quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Experiências novas

Fui convidada para ser membro de banca de concurso na UFMT pelo Laudino. A presidente de banca entrou em contato comigo e me disse que a UFMT paga a passagem, o hotel e possivelmente pró-labore. Depois de dois anos na UNIR, eu tinha esquecido como as coisas funcionam.

Cheguei no aeroporto com uma boa margem para desfazer enganos, mas não houve erro: a federal do Mato Grosso tinha comprado mesmo a minha passagem. Cheguei em Cuiabá e fui coletar a minha mochila - que não veio. Outras pessoas (que tinham embarcado em Manaus) também não encontraram suas malas na esteira. A moça da GOL disse que a minha mala provavelmente não tinha saído de PVH e viria no avião das 6h30m do dia seguinte.

Peguei um táxi e fui pro hotel. Fiquei feliz ao notar que tinham de fato feito reserva pra mim e que havia um grupo de professores convidados pela UFMT hospedados no hotel. Melhor ainda: havia um motorista da UFMT encarregado de fazer o translado todos os dias.

Só que eu não podia me apresentar para a prova de bermuda e camiseta propagandeando a bicicleta. Peguei um táxi pra ir no shopping. O taxista só falava inglês comigo. Eu respondia em português. Daí, já não mais olhando pra mim, ele elogiou o meu português.

Fui comprar roupa. Mas não era só roupa. Escova de dente, pasta de dente, sabonete, shampoo. Quando a sacola já estava cheia, passei num stand de relógios e senti saudades de ter um relógio de pulso. Desde que tenho celular(es), não uso mais relógio. Mas eu não fui com a cara da vendedora.

Se eu tivesse comprado o relógio, eu saberia que aqui o fuso horário é outro. Tá certo que haveria outros meios de descobrir que aqui em Cuiabá estamos uma hora adiantados em relação a Porto Velho, mas a greve, o concurso, a mala e o meu nariz entupido impediram as sinapses de acessar essa parte do cérebro. Resultado: quando achei que eram 6, eram 7 e o motorista da UFMT estava na porta do hotel.

Fui pra universidade sem café da manhã. A prova escrita é a prova cabal de que o tempo é relativo: pelo menos metade dos candidatos usou as quatro horas de prova escrevendo. Pra nós, avaliadores, restava olhar para as paredes, o livro, fechar os olhos. As quatro horas passaram depressa para os candidatos. Para nós, se arrastaram.

E mais uma vez ficou evidente que o processo de escritura se faz escrevendo. Todos os candidatos preencheram o tempo da prova escrevendo. Ninguém se concentrou e pensou para depois escrever. Ou seja, o que está para ser escrito sai da ponta dos dedos, não da cabeça.

A greve acabou

sem mim. Estou em Cuiabá, numa banca de concurso para docente na UFMT. Muito ruim estar longe quando se estava tão no meio de tudo.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Pediu pra sair

Quando me ligaram informando, foi como um soco no estômago. Verdade? Ele renunciou? Nos 48 do segundo tempo Januário pediu arrego. A comissão de sindicância tinha prazo para acabar amanhã (24). O resultado das investigações derrubaria qualquer peso pesado.
Fui pra Reitoria, ver de perto o efeito dessa notícia. Dei tanto abraço em todo mundo, que nem me reconheci.
Agora vem a parte de botar ordem na casa...
Essa greve deu trabalho pra caramba, mas conseguimos tirar um reitor corrupto!
Parabéns pra nós todos!

domingo, 20 de novembro de 2011

É assim mesmo até que haja indignação

Depois de 67 dias de greve, a situação da Universidade Federal de Rondônia (UNIR) ganha visibilidade na mídia. O que foi preciso para que as atenções de cidadãos brasileiros fossem voltadas para a greve da UNIR? Bilhetes que continham ameaças de morte direcionadas a alunos e professores grevistas. Este não é o primeiro ato de terrorismo vivenciado pelos grevistas. E terrorismo, segundo Stéphane Hessel, é sintoma de desespero.

O público (e a mídia) responde prontamente aos atos de terrorismo. A prisão (por agentes à paisana) do professor de História fez o número de visualizações do blog do Comando de Greve triplicarem de um dia para o outro. A detenção dos alunos que saíam da gráfica com panfletos igualmente comoveu o público e mais uma vez chamou atenção para o despreparo da Polícia Federal. Foi preciso que os estudantes ocupassem a Reitoria para que o MEC voltasse sua atenção para Rondônia.

Esta greve não é por salários, não se trata de um confronto entre patrões e empregados. Esta greve é por condições de trabalho e estudo. Foi preciso parar as atividades docentes para evidenciar que o que a gestão da UNIR vinha fazendo não é normal.

Não é normal abandonar oito campi e não empregar as verbas vindas pelo REUNI na manutenção das instalações e realização de novas obras. Não é normal não oferecer restaurante universitário, hospital universitário, moradia estudantil, laboratórios, salas de aula, computadores, livros etc. Não é normal repassar dinheiro a uma instituição inidônea (Riomar). Não é normal que um sindicato lute contra aqueles que deve representar. Não é normal oferecer cargos de confiança a recém-concursados. Não é normal aprovar pessoas em concurso numa cidade do interior, onde o curso está em formação de quadro docente e em seguida removê-los para a capital. Não é normal plagiar trabalhos acadêmicos. Não é normal a universidade oferecer cursos profissionalizantes em convênio com um instituto, receber inscrições e dinheiro, rescindir contrato com o instituto, não notificar a população e não devolver o dinheiro aos pagantes. Não é normal que o campus, que sofreu uma vistoria técnica dos bombeiros, não seja interditado por uma decisão política. Não é normal que alunos sejam detidos por portar panfletos que continham uma charge do reitor. Não é normal que a Administração Superior de uma universidade precise de uma comissão de apoio vinda do MEC para botar ordem na casa. Não é normal que um reitor que não consegue acessar o seu gabinete por 46 dias não renuncie. Por fim, não é normal que grevistas sejam agredidos pelos seus colegas.

Por não considerar essas e outras situações normais, nos indignamos e permanecemos em greve. Finalizo com as palavras de Hessel: “Criar algo novo é resistir. Resistir é criar algo novo”. Através da nossa resistência, pretendemos criar uma nova universidade.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Gota d'água

Video-manifesto contra a construção da Usina de Belo Monte.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Ciclista no volante

Durante os dois meses da greve, dirigi três carros diferentes: aquele que eu acidentei, aquele que eu aluguei e aquele que me emprestaram.

De imediato, notei que eu olhava para a cara das pessoas. Olhava nos olhos de pedestres e motoristas. Quando ando de bicicleta, não fixo o olhar nos agentes de trânsito, mas observo o trânsito. Procuro espaços vazios, procuro prever comportamentos, me oriento pela sinalização. Não tenho carência nenhuma de estabelecer contato com outros olhos.

Depois reparei nessa coisa que é a velocidade. Mesmo se houver mais ciclistas que motociclistas circulando, haverá mais acidentes de moto que de bicicleta. Por causa da velocidade.

Daí percebi que a cada viagem de carro, eu calculava o custo do trajeto. Ao invés de colocar moedinhas na máquina, era preciso abastecer o carro para poder andar. Me peguei achando tudo longe. De bicicleta, eu calculava o tempo que eu levaria, mas não achava nada longe/ caro.

O último carro acendia uma luzinha de um desenhinho esquisito. Bicicletas não se comunicam com seu condutor através de sinais luminosos. Perguntei no posto de gasolina que luzinha amarela era aquela. Injeção eletrônica. A-há. Não pedi pra explicar o que é isso. Perguntei pro dono do carro o que eu devia fazer em relação à luzinha perene. Apesar da resposta tranquilizadora dele, a luzinha não me deixou em paz. Fui em três mecânicas e não consegui fazer com que trocassem a peça (alguma coisa com "lambda") que já estava no porta-luvas do carro. Cogitamos a possibilidade de não levar minha mãe e minha tia no aeroporto de madrugada com o carro da luzinha acesa por medo do carro travar de repente.

Volto a apreciar as vantagens da bicicleta: nela, não me sinto só; não provoco acidentes graves; não gasto tanto dinheiro; sei consertar.

sábado, 12 de novembro de 2011

Acre-doce

O melhor grafitti ainda não foi esse. Era: não apague o meu grafitti, apague a fome.
Eu tinha um simpósio na UFAC, trabalho pra apresentar. Minha mãe e minha tia foram junto. Primeiro evento desse naipe, primeira vez que viram Pequena Lou falar sobre seu trabalho para um público acadêmico. Primeira vez no Acre, primeira vez conhecendo outra capital do Norte.
Passarela sobre o rio Acre
Antes mesmo de elas chegarem no Brasil, liguei no hotel de quatro sílabas no nome e fiz reserva. Comprei passagem de avião e pedi pra voltarmos de ônibus, pra ver melhor a paisagem.
A bandeira do Acre
Descemos do avião e entramos no taxi. O carro rodou muito até chegar na cidade, depois atravessou aquilo tudo e nos depositou no hotel de nome comprido. A corrida do taxi custou quase o mesmo que a passagem do avião. Mas Rio Branco é verde, limpa e conta com o vento pra aliviar o calor.
No Mercado Velho
A recepcionista do hotel disse que estava lotado e que não havia nenhuma reserva em meu nome. Os meus celulares não completavam ligação pra ninguém. Fui trocando mensagens e conseguimos um quarto triplo no hotel Epílogo. O nome ilustra bem como ele fica à margem do que se espera de um hotel. A biblioteca pública, na praça Povos da Floresta, no entanto, é acolhedora e bem frequentada.
Paisagem vista do ônibus
Erica foi a nossa guia em Rio Branco. Se não fosse ela (e Jazilane e Cynthia), nossa estadia teria sido bem azeda.
A volta foi mais longa que eu tinha imaginado. O ônibus era, segundo o cobrador, pinga-pinga. E conforme as palavras do cobrador, "o nosso banheiro somente serve para atividades número 1, senhoras e senhores passageiros. O banheiro deste ônibus infelizmente não está preparado para o desenvolvimento de atividades número 2, beleza? Peço, portanto, que segurem suas necessidades número 2 até as paradas nos locais que eu mencionei. E se tudo der certo, chegaremos em Porto Velho na faixa etária das 8 às 9 da noite."
Balsa encostou, todo mundo desembarcou
Ficamos uma hora na balsa, vendo a balsa sair, vendo outra chegar vazia e embarcar dois caminhões-tanque de gasolina e inflamáveis diversos, outra voltar. Quando quisemos aportar, a primeira balsa tinha encalhado na margem, a balsa com os dois caminhões com combustível estava na fila e desembarcou e embarcou antes de podermos atracar.
Nós 3
A paisagem valeu a pena, mas os DJs do ônibus, com suas músicas bregas em seus rádios, valeram uma gastura danada. Turismo com Pequena Lou é meio roots: quarto triplo, bibliotecas e universidade, 10 horas de ônibus. O celular só voltou a ter sinal lá no Vila Princesa, o lixão atrás da Unir.
Rio Madeira visto da balsa

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Quebra-cabeça

Noite e dia
Uma alegria a cada peça encaixada

domingo, 6 de novembro de 2011

Wo ist die Lou?

Estávamos as três na feira. O troco demorou pra chegar, elas seguiram e eu fiquei. Mais na frente, minha mãe se dá conta de que não acompanhei minha mãe e minha tia. Muita falação, muitas cores, muita informação, muita gente e aquele cheiro de galinha apavorada. Ela vira pra irmã e pergunta, em alemão:
- Wo ist die Lou?
Uma senhora que passa por elas responde, tranquilamente:
- Tá no mamão.

Viu? Alemão nem é difícil de aprender.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Bem-vindas à greve

Ulla und Mama
Enquanto eu esperava o avião da TAM, a professora Graça, de línguas estrangeiras, me contava de sua filha, aeromoça que vinha no mesmo voo que a  minha mãe e minha tia. Minha mãe chegou e fui dar um abraço nela. Ulla chegou logo em seguida e de tanta alegria, esqueci de me despedir da Graça. Mas ela veio, preocupada se eu tinha condução (todos sabem que o meu meio de transporte é a bicicleta, por isso entendi a preocupação dela como sendo legítima). Agradeci e expliquei que tinha alugado um carro.

Enquanto caminhávamos em direção ao carro, minha mãe contou que super conversou com uma  aeromoça. Ela tinha perguntado em que língua estava a revista que a minha mãe lia, travaram conversa e descobriram que a mãe da aeromoça é professora da Unir e está em greve; e que a passageira é mãe de uma moça que é professora na Unir - e está em greve.

No primeiro dia de Porto Velho, levei as duas na Reitoria. Na manhã do segundo dia, levei-as no campus. Minha mãe tirou foto de tudo que ela achou escandaloso.