terça-feira, 31 de maio de 2011

Outro ângulo

Imagino que seja um fruto de cactus, porque não muda há semanas
Estou me divertindo com as surpresas do meu jardim e compartilho com Mônica e Ulla as dúvidas botânicas que elas me impõem. Voltei lá e dessa vez não aproximei tanto a lente do objeto, na esperança de capturar folhas, posição e outras informações contextuais.
Não sei se é flor ou folha

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Novos hábitos

Não uso mais relógio de pulso.
Para saber as horas, olho no celular.
Não tenho mais despertador: o telefone me acorda.
Não gosto de falar no celular e tenho créditos acumulados e expirados.
Mando mensagens.
Quase não uso o telefone fixo (minha média é de 19 minutos por mês).
Converso com a minha família pelo computador.
Contrato serviços pelo telefone e pago contas no cartão de crédito, sem assinar nada.
Em caso de necessidade, tenho assinatura digital.
Faz anos que não ligo mais nenhuma TV.
Para passar o tempo, tenho muitos livros e filmes.
Para saber das notícias, me misturo entre as pessoas (bicicletaria é um ótimo difusor de notícias).
Não me interessa mais ter um carro.
Me desloco de bicicleta ou de ônibus.
Não poderei tirar férias no meio do ano porque me deram trabalho (e é proibido trabalhar nas férias!).
Terei que inventar um jeito de viajar pelas palavras para me desligar daqui.

Exótica

Abrindo

Aberta, ao anoitecer

Esquisitinha

Tem quatro pés dessa planta esquisitinha no jardim. Chegando mais perto, ela fica assim:


sábado, 28 de maio de 2011

Banho de gato

Akari gosta muito de se esfregar na terra. Deita e rola. Escava e enterra. Quando eu achei que ela não tinha mais nenhuma parte branca na pelagem, dei um banho nela. Ficou esquisita, feiosa e arisca. Deixei a porta aberta, na esperança de que ela aproveitasse o sol pra se secar. Que nada! Foi se esfregar na terra preta. Akari ficou irreconhecível. Dei um segundo banho nela, dessa vez só com água. Fechei a porta e as janelas e ficamos de mal uma com a outra.

Chegou a hora de dar vacina na gata. Fomos na veterinária, que deve ser o segundo pior lugar do mundo pra qualquer animal. Permanecemos um tempinho naquele lugar que tem sons, cheiros e dinâmica estranha. Tomou a vacina, relutou em voltar pra caixinha (que definitivamente é o pior lugar do mundo pra Akari) e foi libertada já no portão de casa.

Me ocupei de tarefas domésticas e quando olhei pra Akari, ela tava cinza. Se esfregar na terra deve ser uma estratégia de exorcizar as lembranças da veterinária. Tomou banho, me olhou de lado, mas não reclamou de secar dentro de casa.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

O sinal que eu tava esperando

Pelas minhas anotações, liguei na Oi 14 vezes, em busca do sagrado sinal de internet. Pelas minhas contas, foram incontáveis minutos gastos no telefone. Desde o dia 11 de abril eu estava sem internet. Fui na lan house do bairro uma vez (lá dentro era mais quente que fora e acabou a energia depois de 20 minutos) e fiz da Unir e casa da Cynthia a minha lan house. A Unir não era muito confiável, porque parece que a universidade tem um esquema secreto de rodízio do que falta: ou é luz, ou água, ou banheiro, ou professor, ou internet, ou outras coisas mais abstratas.

Completei um mês sem internet com trauma de telefone: ou era eu que ligava na Oi e me diziam que eu tinha que esperar, ou eram vendedores de provedor da Oi me ligando e me dizendo que o sinal já tinha sido liberado e que eu precisava contratar o provedor da Oi (mentira). Ligavam nos meus dois telefones e no fixo (nesse, ligavam de manhãzinha, me arrancando da cama, e de noitinha, interrompendo minhas sessões de cinema em casa). Além dos vendedores de provedor Oi que não largavam o osso, vendedores de internet 3G da Claro me ligavam - com a mesma frequência, mas só no fixo e num celular.

Fiquei com trauma de telefone. Quando eu estava entrando na quinta semana sem internet, um sujeito da Oi com sotaque gaúcho me ligou. Desconfiada, perguntei se ele era o técnico que botaria o sinal na minha linha de telefone. Ele respondeu que não era nem o técnico que vem na minha casa, nem vendedor de provedor da Oi, nem da Claro. Ele era da central e liberaria o sinal. "O sinal tem prazo de cinco dias úteis pra chegar na sua residência, mas como é Rondônia, pode ser que chegue em dois dias." Nem tentei entender esse "como é Rondônia", porque, justamente por ser Rondônia, fiquei mais de um mês esperando para ter internet.

Passados os cinco dias úteis, o sinal ainda não tinha chegado. Liguei na Oi e fizeram uma "qualificação" de linha - seja lá o que isso for. Mandaram eu trocar os cabos, esperar, enfiar os plugs em todos os buracos disponíveis, desligar e ligar o modem, esperar. A qualificação foi um sucesso, mas o sinal continuava não chegando no meu modem. Prometeram mandar um técnico que nunca veio, nem ligou num dos meus três telefones.

Enquanto isso, a minha conta de telefone não chegava. Chamei atenção da Oi pro fato. Consultaram o sistema e me informaram que eu tinha mudado de endereço (pois é) e que o endereço para correspondência continuava sendo a Vila da Eletronorte (vai entender). Contive todos os palavrões adequados e pedi que a atendente atualizasse o endereço de correspondência. Perguntei qual era o valor da conta e a resposta foi equivalente a um mês de internet - que eu não tive. Pedi pra ela descontar 4 dias de internet e - milagrosamente - o valor de cento e tanto passou a R$ 68,00. Pedi logo que ela me fornecesse o código de barras, pra que eu pudesse pagar a conta atrasada (que gerará uma multa sobre a qual não tenho responsabilidade alguma na fatura seguinte). Quando fui pagar, faltava um dígito.

Um mês, duas semanas e dois dias depois de ter mudado de casa (prazo em que fiquei sem internet), liguei de novo na Oi pra pedir o maldito código de barras e exigir a visita de um técnico que desenrosque esse sinal de internet que não chegava no meu modem. Quando o telefone tocou mais tarde, a luzinha de DSL estava firme e verde.

Deu pra entender agora por que mudar de casa em Porto Velho dá muito mais trabalho que a mudança (caminhão, móveis) e a instalação (gatos no forro, torneiras, imobiliária)?

segunda-feira, 23 de maio de 2011

A lista de presença

Na lista de presença da Biologia constavam, desde o primeiro dia de aula, nomes de personalidades que decididamente não estiveram presentes na sala de aula: Luis Inácio Lula da Silva, Dercy Gonçalves, Luan Santana, Lula Molusco. Houve vezes em que a lista de presença se transfigurou em "lista de doadores de rins".

Havia, no entanto, um nome que foi incorporado na minha lista de controle: Ariadna dos Santos. Quando eu achei que já sabia todos os nomes dos alunos, entraram novos, através da enésima chamada do vestibular. Ariadna, no entanto, não voltou a assinar a lista de presença. Quando confirmei faltas, notas e pendências com os alunos, nenhuma Ariadna se manifestou. Depois dessa aula, um aluno me disse que a Ariadna não existia.

Tempos depois, quando eu estava no aeroporto, esperando o avião chegar, dei uma olhada na livraria. Peguei
e dei uma folheada. O narrador era um editor, formado em Letras, que bebia nos fins de semana para esquecer os manuscritos ruins que lia durante a semana. Já me identifiquei. Melhor: a personagem misteriosa que lhe mandava capítulos de um livro autobiográfico - sem absolutamente nenhuma vírgula - se chamava Ariadne. Intrigado com a narrativa que vinha pelo correio em suaves prestações, o narrador e seus colegas de bar resolvem viajar até Frondosa, a cidade de onde são postados os capítulos xerocados de Ariadne. Todos são fisgados pela Ariadne e tramam um plano para descobrir se ela existe.

Mesmo estando no aeroporto, comprei o livro. Mesmo tendo provas e resumos pra corrigir, li Os Espiões em um dia. Os nomes dos personagens eram fascinantes: Joel Dubin, Ivona Gabor, Diamantino Reis, Agomar Peniche, Fulvio Edmar, Lúcio Flávio. Tão intrigantes como os nomes que aparecem na lista de "doadores de órgãos" nas quartas-feiras: Ualinda, Uérisson, Késid, Dandhi, Kesia, Herlânia, Najila, Keile.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Um dos meus irmãos

Um dos meus irmãos gostava de me levar pro seu trabalho. Assim que chegava, sumia. Num canto escondido, abria a sua grande maleta quadrada. Tirava um espelho (daqueles que vende em mercearia), passava gel extra fixador no cabelo e, equilibrando a imagem no espelho, passava maquiagem no rosto. Transformado em Jerônimo, se apresentava - e eu tentava registrar seus movimentos com a câmera.

Um dos meus irmãos ensaiava números de circo na garagem lá de casa. Houve vezes em que a banda, que ainda precisava aprender a tocar (e a ouvir), se instalava na sala. Não importa se na sala ou garagem, os ensaios ocupavam a casa inteira e era preciso sair pra se ouvir o próprio pensamento.

Um dos meus irmãos tocava instrumentos inusitados. Quando se encantou com os objetos de cozinha, fiquei sem louça. Quando aprendeu a tocar sanfona, a vizinhança toda acompanhou seus progressos. Quando aprendeu a tocar serrote, perambulávamos por uma casa assombrada. Quando tocava violão, a gente cantava junto.

Um dos meus irmãos viajou com o teatro fazendo circo. Me levou no circo do Sol que fazia música, me chamou pra participar duma oficina de Barbatuques, me pediu pra revisar seus escritos e me explicou que ser palhaço é coisa séria.

Um dos meus irmãos é o meu palhaço preferido.

terça-feira, 17 de maio de 2011

E o futuro


Temo que o tempo me tome tudo:
Tudo que guardei no futuro.
Espero ainda ter tempo de fazer meus planos
quando o futuro chegar.
Pode ser que futuro e passado se misturem,
mas o presente me foi dado por quem não me conhece.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Flor-fruta

Flor de carambola virando fruta.
Agora começam as minhas dificuldades classificatórias. Já faz quase duas semanas que espero esse botão (de orquídea? cactus? bromélia?) abrir, mas ele só faz ficar mais rosa-choque. Já não sei mais se estou olhando pruma flor ou fruta.
A semente dá na fruta, não é? Aqui as coisas parecem se misturar.

sábado, 14 de maio de 2011

Naná Vasconcelos


Fui no primeiro show que Naná Vasconcelos deu em Rondônia.  Não foi simples entrar, mas insistir em entrar era a única coisa certa a fazer. O evento era promovido pelo SESC, mas sediado no Teatro Banzeiros. Era preciso trocar dois litros de leite por um ingresso no SESC e ir com esse ingresso ao Banzeiros. 

Cogitei a possibilidade de levar leite de soja, mas logo imaginei a cara das crianças carentes beneficiadas com a arrecadação de leite do SESC estranhando a cor do leite de soja. Comprei dois litros de um leite que eu não bebo, pus na mochila e pedalei até o SESC. O guarda na recepção de lá disse que os ingressos já tinham acabado fazia tempo. Pedalei até o Banzeiros e me juntei à aglomeração de pessoas portando sacolas com duas caixas de leite dentro. Uma moça me deu uma senha (n. 44) que chamariam assim que aqueles que tinham ingresso tivessem se acomodado. A hora do início do show foi se aproximando e os números das senhas só iam aumentando. Um sujeito da imprensa, que tinha entrada livre e um ingresso sobressalente na mão, parou do meu lado, esticou a mão com o ingresso para o alto e perguntou se alguém queria um ingresso. Meu!

Todo mundo lá fora entrou, porque haviam distribuído menos ingressos no SESC do que a lotação do Banzeiros. Daí Naná Vasconcelos apareceu no palco.

Ele toca berimbau como quem brinca com todas as suas possibilidades sonoras;
Ele orquestra o público através dos movimentos do seu corpo;
Ele só larga um instrumento quando tiver outro à mão;
Ele conta o tempo na ponta dos dedos;
Ele é feio feito uma arara espantada;
Ele ri como um preto velho;
Ele fala como quem está em casa.

A parte do show que mais me impressionou foi quando ele não estava na nossa frente, no palco.  Ele tinha coordenado a ala esquerda a cantar uma frase, a direita a cantar outra. Ele tinha feito a ala esquerda bater palma num tempo e a direita no contra-tempo. Ele coordenou a nossa atividade musical e se retirou do palco. O impressionante é que o público continuou cantando e batendo palma por um bom tempo.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Renato e a música

Minha memória não é – de longe – tão boa como a sua, mas não me lembro de você cantando.

Lembro da gente caminhando pelo "Caminho das Flores" e você recitando Chico Buarque. Em quase todas as canções, o cantor assumia o eu-lírico feminino.

Lembro que a sua letra na lousa e no papel era feia, mas as letras de música que você escrevia nas suas camisetas eram desenhadas com esmero.

Lembro que a sua coleção de discos era um tesouro, e que você me chamava pra ouvir música em tardes preguiçosas. Ouvíamos os começos de milhares de músicas enquanto paraquedistas coloriam o céu.

Lembro que você passava muitos fins de semana colecionando músicas que despertavam lembranças remotas nos ouvintes. Numa festa, apresentou sua coleção de pérolas bregas para divertir os amigos.

Lembro que você tinha fama de conhecedor de músicas desconhecidas, e que a moça da rádio te chamou pra apresentar as suas jóias raras. Lembro de você contando que ela não reconheceu nada do que você tinha posto na playlist que preencheria duas horas de transmissão.

Lembro de você contando estórias de discos, bandas, músicas, músicos e shows, mas não lembro de você cantar.

Namorei um Renato que você detestava (que te chamasse de xará). Esse Renato cantava alto - o tempo todo. Foi cantar no coral, foi se apresentar cantando o cachorro dos Saltimbancos, foi-se embora com a banda.

Quando bate a saudade, procuro os CDs identificados com a letra do Pablo e ouço as músicas que você gravou pra mim.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

The parrot



A qualidade não está perfeita, mas tem legenda.

sábado, 7 de maio de 2011

Sintomas da escola na universidade

Cena: estou no ônibus e cumprimento uma ex-aluna. Depois de um tempo, ela me pergunta se eu vou descer no (supermercado) Gonçalves. Respondo que não e ela sorri. Abre a mochila, tira um monte de papel e me mostra. Pede pra que eu dê uma olhada no artigo que ela escreveu. Dei uma folheada e perguntei se era pra ler tudo antes de chegar o meu ponto.
Sintoma: essa menina não tem noção do que significa ler um artigo, avaliar um texto ou dar um parecer sério sobre um texto.
Diagnóstico: a visão que essa moça tem do professor universitário está levemente distorcida.

* * *

Cena: Estou dando um curso com base em textos escolhidos a dedo, que devem ser apresentados sob a forma de seminários. Para garantir que todos leiam o texto, dou pontos extra para perguntas - boas! - que nos ajudem a refletir sobre o texto. O último texto foi sobre a diferença entre a fala e a escrita e a pergunta que mais me intrigou foi: "É possível uma pessoa falar bem e escrever bem?"
Sintoma: nenhuma das duas possibilidades parece ser a realidade vivenciada pela aluna. Ela está convencida de que fala mal português e nós concordamos que ela não domina as regras de ortografia.
Diagnóstico: o vestibular da Unir é uma farsa.

* * *

Cena: um aluno quer saber se o problema dele, de escrever 't' no lugar de 'd' e vice-versa tem algum nome científico. Faço umas perguntas e ele me conta que foi escolarizado aos 14 anos de idade, porque antes disso tinha tido um bloqueio.
Sintoma: esse sujeito deve estar inserido no mundo das letras (que fazem sentido) há 4 ou 6 anos. Não me pergunte como ele passou no vestibular.
Diagnóstico: em Rondônia, a universidade parece ter a função de remendar os buracos da escola.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

O caminho, o sucesso e o acaso

Quando eu ia nas livrarias grandes, boas e especializadas, eu costumava seguir uma certa trilha que me conduzia pelo estabelecimento. O caminho que eu fazia passava pela estante da linguística, literatura estrangeira e nacional, quadrinhos, livros de arte e viagem e ocasionalmente filosofia, dicionários e top de vendas da loja. Meu caminho não passava pelos esotéricos, auto-ajuda, religião, direito, saúde ou culinária.

Quando eu parava na frente da estante de linguística, costumava ficar intrigada com o que as lojas colocavam ali. Havia sempre muitas gramáticas, manuais de redação, livros sobre como falar em público (tudo receitas para se atingir um certo ideal de desempenho linguístico). O Curso de Linguística Geral estava lá, assim como algumas introduções à Linguística (e desconfio que estivessem lá por causa do título que continha a palavra-guia que categorizava a estante), mas metade dos livros era sobre linguagem (comunicação, manuais, dicas, guias e congêneres), não linguística (a ciência sobre as línguas humanas).

Nas livrarias de Porto Velho não consta a estante dedicada aos livros de linguística (seja lá o que isso for). Nas livrarias de Porto Velho, o meu caminho pela loja se assemelha ao “andar do bêbado”. Em primeiro lugar isso acontece porque ainda não identifiquei claramente as seções que me interessam. Em segundo lugar, as seções todas são misturadas. Ao lado do livro de história estão os de auto-ajuda, ao lado do livro de filosofia estão os de religião, ao lado do de literatura estão os esotéricos, vampíricos e biografias de pessoas de sucesso (medido em termos financeiros). Como uma molécula que se choca aleatoriamente com outras moléculas em seu caminho imprevisível, caminho pela livraria. É impressionante o que se publica – e consome hoje em dia. Grande parte dos livros que eu considero junk books gira em torno do sucesso; e isso num tempo e lugar em que a escola forma pessoas incapazes de ler, escrever, pensar e criticar.

Terminei de ler O andar do bêbado, de Leonard Mlodinow, sobre aleatoriedade. Recortei uma passagem que encaixa com o tema:

“(...) assim como os autores devem ser julgados por seu modo de escrever e não pelas vendas de seus livros, os físicos – e todos os que tentam ser bem-sucedidos – devem ser julgados mais por suas habilidades que por seus êxitos.
                A linha que une a habilidade e o sucesso é frouxa e elástica. É fácil enxergarmos grandes qualidades em livros campeões de vendas, ou vermos certas carências em manuscritos não publicados, vodcas inexpressivas ou pessoas que ainda estão lutando pelo reconhecimento em qualquer área. É fácil acreditarmos que as ideias que funcionaram eram boas ideias, que os planos bem-sucedidos foram bem projetados, e que as ideias e os planos que não se saíram bem foram mal concebidos. É fácil transformar os mais bem-sucedidos em heróis, olhando com desdém para o resto. Porém, a habilidade não garante conquistas, e as conquistas não são proporcionais à habilidade. Assim, é importante mantermos sempre em mente o outro termo da equação – o papel do acaso.” (p. 229 – 230)

Recebi ontem uma prestação de contas da Editora da Unicamp pelo capítulo (da preposição, claro) de que sou co-autora do último volume da Gramática do português culto falado no Brasil. Recebi, pelos direitos autorais, R$ 49,55 referentes às vendas do ano anterior. Se as vendas tivessem sido maiores, eu teria recebido mais. Durante o período do ano anterior (não sei estabelecer os limites), foram vendidos 101 exemplares da GPFCB. Em tempos em que o que vale é o sucesso, o certo, o escrito, quem é que se interessa por um catatau de 1167 páginas sobre a organização da oralidade? A GPFCB não é exatamente um sucesso de vendas, mas pela habilidade dos meus colegas, eu ponho a mão no fogo.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Highlander

Eu tinha outros planos pra começar o dia, mas acabei me enfiando em roupas sujas e subindo no forro. Fazia duas noites que os gatos tinham me deixado dormir tranquila, mas essa manhã o filhote ilhado no telhado não me deu sossego. O último filhote restante da ninhada de sete tinha atravessado o telhado e tentava entrar no forro. Como ele estava concentrado em driblar a tela que eu tinha instalado numa das minhas excursões ao submundo do telhado, tive chance de agarrá-lo antes que se encolhesse num lugar inalcançável.

Gritou, arranhou, mordeu, chiou e esperneou. Doeu, mas consegui pegar o highlander. O coração acelerado dele parecia querer explodir na minha mão enquanto eu me contorcia pra descer a escada. Pus o combatente na caixinha e fui cuidar da minha vida: banho, café da manhã e essas coisas. Como ele e a mãe miavam sem cessar, decidi levar o filhote na pet shop, pra doação. O moço que tirou o gatinho de dentro da caixinha voltou ferido. "O que é aquilo que você trouxe: uma jaguatirica?"