domingo, 31 de janeiro de 2010

Sentidos cruzados

Ela entrou no banco deixando atrás de si o calor abafado que envolvia a escuridão amazônica. O ar condicionado lhe pareceu uma bênção. Dirigiu-se ao caixa eletrônico, inseriu o seu cartão no local indicado e observou como a tela foi enegrecendo. Olhava pra tela, como que hipnotizada. O plástico do caixa eletrônico foi se desfazendo, o cartão sumiu, as paredes divisórias desapareceram, toda a sala mergulhou na escuridão. Era como se tudo deixasse de existir a partir dela. Sua pele fria lhe dizia, no entanto, que o ar condicionado continuava ligado. Seus pés lhe informavam que continuava pisando uma superfície lisa. Suas mãos retiraram o cartão do caixa eletrônico e o enfiaram no bolso da calça.

Eu entrei no banco mastigando a segunda lâmina de banana frita que eu tinha comprado na esquina. Só havia dois caixas eletrônicos para saques naquela seção de auto-atendimento, sendo que um estava ocupado. Reparei que a moça estava com a coluna curvada, as mãos tensas espalmadas e as pernas afastadas. Fui até o caixa vazio, inseri o meu cartão e antes de digitar a minha senha, fui tateada. Não era um toque leve de quem quer te pedir informação ou te acordar no ponto final do ônibus. Era uma garra que se enfiava no meu ombro. Assustada, recuei e vi que aquela moça do caixa ao lado se comportava como uma louca. Esticava todos os membros pra longe de si, chorava e tinha o desespero estampado nos lábios que se mexiam. Mas eu não escutava nada. Fui invadida por um gosto horrível de óleo queimado e banana podre.

Você entrou no banco com os ouvidos ocupados por dois fones brancos. Não era possível adivinhar que tipo de música você estava ouvindo, mas o fato de você não reagir aos soluços dela indicavam que você estava absorto numa música hermética. Não sei se você ouviu os meus gritos, porque eu não me ouvi. Você caminhou concentrado até o caixa que faz depósitos. Antes de inserir o seu cartão na máquina, virou-se pra moça que explorava o meu rosto com as mãos suadas. Você disse alguma coisa que eu não ouvi, mas que acalmou a moça. A moça se pôs ereta e esperou você chegar nela. Achei estranho quando você deixou o seu cartão cair no chão. Você caminhou até a moça movido pela curisidade, mas não conseguiu chegar muito perto dela sem tampar o nariz. Não entendi quando você tirou as suas mãos do rosto e ficou olhando pra elas. Você se refugiou no canto do banco com as mãos agarrando cada parte do seu corpo.

Ele entrou no banco abraçado com uma moça pendurada em seu pescoço. Enquanto abriam a porta, o banco era invadido por um perfume masculino. Vi você se agachando no chão, nauseado. O casal não percebeu logo o impacto que causou em você, porque ele estava entretido com um sorvete que lhe derretia pelos dedos; e ela sorvia o perfume dele. Assim que a porta se fechou atrás deles, eles pararam, estupefatos. Absortos em si mesmos, não reparam nos presentes. Ele abriu a boca, esticou a língua, fechou a boca, engoliu saliva e mergulhou os dentes no sorvete mole. Ela soltou-se do abraço tampando os ouvidos. Conforme os sons invadiam a moça, ela contorcia o corpo. Suas veias saltadas indicavam que gritava, mas não pude perceber nenhum som. Ele, concentrado em sua própria boca, jogou o sorvete no chão e se atirou no meu pacotinho de banana frita. Arrancou o pacote engordurado da minha mão e enfiou o conteúdo na sua boca babada.

Senti um gosto de ferro na boca quando aquele homem enorme veio pra cima de mim, esbugalhando os olhos. O homem forçou os olhos e identificou outro desafio degustativo. A moça cega sentiu o deslocamento de ar quando aquele homem grande passou por ela na tua direção. Você fechou os olhos quando o homem avançou sobre a poça de vômito na tua frente. O homem não quis mais nenhuma prova de que tinha perdido o paladar: a visão detalhada do conteúdo do teu estômago o conteve. A moça que estava com ele conseguiu abrir a porta do banco. Quando ouvi seu grito ecoando pela escuridão abafada, tive certeza de que aquela situação sem sentido havia acabado.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Fotos da Akari

Atendendo a pedidos, aqui vão muitas fotos da minha gatona.
Ela é mais tímida, caseira e cautelosa que o doido do Shaoran.
Viu? Difícil tirar uma foto da Akari sem ele se meter no meio.
Akari é toda bonitinha, comportadinha.

Katzentür

A ideia original era fazer uma Katzenklappe, mas considerei que os gatos de rua podem entrar por uma daquelas portas de bar de faroeste. Assim, tirei o vidro da porta (não sei determinar com precisão onde acaba a porta nesse caso) e vou tampar a passagem por dentro com uma tábua, caixa ou dicionário: pros gatos não saírem de noite. Akari descobriu a porta de gatos sozinha, enquanto Shaoran tava entretido com a grama e não pôde seguir o exemplo dela. O que importa é que os dois já estão ligados na parada.

Mais uma vez chave de fenda virou formão na minha mão: quem trocou as fechaduras das duas portas e aumentou o buraco na madeira fui eu.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Curso de férias

O curso de férias nasceu de uma demanda dos alunos de Ciências Sociais da Unir. Isso é fato. A interpretação dos fatos é que muda: a seguir, a versão de lá.

Os alunos estavam com dificuldades para escrever textos acadêmicos e foram conversar com o professor mais descolado deles. Esse professor, o Ninno, levou a idéia à Mariana, técnica em assuntos educacionais. Ela o orientou a oferecer um curso de produção de textos científicos nas férias. Enquanto matutavam quem daria aquele curso, passei no corredor. Me laçaram.

Agora a versão de cá. Existe um cineclube na Unir, conduzido por dois alunos que eu já considero amigos meus. Esses dois meninos são amigos do Ninno e do Robson, professores deles. Ninno e Robson também frequentam o cineclube. Paulo e Guilherme (os alunos) sabiam que eu estava lecionando algo relacionado a Texto, porque afinal eu conduzi a discussão sobre o filme 'Estômago' nesses termos de coesão, coerência e paralelismo. Os dois sabiam também que eu revisei aquelas pedreiras pra UAB. Tenho cá pra mim que fui indicada por esses dois alunos pra dar o curso de produção de textos nas férias.

Ok, o curso aconteceu. Foram 4 encontros de 4 horas cada. Havia 25 vagas, que foram preenchidas no mesmo dia em que as inscrições abriram (no meio das férias!). No total, 60 pessoas (inclusive professores da Unir) quiseram se inscrever, apenas 26 conseguiram fazer inscrição. No primeiro dia, vieram 27. No segundo, foram 23. Cogitamos que a entrega de uma resenha encomendada tenha espantado os ausentes. No terceiro dia, eram 22. No último dia, dia de entrega da resenha reescrita, vieram 12, sendo que uma pessoa caiu de pára-quedas.

Olha só: o curso foi pedido e procurado pelos alunos. Vieram enquanto podiam sentar passivamente na cadeira e ouvir a professora falar. Participaram enquanto os textos a serem produzidos eram estorinhas de Era uma vez, telegramas, manchetes e artigos de jornal, origamis e resenhas de filmes. Mas quando foram convidados a produzir e entregar uma resenha sobre um texto de Renato Ortiz (Durkheim: Arquiteto e Herói Fundador), debandaram. Como esperam aprender a escrever se não são leitores e se não estão dispostos a treinar a escrita? Como esperam aprender sem serem avaliados?

Eu aprendi sobre Sociologia, acentuação de palavras, sei fazer origami sem olhar a receita e interagi mais de perto com essas figuras que brilham como as estrelas no céu daqui. Brilham porque querem mudar a situação empacada da Unir. No céu daqui, tem mais nuvens do que estrelas. Por isso essas figuras são tão preciosas.

Carfree

Pronto. Entreguei o carro da Miyuki lavado e cheiroso. Nesse mês que fiquei com o carro dela, gastei R$ 200,- em gasolina, R$ 6,- de estacionamento, R$ 25,- na lavagem completa e muita paciência no trânsito. Outra coisa difícil de contabilizar foi a agonia de ter o carro cheio de água nas chuvas. A bicicleta não me custa tanto.

Durante esse tempo que fiquei dirigindo por aí, me dei conta, pela primeira vez na vida, que eu estava pilotando uma arma em potencial. Não sei se é porque o trânsito aqui é meio caótico, mas me dei conta de que não está excluída a possibilidade de eu ferir (ou matar) alguma pessoa (pedestre, ciclista, motociclista ou motorista) num acidente. Volto à questão do senso comum de que o "carro é mais seguro". De carro, eu posso representar um risco pros outros. De bicicleta, não sou uma potencial homicida.

Livre do carro e livre na bicicleta, fiquei sem fôlego nas subidas, suei bastante, fiquei com o cabelo bagunçado e feliz da vida.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Sobre a liberdade

Abrir a porta pros gatos foi um passo difícil pra mim. Mas depois que eles tiveram o seu território potencial limitado pelos cachorros do vizinho, não tenho mais nenhum problema para abrir a porta pra eles: eles não saem do terreno da casa.
Eles sempre querem sair da casa, mas ficam ao redor dela. O importante não é ganhar o mundo, mas saber que a porta está aberta e que eles podem sair.

Internet móvel

Como eu sou dependente de e-mail, Google e blog - e entreguei o carro da Miyuki na passagem de ontem pra hoje (o que me tira o conforto de pendular entre casa e Unir a qualquer hora do dia sem ter que trocar de roupa), - tive que comprar internet móvel. Sim, móvel, porque cabo é ou caro, ou indisponível ou completamente outra tecnologia que faz com que meu modem e provedor fiquem obsoletos.

Comprei um negocinho (modem? pen drive?) da Vivo, porque uma pessoa que mora na Vila da Eletronorte me disse que Vivo pega bem. Pois não pega bem eu com o laptop levantado pro céu, na rua, procurando o sinal.

Tenho internet móvel: ela vem, depois vai embora. Tem vez que ela está aqui, tem vez que ela some e não volta mais naquela noite.

domingo, 24 de janeiro de 2010

A vida é dura

Cheguei no portão trancado da Unir. O mesmo guarda que tinha me mandado pra casa no fim de semana passado me atendeu. Dei-lhe a minha carteira de motorista, para que ele verificasse o nome na lista dos que possuem autorização por escrito. Entrou na guarita, sentou, estudou a papelada, demorou, demorou, demorou e voltou a passos lentos.
- Professora, a sua autorização não veio pra guarita.
- Claro que tá aí. Eu vim aqui ontem.
- E é?
- É.
Voltou pra guarita, sentou, estudou a papelada, balançou a cabeça, levantou e voltou com o meu documento esticado diante de si.
- Não encontrei esse nome na lista. Karin Dorothea.
- Mas esse é o nome da minha mãe!
- E é?
- Rapaz, dá aqui esse documento que eu vou lhe mostrar o meu nome. Aqui, ó.
- Hmpf.
Voltou pra guarita rapidinho, bateu o olho na folha em cima da mesa, voltou voando e pedindo desculpas. Abriu o portão sem olhar na minha cara.

Não ser capaz de identificar o nome de um cidadão numa carteira de motorista é vergonhoso prum guarda que precisa controlar a entrada das pessoas orientando-se pelo nome das pessoas nos documentos que elas apresentam.

Into the wild

Na casa dentro do conjunto residencial, Akari e Shaoran ganhariam o direito de interagir com a Natureza, isso estava certo. Como e quando eram questões menos claras. Tentei planejar essa imersão em ambiente natural, para depois não me sentir culpada por eventuais desastres.

Depois de uma semana e tanto dentro da nova residência, considerei que eles já tinham explorado todos os cantos da moradia e já sabiam onde é 'em casa'. Numa noite qualquer, peguei a Akari no colo e abri a porta da frente. Caminhei com ela devagar pela varanda, fui até a rua e mostrei a casa por fora pra ela. Sussurrava em seu ouvido que eu gostava muito dela e que era muito importante pra mim que ela voltasse depois de sair. Ela esperneava.

Peguei o Shaoran no colo e fiz o mesmo caminho com ele. O vizinho me viu caminhando devagar, sem destino definido e veio perguntar se eu tava gostando de morar ali. Em função desses dois dedos de prosa, Shaoran teve mais tempo ao ar livre que a Akari.

Na manhã seguinte, repeti o procedimento. Dessa vez o jardineiro veio conversar comigo quando Shaoran estava no meu colo. Mais uma vez o pequeno foi beneficiado pelas minhas interações sociais. Mas deixar que os dois sentissem o chão embaixo das patas, que ganhassem o mundo, que sumissem da minha vista era difícil. Meu irmão me tranquilizou: se você acha que eles sabem onde é 'em casa' e se eles gostam de você, eles voltam.

Abri a porta de casa e deixei que saíssem. A primeira coisa que os fascinou foi a grama. Shaoran brincava com as folhas flexíveis, Akari mastigava a novidade verde. Depois da grama vieram as paredes. Depois de inspecionadas as paredes, deram uma olhada no vizinho da direita que tem dois cachorros dormindo na varanda. Assoviei algumas vezes e eles viraram a cabeça na minha direção. Enquanto Shaoran perseguia borboletas, Akari se movimentou até a terceira casa à esquerda. Chamei de volta. Ela levantou a cabeça e me encarou lá de longe. Mostrei o Shaoran no meu colo e ela veio miando e com o corpo rente ao chão. Botei todo mundo pra dentro de casa, achando que 15 minutos na vida selvagem já estava de bom tamanho.

Ontem eu abri a porta, determinada a deixá-los a tarde toda na Natureza. Armei a rede e deitei nela com um livro. Não consegui ler muita coisa, porque eu ficava monitorando os movimentos dos dois. Grama, paredes, vizinho da direita, vizinho da esquerda, borboletas, saltos, corridas, grama, pegadas molhadas na ardósia, formigas. Foi difícil pra mim concentrar as minhas atenções no livro diante de mim. Por onde andavam aqueles dois? Shaoran é tão pequeno, Akari não tem aerodinâmica por causa da ausência de rabo. E se não voltarem sozinhos? Vou ficar gritando o nome deles? Eles reconhecerão o meu assovio? Quando finalmente consegui empurrar esses pensamentos aflitos prum canto escuro e me concentrar na leitura, Shaoran e Akari voltaram. Vinham a galope, perseguidos por dois cachorros.

Ao me verem, os cachorros entenderam que aquele era o meu território, não o deles. Desistiram da caça e voltaram ao seu território: o vizinho da direita. Os gatos, que tinham entrado na casa, voltaram até a rede e permaneceram nesse território. Agora não tenho mais medo de deixar os gatos na natureza selvagem. Eles já aprenderam a respeitar os espaços alheios e a fugir de cães territorialistas.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

O hábito


Acho que essa pausa no pedal está me arruinando... Não tenho nem vontade de voltar a pedalar, e não posso culpar o acidente. Fui atropelado por Karma. Detesto a idéia de que o hábito me mantinha pedalando

Não pedalo nenhuma bicicleta desde que mudei de casa. No começo, quando a Miyuki me emprestou o carro dela, a desculpa pra usar o carro era a chuva. Depois era a mochila pesada, depois a velocidade com que eu chegaria nos lugares, depois desencanei de inventar desculpas pra mim mesma.


Uns riem da minha cara, dizendo que agora estou destruindo a camada de ozônio, outros ficam espantados com o fato de eu saber dirigir.

Sou cicloativista há 7 ou 8 anos e motorista há 11. Ando de bicicleta porque não tenho carro. Quando digo que não terei nem carro nem casa nessa vida, a Heloisa ri da minha cara, dizendo que sou uma pessoa que não acumula bens.

Miyuki volta daqui a 4 dias. Daí deixarei de ser motorista por um longo período de tempo.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Universidade aberta e pública

Desde que mudei de casa (11 de janeiro) estou sem internet. O telefone foi transferido hoje, depois de muitos desencontros, enganos e outras falhas cósmicas. O número do telefone, no entanto, não é mais o mesmo. E continuo pagando pela internet à qual não tenho acesso porque "não tem porta". Expliquei que os moradores anteriores tinham internet da Brasil Telecom, a voz no telefone me explicou que a Oi comprou a Brasil Telecom e é outra empresa, e que pela Oi não tem porta no meu endereço.

Algumas vezes eu fui na Venezuela, pra ter internet. Sentava no chão, olhava pras paredes molhadas e respirava o ar mofado, ouvindo toda a conversa dos meus vizinhos. Era ruim porque além desses incômodos, tinha que carregar o estabilizador, modem, computador e cabos. Noutras vezes, eu vinha na Unir. Mas sempre tinha gente no departamento e era difícil olhar pra tela do computador por um minuto inteiro seguido.

No sábado passado, resolvi vir na Unir, e fazer dela a minha lan house gratuita. Dei de cara com o portão trancado. Só entra com autorização. E tem que ser por escrito.

Ontem, vim depois que eu desisti de esperar pelo montador do guarda-roupa (que também não veio hoje). Eram aproximadamente 7 da noite quando entrei. O guarda me olhou feio. Quando saí, o portão estava trancado e ele teve que abrir pra mim. Me disse que fechava o portão às 19:00 e não sabia que horas os outros vigias fecham o portão.

Hoje, cheguei no portão aberto às 18:17. Dois guardas vieram me dizer que depois das 18:00 só podia entrar com autorização. Expliquei que ontem me disseram que o portão fechava às 19:00 e que eu sou professora e tenho a chave do departamento e preciso só de quinze minutos. Escrevi o meu nome à mão na lista impressa da relação dos que têm autorização e entrei.

Universidade pública e aberta? Não durante as férias.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Porto Velho fashion

Já reparei que a moda local tem suas especificidades tanto para homens quanto para as mulheres.

A cor rosa não é tabu para homem nenhum: pedalam bicicletas cor de rosa, usam camisetas e capacetes de moto cor de rosa e bonés da mesma cor. Isso não quer dizer que sejam efeminados, só não têm problemas ou pudores com essa cor. Reparei, ainda no tocante aos homens, que fazem a sobrancelha. Garçons, montadores de móveis, atendentes de loja, motoristas de caminhão e outros prestadores de serviço têm sobrancelhas finas e delineadas. Não sei mais o que isso significa.

As mulheres não são treinadas na marcha com salto alto. O corpo delas pendula de um lado pro outro quando caminham. Mas o salto alto preto combina com tudo: vestido colorido, saia estampada, calça jeans, calça moletom com 3 listras na lateral e shortinho.

O macho da casa


O macho da casa é um gatinho chamado Shaoran. Não se deixe iludir pelo diminutivo, pois ele é um diabinho.

Quando eu colocava a comida dele num potinho separado, ele comia um pouco da comida dele e ia no potinho da Akari, terminar a refeição. Agora que eu coloco comida num só pote, ele come primeiro. Simplesmente se instala no local e manda ver. Depois de comer, fica esfregando o chão com as patinhas, para deixar seu cheiro e assim horrorizar a Akari. Nesse processo, é comum que derrube o potinho de água.
Tem horas que eu acho que ele tomou uma injeção de adrenalina, ou tem formigas na bunda. Corre de um lado pro outro , pula em cima de tudo, morde tudo, arranha tudo, derruba metade das coisas em seu caminho. Quando pego esse demônio da Tazmânia no colo nesses momentos de pilha Duracell, ele me morde.
Se eu estiver lendo nessas horas de hiperatividade destrutiva, morde o canto do livro e mastiga o marcador de páginas. Fazer faxina quando ele está possuído é um desafio. Ele corre atrás do pano, se degladia com a vassoura e pula em cima do montinho de sujeira.
Shaoran pratica escalada nas minhas calças. Já aprendeu que enterrar as unhas no tecido das minhas calças largas é mais eficiente que enfiá-las na minha carne. Quando estou em pé, escala pelas minhas calças até a minha cintura.
Akari obedece à minha voz quando ela quer pular na escrivaninha (ou está em cima dela). Quando eu estou fora da casa e ela aparece na janela, não adianta eu gritar nada, que ela não sai de cima da escrivaninha.
Já Shaoran não obedece nunca. Acredito que ele já reconheça o próprio nome, mas o nome não resolve. Shaoran apanha. Não só uma vez. E depois que apanha, corre atrás da Akari. Houve uma época em que eu achei que estava sendo muito violenta com o filhotinho endiabrado. Em vez de bater nele, enfiava o demoniozinho embaixo da torneira. Teve dias em que ele tomou 3 banhos na mesma noite. E eu sempre saio arranhada dessas missões que envolvem líquidos. Dar banho, dar vermífugo na seringa e dar castigo de torneira sempre dói mais em mim.
Não posso deixar a tampa da privada levantada, porque os dois gatos são atraídos pra dentro do vaso. Quando deixo a tampa abaixada, Shaoran senta em cima dela. O peste já descobriu como se dá descarga. Papel higiênico também tem o seu fascínio: não pára de vir papel!

Quando ele dorme, a Akari vai lá, toda silenciosa, toda cuidadosa, senta de frente pra ele e lambe seu rosto plácido. No começo, ele se deixa acarinhar pela gata, mas logo já estão rolando pelo chão da sala, entre tapas e mordidas.
Quando a Akari dorme, ele vem por trás, abre as patas da frente e pula em cima dela. Ele faz movimentos de capoeirista quando jogam: sempre olhando pra ela, faz umas cambalhotas, contorce o corpo, lhe mostra a bunda e realiza saltos mortais.
Os dois gostam de brincar com o tapete, mas cada um à sua maneira. Akari deita nele, estica o corpo comprido, enfia as unhas no tapete e começa a se revirar nele. Shaoran vem correndo e pula em cima do tapete, surfa nele, morde suas franjas, enfia a cabeça por baixo dele e desaparece. Assombrada, Akari caminha com a barriga rente ao chão até o calombo no tapete. Aparece o rabo do Shaoran, ela inspeciona a pista com o nariz. O tapete muda de forma e começa andar. Akari se assusta e recua. Debaixo do tapete, como uma flecha, dispara o Shaoran. De braços abertos, o capeta pula em cima da Akari.


sábado, 16 de janeiro de 2010

Arco-íris

Assim a vida fica mais leve.

Meu celular zumbificado

Um dia acabou a bateria do celular e o recarregador não estava surtindo efeito algum. Com o celular morto, fui na loja que me vendeu esse celular perecível. O cara me disse que o problema não era o recarregador, mas o aparelho e que a solução era mandar pra assistência técnica. Como as assistências técnicas da Nokia em Porto Velho eram ruins, o esquema era mandar os objetos defeituosos pelo correio pra São Paulo.

Liguei na Nokia, o cara me deu um número, que eu levei no Correio. O atendente colocou o meu celular mortão numa caixa e a despachou pra Goiânia, sem que eu tivesse que pagar nada. Júlio, meu chefe, me deu um celular dele e ficamos compartilhando um recarregador da namorada dele.

Mudei de casa, mas sempre volto (neste momento estou na Venezuela, porque telefone e internet ainda não foram transferidos por incompetência da Brasil Telecom) pra ver correspondência. Ainda aguardo o presente de Natal dos meus pais (!). O carteiro tinha deixado um bilhete. Fui na central dos correios e o que me aguardava era o meu celular - com a bateria cheia. Liguei pro Júlio pra dizer que o meu celular tinha voltado.

Feliz, acreditei que tivessem consertado aquele problema de alimentação de energia. O celular descarregou em um dia. Eu enfiava o recarregador no aparelho moribundo, mas nada acontecia. Enquanto ele passava dessa dimensão pra outra, ainda consegui ligar na Nokia pra reclamar que o problema persistia. Fui transferida para 3 pessoas diferentes, e a última atendente me disse que eu tinha que mandar o celular pra Goiânia de novo.

E assim eu volto a mandar um zumbi pra algum lugar que deveria consertá-lo e volto a usar o celular do Júlio e marcar encontros com ele só pra recarregar o bichinho.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Novo cabelo

Antes e depois.

Nova casa

O medo das enchentes, dos banhos, vermífugos e o mero barulho da chuva uniu os dois gatos. E os dois estão mais ligados a mim também.

A casa é de madeira e as paredes internas são de compensado, o que significa que não posso pregar prateleiras nas paredes. Como não há estantes de livros de madeira pra comprar em Porto Velho, terei que chamar um marceneiro pra poder acomodar os meus livros.
A cozinha é menor que a outra, e não tem nenhuma estrutura para acomodar coisas (paneleiro ou mesa). Os moradores anteriores fizeram da cozinha um quarto e desativaram a pia. Quem rosqueou a torneira (que o Berg tinha comprado pra outra casa) ali foi o cara da mudança.
A casa tem 3 quartos. Um é depósito de caixas vazias, no outro  pus o som e o último é o meu quarto. A caixa d'água fica no forro, entre este quarto e o quarto em que durmo. Às 3 da madrugada ouço ela enchendo. Acordo em pânico, mas não é caso de procurar um psicanalista.
Esta é a área de serviço, que eu não estou usando. As janelas dos dois banheiros dão pra ela, mas um eu fechei. Os moradores anteriores, estudantes de Medicina, usavam esse cômodo como uma cozinha (vide a pia e a marca do bujão de gás).
Rua Nova União, 386 para os Correios; Rua 8, casa 16 para quem é da Vila. Vila Eletronorte.
Estou no lugar mais alto da Vila e, segundo o Vagner, de Porto Velho. Confio que a minha casa não alagará, nem por causa das goteiras.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Mudei

Desculpem a falta de fotos. Não parei um minuto desde que mudei. Tive que correr atrás de mais dois orçamentos pra reforma dos meninos que saíram da casa e comprar móveis (perdi cama, armário e dois pés da estante da sala).

Eu tinha pedido um caminhão da Granero pra segunda, às 8:30. No exato instante em que os ponteiros se alinaharam para marcar 8:30, começou a chover. Quem faz mudança com chuva?
Liguei na Granero, perguntando onde tava o caminhão.
- Senhora, às 9:00 o caminhão estará em sua residência. Agora os funcionários estão tendo um Momento com Deus.
- Co-mé-qui-é?
- Toda segunda, quarta e sexta os funcionários participam de um Momento com Deus, mas é só meia hora, e aí já vão pra sua casa.

Fiquei com muita raiva de Deus. Primeiro por fazer chover no dia em que eu quero sair dessa casa que alaga, segundo por segurar os caras da mudança. Eu andava pela casa feito um leão na jaula, maldizendo Deus e a chuva.

O caminhão passou pela minha rua. Liguei de novo na transportadora e pedi o telefone do motorista. Depois de meia hora, o caminhão voltou. Quando desmontaram a cama, vi que a madeira estava toda mofada. Quando levantaram a estante da sala, ficaram com um pé dela na mão. O guarda-roupa ficou. Disseram que se desmontassem (o que é condição pra ele sair do quarto), não conseguiriam montar de novo, porque o chão dele estava desmanchando.

Quando tudo estava dentro do caminhão, me informaram que iriam almoçar e levariam a minha mudança na casa nova às 14:00. Protestei, dizendo que a comida dos gatos (que eu levaria no carro) estava no caminhão. Prometeram se apressar, mas chegaram só 14:30.

Enquanto isso, fui pra casa nova. Logo depois de mim, chegou um moço da Granero pra ajudar a descarregar as coisas, carregando uma marmita. Queria um garfo. Expliquei que todas as minhas coisas estavam no caminhão. Pediu uma colher. Soltei um suspiro que explicou pra ele que o conjunto de todas as minhas coisas inclui garfos e colheres.

Tiraram as coisas do caminhão com mais cuidado, porque sabiam que os meus móveis estavam molhados e bastante propensos a deformação. Mesmo assim, um deles ficou com outro pé da estante da sala na mão. Calçamos a estante com uns tocos. Saíram me desejando boa sorte, felicidades e tudo de bom.

sábado, 9 de janeiro de 2010

Sisyphus


Tenho medo de chuvas que começam de noite, porque não há sol que evapore as nuvens. Chove forte e por horas. Às 3 da madrugada a água começou a subir. Todo mundo de pé, tentanto salvar qualquer coisa.
Às 4:00 a água estava no seu ponto mais alto. Os mesmos mais de vinte centímetros que semana passada. A régua está em algum lugar. Mais da metade das minhas coisas já está encaixotada e em cima dos sofás, que terão que secar onde estão.

Às 5:30 a água começou a correr em direção à rua. A minha casa continuava uma piscina. Trabalhei até às 12:00, tirando a água com um balde, depois enchendo o balde com um caneco, depois com um pano torcido. De pijama de novo e de barriga vazia de novo.

Os gatos subiram em cima da mesa, da cama, da escrivaninha. Shaoran derrubou papéis, Akari derrubou a webcam.

Passei duas horas secando o carro da Miyuki. Tirei aproximadamente 15 baldes de água de lá de dentro. Mas ele liga.
O caminhão de mudança vem na segunda. Espero que não chova até lá nem durante a mudança. Dei banho nos gatos, mas não sei se devo dar vermífugo de novo. A segunda dose deles (da enchente do dia 31 de dezembro) será semana que vem. E eu tomei a minha segunda dose ontem.

Adivinha o que a vizinha está ouvindo e cantando a plenos pulmões: Vai dar tuuudo ceeerto.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Apagão de 5 horas

Faltavam 2 minutos pra máquina de lavar terminar o programa e eu poder colocar as minhas roupas nela. Apagou a luz. Saí da lavanderia e fui na loja ao lado, pra ver se também estavam sem energia. Voltei avisando que lá também tinha acabado a força. A moça da lavanderia disse:
- Então é geral.
- Não sabemos disso. Sabemos que dois estabelecimentos estão sem luz.

Fui na pet shop comprar comida de gato. Por sorte o Visa tava passando, porque funciona com pilha. Voltei na lavanderia dizendo que até o farol tava tudo apagado. A moça disse:
- É a cidade toda que tá sem energia.
- Como você sabe disso? Pode ser só o bairro.
- Meu marido trabalha na Eletronorte e acabou de ligar.
- Ok, você venceu.

Deixei a minha mochila de roupa suja na lavanderia e fui na imobiliária, matar saudades da Iza. Uma das atendentes estava conversando com um parente no telefone e avisou pra quem quisesse ouvir:
- É no estado todo que deu o apagão.

Voltei pra casa, fiz comida no escuro, deitei na rede perto da janela e adiantei a leitura do chato do Lyons. Havia um silêncio agradável no ar. A serralheria não estava funcionando, nem a marcenaria, nem o som da vizinha que adora uma música cujo refrão evangélico é "Vai dar tuuuudo ceeeeerto, vai dar tudo ceeeeeertooo". Li umas 50 páginas, até ouvir os barulhos costumeiros. Voltei na lavanderia e coloquei as roupas pra lavar, 5 horas depois de ter esperado uma máquina desocupar.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Orçamentos

Berg, meu carma (ou super-herói), faria um orçamento da reforma e um outro pedreiro de confiança dos meninos que estão saindo da casa na Eletronorte faria outro orçamento. Ontem, Berg mediu paredes, subiu no telhado, anotou medidas e disse que faria a reforma apesar de ter sido atropelado no Ano Novo por um bêbado.

Hoje, fui me encontrar com o pintor indicado por um dos médicos. Mas como o pedreiro não tinha vindo junto, voltamos na casa de tarde. Pedi que me dessem valores, mas eles me deram medidas. Tantas latas disso, tantas daquilo. O material é tu que compra.

Pensei que em vez de lixar o chão, passar uma depois outra demão de resina, ter que mudar os móveis de lugar e ter que sair da casa por 3 dias, seria mais fácil botar piso laminado. É só colocar e pronto, não dá trabalho pra mim. Nenhum dos pedreiros sabia o que é piso laminado. E quem faz isso e quanto custa? Tenho 74 m2 de chão. Só existe uma empresa que vende e instala piso laminado em Porto Velho, a R$ 79,- o metro. Trocando em miúdos, ficaria 5 mil.

Fui na loja de tintas e na loja de materias de construção fazer orçamento. Mas o que eu tenho é uma colcha de retalhos incompleta: tenho o preço do material e da mão de obra, mas falta o aluguel da lixadeira pro piso, falta a calha e falta quem vai consertar a goteira e instalar uma torneira na cozinha. Com essas ausências, o preço é quase 5 mil.

Quando voltei na imobiliária pra entregar o meu orçamento incompleto, Berg estava de saída. Tinha feito o orçamento dele e deixado em cima da mesa da Iza. Pedi a ele que avaliasse o orçamento do pintor e pedreiro. Ele disse que parecia justo, mas que resina não era bom, tinha que ser sinteco. E isso encarecia um pouco o orçamento. Conferiu o valor da mão de obra, disse que tava dentro, mas que a dele custava mil reais a mais. Assustada, perguntei quanto tinha ficado o orçamento dele. 7 mil.

O problema agora é que os médicos precisam concordar com um desses orçamentos. Eu tenho a chave da casa e posso mudar pra lá. Por mim, essa reforma aconteceria comigo lá dentro, em doses homeopáticas. Mas a imobiliária teme que os médicos sumam do mapa.

Como hoje fez sol e eu não pedalava fazia uma semana, fiz tudo (casa, correios, orçamentos, imobiliária) de bicicleta. Pedalei 41,5 km. Por sorte, lembrei de passar protetor solar.

É que choveu

A chuva aqui é desculpa amplamente distribuída e aceita para um monte de atrasos e omissões.

Quando eu pedi na pet shop que me entregassem o Shaoran em casa antes das 16:00, o sujeito chegou às 17:00 com um sorriso amarelo: Atrasei. É que choveu. Ok, o moço estava de moto e o gatinho estava numa caixa em que poderia entrar água. Sabemos que gatos não são muito fãs de água.

Toda a correspondência de Natal que chegou em Porto Velho depois do dia 24, só foi entregue aos seus destinatários no dia 30. Isso porque 25 foi feriado, depois veio o fim-de-semana e depois choveu por 2 dias. No penúltimo dia do ano, a cidade estava cheia de homens de uniforme amarelo, entregando a correspondência. O Sedex que a minha vó despachou de Gramado, a 3.674 km daqui no dia 16 só chegou até mim depois de duas semanas. Pior que isso só o Sedex de inscrição pro Mestrado em Letras postado dia 16 de Humaitá, a 206km daqui (pela estrada!), que chegou dia 31.

Ainda não recebi o pacote de Natal dos meus pais, nem os livros que pedi pela Estante Virtual. Essas coisas vêm pelo Correio. Um livro, que posso rastrear pelos Correios, já chegou na central de Porto Velho e já teve saída e depois 'saída não efetuada' nos dias 31, 5 e 6. É que choveu.

Hoje eu fui lá do outro lado da cidade, buscar o livro que os carteiros não conseguem me entregar. O homem disse que não estava naquela central, mas na outra, da Av. Amazonas. Enquanto isso, o carteiro passou em casa e eu estava ausente. Mas ele não deixou recado, como sempre deixa. Talvez tenha acabado o bloquinho de papéis em que ele avisa sobre a tentativa de entrega. Fiquei sabendo dessa minha ausência pelo rastreamento dos Correios.

Já a Livraria Saraiva tem convênio com empresas de entrega, tipo a Fedex. No caso, é a JadLog. Quando cheguei em casa às 11:15, vi um bilhete deixado pelo funcionário da JadLog, escrito às 11:00. Liguei pro número anotado e pedi pra ele voltar. Mas ele já estava do outro lado da cidade, então fiquei de pegar a encomenda na empresa. O rapaz ainda disse que já tinha tentado entregar ontem. Reclamei que ele não tinha deixado recado ontem. Ele respondeu que não dava nem pra sair do carro, porque a rua toda tava alagada. É que choveu.

Estou tentando sair dessa casa que alaga e me mudar para uma casa que não alaga e fica mais perto da Unir, mas foi habitada por 4 estudantes do sexo masculino nos últimos 3 anos. Para que eles possam sair da casa, precisam fazer uma reforma (pintura, infliltração e sinteco no piso). Para sabermos o que precisa ser reformado e quanto custa essa reforma, é necessário fazer vistoria. Ontem de manhã conseguimos juntar o vistoriador, um antigo inquilino e um pedreiro (o Berg). O inquilino assinou a vistoria, mas ainda precisa concordar com o orçamento. O vistoriador e o pedreiro entregariam o orçamento de tarde na imobiliária. Mas como de tarde choveu, e os dois andam de moto, o orçamento foi entregue hoje. É que ontem choveu.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Telefonemas

- Departamento de Línguas Vernáculas, boa tarde.
- Eita, então o telefone daí mudou de novo! Júlio, é Lou.
- Oi, Lou, que número você discou?
- Lembra que o final tinha mudado de 39 pra 33? Liguei no final 33 e chamava, chamava, e ninguém atendia. Aí tentei no antigo, e você atendeu.
- Então desmudou. Preciso avisar as pessoas.
- Quer que eu vá aí pra assinar a ata e te devolver o recarregador?
- Seria bom até que esse recarregador já ficasse aqui, no departamento, já que vamos precisar dele a cada três dias.
- Tá bom, então eu vou aí.
- Mas eu tenho que ir no centro, então eu posso ir até você.
- Então eu vou ficar aqui, quietinha, lendo o Lyons.

* * *

- Departamento de Línguas Vernáculas, boa tarde.
- Júlio, não venha agora, porque está chovendo muito e a minha rua vai alagar.
- Tá bom. Escuta, o meu celular arriou.
- Eu percebi.

* * *

- Boa tarde.
- Lou, estou pensando em sair daqui a pouco da Unir. Você vai ficar em casa?
- Não venha, não, porque a rua está embaixo d' água.
- E não tem canoa do portão da tua casa pra tua casa, né... entendi. E a tua casa, está embaixo d'água?
- Ainda não.
- Nenhuma lâmina de água brotando do chão?
- Não, já parou de chover forte. Apareceram goteiras em lugares novos, mas a água ainda vem de cima. Quando a água da rua baixar, eu ligo avisando.
- Tá bom, amiga.

* * *

- Departamento de Línguas Vernáculas, boa noite.
- Júlio, já dá pra ver asfalto no meio da minha rua.
- Que maravilha! Quando eu desenroscar aqui, dou uma passada aí.
- Beleza, té mais.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Alegria e pânico

Existem umas sete ou nove empresas de mudança em Porto Velho. Liguei pra todas. A única que podia fazer a mudança antes do dia 15 era a Granero. O preço mínimo deles é 700 (que é o valor do aluguel dessa casa que alaga, que é mais que o dobro que custou pra trazer as minhas coisas de São Paulo pra cá). Pânico.

Ontem, consegui agendar uma visita de avaliação pra hoje de manhã, às 9:00. Alegria.

Uma colega minha me ligou perguntando se eu já tinha recebido salário. Respondi que sim e estranhei a pergunta. Ela disse que o dela ainda não tinha caído. Prometi a ela que lhe emprestaria o que fosse preciso. Pânico.

Às 10:00 eu me cansei de esperar e liguei lá. A mulher pediu desculpas pelo inconveniente e disse que o homem viria às 11:00. Quando desliguei o telefone, já tinha concordado com 11:30. Liguei lá de novo às 14:00, reclamando o homem da avaliação e avisando que eu estava de saída e tinha compromisso marcado e não podia esperar, mesmo que o homem estivesse na rua, a caminho daqui. Ficou combinado 17:00. Quero ver.

Fui ver a casa. Era uma república de estudantes de Medicina. Pânico. A casa não teve nenhuma manutenção nos 3 anos em que moraram lá, e precisaria ser lavada antes de ser pintada. Tem goteira na sala e uma parede da área de serviço toda mofada. Pânico. Mas é num condomínio fechado, é arejada, perto da Unir e tranquila. Dá pra plantar maracujá e se pá soltar os gatos. Alegria.

Me entregaram a chave. Alegria. Disseram que estavam se formando, entraram no emprego agora e ainda não tinham dinheiro suficiente pra pagar a pintura. Pago agora, sou reembolsada depois. Quero ver.

Fui toda contente na imobiliária, avisar que eu finalmente tinha achado casa. Iza não estava, porque de tarde ela nunca está. Tudo bem. O homem da Granero veio pontualmente às 17:00 e fez a avaliação em 10 minutos. Alegria.

Liguei pro meu irmão pra dizer que eu tinha achado casa, e enquanto conversamos pelo Skype, liga a nossa vó dizendo que nós dois ganhamos um presente de Natal e Ano Novo em dinheiro. Alegria.

Volto a conversar com o meu irmão e toca o celular. Iza, quase infartando. Pânico. Tem que ter vistoria, aqueles meninos não podem simplesmente te entregar a chave, eles estão com contas atrasadas e terão que pagar pela pintura. Cuidado pra esses meninos não sumirem do mapa e te deixarem com as dívidas deles! Pânico.

E assim acaba o dia de altos e baixos: com os sapinhos cantando lá fora, os gatos dormindo aqui dentro e mais aqui dentro uma ponta de apreensão.

Homehunting

O dia de ontem foi de caça a moradia do começo ao pôr do sol. Fui na imobiliária de manhã, cheguei até mesmo antes da Iza. Ela me deu a chave de um apartamento no Alphaville e disse que a chave de outro apartamento estava na farmácia ao lado dos apartamentos. Fui.

Atravessei a cidade e fui ver. Os dois apartamentos eram bons, mas do lado errado da cidade. Um tinha uma avenida-aorta bem ao lado, e o barulho dos ônibus fazia as janelas estremecerem. A vista pra fora das janelas era dos telhados de amianto da vizinhança. Nada de verde, nada de calma. O outro, no Alphaville, era mais isolado, portanto sem ônibus, supermercado, farmácia, pet shop, banco, qualquer estabelecimento comercial por perto.

Voltei na imobiliária meio desiludida. Será que não tem nada por menos de 1.500 perto de onde eu já estou? Preciso mesmo me mudar pra ponta errada da cidade e ainda pagar o dobro de aluguel? Tinha uma casa na Eletronorte, que é o bairro mais próximo (9 km) da Unir. Eu teria que conseguir falar com os médicos que estavam entregando a casa. Celular de médico é aquela coisa.

De tarde, Iza me telefona e me dá um número pra eu ligar urgentemente. Liguei e falei com um cara que tava alugando sobrados em outra avenida movimentada. Fui ver e tavam reformando, pra entregar só dali a 11 dias. Ali é super perto da lavanderia onde lavo e seco minhas roupas, a 5 km daqui. Pra Unir, então, seriam 18 km. E era do lado de um banco. Por mais que eu confie no Banco do Brasil, eu não quereria morar do lado de um banco.

Fui na Unir, porque chegou mais um sedex de inscrição pro Mestrado em Letras. O envelope foi postado por sedex no dia 16 de dezembro e chegou dia 31. Veio de Humaitá, AM, a 2 horas e tanto de carro. Maravilha! Conversando com o meu chefe, ele me convenceu a dar uma volta pelo bairro onde ele mora, pra ver plaquinhas de ALUGA-SE nas casas. Como ele está procurando casa pra comprar, resolvemos nos juntar nessa procura. Andamos em zigue-zague pelas ruas. Ele dirigia e eu anotava todos os telefones e endereços de VENDE-SE. Não tinha nada pra alugar e 11 casas pra vender.

De noite, finalmente consegui falar com o médico e marcamos de nos encontrar na casa da Eletronorte. Avisei a Iza e fui dormir.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Playground

Fui no supermercado, pedir umas caixas. Fizeram um putz sucesso aqui em casa, especialmente porque tem furinhos.

Depois que os sofás secaram no sol (a vizinha me ajudou a carregá-los pra fora), deixei tudo no primeiro cômodo da casa, pra facilitar a mudança. E estou empilhando as caixas em cima dos sofás, porque tenho medo de deixar os meus livros no chão. 

Brinquei com os gatos, fazendo eles correrem atrás da cordinha verde e da azul. Os sofás com as caixas e as cordinhas se transformaram num playground, quase uma corrida de aventura. Parei de brincar com eles quando eu me cansei.

domingo, 3 de janeiro de 2010

sábado, 2 de janeiro de 2010

Para 2010

Torço pra que esse ano seja mais sossegado. Em 2009 eu morei na Oca, na Olga, na Mônica, numa caverna e numa casa que alaga. Trabalhei como revisora, professora de idiomas e professora universitária.

Espero achar uma moradia seca em que caibam os meus móveis, os gatos e eu. Espero entender como funciona o meu trabalho. Espero perder o medo da burocracia que o trabalho envolve.

Espero que os gatos virem companheiros, que a minha diarréia passe logo e que eles não peguem nenhuma doença. Por fim, espero que não chova mais antes de eu sair daqui. Meus desejos pra 2010 são pequenos, mas se forem realizados, serei uma pessoa mais zen.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

A gota d'água

A previsão tempo não anunciou essa chuva toda. Mas ela veio mesmo assim. Começou na madrugada do último dia do ano e só parou de manhã, lá pelas 9:00.
Às 7:00 eu saí da cama por causa do barulho da chuva. Pensei em voltar pra cama, mas com o barulho da chuva caindo no lago que era o meu jardim, seria impossível voltar a dormir. Fui ver a chuva tomando conta da rua, do quintal, ultrapassando a lombada e entrando na casa.
Primeiro, a água começou a minar do piso. Era pouquinho, nos cantos, saindo do rejunte que liga a cerâmica do piso. Um pano dava conta. Depois, a água começou a sair dos ralos dos banheiros.
As muretas nas portas impediram que entrassem lesmas, lama, folhas e bitucas de cigarro. Mas o batente, que é de madeira, deixou cachoeiras de água entrarem. Em uma hora, a água subiu 24 cm. E isso que eu estava lá, jogando baldes de água pra fora.
Dessa vez deu desânimo de trabalhar na operação casa alagada. Não parava de chover, a água não escorria pro esgoto, o nível da água fora de casa alcançava o nível da mureta da porta da cozinha. Eu estava de pijama, sem café da manhã, com os pés enfiados numa água que saiu do esgoto, tendo dores na coluna e nos braços. Vi que não adiantava fazer nada na casa pra evitar inundações. É muita água. E é água que fica. O chão do meu quarto levantou e o chão do escritório abriu. Provavelmente a chuva foi a causa do piso estourado quando eu entrei na casa. Foi o Philip quem me deu essa idéia, eu continuava não atinando pra isso.
Fui comer só às 15:00, totalmente esgotada. Dei banho nos dois gatos, porque Shaoran pulou na água. Não quis se juntar à Akari que estava plácida e tranquila na cama, se molhou e ficou se lambendo.
Enquanto chovia forte, tinha goteiras na casa. Onde tinha fresta no forro, a água caía. Tipo em cima da minha cama. O tempo todo eu tava preocupada que a água alcançasse o colchão. Veio de cima. 
Se o marceneiro não tivesse feito aquela estrutura pro meu armário, perigava de ele cair pra frente. Porque nessa enchente, a parte da frente, que eu tirei, certamente teria se desmanchado.
Entrou água no carro da Miyuki. Mas ele liga e anda. Tirei os tapetes, tirei dois dedos de água do lado do motorista e manobrei o carro pro sol secar o resto.
Vou sair dessa casa. Me dói muito não ter mais esse jardim, os açaís, tanto espaço. Mas não dá mais pra brigar com a água. Pessoas teimosas que nem eu aprendem assim: na porrada.