quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Dói bastante

Depois Melhora 
Luiz Tatit
Sempre que alguém daqui vai embora
dói bastante
mas depois melhora
e com o tempo vira um sentimento
que nem sempre aflora
mas que fica na memória
depois vira um sofrimento
que corrói tudo por dentro que penetra no organismo, que devora
mas depois também melhora
sempre que alguém daqui vai embora
dói bastante
mas depois melhora
e com o tempo torna-se um tormento que castiga, deteriora
feito ave predatória
depois vira um instrumento
de martírio duro e lento
uma queda num abismo
que apavora
mas depois também melhora
e vira então
uma força inexplicável que deixa todo mundo mais amável
um pouco é consequência da saudade
um pouco é que voltou a felicidade
um pouco é que também já era hora
um pouco é pra ninguém mais ir embora
vira uma esperança
cresce de um jeito
que a gente até balança
enfim
às vezes dói bastante
mas melhora
enfim
é só felicidade
aqui agora
é bom
é bom não falar muito
que piora
enfim
é só felicidade

As pessoas não chegaram de uma vez, mas foram se aglomerando. Foram criando vínculos e construindo projetos. Andréia foi a primeira que fugiu da Amazônia com o Lírio no braço. Acompanhei o processo de desligamento: não foi fácil nem pra nós, nem pra ela. 

O cineclube deLírio não vai mudar de nome porque a criatura que deu nome ao projeto de extensão universitária foi para a outra margem do Brasil. Mas o cineclube deLírio vai mudar. Três de cinco integrantes vão pular fora do barco e tentar a sorte em águas menos turvas. À la Papillon, Robson (um dos coordenadores do cineclube) observou as marés, fez um experimento com uns cocos na água, fez uns cálculos, vislumbrou uma possibilidade de fuga e já está se despedindo do pessoal. Guilherme e Paulo, os dois bolsistas do cineclube, perceberam que os dois cursos de graduação que fizeram não lhes abrem muitas perspectivas e estão contando os dias para a grande virada na vida deles.

Magno, da Arqueologia, foi o último a se achegar ao grupo. De todos, o mais exótico, exotérico, anárquico e desgarrado, ficou um par de meses e já está com emprego garantido em outro lugar. 

Eu perco companheiros de discussão, amigos e ótimos motivos para dar risada. Ninno perde muito mais: a companheira, o filho, o colega, os alunos e o Augusto.

3 comentários:

Andréia Costa disse...

e eu perdi e ganhei.
só não sei se minha balança está regulada pra equilibrar a leveza de estar aqui e o peso de deixar umas coisas pra trás...

Ninno Amorim disse...

São as perdas e ganhos de que fala Lia Luft. Fiquei para tentar encontrar os ganhos. Prefiro acreditar que não perdi essas pessoas todas, apenas estou adiando um feliz reencontro todas elas.

Robson disse...

Lindo poema.
Perdi muitas coisas na Amazônia, talvez irei recuperar poucas. A decisão de vir para cá respondia aos imperativos de um sonho construído ao longo de minha formação. Sinto que falhei profissionalmente, mas tive muito êxito humano, afetivo, crítico, pessoal e intelectual. Levo muito de vocês comigo... valeu!