segunda-feira, 31 de março de 2008

Pedivela Alivio

Quando eu passava a marcha do câmbio dianteiro da maior pra do meio, a corrente enroscava no quadro. Nem sempre, mas sempre com maior freqüência. (Nicht immer, aber immer öfter.) Durante a viagem de Santos a Ubatuba, a corrente raspava no braço do câmbio dianteiro e fazia rék, rék, rék, em intervalos regulares, quando eu tava nas marchas mais pesadas. Mexemos no câmbio de tal forma, que a corrente não entrava mais na coroa menor da frente. A passagem da do meio pra maior, no entanto, acontecia mais rápido.

Fui na bicicletaria do Baixinho, pra pedir que me regulassem o câmbio. O Baixinho olhou pro meu pedivela e contou o cassete e concluiu que o pedivela não combinava com o cassete.

OK. Vamos à definição dos termos. A corrente passa por dois mecanismos redondos com dentes. O da frente é um jogo de 3 discos dentados chamados coroa e o suporte pro pedal. Tudo isso compõe o pedivela. O de trás é composto por um jogo de discos dentados, chamado cassete. A Amarilda tem um cassete de 9 discos, totalizando 27 marchas (3 x 9 = 27). Bicicletas de 24 marchas têm um cassete de 8, as de 21 um de 7 discos dentados atrás. O câmbio é o mecanismo que faz com que a corrente passe de um disco a outro. Como a coroa e o cassete possuem mais de um disco, é necessário que haja um câmbio dianteiro e um traseiro. Os elementos (pedivela, cassete, corrente e câmbios) devem ser compatíveis.

O Baixinho me mostrou que eu tenho câmbios e cassete Deore, mas pedivela Alivio. É tudo da Shimano, mas a coroa da Alivio é mais grossa, porque a linha Alivio é prum cassete de 8, em que há mais espaço livre que num cassete de 9. Por ser mais grossa, a corrente não sai com facilidade dos dentes e enrosca. Eu precisava de um pedivela Deore. Tudo bem, troca.

Olhei na nota fiscal da Amarilda e vi que o pedivela Alivio custou 130. Eu podia tentar vender esse meu pedivela pra bicicletaria. Trouxeram um pedivela com movimento central selado e super moderno da Deore. Perguntei o preço e me assustei: 530. Perguntei se ele não tinha um Deore sem o movimento central. Tem, mas tem que encomendar e custa 340. Puxa vida! Pra quem tava achando que ia pagar uma regulagem de câmbio, isso ainda era caro. Baixinho olhou pra bicicleta dele, contou os discos no cassete. Era um pedivela Deore prum cassete de 8. O meu pedivela serviria na bike dele e vice-versa. Maravilha! Cobraria 180. Aceitei. Ficaria pronto na segunda-feira (hoje) às 9:30.

Apareci lá pontualmente, e vi a Amarilda pendurada na oficina. Vai demorar? Trinta minutos. Putz. Vou a pé pra Unicamp, e pego ela ao meio-dia, então. Não, a gente te empresta uma bicicleta daqui. Não precisa andar a pé.

Quando finalmente devolvi a Monark e peguei a Amarilda, confirmei o que eu já sabia: a minha bicicleta é a melhor que eu já pedalei na vida.

domingo, 30 de março de 2008

Programa de aposentada

Fui pra SP sem avisar os meus amigos, me entregando completamente à programação da Olga. Ela passou por uma cirurgia faz duas semanas e precisa de repouso. Dessa vez a tiróide foi retirada. Todo dia um novo esparadrapo enfeita o pescoço dela.
Na noite de sexta, a programação era um concerto beneficente. O dinheiro arrecadado seria doado à OASE. A família que disponibilizou a casa para a violinista e o pianista e seu público é alemã. Muito bem, eu esperava encontrar alemães e brasileiros descendentes de alemães de uma certa faixa etária, de uma certa camada social, ligados à igreja luterana. Quanto à música, suspeito que o violino seja um instrumento difícil de se tocar. Ou talvez Bach não seja próprio para este tipo de constelação instrumental. Nas peças de Mozart e Dvorak os erros da violinista foram menos graves. Notei que não havia crianças na casa, e que as três pessoas da minha idade se sentiam tão importantes quanto os empresários engravatados que estavam ali para cumprir seus deveres cristãos. Família Dauch, casal Krause, a secretária-chefe alemã do Humboldt (esqueci o nome dela), Hermann Wille e o Zander (pai do Fábio e da Kathia) estavam lá. Todos eles me olhavam como se procurassem ver através de um vidro embaçado. Tentavam puxar na memória a que família eu pertenço, por que não estou na Alemanha, qual era mesmo o meu nome.
No sábado, fomos ao sítio de uma das amigas (dos tempos de prefeitura) da Olga. Mulherada animada, conversadeira, alegre. Todas me conhecem muito bem, e até registraram que passei um ano na Holanda. Do sítio, fomos pra Campo Limpo Paulista, visitar uma tia das donas do sítio. Essa tia já é bem velhinha, e encomendou um culto de ação de graças em casa. Juntou um montão de parentes e amigos pra agradecer por estar viva e chamou o pastor pra cantar com o violão. Quando chegamos na casa da tia, a sala já estava cheia. Quando o último convidado chegou, a garagem já estava tomada. Desconfio que depois de mim, só o filho da caseira era mais novo que eu. Mas a postura de todos aqueles senhores e senhorinhas era alegre, acolhedora. Já experimentou o bolo de milho? Bom demais! Já pegou o coração? Deus te abençoe, filha, obrigada por vir.

Argumentação desconexa

Voltei de São Paulo num domingo de tarde e cheguei em Campinas perto (mais pra lá do que pra cá) do horário de almoço. Da rodoviária fui ao ponto do 3.31, que vai pra Barão Geraldo. Minha Nossa Senhora... Na praça do ponto de ônibus havia um homem em trajes sociais vociferando no microfone. Dio Santo, faça esse ônibus chegar logo!!! Em volta do homem havia outros engravatados que gritavam aleluia, amém e glória a Jesus com convicção quando o homem do microfone entregava o turno de fala (sou lingüista, desculpem > quando ele pára de falar e dá a chance aos outros de falarem). Meus Deus, porque devo sofrer essa violência? Algumas poucas mulheres estavam sentadas na sombra da figueira. Cabelo arrumado num coque, saia pra depois do joelo, mãos no colo, cabeça levemente inclinada, sorrindo pra dentro. Será que vão achar ruim se eu pegar o microfone e pregar sobre a liberdade deles que acaba no momento em que eu me sinto violada pelo falatório deles? Pessoas vão chegando ao ponto de ônibus e sentando-se nas muretas e bancos. Olham para a roda com um olhar divertido. Devo ser uma pessoa muito ruim. Não consigo achar essa invasão bonitinha. Não consigo nem mesmo ter pena deles. Tenho pena de mim, que preciso suportar essa falta de imaginação. Sinto uma raiva se remexendo nas entranhas. Não consigo evitar de absorver o falatório desconexo. Não é a história de como encontrou Jesus, não é a citação desenfreada da Bíblia, mas a argumentação por que aquele homem que acredita em Jesus se sente seguro.

As outras religiões estraga as pessoa.
Porque as outras religiões prega que Deus é três.
Deus é Jesus, e Jesus é um só.
Tem igrejas que fala de Jesus como fosse a segunda pessoa, mas é porque Jesus fala na segunda pessoa com os discípulo dele.
V i e s t e s até mim, não é isso que tá escrito?
Pois taí a segunda pessoa.
Mas Jesus é um só, Jesus está em você, irmão.
Jesus nunca falou mal dos bêbado.
Nunca falou mal das prostituta.
Porque a prostituta, o ladrão, o estrupador é todo mundo gente boa.
É o espírito mau que tá por trás deles que faz eles sê ruim.
Mas e l e s são pessoas boas.
E quem tem o Espírito Santo, é gente boa.
Aleluia, irmão!

Graças a Deus, chegou o ônibus!!!!!!

Argumentação tortuosa

Reclamei com um amigo que copiou coisas que eu escrevi neste blog e as colou no blog dele. Chamo essa prática de plágio e sugiro que em vez de apresentar material alheio como se fosse dele, cite a fonte em que estão as coisas que lhe agradam.

Ele se defende dizendo que qualquer um pode copiar e colar o que quiser.

Pois é. Meu amigo foi infeliz na argumentação a favor do plágio dele. Nada justifica a cópia a não ser um detalhe: a comodidade. Reclamar seus direitos autorais na era digital é complicado. Porque copiar material alheio é fácil. Em vez de digitar ou escrever à mão o texto que se quer copiar, é só selecionar, copiar e colar - e pronto. No caso das correntes de e-mail, é só botar no 'forward', que a mensagem bonitinha é passada adiante. Nesses casos, a intenção é disseminar algo. O que interessa é a mensagem em si (as imagens no photoshop, a piada, a notícia), não o autor da mensagem. Não acredito que isso se aplique ao conteúdo do meu blog.
Eu sou filha de artista plástica e desde sempre entendo que sou responsável pela minha produção e devo levar os créditos por ela. Acompanho Bakhtin quando critica a posse que um autor reiveindica sobre seu texto, argumentando que tudo o que você disser já foi dito antes por outra pessoa, mas mesmo assim considero que o que eu escrevo é meu e não deve ser publicado sem a minha assinatura.
Dizer que qualquer um pode copiar e colar conteúdos não legitima o plágio. A partir do momento em que o 'indivíduo' floresceu e ganhou importância na nossa sociedade, existe um código entre as pessoas de que é preciso ser original, e que não é legal copiar os outros. "Qualquer um pode" não garante a liberação de uma atividade. Qualquer um pode abaixar as calças e cagar no meio da calçada. Os cachorros fazem isso, o que me impede? Qualquer um pode usar de violência contra outra pessoa. Quem me impede de extravasar a minha fúria numa pessoa mais fraca e economicamente dependente de mim? Existem códigos de conduta. Não sei de pessoas que cagam na calçada, mas sei que a violência doméstica existe. O que diferencia um caso do outro provavelmente é o olhar e julgamento da coletividade. A pessoa provavelmente não faz as suas necessidades na calçada por medo de ser censurada pelos outros. É a desaprovação pública que desautoriza o sujeito a fazer o que qualquer cachorro faz. O homem que bate na mulher ou filhos, ou a mulher que bate nos filhos (não importa quem agride, importa que a vítima seja mais fraca) está sozinho com sua vítima. Ninguém vê e julga e impede que a violência aconteça. Ela acontece em casa e em muitos casos é tida como 'normal'.
Plágio, cagar na calçada e violência doméstica são coisas que qualquer um pode fazer. Os que não o fazem, seguem códigos sociais que existem para regular nossos comportamentos. Acreditamos que seguir estas regras de comportamento facilita as nossas vidas e minimiza atritos. Infringir essas regras (e tantas outras) significa sofrer desaprovação (ou mesmo comprar briga), já que, enquanto seres coletivos, precisamos concordar em cumprir algumas regras de convivência.

domingo, 23 de março de 2008

Ciclistas

Olhando prum grupo de cinco moleques descendo a ladeira de bicicleta na contramão, Luizão contou que tinha visto numa reportagem que morrem não sei quantos mil ciclistas por ano no Brasil. Eu ia comentar os furos dessas estatísticas, principalmente quando se trata da contagem de acidentes sem morte, em que os ciclistas normalmente figuram como pedestres. Mas ele emendou, apontando pros meninos radiantes de alegria: isso não é ciclista! Passou um cara vestido de roupas coloridas e apertadas de lycra e capacete. Isso é ciclista, tá vendo, roupas apropriadas, capacete, andando conforme o sentido do trânsito, com segurança. Chamei atenção pro fato de que nem todos os usuários de bicicleta tiveram instruções de como se portar no trânsito e que os pé-rapados não têm dinheiro pra comprar óculos de sol, capacete ou bicicleta boa.

Lembrei quais são as pessoas que cumprimentamos no caminho: pedestres que acenaram pra nós, ciclistas esportivos como nós e ciclistas urbanos que nos cumprimentaram. Eu tentei acenar com a cabeça pra qualquer um que olhasse muito pra nós, sem preconceito, mas confesso que me senti mais compelida a acenar para aqueles que se pareciam comigo.

Cheguei em Campinas, tirei a bicicleta do bagageiro do ônibus, atravessei a cidade semi-deserta e peguei o Tapetão. Um casal de amigos meus vem na minha contramão. Oi, Lou, tudo bem? Tudo, mas por favor, não pedalem na contramão. Tem uma passarela ali, cês atravessam e continuam do outro lado. Eu imagino que vocês queiram ir no Taquaral que é deste lado, e eu sei que é chato de fazer o retorno lá na frente, mas por favor pedalem no sentido do trânsito. Uma colisão frontal pode ser fatal, vocês precisam se integrar no trânsito.
Os dois estavam de roupas esportivas e óculos escuros (por isso não os reconheci logo) e ela estava de capacete.

Ciclista é quem anda de bicicleta, seja instruído ou não, pobre ou não.

Nuvens pesadas

Pra sexta-feira, a previsão do tempo anunciava tempo bom de manhã e trovoads esparsas de tarde. Tivemos tempo encoberto de manhã e sol (e nuvens, a depender da praia) de tarde.
Pra sábado, a previsão era de tempo instável. De tarde, 20 km antes de Ubatuba, perguntamos pro Pedrinho, japonês que vende o melhor caldo de cana do bairro (não sei qual bairro é) se ia chover. Chover, não chove não. Caiu aí uma chuvinha, assim, uns pingo bem distante um do outro, mas foi só.
No domingo de manhã, enquanto eu esperava dar o horário do ônibus pra Campinas na rodoviária, choveu. Mas eu estava embaixo de um telhado e o paralamas que eu instalei não foi testado dessa vez.



Público de praia

Cada praia tem o seu público.
Maresias é o point da galerinha jovem. Adormecemos ao som de festa e acordamos às 6 com o mesmo som. Às 7 da manhã de sábado a padaria estava lotada de pós-adolescentes (elas de vestidinho e eles com muitas tatuagens) sonolentos. O efeito da bebida ou das drogas deixava seus olhos vermelhos, o corpo pesado e reflexos retardados. O nosso dia tava começando, o deles tava terminando.

São Sebastião nos surpreendeu pelo contingente de ciclistas doidos. Dois pedalando lado a lado, conversando e na contramão, foi o que mais observamos.

Caraguá é praia pra família. Família significa criança pequena que precisa de sombra; filha que não consegue se decidir qual óculos de sol comprar do ambulante e grita da beira do mar até a sombra, pedindo a opinião da mãe; é o garotão abrindo o porta-malas e permitindo que o funk, axé, ou o raio que o parta invada os ouvidos de qualquer um; é o pai bebendo cerveja e contando ondas. O nosso dia tava no meio, o deles tava começando.

Ubatuba começa pela Praia Vermelha. Muito antes de chegar nela, a fila de carros espessava e se lentificava. Cogitei algum acidente ou bloqueio, mas não. Era desfile mesmo. Quem tava na Praia Vermelha desfilava seu corpo, biquini, tatuagens, músculos e se media com outros no volume do som que o carro era capaz de produzir. Infelizmente nem todos têm o mesmo gosto musical. O meu não estava representado lá. Considerando a improvável hipótese de que estivesse, ninguém seria capaz de distingui-lo. Amigos, em verdade vos digo: passei pelo inferno sonoro. Hm. Ainda não acabou. A fila de carros também desfilava: os próprios carros, seus sons potentes e proezas de motorista querendo ultrapassar os outros pelo acostamento. O nosso dia tava no fim.


São Sebastião

Segundo dia, no fim de São Sebastião, pedi pra parar antes da subida. Luizão e eu temos ritmos e costumes diferentes: a cada pedalada que eu dava, ele dava duas. Eu prefiro girar pouco, mesmo que isso signifique fazer mais força. Isso se fazia evidente em dois momentos: quando pedalávamos lado a lado e quando ele ia na minha minha frente, se preparando pra subida. Como eu segurava mais as marchas, ainda tinha impulso suficiente pra mais um tanto, enquanto ele já tinha diminuido as marchas e a velocidade.
Outro ponto de divergência era o almoço. Eu estava levando comida pra não ter que parar no meio da pedalada, pra não ter a barriga cheia. Ele preferia sentar num restaurante, comer à vontade e depois pedir pra eu ir devagar, porque ele tava de barriga cheia.
O meio-termo que achamos é que eu abria distância dele antes da subida e parávamos pra eu comer barrinhas de cereais e depois pra ele almoçar arroz, feijão e mistura.

Numa das paradas para eu comer este senhor veio conversar com a gente. Aposentado, ex-estressado paulista, falou da vida caiçara, de exercícios físicos, cabeça boa, contato com a natureza. Insistiu que voltássemos pra casa pedalando. Nada de botar a bicicleta no ônibus, isso é muito fácil!!!

Contratempo

Quebrou o pedal direito do Luizão. Rachou no meio e perigava cair, ficando só o eixo. Seguimos as instruções do frentista e pedalamos por ruas de areia até a bicicletaria local (não sei onde estávamos). Primeira à direita, quarta à esquerda e segunda à esquerda. Achamos a bicicletaria, mas não tinha pedal de eixo grosso, só eixo fino.
Em São Sebastião seguimos instruções de um mecânico de carros: segue o fluxo dos carros, não vai pela ciclovia, que é complicado. Na Jota Bike tinha o pedal que encaixava.

Rio-Santos

Dois dos senhores que acompanhamos moram na Riviera e nos guiaram até lá por vias alternativas (é um condomínio fechado, mas tem uma entrada de serviço pros empregados, na verdade é uma pinguela em chão de areia). De lá em diante era só Rio-Santos, velha conhecida. Até Maresias tinha espaço pra nós. Na verdade a pista plana é composta por 4 faixas: uma vai, outra volta e tem acostamento de cada lado. Mas nas subidas e descidas o espaço é restrito pela montanha, então tem 3 faixas e meia, quando muito: uma vai, outra volta, meia é acostamento do lado de quem desce, quando muito, e a outra é a faixa adicional na subida, pra que veículos lentos possam ser facilmente ultrapassados. Isso se aplica principalmente ao trecho entre Boracéia e São Sebastião.
Eu tinha metido na cabeça que tínhamos que chegar até Maresias no primeiro dia de pedal. A descida da serra que dá em Boiçucanga terminou numa descida fenomenal, em que atingimos a velocidade demente de 75.5 km/h.
A serra entre Boiçucanga e Maresias nos colocou no limite de nossas forças. Mesmo empurrando a bicicleta, a gente ia devagar e ofegando. E suando feito porcos e morrendo de sede e pensando a cada passo que era mais fácil voltar e descer aquela montanha e tentar de novo no dia seguinte. Não, agora, depois de 2km de subida empurrando as bikes, nós não vamos descer, não, senhora! Dá aqui a sua bike, e endireita essa coluna. Grande Luizão!
Depois de Maresias, o trecho fica ruinzinho. Muita curva, as cidades têm uma periferia que se estica por vários quilômetros, pouco acostamento e muitas serrinhas.

Pra Bertioga

Fomos seguindo as placas pra Bertioga, sem nos perguntar se estávamos de fato na Rio-Santos. Eu já tinha pedalado de Paraty a Peruíbe e um pouco mais (fui até Barra do Una) faz um ano e meio, e não estava reconhecendo esse trecho. Daqui a pouco as placas indicam que haverá uma balsa adiante. Balsa! Isso não corresponde às minhas expectativas!
Na balsa conhecemos esse grupo de ciclistas aposentados, que estavam se dirigindo à Riviera de São Lourenço. Como era caminho, fomos com eles.

Santos a Guarujá

Luizão e a Kona dele esperando no mar de ciclistas que esperam pela balsa que leva o povo pro Guarujá. De grátis!
Amarilda era a única de alforges. Grande coisa, porque a bolsa da direita teimava em entrar pra dentro dos raios da roda traseira a cada buraco. Mas Luizão tinha planos A, B e C pra resolver isso.
Na balsa tinha muita gente em grupo, de capacete, bicicleta boa e falando alto. Feriadão faz a galera tirar a bike da garagem.
Santos no fundo, atrás da cortina de nuvens. Ainda não são 10 da manhã.
Guarujá aqui. A galera que tava uniformizada de ciclista esportivo veio se juntar aqui, no fim do Guarujá.

Em Santos

Saí da rodoviária pedalando em direção ao Centro, até reconhecer um nome de rua. Opa, esse nome tá na minha lista de hotéis de Santos! Chequei a numeração e segui, até chegar no Hotel Ipanema que tem roupa de cama do Hotel Skorpion, localizado na mesma rua. Epelho quase do tamanho da cama, torneira pingando, nenhum lençol ou toalha e muito mofo nas paredes. A notícia boa: pernoite por 22 reais e perto da rodoviária. Mas sem café da manhã.
Saí à procura de um orelhão. Precisava ligar pro meu parceiro de pedal e saber que horas ele chegaria na rodoviária de Santos. As minhas poucas unidades do cartão telefônico foram devoradas pela ligação pra celular, e fiquei sem saber que horas que ele chegava. O orelhão ficava num posto de gasolina, então fui até o frentista, perguntar se ele vendia cartão. Não, só na pastelaria. Explicou onde era a pastelaria e quando cheguei na borda do posto, me chamou de volta. Me ofereceu um cartão dele. Oh, que atencioso, mas eu não queria gastar o cartão dele. O orelhão começa a tocar. Vamos os dois até lá, ele atende, diz que aqui é do posto Brás Cubas e depois me passa o fone. Luizão, que horas cê vem?

Luizão tinha dito que viria às 7:30. Eu precisava tomar café da manhã, e tinha sacado que o bairro em que eu tava eu não acharia nenhuma padaria em que eu pudesse matar a minha fome matinal. De noite vi botecos e puteiros. De manhã eu não queria procurar muito, decidi tomar café da manhã na rodoviária.

Na rodoviária, um segurança perguntou se eu ia embarcar com a bicicleta. Não. Então ponha a sua bicicleta no bicicletário, aqui na plataforma não pode. O bicicletário consistia num paraciclo e um guarda ouvindo música no ipod. Luizão chegou, precisava tomar café também, prendemos as duas bikes perto do guarda ouvindo música. Sem tirar os fones do ouvido, perguntou pra onde a gente ia. Ubatuba. Quanto tempo demora? Dois dias (e mostrei dois dedos). Ele não conseguiu ler os meus lábios, mas interpretou os meus dedos. Duas horas?

Para Santos

Minha maior preocupação eram os caras da Cometa encanando com a minha bicicleta no bagageiro do ônibus. Mas que nada! Os dois moços encarregados de botar a bagagem dos passageiros no bagageiro do ônibus eram jovens e acharam a Amarilda bonitona. Primeiro passo em direção à simpatia. Perguntaram se eu tinha a nota fiscal dela, mas não quiseram vê-la.
Choveu pra caramba em São Paulo, mas não na Baixada.

quinta-feira, 20 de março de 2008

Preparando uma cicloviagem

Alforges - sim
ferramentas (chave de raio, de corrente, de parafuso) - ok
câmara reserva, bomba, lixa, remendo, cola e espátulas - beleza
faróis e luzes, pilhas e recarregador de pilhas - certo
óleo - cheio
capacete - tá bom, vou usar
roupa pra 3 dias, protetor solar pro rosto e pro resto - hm, hm
comida (água, barras de cereais, nozes e frutas secas) - hmmm
passagem pra Santos - comprada
pousadas no centro de Santos - anotadas
verificação se tudo bem levar a bike no ônibus - problema.

Liguei pra Cometa (detesto Cometa) e a mocinha me disse que tem que botar a bicicleta numa caixa. Mas, moça, se eu vou pra rodoviária pedalando, como que eu vou carregar uma caixa do tamanho da bicicleta? Ah, um minutinho. (...) Então, a instrução que a gente tem é que tem que ser numa caixa. Moça, se eu embalar a bicicleta numa lona, tudo bem? Ah, um instante. (...) Ele falô assim que tem que ser numa caixa.

Fora isso, tô animada pra pedalar com o Matsuguma mais um amigo de Santos a Ubatuba.

quarta-feira, 19 de março de 2008

Der Roland

Um americano e dois brazucas fizeram uma HQ chamada Rolando. Sim, de acordo com a Canção de Rolando. Coloque-se em 778 a. D. Carlos Magno está na Espanha, conquistando tudo. Falta Zaragoza. Marsilo, rei de Zaragoza, envia um dos seus a Carlos Magno, anunciando que Marsilo se converterá ao cristianismo e seguirá atrás do Carlos Magno pra a França - em trinta dias. Carlos Magno, cansado de lutar, acredita na estória e parte para a França com seus homens, deixando 20 mil homens ali, como retaguarda.
Marsilo cai matando com 200 mil homens em cima dessa retaguarda, liderada pelo queridinho de Carlos Magno, Rolando. Rolando é nosso herói. Ele luta contra os pagãos. Rolando tem um olifante (minha primeira ida à Wikipédia, porque não consegui evitar de pensar no Oliphant do Senhor dos Anéis), que é um berrante feito de marfim (tinha que haver um elefante nessa estória). Rolando, ao ver a massa de 200 mil homens armados subindo as colinas, deveria ter soprado o seu olifante. Mas ele é homem honrado, orgulhoso e cabeça dura. Não pediria ajuda ao seu rei. Ele lidaria com a situação. Afinal, o que são 200 mil homens? Todos são vencidos, num fabuloso banho de sangue. E eis que pelas colinas sobem mais 200 mil homens, liderados por Emir, que veio em socorro de Marsilo. Rolando sopra o olifante tão fortemente, que suas têmporas estouram. E ele morre. Carlos Magno ouve o chamado e volta, combate os pagãos e volta vitorioso pra casa.

A parte fraca da narrativa é que os pagãos são pagãos, não muçulmanos. São descritos como traiçoeiros, traidores e mesquinhos. Quando o Emir dá o comando de ataque, grita: Em frente, pagãos! Opa, peraí, pagão é o atributo que os cristãos dão aos não-cristãos. Os não-cristãos autodenominam-se de acordo com sua crença (muçulmanos/ mouros, judeus, o diabo a quatro). Portanto, a convocação de Emir não faz sentido.

Mas esse não é o único Rolando que eu conheço. Em Bremen há uma estátua do Roland.

Este Roland também é medieval, mas não é mártir. Este Roland simboliza a liberdade e independência do povo de Bremen da igreja católica. Dificilmente os dois Rolands referem ao mesmo homem...

sábado, 15 de março de 2008

Era uma vez - felizes para sempre

Tem gente que coleciona começos de romances. Achei a idéia tão sem pé nem cabeça, que me vi abrindo as primeiras páginas dos romances mais à mão na minha estante. Mais interessante que me restringir à primeira frase foi considerar também a(s) última(s). Em alguns romances, o ciclo se fecha:

"No dia em que o matariam, Santiago Nasar levantou-se às 5h30m da manhã para esperar o navio em que chegava o bispo."
...
"Depois entrou em sua casa pela porta dos fundos, que estava aberta desde as seis horas, e desabou de bruços na cozinha."
Crônica de uma morte anunciada, Gabriel García Márquez.
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"Como pode o verme ser o herdeiro das maravilhas de um olho ou de um cérebro?"
...
"Nunca mais verei o sol ou as estrelas. Mas meu espírito dormirá em paz."
Frankenstein, Mary Shelley.
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"- Nonada."
...
"Nonada. O Diabo não há! É o que eu digo, se for ... Existe é homem humano. Travessia."
Grande Sertão: Veredas, João Guimarães Rosa.
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"Era inevitável: o cheiro das amêndoas amargas lhe lembrava sempre o destino dos amores contrariados."
...
"- E até quando acredita o senhor que podemos continuar neste ir e vir do caralho? - perguntou.
Flrentino Ariza tinha a resposta preparada havia cinqüenta e três anos, sete meses e onze dias com as respectivas noites.
- Toda a vida -disse."
O amor nos tempos do cólera, Gabriel García Márquez.
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""E o senhor, como se chama?"
"Espere, está na ponta da língua.""
...
"Por que o sol se está fazendo negro?"
A misteriosa chama da rainha Loana, Umberto Eco.
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"Sou um homem doente ... Um homem mau."
...
"Mas parece-nos que se pode fazer ponto final aqui mesmo."
Memórias do subsolo, Fiódor Dostoiévski

"Gregor Samsa acordou naquela manhã de sonhos agitados e viu-se na sua cama transfigurado num enorme inseto."
...
"Nesse instante, Grete, já no final da viagem, se levantou e espreguiçou o jovem corpo, como para confirmar os novos sonhos e projetos, que haviam de ser realizados."
A Metamorfose, Franz Kafka.

terça-feira, 11 de março de 2008

Urucubaca

Meu computador tem vida própria e gosta de tirar sarro da minha cara.

Faz um mês, mais ou menos, quando é iniciado, ele procura uma impressora que não acha. Nem eu não acho a impressora ou motivos pra ele sequer procurar uma.

Ontem, enquanto eu tava pesquisando os lobos frontais na Wikipédia e esticando a língua pra fora em sinal de nojo, ao ver a foto de um cérebro de verdade sendo manipulado cirurgicamente, o meu mouse começa a descer a tela pela lateral direita. Vai descendo, sem que eu possa fazer qualquer coisa para impedir seu declínio. Chega ao fim da tela e prossegue, da direita para a esquerda, na horizontal. Depois o cursor sumiu e nada mais se mexia. Tentei as teclas, mas não conseguia fechar as janelas. Instalei o mouse do Junior, mas não conseguia controlar o mouse. Não parava quieto e também não fechava janelas. Meti o dedo no botão de POWER e o computador morreu.

Morreu mesmo, porque quando liguei a máquina mais tarde, nada acontecia. Tela preta, mais nada. De novo, não!!! O sangue me subiu à cabeça, precisei de muita força mental pra me concentrar nos textos que eu tinha que ler pra preparar aula. Minha tese não tinha backup. O artigo ainda não submetido pra Aphasiology tinha backup, mas era mesmo a versão final e última? Eu não podia engolir isso. Em vez de ir pra sala arrancando os cabelos e chorando lágrimas de crocodilo, interrompi os meninos que estavam jogando Fifa na sala com a pergunta sobre consertadores de computador.

Sonhei com a solução para os meus problemas: uma combinação de teclas faria o computador funcionar. Mas quais eram as teclas? Eram duas ou três?

Antes de sair de casa, liguei o computador. E ele obedeceu aos meus comandos, o mouse está funcionando normalmente, a minha tese e o artigo estão no pen drive e eu estou feliz da vida. Tá certo que ele ainda procura pela ipressora, mas vai fazer o quê? Sai, urucubaca!!!

sábado, 8 de março de 2008

Tô sossegada


No carnaval um cara chegou pra mim e perguntou se eu sou tímida mesmo. Surpresa, ri na cara dele. Ele me informou o nome dele e perguntou o meu. Monossilábica, disse o meu nome. Ele perguntou se eu vou dançar ou se estou sossegada. Respondi que tô sossegada.

Um colega de graduação, com quem eu não me comunicava faz muito tempo, retomou contato. Conversa de lingüista vai, conversa de estudante volta, e eis que ele mudou de assunto. Quis falar das coisas importantes da vida, quis saber se eu casei. Respondi que tô sossegada.

Ontem, um ex-aluno meu, que provavelmente já foi apaixonado por mim, me perguntou se estou namorando ou se estou sossegada. Respondi que tô sossegada.

Não sei exatamente o que significa essa expressão, mas sei exatamente pra que ela serve: cala a boca dos homens. Não fui convidada pra dançar, meu colega nunca mais me escreveu, meu ex-aluno correu atrás da namorada dele. E no final das contas, eu fico sossegada.

Ah, e antes que eu me esqueça, feliz dia internacional da mulher. 

domingo, 2 de março de 2008

Misérias da guerra

Esse post tem muitas imagens, porque são elas que me impressionam tanto.

Terminei hoje de ler um livro que me acompanhou por um mês e meio, mais ou menos. Conheci parte da obra de Goya, entendi por que ele é considerado um gênio, aprendi um pouco da história espanhola e da vida privada da realeza que orbitava em volta do Goya. Da pessoa do Goya depreende-se pouco, mas sabe-se muito sobre o contexto político da época em que viveu e qual é a opinião do escritor sobre os nobres espanhóis. Muitas obras são apenas descritas, outras são expostas e descritas. Los desastres de la guerra são os mais viscerais, e povoaram a minha mente por um tempão.
Não é só o que acontece com os mortos que é trágico, mas o que os vivos fazem com os vivos mais fracos nos tempos de guerra.

Assisti ao filme Labirinto do Fauno porque me prometeram que não era filme de terror. Mas é. A narrativa se passa em dois planos: a estória do fauno, imaginada pela pequena Ofélia e o mundo real, em que militares arbitrários e brutais tentam desarmar a guerrilha esfomeada em épocas de chuva. A estória do fauno é tenebrosa, a realidade é terrível. Filme de terror.

As histórias em quadrinhos da Satrapi viraram filme, que eu vi ontem no cinema. A idéia da autora iraniana era contar aos seus amigos franceses a sua vida. Escolheu o gênero dos quadrinhos e acabou vendendo sua biografia sob o nome de Persépolis para uma editora de grande porte. Como explicar sua natureza iraniana sem recorrer às guerras persas, fria, do Iraque, dos xás e Talebans etc. e tal? Mais imagens de guerra na minha cabeça.
Depois de passar a manhã e tarde no IEL, terminei o dia na rede, lendo El Gaucho, de dois italianos contando a história da reconquista dos argentinos contra os ingleses. Não sei se isso faz muito sentido, mas enfim, tem guerra de novo. Não tem muito sangue, porque o que os autores queriam mostrar não eram os desastres físicos e psicológicos da guerra. Mas a estupidez que gira em torno do patriotismo - representado pela bandeira. Uma seqüência longa mostra como dois homens (um escocês e um inglês) 'dão a vida pela bandeira':


Porca miséria!