domingo, 31 de outubro de 2010

sábado, 30 de outubro de 2010

Leonera


Leonera não é o nome de nenhum personagem, mas o nome espanhol para a 'toca dos leões'. Apesar do filme focar a personagem Julia Zárate (Martina Gusman), é sua condição de leoa (mãe que defende a prole com todas as forças) que é explorada no filme do argentino Pablo Trapero.

A verdade dos fatos que levaram à prisão de Julia não é muito clara: o crime passional aconteceu, mas cada um dos sobreviventes conta uma versão diferente. Julia é instruída pelo advogado a dizer que o homem que morreu era seu namorado e o sobrevivente (Rodrigo Santoro) era amante do namorado. No entanto, o sobrevivente se porta como amante dela. No dia do julgamento, ambos confessam que não se lembram mais do que havia acontecido.

Casati & Varzi, em Simplicidades insolúveis, contam um conto (Amnésia parcial) em que um detento não se lembra nem do que é acusado, nem de quanto tempo já está preso. No conto, a questão em debate é punir alguém que não tem consciência da própria culpa. No filme, o culpado do crime não importa, porque Julia não disputa a sua inocência. O que importa é como os personagens lidam com as situações em que são lançados.

Quando Julia é presa, está grávida. Acompanhamos a gestação de Tomás, seu nascimento e como Julia aprende a ser mãe com as detentas da ala especial que mais parece uma creche. O cárcere, a maternidade, a companhia de Marta e a tentativa da mãe de Julia de tirar o menino da prisão transformam Julia Zárate. De estudante, ela passa a assassina; de namorada, ela passa a mãe; de hetero, ela passa a homo; de mãe, ela passa a leoa.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Bicicultura


BICICULTURA 2010
Sorocaba/SP - 01 a 04 de dezembro de 2010
Após o sucesso do evento em Brasília em 2008, o Bicicultura vem se firmar como o mais importante evento brasileiro sobre bicicleta como meio de transporte, aventura, turismo, lazer e esporte.
Debates e palestras, oficinas e vivências, pedaladas e confraternizações: uma programação ampla para aprimorar o conhecimento sobre o ciclismo, cicloestruturas, políticas públicas, organização social e outros temas, uma oportunidade para estreitamento de laços entre ciclistas, cicloativistas, profissionais, gestores públicos e todos aqueles que gostam de pedalar e que se preocupam com a qualidade de vida e com a democratização da mobilidade.
O Bicicultura é uma promoção bianual da UCB - União de Ciclistas do Brasil e em 2010 está sendo co-organizado com a Prefeitura de Sorocaba, com o apoio de diversas empresas e entidades.
Veja a programação e demais informações em http://bicicultura2010.site.com.br/
Inscreva-se com antecedência e participe desse movimento cultural pró-bicicletas.
Comissão Organizadora
UCB - União de Ciclistas do Brasil
Prefeitura de Sorocaba

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Outros parâmetros

Dei um texto pros alunos e pedi que o lessem. Depois pedi que fizessem um resumo. Intuindo que a ideia de resumo não estava muito óbvia, exemplifiquei: se você quisesse contar pra sua mãe o que está escrito nesse texto, o que você diria? Então agora escreva isso. "Ah, professora, não vai dar, não: minha mãe só tem até a quarta série."

Minha mãe tem ensino superior.


Dei aula lá na Licenciatura Indígena que não tem nenhum índio, mas uns vinte professores de primeira a quarta série. Esses professores vieram de lugares como Machadinho do Oeste e Nova Mamoré. Como as aulas de um semestre todo (é uma graduação que eles estão fazendo, hein!) são condensadas em dois dias e meio (acho que nunca falei tanto na minha vida!), não deu pra fazer prova. Combinei de mandar a prova por e-mail no dia tal e receber a prova feita por e-mail três dias depois (quer mais mamata?). Escolheram o dia a dedo, explicando que a casa de alguns deles ficava a 40 km do poste de luz, da internet e do mercado mais próximos.

Eu tenho internet banda larga e ocasionalmente pego o sinal wifi do vizinho.


Recebi uma carta. A letra do moço era novidade, o peso do envelope grande foi motivo de curiosidade. Recebi uma carta dele. Na segunda linha, a tinta acabou; no segundo parágrafo, tive dificuldades para entender se eu estava seguindo a ordem certa da carta; no terceiro parágrafo, descobri que a carta foi escrita no próprio correio; na segunda página, os rabiscos me mostraram que direções tomou o planejamento da escrita. Quando terminei de ler a carta, percebi que ele respondeu as minhas perguntas, feitas na minha carta. Mas quais eram mesmo as perguntas?

A carta que eu escrevi pra ele foi ensaiada em papéis e com canetas diferentes.

sábado, 23 de outubro de 2010

Horário amazônico

Agora que alguns estados brasileiros aderiram ao horário de verão, temos duas horas de diferença em relação a São Paulo e Brasília. A essa diferença não foi difícil se acostumar.

Difícil mesmo é entender os horários em que as pessoas chegam pros compromissos marcados na minha casa. Quando eu marquei seis da tarde pra minha festa de aniversário, todos vieram às oito - e de uma vez. Quando marquei reunião pra discutir coisas do Mestrado às três da tarde, a primeira veio às dez da manhã. 

Viu? A vida na Amazônia é uma aventura!

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Do meu tamanho

O mamoeiro que despontou na composteira selvagem e que eu replantei no fim da época de chuva passada (março-abril) está do meu tamanho.
Como tem chovido praticamente todo dia (aquelas chuvas tropicais que fazem o mundo desabar, o modem queimar e a goteira virar cachoeira), as plantas estão se desenvolvendo.
Essa é a primeira flor. Oxalá que os maracujás também alegrem a minha vida!

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Dói bastante

Depois Melhora 
Luiz Tatit
Sempre que alguém daqui vai embora
dói bastante
mas depois melhora
e com o tempo vira um sentimento
que nem sempre aflora
mas que fica na memória
depois vira um sofrimento
que corrói tudo por dentro que penetra no organismo, que devora
mas depois também melhora
sempre que alguém daqui vai embora
dói bastante
mas depois melhora
e com o tempo torna-se um tormento que castiga, deteriora
feito ave predatória
depois vira um instrumento
de martírio duro e lento
uma queda num abismo
que apavora
mas depois também melhora
e vira então
uma força inexplicável que deixa todo mundo mais amável
um pouco é consequência da saudade
um pouco é que voltou a felicidade
um pouco é que também já era hora
um pouco é pra ninguém mais ir embora
vira uma esperança
cresce de um jeito
que a gente até balança
enfim
às vezes dói bastante
mas melhora
enfim
é só felicidade
aqui agora
é bom
é bom não falar muito
que piora
enfim
é só felicidade

As pessoas não chegaram de uma vez, mas foram se aglomerando. Foram criando vínculos e construindo projetos. Andréia foi a primeira que fugiu da Amazônia com o Lírio no braço. Acompanhei o processo de desligamento: não foi fácil nem pra nós, nem pra ela. 

O cineclube deLírio não vai mudar de nome porque a criatura que deu nome ao projeto de extensão universitária foi para a outra margem do Brasil. Mas o cineclube deLírio vai mudar. Três de cinco integrantes vão pular fora do barco e tentar a sorte em águas menos turvas. À la Papillon, Robson (um dos coordenadores do cineclube) observou as marés, fez um experimento com uns cocos na água, fez uns cálculos, vislumbrou uma possibilidade de fuga e já está se despedindo do pessoal. Guilherme e Paulo, os dois bolsistas do cineclube, perceberam que os dois cursos de graduação que fizeram não lhes abrem muitas perspectivas e estão contando os dias para a grande virada na vida deles.

Magno, da Arqueologia, foi o último a se achegar ao grupo. De todos, o mais exótico, exotérico, anárquico e desgarrado, ficou um par de meses e já está com emprego garantido em outro lugar. 

Eu perco companheiros de discussão, amigos e ótimos motivos para dar risada. Ninno perde muito mais: a companheira, o filho, o colega, os alunos e o Augusto.

domingo, 17 de outubro de 2010

Eles tocam

Antes de morar em Porto Velho, eu não tinha celular. Nunca quis ter um celular. Tive que comprar um telefone móvel para poder ter um fixo. Daí as contas do fixo vieram muito mais caras que o normal e eu percebi que a raiz do problema eram as ligações pro celular de uma certa amiga. Comprei um segundo celular, dessa vez da mesma operadora que o celular dela, e a conta do fixo voltou ao normal.

O problema de ter um celular é que ele toca. Eu sofri muito quando eu compartilhava o laboratório de informática com os graduandos holandeses em Nijmegen, porque os celulares deles viviam tocando. Um cara (que se parecia com um Thundercat) não me desconcentrava por causa de sua estética, mas porque as meninas que o achavam popular viviam ligando pro celular dele.

Agora ligam pra mim, e o pior: sem a intenção de falar comigo. Explico: numa madrugada, tocou o meu celular. Acordei, peguei o aparelho, abri os olhos e identifiquei o nome do Robson. Eu sabia que o Robson estava num bar. Atendi. Barulho de bar. Esperei. Identifiquei as vozes das pessoas que estavam com ele, mas não senti que qualquer uma dessas vozes fosse dirigida à minha pessoa. Desliguei com raiva. Tempos depois, numa conversa com um dos donos de voz identificada pelo telefone naquela madrugada insone, descobri que Robson não tinha feito, em momento algum daquela madrugada, o gesto de pegar o celular e ligar pra alguém. A ligação pra mim foi feita pelo acaso e todos os objetos no bolso dele que pressionaram os botões.

Tempos depois, recebi uma ligação do Wilmo. Atendi, mas a ligação tava ruim. Desliguei e retornei a ligação. Conversamos sobre a vida, os projetos, o tempo curto etc. e quando eu disse "sim, mas então, diga!" ele foi tomado pelo susto: "eu te liguei?" Mais um exemplo de ligação feita pelo acaso, pressão indevida e essas coisas que nem Freud explica.

sábado, 16 de outubro de 2010

Impurezas

No saco de feijão que eu comprei, tinha um monte de feijão estragado, pedras e grãos de milho. Ainda bem que as cozinheiras se acostumaram a selecionar os grãos de feijão antes de colocar tudo na panela. Fazem-no porque não confiam na qualidade do produto.

Como moro no estado que tem a água mais contaminada do Brasil, me acostumei a beber água de galão que vem de moto. A água de Rondônia é contaminada porque não existe nem planejamento urbano nem controle de qualidade. Por não haver sistema de esgoto, a água tirada de poço é contaminada por coliformes fecais (inclusive a água que vem no galão). A água da Caerd (tipo Sabesp, Sanasa) é bombeada pras residências ligadas à Caerd dia sim, dia não. Essa água ao menos é tratada, mas tem elevados níveis de cloro. Na minha casa não tem nem poço nem água da Caerd: a água da Vila da Eletronorte vem do igarapé Bate-estaca.

Recentemente recebemos um aviso do condomínio de que a Vila entrou na Justiça, pedindo providências em relação à contaminação da água do Bate-estaca. Uma mancha preta e viscosa está se alastrando no riacho e causando "mortandade de peixes". Seguindo o curso do igarapé, chegamos na Coca-cola, que já foi interditada uma vez por poluir o mundo.

Os feijões estragados, as pedras e os grãos de milho são impurezas que eu posso isolar. Já o poluente preto não-identificado que entra na minha caixa d'água e os coliformes fecais no galão de água são impurezas que eu não consigo separar.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Sobre a liberdade

Ainda nem cheguei na metade do Tristes trópicos, mas acho que identifiquei o fio vermelho do livro. Demorou umas 139 páginas pra sacar qual era a ideia-mestre conduzindo as pontas dos dedos do autor. O antropólogo ia tergiversando entre Calcutá, São Paulo, Bengala, Mato Grosso e eu ficava impaciente, só esperando ele chegar nas tribos indígenas. Daí me dei conta que ele narrava experiências nos trópicos (Índia e América). A catarse se deu nessa passagem:

"Foi nessas regiões, onde às vezes a densidade de população supera mil habitantes por quilômetro quadrado, que avaliei plenamente o privilégio histórico ainda reservado à América tropical (e, até certo ponto, toda a América) de ter permanecido absoluta ou relativamente vazia em matéria de homens. A liberdade não é uma invenção jurídica, nem um tesouro filosófico, propriedade querida de civilizações mais dignas que outras porque só elas saberiam produzi-la ou preservá-la. Resulta de uma relação objetiva entre o espaço que ele ocupa, entre o consumidor e os recursos de que dispõe. Ainda assim, nada garante que uma coisa compense a outra, e que uma sociedade rica mas densa demais não se envenene com essa densidade, como os parasitas da farinha que conseguem se exterminar à distância por suas toxinas, antes mesmo que lhes falte a matéria nutritiva.

Só mesmo muita ingenuidade ou má-fé para pensar que os homens escolhem suas crenças independentemente de sua condição. Longe de os sistemas políticos determinarem a forma de existência social, são as formas de existência que dão um sentido às ideologias que os exprimem: esses sinais só constituem uma linguagem em presença dos objetos aos quais se referem.(...)

(...) Esse problema quantitativo, a Índia o atacou há uns 3 mil anos, buscando, com o sistema de castas, um meio de transformar a quantidade em qualidade, ou seja, diferenciar os agrupamentos humanos para possibilitar-lhes viver lado a lado. Inclusive, concebeu o problema em termos mais vastos: ampliando-o, para além do homem, a todas as formas de vida. A regra vegetariana inspira-se na mesma preocupação que o regime de castas, a saber, impedir que os agrupamentos sociais e as espécies animais se atropelem uns sobre os outros, reservar a cada um a liberdade que lhe seja própria graças à renúncia  pelos outros ao exercício de uma liberdade antagônica. É trágico para o homem que essa grande experiência haja fracassado; refiro-me a que, no decorrer da história, as castas não tenham conseguido atingir um estado em que houvessem permanecido iguais porque diferentes - iguais no sentido de que fossem incomensuráveis - e que se tenha introduzido entre elas essa dose pérfida de homogeneidade que permitia a comparação, e portanto a criação de uma hierarquia. Pois, se os homens podem chegar a co-existir, contanto que se reconheçam todos igualmente homens, mas diferentemente, podem-no também recusando uns aos outros um grau comparável de humanidade, e, portanto, subordinando-se."
(Lévi-Strauss, [1955 (2009)] p. 139 - 140)

Bom, já que estamos nos trópicos e pensando na densidade populacional como um fator de medida para a liberdade, me veio à ideia a cidade de São Paulo, em que dirigir um carro já não é mais uma expressão de liberdade.

O automóvel particular foi, durante muito tempo, vendido como símbolo de liberdade (porque o motorista podia percorrer o espaço que quisesse com o seu carro) e alta hierarquia (porque nem todos tinham acesso a este produto). Durante a minha adolescência, ser proprietário de um carro era equivalente a ser membro da casta mais alta. Diferentemente da Índia, o sistema de castas nos trópicos de cá não é fixo. As pessoas conseguem "subir na vida", mudar de classe social, financiar um carro. Daí tudo se inverte: quanto mais proprietários de carros, mais carros nas vias; quanto mais carros nas vias, mais congestionamentos; quanto mais congestionamentos, menos espaço; quanto menos espaço, menos liberdade.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

A manhã que eu passei na bicicletaria

Quando eu olhava pra coroa da Caloi 10 em movimento, eu tinha a impressão de que o pedivela todo tava mal encaixado. Como um ovo, ele girava pra frente. 

Passei na bicicletaria e tentei negociar um horário em que ele olhasse pra minha bicicleta, consertasse o problema e eu pudesse voltar pra casa pedalando. Deixar a bicicleta pra pegar em outro dia eu acho complicado aqui: a bicicletaria fica a 7 km de casa. Eu teria que pegar 2 ônibus pra chegar lá, outros dois pra voltar e além do mais nem sei quais ônibus são esses. O mecânico disse que se eu chegasse às 8:00, eu seria a primeira da fila e ele se ocuparia da bicicleta na hora.

Acordei tão atrasada, que não deu pra tomar café da manhã; mas cheguei na bicicletaria às 8:04. O mecânico tava tomando café e comendo pão. Dei o meu diagnóstico do problema da Caloi 10 e fui na padaria, tomar café. Quando voltei, a bicicleta e o mecânico estavam na calçada. Ele estava lavando a bichinha. Perguntei se ele tinha detectado o problema, ele respondeu que o disco da coroa estava empenado e que dava pra endireitar com um alicate.

Lavada a bicicleta, ele colocou a magrela pra dentro e começou a desenroscar os parafusos da mesa. Perguntei se ele ia tirar o guidon. Respondeu que como a bike tinha ficado parada por um ano, ele queria ver se precisava lubrificar as juntas. Tudo bem, eu pensei: o melhor mecânico de bicicletas de Porto Velho sabe do que a minha bicicleta precisa.

Foi chegando gente que foi se acomodando nos banquinhos e atrás do balcão pra botar o papo em dia. Conversaram dos campeonatos, das quedas nas trilhas, das bicicletas, dos eventos de bicicleta. Fui sacando os nomes das pessoas, rindo com as estórias e acompanhando a revisão da Caloi 10. Quando o Bezerra tava desenroscando o movimento central, tocou o telefone. Conversou com o cliente e disse que estaria disponível dali a duas horas. Voltou pra Caloi 10 e limpou o movimento central com querosene.

Quando os assuntos se desviaram da bicicleta, tive a impressão de estar numa barbearia. Eu era a única mulher ali. Um estava aposentado, o outro de férias, outro veio pedir uma chave 14 emprestada e acabou ficando, o último tinha vindo pra dar uma olhadinha na revista esportiva. Foi na bicicletaria que fiquei sabendo que a greve dos bancários tinha terminado e foi lá que ouvi a desculpa mais esfarradapa pra votar num candidato a presidente e não em no outro. Bezerra era o centro das atenções: envolvido na conversa, desempenou a coroa com alicate e martelo, abriu os rolamentos das rodas, examinou as esferas, trocou algumas, engraxou tudo, recebeu a bicicleta de um cliente que tinha se acidentado na última competição, tirou os cabos dos freios, brigou com o conduite na hora de colocar outro cabo, desenrolou a fita do guidom, atendeu o telefone e disse que estaria disponível em breve, regulou a marcha e cobrou metade do que estou acostumada a pagar por uma revisão completa de bicicleta.

Saindo de lá, nem fui muito longe: me dei conta de que o cadeado e a chave de casa tinham ficado na bicicletaria e fui voltando. Um carro emparelhou comigo e o motorista me perguntou se eu fazia ciclismo. Respondi que a bicicleta - pra mim - era meio de transporte. Quando ele se apresentou, lembrei das estórias ouvidas a seu respeito na bicicletaria. O meu cadeado já estava me esperando.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Dificulidade

Minhas primeiras férias na vida de pessoa assalariada foram aprovadas pelo meu (atual ex-) chefe. Fiquei comemorando a homologação das férias por duas semanas. Daí comecei a articular lugares e pessoas pra visitar nessas minhas tão aguardadas férias. Quando tive mais ou menos noção de datas, resolvi comprar as passagens.

Como a minha conta ainda é do tipo universitária, tenho limites de crédito, débito, saque: um saco. A solução era ir na agência e comprar a passagem em modalidades diferentes: cash, crédito, débito. Antes de ir no aeroporto, chequei no site da TAM se a loja estava aberta. Peguei a Caloi 10 e fui. 

Chegando lá, vi a loja com as luzes apagadas e um aviso informando que hoje fecharam às 13:00. Fui na agência de viagens que cobra a mesma taxa que a TAM. Trancado. A moça estava em horário de almoço. Eram 15:30. Expliquei que a TAM tava fechada. Abriu, me atendeu.

Fui ao caixa eletrônico, sacar o que o limite permitisse. Fui testando os meus limites ali, na hora mesmo. Quando voltei pra agência com o dinheiro, ela contou o montante. Faltavam R$ 10,00. Pode uma coisa dessa? O caixa eletrônico me comeu R$ 10,00.

Fechei a compra e fiquei aguardando a passagem. A moça explicou que não estava conseguindo instalar a impressora que tinha chegado naquele mesmo dia. Novinha e não funciona. Como o papel impresso era de meu interesse, ajudei a tentar instalar a impressora. Por fim, percebemos que os drives que tinham vindo na caixa eram de outro modelo que a impressora. 

Fui na matriz da agência, buscar a passagem impressa. Foi difícil, mas consegui.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Baixo Madeira via LEO

O Laboratório de Estudos da Oralidade (LEO) funciona como um guarda-chuva que abriga projetos e grupos de pesquisa. Como eu estive presente na fundação do LEO e me interesso pelo Baixo Madeira (justamente porque não é Porto Velho), aceitei o convite do Ninno de descer até São Carlos (distrito de PVH), pernoitar e conhecer as pessoas, culturas e línguas que há ali.
Apesar de aprovado, o LEO ainda não tem financiamento próprio. A solução foi fazer parcerias e aproveitar caronas. O Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) e o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) estavam mandando duas pessoas para divulgarem uma mobilização que aconteceria na semana seguinte: distribuição gratuita de documentos (RG, certidão de nascimento, CPF etc.). Em duas pick-ups, saímos de Porto Velho pela Estrada da Penal e seguimos por 75 km de estrada de terra (em estilo montanha russa) até a beira do Jamari.
Uma voadeira (barco a motor) veio nos buscar. O piloto do barco era também dono de um hotel (dizer que é pousada é encarado como ofensa) em São Carlos. Durante a travessia, decidimos ficar aos cuidados dele.
O Jamari deságua no Rio Madeira, que tínhamos margeado durante aqueles 75 km de estrada cheia de curvas e altos e baixos. Quando as águas se encontram, não se misturam.
Navegar pelos rios ligados ao Madeira e situados abaixo da usina hidrelétrica é uma arte, porque o nível da água está incrivelmente baixo. Ninguém se lembra de ter visto bancos de areia (as praias, como eles chamam) no maior afluente da margem direita do Amazonas. Agora as praias provocam acidentes do tipo voadeira voando por cima de bancos de areia e barcos maiores encalhando na areia.
O desnível entre a superfície do rio e as primeiras casas do distrito de São Carlos é bem grande: agora. Quando o rio enchia nas épocas de chuva, a água invadia as casas. Por isso muitas casas na margem do rio são em palafitas. Os moradores se auto-denominam ribeirinhos.
É possível que eu saísse de lá sem notar que em São Carlos não circulam carros, ônibus, caminhões. Quando Joel, o administrador local, comentou que ali não havia nenhum veículo motorizado de quatro rodas exceto o trator da coleta de lixo, me caiu uma ficha. Quando reparei que a maioria das casas era em madeira - e não tijolo, cimento, telha de barro - me caiu outra ficha: a ligação de São Carlos com Porto Velho é pelo rio, de voadeira.
O trânsito de voadeiras no porto de São Carlos é intenso. O que chega, abastece as vendinhas espalhadas pela cidade. As vendinhas são uma espécie de "secos e molhados" pós-modernos: peças de bicicleta, produtos de limpeza, enlatados, cosméticos e nenhuma bebida alcoólica. Vi uma cama box sendo carregada por dois homens barranco acima e vi outro homem carregando quatro caixas de panelas de pressão barranco abaixo. Perto do porto, reparei numa grande placa que indicava os nomes dos taxistas (de voadeira) e seus vários telefones celulares. Aproveitei a ocasião para verificar se eu havia perdido alguma chamada ou mensagem no meu celular. Fora de área. Perguntei prum ribeirinho por que divulgavam os telefones dos taxistas se ali não havia sinal. Respondeu que só ligavam pros taxistas quando eles estavam em Porto Velho (seja pra pedir encomendas, seja para pedir que venham buscar alguém no Baixo Madeira).
Os caminhos em São Carlos me chamaram atenção. Entre as casas há trilhas. De tanto pisados, os caminhos são marcados na grama. Por esses caminhos transitam as ovelhas escrachadas (já ouviu ovelha reclamando da vida? Eu pulava a cada balido), as galinhas magras seguidas por seu séquito de pintinhos feios, os gatos miantes, as pessoas, as bicicletas, as motos e o trator que coleta o lixo. Só vi duas vias pavimentadas que se cruzam numa rotatória que tem como centro um poste de energia. Nessa rotatória, uma moça reconheceu o Ninno e o cumprimentou: e aí, Leo!
Ninno reconheceu um regatão (mascate fluvial) na porta do nosso hotel sobre palafitas. Reparou que o homem contava suas notas promissórias e fazia planos para o futuro. Eu tive que pedir esclarecimentos, porque não sabia nem mesmo o que é uma nota promissória. Quando mostrei essa foto pra Andréia, ela logo perguntou se lá tinha galego (regatão).
São Carlos está em festa até dia 12, dia de Nossa Senhora Aparecida. Toda noite tem bingo. Apesar da chuva ameaçando, fomos no arraial, ver a festança. Prum antropólogo, tudo é trabalho de campo. Compramos uma cartela de bingo e demoramos a decidir se com o troco deveríamos comprar a caneta Bic que o padre estava vendendo. Decidimos controlar a distribuição de renda e Ninno dividiu uma caneta com a vizinha de bingo. Quando faltava uma "pedra" para completar a quina na cartela do Ninno, me interessei pelo prêmio. Vi bolos em volta do homem que cantava os números no microfone. Pensando nas ovelhas que moram embaixo da palafita do hotel, quase torci pro Ninno não ganhar o bingo. Depois fiquei sabendo que o prêmio era em dinheiro (e não em espécie).
Na manhã seguinte, o sol tinha dois anéis de arco-iris e vários outros, brancos, se cruzando. Não chegavam a formar o símbolo das Olimpíadas, mas formavam uma imagem intrigante. Há quem acredite que esses anéis indicam chuva. Há quem duvide que ela possa encher o Baixo Madeira.
Na volta à margem do Jamari, voltou à tona o tema da gasolina. No rio, gasolina vale ouro. O litro de gasolina custa R$ 3,50 no Baixo Madeira, R$ 2 e tanto na capital de Rondônia. O motorista da pick-up (que tinha ficado estacionada às margens do Jamari) não dormiu em São Carlos, mas perto do veículo, com medo que roubassem a gasolina do tanque da Ranger. Os pilotos de voadeira calculam o preço da viagem com base no tempo gasto e na gasolina (se o passageiro levar a sua gasolina, sai mais barato).
A questão da sustentabilidade - as we know it - foi outra coisa que me chamou atenção: os ribeirinhos são bastante dependentes dos produtos de consumo da civilização: refrigerantes, cosméticos, som portátil, cama box etc. Não se transportam em carros, mas se exibem em suas motos. O lixo espalhado por todo canto me feriu os olhos, o que entrava em contradição com a forte sensação que eu tinha de estar numa ilha. A água do banho (no hotel e em todas as casas) sobre palafitas descia pelas frestas do chão de madeira e caía direto no chão de terra. Que sabonete, shampoo e não sei mais que outros produtos usados ali sejam poluentes no solo, não parece preocupar ninguém.
Pra mim, essa viagem ao Baixo Madeira foi como férias: saí da cidade, larguei as redações dos meus alunos por um dia e meio, vi muita árvore, andei de barco, me senti turista das perna branca, vi de perto animais exóticos (tipo ovelha escandalosa, mutum bravo e catitu doméstico).
Da estrada dava pra entrever a praia de um braço do Madeira. Pra quem quiser entender a geografia toda, sugiro uma visita ao mapa. O Madeira divide-se em vários braços (rasos) antes de encontrar com o Jamari.
Quando paramos em Brasileira, Ninno reconheceu a Dona Helena, liderança local. Paramos para que as moças do MDA e Incra pudessem fazer a divulgação do evento dos documentos. Quando quisemos nos despedir, Dona Helena nos convidou a voltar para pescar no Jamari - e apontou pra mata do outro lado da estrada. Indicou a trilha e disse que o Jamari ficava a 50 m dali. Esses rios e suas curvas...
Quando voltamos pra nos despedir da Dona Helena, vimos que um do nosso grupo (que tinha ficado na vendinha da Dona Helena) tinha comprado 1 kg de pacu. Daí começou a distribuição da renda: buscaram coco do coqueiro, feijão das favas, peixe do vizinho e ainda esperamos a canoa da Dona Helena voltar com mais peixe.
A última parada antes de Porto Velho foi na Vala. Trata-se de um canal explodido por seringueiros 100 anos atrás, pra encurtar caminho. Havia milhares de borboletas amarelas ali, festejando um assanhamento à la Cem anos de solidão, mas nenhuma delas saiu na foto. O mais bizarro da Vala, no entanto, não são as borboletas invisíveis, mas o curso do canal. Quando o Madeira está mais cheio que o Candeias, a água corre dali pra cá. Quando o Candeias está mais cheio que o Madeira, a água corre daqui pra lá.
Não sei se encontrei o meu objeto de estudo nessa viagem, mas certamente me diverti com as pessoas que nos deram carona (todos: do motorista ao mais alto cargo representado ali), com as viagens de pick-up e barco - e o Ninno jogando bingo.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Segundo turno

Quando parei de acompanhar a apuração on-line, tudo indicava que haverá segundo turno. Quando 99,89% dos votos tinham sido apurados, Dilma estava com 46,88% e Serra com 32,62% dos votos. O fato da Dilma estar na frente não me surpreendeu. O fato do PSDB estar em segundo lugar não me alarmou. O que me assustou foi o número de abstenções: 24.686.101 aos 99,9% do processo de apuração. Isso é muita gente (e eu estou aí no meio, porque não transferi o título) justificando ou simplemente não comparecendo às urnas.

Será que não é hora de encarar o voto como um direito, e não uma obrigação? A multa por não votar é irrisória (pra quem simplesmente não votou) e a migração interna no país é grande. Agora existe a possibilidade do voto "em trânsito": a pessoa vota longe de sua zona eleitoral, mas essa categoria ainda não colou. Por isso as justificativas.

Se não fôssemos obrigados a votar, a eleição talvez fosse um momento de mudança: quem vota na direita e nos tucanos por falta de imaginação, talvez não votasse.

sábado, 2 de outubro de 2010

Adaptação

A eleição pra presidente, governador, deputados e senadores é amanhã. 

O que o meu calendário me informa acerca do dia 3 de outubro é que nessa data se comemora a reunificação da Alemanha. Isso foi em 1990, e eu lembro de ter visto a queda do muro de Berlim pela TV em 1989. Hoje a diferença entre as duas Alemanhas não é mais tão gritante. As pessoas se adaptaram às novas condições de vida.

Em 1989 aconteceram as primeiras eleições diretas para presidente do Brasil depois da ditadura. Eu lembro disso e lembro que o Collor ganhou essas eleições. Poucos dos que tinham alardeado que sairiam do país se Collor ganhasse foram embora. Foram ficando. Foram se acostumando.

Quando eu cursava as aulas de História na escola, eu ficava pensando nas pessoas que tinham vivido em datas importantes pra nós hoje: como será que encararam tal revolução? O que será que temiam na virada do século? 

Bem, eu vivi a virada do milênio e não aconteceu nada de especial. Na verdade, nem nos damos conta das datas importantes pra posteridade que atravessamos em vida. Quem se lembra que o Youtube foi fundado em 2005? Eu me lembro do Leandro me explicando qual que era o esquema do Youtube. Estávamos no bandejão e ele gesticulava com garfo e faca na mão. Se o Youtube, que é uma coisa institucionalizada (quase, vai) hoje em dia, tem só cinco anos, imagina o furor que não causou a chegada do notebook, o uso comum da internet e tal. Eu lembro dos floppy discs, nas minhas aulas de informática, eu tinha medo que o computador explodisse, minha dissertação está guardada em disquete - que nenhum dos meus computadores lê, - já não se grava mais nada em CD porque podemos guardar tudo em espaços virtuais.

Nos acostumamos às mudanças: nos adaptamos ao meio. 

Ontem revi Adaptation (2002, do Spike Jonze) um dos filmes que infelizmente ficou de fora da temática Cinema & Literatura no cine deLírio. Numa certa altura, um personagem explica por que gosta tanto de plantas: por que são mutáveis. Continua filosofando sobre o processo no qual inseto polenizador e planta estão imersos sem se darem conta da magnitude do processo todo.

And neither the flower nor the insect will ever understand the significance of their lovemaking. I mean, how could they know that because of their little dance the world lives? But it does. By simply doing what they're designed to do, something large and magnificent happens.
http://www.imdb.com/title/tt0268126/quotes
 
Torço para que a eleição de amanhã seja outro momento polenizador: que cada voto contribua para a manutenção da vida.