sexta-feira, 13 de maio de 2011

Renato e a música

Minha memória não é – de longe – tão boa como a sua, mas não me lembro de você cantando.

Lembro da gente caminhando pelo "Caminho das Flores" e você recitando Chico Buarque. Em quase todas as canções, o cantor assumia o eu-lírico feminino.

Lembro que a sua letra na lousa e no papel era feia, mas as letras de música que você escrevia nas suas camisetas eram desenhadas com esmero.

Lembro que a sua coleção de discos era um tesouro, e que você me chamava pra ouvir música em tardes preguiçosas. Ouvíamos os começos de milhares de músicas enquanto paraquedistas coloriam o céu.

Lembro que você passava muitos fins de semana colecionando músicas que despertavam lembranças remotas nos ouvintes. Numa festa, apresentou sua coleção de pérolas bregas para divertir os amigos.

Lembro que você tinha fama de conhecedor de músicas desconhecidas, e que a moça da rádio te chamou pra apresentar as suas jóias raras. Lembro de você contando que ela não reconheceu nada do que você tinha posto na playlist que preencheria duas horas de transmissão.

Lembro de você contando estórias de discos, bandas, músicas, músicos e shows, mas não lembro de você cantar.

Namorei um Renato que você detestava (que te chamasse de xará). Esse Renato cantava alto - o tempo todo. Foi cantar no coral, foi se apresentar cantando o cachorro dos Saltimbancos, foi-se embora com a banda.

Quando bate a saudade, procuro os CDs identificados com a letra do Pablo e ouço as músicas que você gravou pra mim.

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