sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Baixo Madeira via LEO

O Laboratório de Estudos da Oralidade (LEO) funciona como um guarda-chuva que abriga projetos e grupos de pesquisa. Como eu estive presente na fundação do LEO e me interesso pelo Baixo Madeira (justamente porque não é Porto Velho), aceitei o convite do Ninno de descer até São Carlos (distrito de PVH), pernoitar e conhecer as pessoas, culturas e línguas que há ali.
Apesar de aprovado, o LEO ainda não tem financiamento próprio. A solução foi fazer parcerias e aproveitar caronas. O Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) e o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) estavam mandando duas pessoas para divulgarem uma mobilização que aconteceria na semana seguinte: distribuição gratuita de documentos (RG, certidão de nascimento, CPF etc.). Em duas pick-ups, saímos de Porto Velho pela Estrada da Penal e seguimos por 75 km de estrada de terra (em estilo montanha russa) até a beira do Jamari.
Uma voadeira (barco a motor) veio nos buscar. O piloto do barco era também dono de um hotel (dizer que é pousada é encarado como ofensa) em São Carlos. Durante a travessia, decidimos ficar aos cuidados dele.
O Jamari deságua no Rio Madeira, que tínhamos margeado durante aqueles 75 km de estrada cheia de curvas e altos e baixos. Quando as águas se encontram, não se misturam.
Navegar pelos rios ligados ao Madeira e situados abaixo da usina hidrelétrica é uma arte, porque o nível da água está incrivelmente baixo. Ninguém se lembra de ter visto bancos de areia (as praias, como eles chamam) no maior afluente da margem direita do Amazonas. Agora as praias provocam acidentes do tipo voadeira voando por cima de bancos de areia e barcos maiores encalhando na areia.
O desnível entre a superfície do rio e as primeiras casas do distrito de São Carlos é bem grande: agora. Quando o rio enchia nas épocas de chuva, a água invadia as casas. Por isso muitas casas na margem do rio são em palafitas. Os moradores se auto-denominam ribeirinhos.
É possível que eu saísse de lá sem notar que em São Carlos não circulam carros, ônibus, caminhões. Quando Joel, o administrador local, comentou que ali não havia nenhum veículo motorizado de quatro rodas exceto o trator da coleta de lixo, me caiu uma ficha. Quando reparei que a maioria das casas era em madeira - e não tijolo, cimento, telha de barro - me caiu outra ficha: a ligação de São Carlos com Porto Velho é pelo rio, de voadeira.
O trânsito de voadeiras no porto de São Carlos é intenso. O que chega, abastece as vendinhas espalhadas pela cidade. As vendinhas são uma espécie de "secos e molhados" pós-modernos: peças de bicicleta, produtos de limpeza, enlatados, cosméticos e nenhuma bebida alcoólica. Vi uma cama box sendo carregada por dois homens barranco acima e vi outro homem carregando quatro caixas de panelas de pressão barranco abaixo. Perto do porto, reparei numa grande placa que indicava os nomes dos taxistas (de voadeira) e seus vários telefones celulares. Aproveitei a ocasião para verificar se eu havia perdido alguma chamada ou mensagem no meu celular. Fora de área. Perguntei prum ribeirinho por que divulgavam os telefones dos taxistas se ali não havia sinal. Respondeu que só ligavam pros taxistas quando eles estavam em Porto Velho (seja pra pedir encomendas, seja para pedir que venham buscar alguém no Baixo Madeira).
Os caminhos em São Carlos me chamaram atenção. Entre as casas há trilhas. De tanto pisados, os caminhos são marcados na grama. Por esses caminhos transitam as ovelhas escrachadas (já ouviu ovelha reclamando da vida? Eu pulava a cada balido), as galinhas magras seguidas por seu séquito de pintinhos feios, os gatos miantes, as pessoas, as bicicletas, as motos e o trator que coleta o lixo. Só vi duas vias pavimentadas que se cruzam numa rotatória que tem como centro um poste de energia. Nessa rotatória, uma moça reconheceu o Ninno e o cumprimentou: e aí, Leo!
Ninno reconheceu um regatão (mascate fluvial) na porta do nosso hotel sobre palafitas. Reparou que o homem contava suas notas promissórias e fazia planos para o futuro. Eu tive que pedir esclarecimentos, porque não sabia nem mesmo o que é uma nota promissória. Quando mostrei essa foto pra Andréia, ela logo perguntou se lá tinha galego (regatão).
São Carlos está em festa até dia 12, dia de Nossa Senhora Aparecida. Toda noite tem bingo. Apesar da chuva ameaçando, fomos no arraial, ver a festança. Prum antropólogo, tudo é trabalho de campo. Compramos uma cartela de bingo e demoramos a decidir se com o troco deveríamos comprar a caneta Bic que o padre estava vendendo. Decidimos controlar a distribuição de renda e Ninno dividiu uma caneta com a vizinha de bingo. Quando faltava uma "pedra" para completar a quina na cartela do Ninno, me interessei pelo prêmio. Vi bolos em volta do homem que cantava os números no microfone. Pensando nas ovelhas que moram embaixo da palafita do hotel, quase torci pro Ninno não ganhar o bingo. Depois fiquei sabendo que o prêmio era em dinheiro (e não em espécie).
Na manhã seguinte, o sol tinha dois anéis de arco-iris e vários outros, brancos, se cruzando. Não chegavam a formar o símbolo das Olimpíadas, mas formavam uma imagem intrigante. Há quem acredite que esses anéis indicam chuva. Há quem duvide que ela possa encher o Baixo Madeira.
Na volta à margem do Jamari, voltou à tona o tema da gasolina. No rio, gasolina vale ouro. O litro de gasolina custa R$ 3,50 no Baixo Madeira, R$ 2 e tanto na capital de Rondônia. O motorista da pick-up (que tinha ficado estacionada às margens do Jamari) não dormiu em São Carlos, mas perto do veículo, com medo que roubassem a gasolina do tanque da Ranger. Os pilotos de voadeira calculam o preço da viagem com base no tempo gasto e na gasolina (se o passageiro levar a sua gasolina, sai mais barato).
A questão da sustentabilidade - as we know it - foi outra coisa que me chamou atenção: os ribeirinhos são bastante dependentes dos produtos de consumo da civilização: refrigerantes, cosméticos, som portátil, cama box etc. Não se transportam em carros, mas se exibem em suas motos. O lixo espalhado por todo canto me feriu os olhos, o que entrava em contradição com a forte sensação que eu tinha de estar numa ilha. A água do banho (no hotel e em todas as casas) sobre palafitas descia pelas frestas do chão de madeira e caía direto no chão de terra. Que sabonete, shampoo e não sei mais que outros produtos usados ali sejam poluentes no solo, não parece preocupar ninguém.
Pra mim, essa viagem ao Baixo Madeira foi como férias: saí da cidade, larguei as redações dos meus alunos por um dia e meio, vi muita árvore, andei de barco, me senti turista das perna branca, vi de perto animais exóticos (tipo ovelha escandalosa, mutum bravo e catitu doméstico).
Da estrada dava pra entrever a praia de um braço do Madeira. Pra quem quiser entender a geografia toda, sugiro uma visita ao mapa. O Madeira divide-se em vários braços (rasos) antes de encontrar com o Jamari.
Quando paramos em Brasileira, Ninno reconheceu a Dona Helena, liderança local. Paramos para que as moças do MDA e Incra pudessem fazer a divulgação do evento dos documentos. Quando quisemos nos despedir, Dona Helena nos convidou a voltar para pescar no Jamari - e apontou pra mata do outro lado da estrada. Indicou a trilha e disse que o Jamari ficava a 50 m dali. Esses rios e suas curvas...
Quando voltamos pra nos despedir da Dona Helena, vimos que um do nosso grupo (que tinha ficado na vendinha da Dona Helena) tinha comprado 1 kg de pacu. Daí começou a distribuição da renda: buscaram coco do coqueiro, feijão das favas, peixe do vizinho e ainda esperamos a canoa da Dona Helena voltar com mais peixe.
A última parada antes de Porto Velho foi na Vala. Trata-se de um canal explodido por seringueiros 100 anos atrás, pra encurtar caminho. Havia milhares de borboletas amarelas ali, festejando um assanhamento à la Cem anos de solidão, mas nenhuma delas saiu na foto. O mais bizarro da Vala, no entanto, não são as borboletas invisíveis, mas o curso do canal. Quando o Madeira está mais cheio que o Candeias, a água corre dali pra cá. Quando o Candeias está mais cheio que o Madeira, a água corre daqui pra lá.
Não sei se encontrei o meu objeto de estudo nessa viagem, mas certamente me diverti com as pessoas que nos deram carona (todos: do motorista ao mais alto cargo representado ali), com as viagens de pick-up e barco - e o Ninno jogando bingo.

3 comentários:

Matias Mickenhagen disse...

puxa, que lindo post, valeu!

Ma disse...

Ja, auch ich habe mich sehr gefreut über diesen langen Reisebericht. Würde mich noch interessieren, was du so in Bezug auf Sprache für Beobachtungen gemacht hast.
Liebe Grüße von deiner Ma

iglou disse...

Então. Ali no vala, conversamos com uma liderança local. Perguntei se havia outras línguas além de português sendo faladas ali no Baixo Madeira, e ele disse que não. A ideia inicial (da Cynthia, nem minha) de inventariar as línguas faladas no Baixo Madeira foi por água abaixo.
Na verdade, interagi pouco com as pessoas de lá. Esse foi mesmo um primeiro contato, pra que na próxima vez eu já seja reconhecida. Foi o que aconteceu com o Ninno: e aí, Leo!