Cicloviagem de Paraty a Peruíbe

Julho de 2006


Dois meses antes de embarcar num avião para estudar um ano na Holanda, quis me despedir do Brasil pedalando. Minha bicicleta, que se chama Amarilda porque é amarela, tinha sido comprada havia um mês. Já não lembro se o trajeto saiu da minha cabeça ou se foi fruto das conversas com o moço que me ajudou a montar a minha nova bicicleta. O plano era fazer Paraty (RJ) – Peruíbe (SP) e o esquema era pedalar um dia e descansar no outro. Passaria três dias em Paraty, o quarto na estrada, o quinto em Ubatuba, o sexto na estrada, o sétimo em Maresias, o oitavo na estrada, o nono em Santos, o décimo na estrada e o último em Peruíbe. As cidades de pouso (exceto Santos) tinham um atrativo: albergue da juventude.

Não chovia em Campinas fazia dois meses, mas no dia em que eu ia começar a minha primeira cicloviagem solo choveu a potes. Choveu antes de eu sair de casa e assim que eu cheguei na rodoviária de Campinas. Não peguei chuva no caminho, mas o asfalto tava molhado e enlameado. Botei a Amarilda no ônibus e segui pra São Paulo. Descobri onde ficam os elevadores do Terminal Tietê e desfilei a minha super bicicleta pela rodoviária, esperando dar a hora pra embarcar pra Paraty.

Amarilda foi no bagageiro, eu fui na poltrona, tentando discriminar sons de uma língua oriental que era falada atrás de mim. Pude ouvir (por 6 horas) uma língua tonal e reconhecer unidades mínimas no sistema fonético da língua deles. Os falantes de olhos puxados não interagiram comigo, mas os outros passageiros vieram conversar com essa mulher que viajava sozinha e levava uma bicicleta no bagageiro.

Em Paraty, me hospedei no albergue onde havia muitos turistas gringos da minha idade. Seus rastafaris loiros, sua pele clara e suas línguas maternas não me ganharam. Fiz amizade com o recepcionista e o cozinheiro do albergue. Cassiano me fazia sonhar com uma trilha a pé que circunda uma península alguns quilômetros ao sul de lá. Rodrigo teve a minha companhia para coisas práticas: fomos ao mercado, e depois descascamos e picamos batatas, cenouras, tomates e cebolas. Durante o churrasco, apareceu um amigo do Rodrigo. Lucas estava acampado na Praia do Sono, e tinha voltado à cidade porque tinha acabado a comida deles lá. Como ele tinha uma encomenda de cigarros para os amigos acampados, voltaria à Praia do Sono. Cassiano botou lenha na fogueira e Lucas decidiu ir comigo à praia do Sono: de bicicleta. Mais uma vez a Amarilda foi metida num bagageiro.

Fomos de carro até o começo da trilha, que fica depois de um resort de nome chique que simplesmente expulsou os caiçaras de lá. Os que não tinham para onde ir, prestam serviços de limpeza e jardinagem no resort. A praia do Sono é ‘de posse’, ou seja, as 200 e tantas famílias que vivem lá resistem contra outra implantação de resort. Essas pessoas só saem da Praia do Sono de barco ou pela trilha de duas horas de caminhada. Lucas se divertiu à beça nessa trilha. Ele sabia controlar os freios da Scott dele e equilibrar o corpo na magrela que pulava sobre raízes, fendas, pedras e caminhos de água. Eu carreguei a Amarilda debaixo do braço.

O albergue de Ubatuba fica distante do mar, e passei a manhã inteira do meu dia de descanso passeando no Horto Florestal. O ar úmido e gelado da mata que entrava nos meus pulmões me dava uma sensação líquida de contínuo entre pessoa e planta.

Aí fui pra cidade, visitei o Aquário e ganhei um ingresso pro Museu do Automóvel, porque o dono dos dois museus é o mesmo. Fui também no Projeto Tamar, ver tartarugas em tanques. De volta ao albergue, percebi que funk é o som preferido da criançada. A filha da mulher do albergue, de 11 anos, passava os dias ouvindo e dançando funk, com o som no último volume.

De volta à estrada, notei aliviada que já havia acostamento transitável para bicicletas. A vista do mar continuava linda e os alforjes nos calcanhares já não me incomodavam mais. Um motorista me ofereceu carona e teve dificuldades para entender que eu queria estar ali, pedalando. Acho que ele não entendia a minha língua.   

Quem tinha dito que depois de Ubatuba é tudo plano não se lembra das serras entre São Sebastião e Maresias. Nossa Senhora! Mas eu aprendi que tudo o que sobe, desce depois. Eu subia aquelas serras devagarzinho, no tempo de um pedestre cansado, e depois descia a velocidades beirando a imprudência. Em alguns lugares havia ciclovias, mas por exemplo em Caraguatatuba desenvolvi aversão a ciclovias. É que não existe manutenção, e elas estão cheias de buracos, areia e transições muito altas pra quem tem alforjes pesados. Tinha poste no meio da ciclovia, Kombi estacionada, e nas pontes não tinha nada. Será que esperavam que nas pontes os pedestres e ciclistas desenvolvessem asas - ou quatro rodas e um motor?

Sentada nas pedras da praia de Maresias, vi tartarugas marinhas nadando em liberdade! Que alívio, perceber que elas existem fora dos tanques do Projeto Tamar. No albergue de Maresias, fui a sensação. Vinham na minha janela pra conversar com aquela doida que tinha vindo sozinha de bicicleta e continuaria pedalando até a última praia (acessível por estrada) do litoral paulista. Fiz amizade com dois paulistas que não acreditavam que eu sabia trocar pneu. Dormi quase nada no albergue, porque tinha uma festa rave bem nos fundos do albergue. Melhor que funk. Quando peguei a estrada de manhãzinha, Tadeuzinho tava na porta do albergue. Voltava da balada e queria tomar café da manhã antes de deitar e curar a ressaca.

Na serra pra Boiçucanga, a praia seguinte, tive que descer da Amarilda e empurrá-la. Não teve jeito. Usei todas as marchas, fiz força, mas como não tem acostamento naquelas curvas, e tinha muito carro passando, não havia espaço pra eu subir em zigue-zague. Mais tarde, reparei num ciclista vestido em cores gritantes. O capacete combinava com as sapatilhas, mas algo no pedal parecia estar errado. Parei a Amarilda na altura dele gritei até o outro lado da Rio-Santos. Ofereci ajuda, ferramentas, o meu tempo. Ele não me ouviu, nem me viu. Desisti de ser solidária e segui viagem.

Não quis parar em Bertioga, passei por Guarujá e atravessei Santos. Parei em São Vicente porque estava escuro. Fiquei num hotel barato. As paredes eram verdes de mofo e quando reclamei, às 7:00 da manhã, que não tinha mais café, disseram que ‘essa hora não tem mais café mesmo’. Nada nessa cidade cinza me pediu pra ficar.

Pedalar dois dias seguidos foi pedreira. É que quando é tudo reto e plano, a posição da ciclista em seu veículo é pouco modificada e aí cansa e dói a bunda. As pernas e coluna tavam beleza, o fôlego acompanhava o ritmo das pernas (o que nem sempre é o caso), mas os dois ossos de apoio do traseiro estavam me matando.

O número de caminhões na estrada aumentou, o barulho dos automóveis também, as praias foram ficando marrom-acinzentadas, não havia diversidade na estrada. Pisar no chão era como aportar depois de um mês sentado num barco.

Um constante téc ... tác... ... tec téc.... téc... tác... vindo do pedivela me acompanhava fazia um dia e meio, quando cheguei em Peruíbe. Depois do banho no albergue, fui na primeira bicicletaria que achei. O moço deu altas voltas na Amarilda, tentando descobrir de onde vinha o barulho. Concluiu que era do pedal, mas não tinha como trocar as esferas, porque ele não tinha as peças. Indicou outra bicicletaria pra bikes mais incrementadas, e tive que deixar o meu veículo lá e voltar a pé pro albergue. Mó longe! Limparam a Amarilda e perceberam que o problema não era o pedal. Tiraram o pedivela e voltaram a encaixá-lo, mas dessa vez ao contrário, achando que as esferas de um lado tavam sobrecarregadas, já que eu tava sem clipe, fazendo força só de cima pra baixo. (Fui sem clipe, porque percebi que a sola dura da sapatilha faz o meu pé formigar pra caramba a cada meia hora. Não preciso disso.) Não sei se a hipótese das esferas sobrecarregadas fazia sentido, já que a Amarilda estava em sua viagem de estréia, mas resolveu a questão do barulhinho.

No albergue de Peruíbe, fui adotada por um casal hospedado lá. Iracema cozinhava que era uma beleza, Antônio me deu conselhos sobre a vida que não fui capaz de reter na lembrança. Peruíbe era a cidade onde tinha albergue, mas não era o meu destino final.

Cruzei as serras e fui para a Cachoeira do Paraíso. A mulher que me vendeu água ali na bifurcação para a cachoeira disse que era nascida ali mesmo, mas que nunca foi na cachoeira que todos procuram. 

Depois do choque da água gelada, eu já estava de novo na Amarilda, rumo ao meu destino: Barra do Una. Minha família sempre acampava no 'Camping Familiar Bar do Zeca'. Zeca, Rosa e Luciano ficaram felizes com a minha visita fora de época. Deixei a Amarilda no camping e fui dar um mergulho no Rio Una. Os cabelos secaram no caminho de volta a Peruíbe, enquanto o sol se punha atrás das montanhas.

Na manhã seguinte, acomodei a minha companheira amarela no bagageiro do ônibus. Em setembro, fui pra Holanda carregando memórias boas de mar com ondas, mata abundante e sorrisos entregues. Eu sabia que lá não teria muitas oportunidades de falar a minha língua, mas aprenderia uma nova cultura: a da bicicleta.