quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Documentário para os ouvidos


Descobri, meio que por acaso (dirigido), uma excelente fonte de documentários sonoros sobre grandes figuras da música brasileira. Em doses homeopáticas e ao longo de muitos dias, ouvi a ópera para os ouvidos que é o documentário sobre Jorge Ben Jor.

Muitas pessoas batutas são entrevistadas, são resgatadas histórias pontuais e panos de fundo gerais. Enfim, aprendi tanto sobre o artista e sua música como sobre a música (o pensamento musical).

A Rádio Batuta, do Instituto Moreira Salles, oferece também outros documentários (Luiz Gonzaga, João Gilberto e Noel Rosa estão ao lado de Jorge Ben Jor). Pretendo ouvi-los todos na rede.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Caminhada branca

Confesso que me surpreendi quando encostei no balcão de passagens em Porto Alegre e a moça atrás do vidro me vendeu uma passagem pra Santa Maria dali a 10 minutos. Isso significava que, no dia depois da tragédia, o fluxo já não era mais em direção a Santa Maria.

Quando desci do ônibus em Camobi (bairro em que fica a UFSM e que fica a 10km da cidade), o silêncio me assustou. Cheguei a pensar que de agora em diante havia um acordo tácito de que era proibido rir, fazer barulho, cantar.

De noite havia uma caminhada marcada pra sair da praça Saldanha Marinho no centro e chegar no ginásio onde os corpos tinham sido velados. Não era pra levar velas, mas era pra vestir branco. No ônibus que peguei no Camobi quase todos estavam de branco. Aliviada, reparei que a alegria não tinha morrido. Os que estavam de branco desceram todos no mesmo ponto, subiram todos a mesma rua e se juntaram todos na mesma praça.

Na praça havia um mar de gente. Conversavam pouco. O máximo que saía era um "e aí" que obtinha como resposta outro "e aí" na mesma entonação. Registrei mais abraços e olhares tristes do que conversas, bandeiras, cartazes e protestos. Ondas de palmas vinham e se iam; não sei o que aplaudiam. Balões brancos foram soltos, mas eles voltavam e estouravam. Ouvi murmúrios diluídos do Pai Nosso e  ouvi como cantavam (mais de uma vez) o hino gaúcho com fervor:

Mostremos valor constância
Nesta ímpia e injusta guerra
Sirvam nossas façanhas
De modelo a toda Terra

A massa branca se pôs em movimento. No trajeto, reparei que havia pouca gente nas janelas. Isso me deu a sensação de que a cidade inteira estava de branco e na rua. A massa branca caminhou até o ginásio. Lá de dentro ouvimos gritos e palmas. A massa respondeu e dispersou. Não caberia todo mundo dentro do ginásio e não era o propósito incomodar os remanescentes com a nossa presença.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

A tragédia de Santa Maria

Fiquei sabendo da notícia pelo rádio. Na manhã de domingo, o delegado (ou bombeiro?) entrevistado anunciava cerca de 30 mortos. Comentava com calma que seria feita uma perícia e que ele ainda não podia divulgar números antes das investigações. Ao longo da manhã, o número de vítimas aumentava drasticamente.

Minha mãe ligou no meu celular lá de Bruchhausen-Vilsen, minha tia e vó me ligaram pra confirmar que eu não frequento boates. Todos os familiares ficaram aliviados quando disse que estava passando o fim de semana no Rio de Janeiro.

Os programas de TV (vimos Globo Esporte, um rabinho do Faustão e o início do Fantástico) que acompanhei nas horas de refeição com o Luis - que também não tem televisão - incorporavam notícias sobre a tragédia de Santa Maria em sua programação. O Fantástico foi quase todo sobre a tragédia de Santa Maria. Dilma largou tudo no Chile e foi a Santa Maria. Essa tragédia alimentou a mídia por um dia inteiro. E as pessoas consumiam os números crescentes de mortos, comentavam a notícia e se indignavam dentro e fora do país: recebi e-mails de amigos em Rondônia, Paraíba, Campinas e Holanda. Todos pediam notícias e adivinhavam que talvez algumas das vítimas tenham sido meus alunos. Não eram: li as listas, não reconheci os nomes.

Na tarde do domingo, a UFSM decretou luto por 3 dias. No fim do dia, divulgou uma lista de 114 vítimas fatais do incêndio que eram alunos da universidade. Em seguida, o luto foi estendido até 4 de fevereiro (o que implica em novas alterações no calendário acadêmico).

Todas as notícias apontavam como a sequência de erros, falhas e faltas de entendimento/orientação na boate tinha sido assustadora. No rádio, ouvimos que os seguranças impediram a saída dos jovens por 8 minutos, com a alegação de que tinham que pagar a conta antes de sair. Fica evidente que os seguranças não foram treinados para lidar com situações de emergência, apenas com pessoas que tentam consumir sem pagar. No Fantástico, ouvimos o especialista dizer que as pessoas devem ter morrido asfixiadas em 4, 5 no máximo 6 minutos.

Muitos morreram amontoados na região dos banheiros, provavelmente procurando uma saída alternativa (banheiros costumam ter janelas). Oferecer apenas uma saída para uma capacidade de 1.500 pessoas me parece criminoso. Os primeiros extintores usados para apagar as chamas no teto de isopor não funcionaram. Li no jornal (que ofereceram no avião do Rio a Porto Alegre) que o alvará da boate tinha vencido, mas que estavam providenciando um novo. Mesmo assim, o papel não resolve: é preciso que o alvará corresponda a condições reais de segurança. Não adianta ter alvará para um estabelecimento que só tem uma porta e extintores vencidos. Lembro do laudo de vistoria técnica dos bombeiros quando inspecionaram as condições de segurança na UNIR. As irregularidades eram tantas, que os bombeiros concluíam que a vida das pessoas e a integridade do patrimônio da universidade estavam em risco. No entanto, não interditaram a UNIR. Adianta ter alvará? Nem o laudo dos bombeiros nos adiantou.

Quando vi as imagens das pessoas abrindo as paredes com marretas, reparei que os homens estavam sem camiseta. Logo imaginei que teriam morrido mais mulheres do que homens na boate, porque duvidei que as mulheres tenham tirado suas blusas para criar uma espécie de filtro e assim inalar menos fumaça tóxica. Os números de homens e mulheres mortos são semelhantes, invalidando a minha hipótese. E ouvi no rádio, no caminho da casa do Luis ao aeroporto, que botar a camiseta na frente do nariz e boca alivia, mas não salva. Além de quente, a fumaça era altamente tóxica.

A banda era conhecida por seus efeitos pirotécnicos. E provavelmente a banda costumava se apresentar em lugares abertos. Não ser capaz de se adaptar à nova situação de boate fechada com teto baixo e cheio de revestimento acústico me parece se enquadrar numa espécie de darwinismo cruel: adapt or die.

Me chamou atenção que a notícia da tragédia e suas primeiras imagens tenham sido veiculadas pela internet (arrisco adivinhar: Facebook). Esse público está profundamente imerso no mundo digital/ virtual. Ouvi depoimentos de que durante a retirada dos corpos, o som dos celulares tocando era atordoante. Li no jornal o depoimento de uma mãe que ligou pro celular do filho. Quem atendeu foi um policial que informou que o rapaz estava morto. Pareceu tão irreal, que demorou pra mulher entender.

É preciso aprender com os erros. Como era possível uma casa noturna funcionar com apenas uma porta, pela qual entram até 1.500 pessoas? Como era possível os seguranças não entenderem a gravidade da situação e se escorarem no famoso "ordens são ordens, fui treinado para controlar o fluxo de consumidores, não de pessoas"? Como pode não haver leis nem fiscalização?

Um contra-exemplo de leis e fiscalização rígidas (demais) eu ouvi no rádio do taxi que me levou ao aeroporto: no mesmo domingo de pré-carnaval carioca, 156 foliões foram presos por mijarem na rua. Mijar na rua dá prisão; oferecer condições precárias de segurança dá em tragédia.

Onde estão os equipamentos de lazer para essa juventude? Não há parques na cidade, onde estão as praças de eventos, as casas de shows? Não vejo em Santa Maria o agito da vida cultural de Barão Geraldo, por exemplo.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

O riso dos outros


Achei esse documentário de Pedro Arantes (que foi encontrado no Docverdade) surpreendente. Fiquei positivamente impressionada com a reflexão de alguns comediantes sobre o humor e seu trabalho (Laerte dá um show) e fiquei negativamente impressionada com a ausência de reflexão sobre o efeito de seu trabalho por parte dos comediantes mais em evidência no momento (destaque pro Gentili).

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

A garagem

Desde que as minhas bicicletas foram pra garagem, elas meio que deixaram de existir pra mim. Pra mim bicicleta é, antes de mais nada, meio de transporte. Como eu consigo realizar meus caminhos diários a pé, não preciso delas. Nem passo pela garagem, portanto nem as vejo. Entraram numa dimensão paralela: a garagem.

Recentemente houve mudanças no prédio em que moro: uma galera saiu, outra entrou e apareceu um cartaz na entrada do prédio, pregado na parede externa da minha sala. No cartaz está anunciado que a moradora do apartamento tal tem interesse em alugar uma vaga de garagem. Algo me diz que o cartaz foi pregado ali porque se dirige a mim, a única moradora do prédio que não tem carro.

Só que eu não tenho interesse em alimentar a carrodependência dela, cobrando aluguel pela minha vaga. Mesmo que eu não as use, as minhas bicicletas estão bem guardadas lá. Até pensei em usar o espaço da garagem para acomodar a escada e o ventilador (120v num lugar em que tudo é 220v) que ficam encostados aqui no escritório, entulhando a paisagem do apartamento apertado.

A minha garagem é quase como o porão de Dieter Nuhr.

domingo, 6 de janeiro de 2013

Campanha

E viva Curitiba!
Sempre achei que a educação para o trânsito dependia de campanhas.

Twists and turns along the way

Cachoeiro de Itapemirim: a cidade em que Roberto Carlos nasceu
Não havia mais passagens aéreas a preços módicos na semana após a virada do ano. Voar no dia 31 era barato, mas voltar pra casa nos dias seguintes saía muito caro. A alternativa foi voltarmos de ônibus. E a ansiedade de voltar foi tão grande, que entramos no primeiro ônibus (de Marataízes a Cachoeiro) um dia antes do que marcava a nossa passagem de Cachoeiro ao Rio. Pegamos o ônibus das 5h em Marataízes pra chegar às 6:30 em Cachoeiro e de lá pegar o ônibus das 7h pro Rio. Nesse ônibus, uma mulher veio reclamar o seu lugar na poltrona 11, onde eu estava sentada. Comparamos passagens e percebemos que Luis e eu tínhamos nos antecipado em 24 horas.
Passamos um dia agradável em Cachoeiro e embarcamos para o Rio na manhã seguinte. Quando chegamos no Rio sob chuva, nos separamos: eu fui ao apartamento do Luis buscar blusa de frio pra ele (havia uma frente fria vindo do sul), ele foi na biblioteca, renovar um livro. Mantivemos contato por telefone, e cheguei a estranhar a pressa dele em me encontrar na rodoviária. Logo depois de nos encontrarmos na rodoviária do Rio que carece de assentos, ele já quis ir pra plataforma, entrar no ônibus. Antecipou a partida em 2 horas dessa vez.
Curitiba com o céu tipicamente prateado
Descobri uma vocação incrível para dormir em ônibus e chegamos em Curitiba de manhã. Passaríamos o dia inteiro na cidade da garoa (já não é mais São Paulo faz tempo) e gastamos grande parte desse tempo em sebos, bibliotecas e restaurantes - e, é claro, caminhando entre esses pontos todos. Chegamos a passar 3 horas no restaurante em que jantamos (saímos de lá meia-noite!), porque a comida vinha aos poucos e com explicações.
Ainda no Jardim Botânico
De Curitiba pegamos um avião pra Porto Alegre, onde o desafio foi imprimir a passagem adquirida através da internet. Tínhamos comprado nossas passagens de ônibus (na verdade é um voucher, não uma passagem) de Porto Alegre a Santa Maria pelo site da empresa de ônibus, achando que bastava apresentar o RG no guichê pra moça gerar a passagem (como acontece com as passagens de avião ou de ônibus Penha). Do guichê fomos mandados pra sala vip, de lá pra ilha de impressão de passagens, onde a moça me disse que precisava do meu número localizador. Me mandou pra lan house, onde a funcionária imprimiu o meu voucher que foi trocado por uma passagem na ilha de impressão de passagens.

Com algumas voltas e reviravoltas, voltamos pra casa.