssimos que acorda cedo.
- Certo, então nós tamo indo lá, depois a gente se cruza, tá ligado?"
(p. 44 - Labortexto, p. 31 - Objetiva)
A periferia, a marginalidade, a vida hardcore, núcleo duro do Capão Redondo (SP) está nos diálogos. Isso alertou o Luis quando reclamei que na prosa, na parte descritiva, Ferréz abusa dos advérbios e sinônimos imperfeitos de verbos, quase escreve como os meus alunos que mal fazem malabares com as palavras:
"Rael dormiu tranqüilamente e no dia seguinte trabalhou como sempre, atendendo os clientes com muito carinho e atenção. (...)
Rael se despediu de Marcão e Celso, que eram irmãos e donos da padaria, subiu a rua Ivanir Fernandes e depois passou pela Falkemberg. De lá ele avistou a escola Maud Sá e ainda pensou em passar na quadra pra ver se tinha uns colegas jogando bola, mas deu prioridade em achar a metalúrgica. Prosseguiu e chegou na rua da feira, avistou a padaria São Bento (...)."
(p. 58 - Labortexto, p. 44 - Objetiva)
A conclusão está na mão. O texto que foi publicado por uma editora menos marginal que a anterior centralizou-se. A centralização é a submissão ao padrão, à norma que é texto e não imagem, prosa e não poesia num texto de prosa. Marginal é o misturado, o colado, o de difícil classificação. A conclusão é uma só. O escritor de literatura marginal apresenta o mundo marginalizado pela sociedade, mas tenta ele mesmo inserir-se no centro através da prosa descritiva que mal descreve a crueza da vida no Capão Redondo, que procura adornos linguísticos que cintilam, mas ficam fora de tom. Tipo as sandálias que vejo brilhando coloridas, estampadas e escandalosas nas vitrines. A conclusão é que em Capão Pecado eu vejo a literatura marginal querendo ser centro. Querendo escrever bonito, sem assumir por completo a linguagem corrente. Em comparação, Plínio Marcos é mais representativo da literatura marginal porque transita melhor entre margem e centro e assume a postura da margem numa linguagem que o centro entende.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

O som que atravessa

O som ao redor
Santa Maria tem cinema. Tem, mas os filmes que queríamos ver só passam em Porto Alegre. Luis já tinha visto no Rio o filme do pernambucano Kleber Mendonça Filho e tinha reparado na reação do público de classe média descolada ao ver um filme que se passa em Recife. Estava curioso em relação ao comportamento do público gaúcho. A surpresa, no entanto, veio de outro lugar: o som da sala de cinema (Centro Cultural Mário Quintana) estava ruim e pelo menos duas cenas foram cortadas.

"O som ao redor" é dividido em três partes: 1) cães de guarda, 2) guardas noturnos e 3) guarda-costas. A questão da segurança na metrópole pode ser identificada como um fio condutor do filme que conta com vários personagens que vivem/ transitam na mesma rua. O espaço que guardas e guardados dividem é o mesmo, com a diferença de que os guardas ficam fora da casa e os guardados se trancam dentro. Por isso mesmo o espaço é disputado. O som ampliado no filme, tanto aquele que causa incômodo aos personagens como aquele que ressalta a vingança de outros, costura a narrativa solta e fragmentada.

A narrativa atravessa o tempo: a primeira cena é uma foto antiga de uma família na frente de um engenho de açúcar. Todas as cenas seguintes se passam na Recife atual. No tempo do engenho de cana, uma autoridade central detinha o monopólio (tanto dinheiro como força a seu serviço). No tempo atual, cada um se defende contra o mundo como pode: o poder está fragmentado e milícias fazem o papel da polícia. E um dos fragmentos volta para cobrar seu preço: "O senhor não se lembra? Pois eu tinha seis anos - e eu lembro."

A narrativa atravessa o espaço: o dono de metade dos imóveis daquela rua chama a trama da cidade para o engenho. Na cidade, o espaço privado é pouco pra tanta gente, mas a rua é vazia. E ainda assim, aquela rua é um simulacro do engenho: a família do coronel continua mandando no pedaço.

Por fim, a desigualdade social atravessa os personagens: um dos netos do coronel herda o ofício de administrar os bens da família enquanto agente imobiliário, o outro herda a truculência, o poder desmedido de quem não deve explicações. O filho do coronel acha um absurdo pagar a um grupo de seguranças para que façam a vigilância da rua, afinal de contas, aquela rua é herança sua. Do outro lado da linha social estão os rapazes que oferecem o serviço de segurança; o rapaz que, em troca de uns trocados, tenta ajudar a madame com suas bolsas, é repelido e risca seu Audi; a empregada que entra na casa de um morador daquela rua com o segurança que tem a chave (porque ficou incumbido de regar as plantas) e quer "na cama"; e a vizinha invejosa que ataca a outra que recebe em sua casa uma TV algumas polegadas maior que aquela que a ressentida conseguiu comprar. No meio, entre os muito ricos e os pobres, está a mãe de família de classe média que deixa que seus filhos decidam sua rotina infantil: paga um curso de inglês pros filhos, depois muda pra chinês quando a filha argumenta que já têm aula de inglês na escola. Essa mulher que naturalmente vive entre grades, paga ao guarda o que ele pede sem se perguntar se isso é necessário e passa o filme inteiro incomodada com o cachorro do vizinho (que existe  para garantir a segurança do lar) representa a classe média.

O medo de ser invadido permeia o filme todo: o coronel de engenho tem medo de perder o monopólio, a criança de classe média tem um pesadelo em que a casa é tomada por infinitos assaltantes, o agente imobiliário ouve passos acima de si quando mostra o porão do antigo engenho pra namorada e se sente incomodado ao ver que a empregada traz as netas e o genro (ou filho?) que se espalham na casa. O agente imobiliário, o personagem mais pacato de todos, é atormentado por um rio de sangue que nem faz parte de sua memória, mas define o passado de seu avô, ou seja, o medo é herdado pelas gerações mais novas.

O som ao redor não se fixa num enredo, num espaço ou tempo. O filme mostra o "mapa sonoro" do cotidiano que nos atravessa: o som do ambulante, do cachorro que late para todos os pedestres, das bombinhas que estouram em cadeia, da máquina de lavar, do aspirador de pó, do grito catártico, do menino que pede a bola, do carro que bate, das pessoas que cantam parabéns, dos que pulam o muro.

Lamentando que o som da sala de cinema não estava à altura da exigência do filme, recorto um trecho de Sacks (Alucinações Musicais, p. 148):
A genuína percepção em estéreo, seja ela visual ou auditiva, depende da capacidade do cérebro para inferir a profundidade e a distância (...) com base nas disparidades entre o que está sendo transmitido pelos dois olhos ou ouvidos individualmente - uma disparidade espacial no caso dos olhos, e temporal no dos ouvidos. São minúsculas as diferenças envolvidas: disparidades espaciais de alguns arcsegundos para a visão, ou de microssegundos para a audição. Isso permite a alguns animais, especialmente predadores noturnos como as corujas, construir um verdadeiro mapa sonoro do ambiente. Nós, humanos, não estamos à altura desse padrão, mas ainda assim usamos disparidades biaurais, tanto quanto indicações visuais, para nos orientar, para julgar ou formar impressões sobre o que nos rodeia. 
Por uma questão de honestidade acadêmica, preciso dividir os créditos desse texto com Luis Fernando Novoa Garzon.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Araçá

A placa dizia "myrtaceae", mas esse nome também se aplica às pitangas. A frutinha que comemos tinha como nome popular "araçá" e tinha um gosto difícil de definir. Luis disse que o gosto era de goiaba com jambo, e acho que essa descrição é a melhor a que se pode chegar.
Havia muitos pés de araçá no Jardim Botânico da UFSM. Tantos, que deu araçá de sobremesa e depois suco.

Encontramos um pé de araçá amarelinho. Esse Luis conhecia. E talvez pelo fato da cor ser mais próxima da goiaba, o gosto do araçá amarelo lembrava mais o gosto da goiaba.

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Jardim botânico

A UFSM tem um Jardim Botânico em seu terreno. Infelizmente ele está abandonado (as hortas estão com mato tão alto, que às vezes não dá pra identificar no canteiro a planta medicinal anunciada na placa). Muitas coisas nesta universidade são geridas por bolsistas. E ali no jardim botânico eles estão em falta.
Joaninha
Assim que chegamos, fomos saudados por essa gatinha. Conforme andávamos, ela nos acompanhava - miando e saltando de sombra em sombra. Nas partes de grama expostas ao sol, ela corria que dava gosto de ver. Fiquei com muita saudade de Akari e Mustafá ao brincar com essa gatinha carente.
 Muitas plantas são de clima temperado, como por exemplo esse carvalho:
 Na estufa tinha algumas preciosidades:
 Margeando a cerca, o cactário:
 E uma coleção de bambus pra fechar a visita.

Jardim de apartamento

Luis já tinha coletado umas plantas no jardim da Oma (sálvia, melissa, hortelã, orégano e flor de cera) e vizinho (manjericão e alecrim). Daí, na vez seguinte que ele veio, fomos na floricultura, comparar vasos, terra, potes e mais plantas. Juntamos pedras da rua e montamos o nosso jardim. Temos pimenteiras, laranjeiras, flor de mel, onze horas, boldo, alcachofra, gengibre, salsinha, cebolinha e coentro.

Como o sujeito que mora no quarto andar costuma ligar o ar condicionado todo dia depois do almoço, e como a aguinha do ar condicionado dele pinga nas caixas para ar condicionado dos apartamentos dos outros andares espalhando as gotas de água, não é preciso se preocupar muito em regar as plantas.

Logo que havia mais de quatro mudas na nossa flora de apartamento, começaram a aparecer indivíduos da fauna: primeiro mosquitinhos coloridos, depois grilos, agora temos uma família de sapinhos fazendo festa de noite.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Como aprendemos

Será que aprendemos alguma coisa nas aulas? Será que somos capazes de debulhar um problema sob diversos aspectos a partir da fala do professor? Será que somos estimulados a reconhecer como conhecimento - e reter tal conhecimento - as informações apresentadas durante o tempo da aula?

Eu aprendi mais quando tive que ensinar. Aprendi inglês quando virei professora de inglês, aprendi a caminhar no campo da Linguística quando virei tutora lá em Bremen, aprendi a ver a Linguística de fora quando dei aula de Linguística Geral em Porto Velho (foi epifânico). Lembro ainda de um seminário espetacular que demos em grupo na USP sobre tópico discursivo. A professora nos deu zero. O fato é que aprendemos tanto sobre o assunto, que vimos os limites do modelinho que ela nos tinha proposto e o extravazamos. Paradoxalmente, o trabalho que eu recordo como sendo o mais produtivo na minha vida de graduanda foi premiado com uma nota zero.

Flusser afirma que escrever é uma forma de pensar. Luis, meu quase-marido, se deu conta de que está aprendendo sobre o seu objeto de estudo durante o processo de escrita. Escrever uma tese, a meu ver, é ensinar ao público leitor sobre o objeto de estudo.

Em todo caso, para se aprender, é preciso fazer, não basta ouvir e ver, copiar e repetir.