quinta-feira, 20 de junho de 2013

De 1984 a 2013

O programa dos Dois Minutos de Ódio variava de dia a dia, sem que porém Goldstein deixasse de ser o personagem central cotidiano. Era o traidor original, o primeiro a conspurcar a pureza do Partido. (p. 16)

Repórter sobrevoando o Rio: "Um grupo pequeno de baderneiros infiltrados insiste em confrontar a polícia que já tinha dispersado os manifestantes que foram para o sentido oposto, mas essa dezena de manifestantes aqui insiste em provocar os policiais."

[Goldstein] insultava o Grande Irmão, denunciava a ditadura do Partido, exigia a imediata conclusão da paz com a Eurásia, advogava a liberdade de palavra, a liberdade de imprensa, a liberdade de reunião, a liberdade de pensamento, gritava histericamente que a revolução fora traída (...). (p. 16)

Luis no telefone: "Estão dizendo que tem um milhão de manifestantes nas ruas! Tá tenso aqui no Rio. Quê que a Poeta tá dizendo na Globo? Continua dizendo que é a minoria que está agindo com violência? É a maioria, todo mundo aqui está pronto pro embate."

O estranho, todavia, é que embora Goldstein fosse odiado e desprezado por todo mundo, embora todos os dias, e milhares de vezes por dia nas tribunas, teletelas, jornais e livros suas teorias fossem refutadas, esmagadas, ridicularizadas, apresentadas aos olhos de todos como lixo à-toa ... e apesar de tudo isso, sua influência nunca parecia diminuir. (p. 17)

Na Globo: Lamentável, um pequeno grupo de manifestantes mais agressivos, lamentável, atos de vandalismo, lamentável, estão incendiando cones, lamentável, isso dá multa, não é? lamentável, muitas bombas de gás lacrimogêneo, lamentável, fumaça e irritação, lamentável, bombas de borracha, lamentável, entenda como a polícia faz o isolamento: são três linhas de contenção.

No segundo minuto o Ódio chegou ao frenesi. Os presentes pulavam nas cadeiras e berravam a plenos pulmões, esforçando-se para abafar a voz alucinante que saía da tela. (p. 17 -18)

Bonner: "Está rodando pela internet um relato de manifestações ocorridas na Argentina, em que, quando havia atos de vandalismo, os ver-da-dei-ros manifestantes sentavam no chão, e só os vândalos continuavam de pé. Assim fica fácil identificar, separar o joio do trigo e facilita o trabalho da polícia para identificar os baderneiros infiltrados."

(...) a fúria que se sentia era uma emoção abstrata, não dirigida, que podia passar de um alvo a outro como a chama dum maçarico. (...) Nesses momentos seu [Winston Smith] ódio secreto pelo Grande Irmão se transformava em adoração, e o Grande Irmão parecia crescer, protetor destemido e invencível, firme como uma rocha contra as hordas da Ásia (...). (p. 18)

Repórter sobrevoando São Paulo: "A manifestação está muito pacífica, muito bonita de se ver, a imagem de todos os pontos do asfalto cobertos de gente se movimentando é muito interessante."

GUERRA É PAZ

Hoje a Globo fez uma cobertura extensa (a novela das 7 foi cortada, o jornal regional também) da maior manifestação até agora nas cidades brasileiras. 90 cidades tinham anunciado manifestações, dentre elas Porto Velho, Manaus, Cuiabá, Passo Fundo etc. Nenhuma dessas cidades foi apresentada no Jornal Nacional estendido, porque principalmente a violência em Brasília, Belém, Campinas, Rio e Porto Alegre foi mostrada. São Paulo quase não apareceu porque houve poucos incidentes de vandalismo. A Globo se comportou como um abutre do vandalismo. E toda vez que os "baderneiros infiltrados e agressivos" eram mostrados, insistia-se em repetir que integravam "um grupo pequeno que não representa a maior parte dos manifestantes". Notavam que andavam encapuzados e não mostravam a cara. Bonner concluía que obviamente não protestavam contra a corrupção, por melhorias na saúde e educação, mas se aproveitavam das manifestações pacíficas e legítimas para criar confusão.

LIBERDADE É ESCRAVIDÃO

As bandeiras dos partidos políticos e movimentos sociais foram repudiadas pelos manifestantes. A palavra de ordem era "Sem Partido". Os prefeitos e governadores das cidades em que houve mudança da tarifa tiveram um papel totalmente marginal, coadjuvante: obedeceram às pressões. Não aprenderam com as manifestações, não usaram o momento a seu favor para discutir planos e projetos de atender à reivindicação maior por direitos. Nenhum partido político aparece na mídia, nenhum partido tem voz. A mídia reina, a mídia é o Estado e está do lado da força policial.

IGNORÂNCIA É FORÇA

A notícia da pessoa que morreu atropelada - durante a manifestação - por um motorista de SUV em Ribeirão Preto, capital do agronegócio, que atropelou 12 matando 1 foi dada como se noticia o aumento do dólar. A violência de um homem irritado com a imobilidade de seu carro potente é explicada com naturalidade. A violência de milhares de manifestantes contra símbolos do poder nas ruas de diversas cidades do país não merece explicação por parte da mídia, porque essa violência é categorizada como vandalismo, indesejável, tabu.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Pacífico, pa-cí-fi-co, PACÍFICO

Quem já teve contato com a Programação Neurolinguística, uma autoenganação como a autoajuda, sabe que a regra para fixar bem uma palavra ou conceito novo, é repeti-lo 16 vezes no mínimo.

Eu devia ter contado quantas vezes a palavra "pacífico" e suas variantes "pacificamente"e "sem violência" foram enunciadas no Jornal Nacional de hoje. O que eu anotei, no entanto, foram as caracterizações dos vilões:
- grupo pequeno que não representa os ativistas (ativistas!)
- baderneiros infiltrados (como se não fizessem parte da manifestação)
- minoria de manifestantes radicais (de novo a ênfase é para o grupo pequeno)
- agressores, invasores, vândalos.
No primeiro bloco, em que os eventos violentos de ontem foram repisados, o Jornal deu uma de polícia, identificando e destacando da multidão indivíduos com comportamento agressivo. Numa jogada de edição pedagógica, a televisão denuncia os malvados e relata quais deles já foram detidos. A atenção é guiada para os contraventores, não para os alvos de depredação, que são símbolos de poder: prefeituras (a casa do prefeito, o próprio prefeito), palácios do governo, bancos, bancas de jornal, emissoras de TV, guaritas policiais. Poder político, econômico, de informação e de força estão sendo atacados durante as manifestações.

O trânsito prejudicado e confuso foi enfatizado ao longo do programa todo. Tenho a sensação de que os manifestantes estão descobrindo novas formas de se movimentar na cidade - e de trancar a cidade. Avenidas principais e principais vias de acesso foram bloqueadas pelos manifestantes que percorreram muitos quilômetros de uma cidade que poucos conhecem a pé. E quem estava de carro novamente ficou imobilizado. Tenho esperança que a mobilidade urbana seja de fato discutida depois dessas manifestações, e que se invista menos na mobilidade e fluidez do transporte motorizado - e particular. O investimento no carro está claramente estampado nas propagandas que intercalam as partes do Jornal Nacional, exibido no horário nobre. Hoje (talvez isso tenha sido atípico) houve 3 intervalos de propaganda. No primeiro, apareceram 3 propagandas (Peugeot, Bradesco, novela da Globo), no segundo apareceram 4 (novela da Globo, Fiat ao som do Rappa (!) cantando um refrão "vem pra rua" (putz!), GE e um filme da Globo Filmes) e no terceiro foram 5 (filme que passa depois da novela, Volkswagen, Tv Samsung, Visa e produtos da Copa das Confederações (quem vende isso?)). Em cada um dos blocos de propaganda havia uma propaganda de carro. Luis já tinha chamado atenção pra essa construção do brasileiro apaixonado por carros (bombardeado por propagandas, taxas reduzidas e prestações a perder de vista), só anotei agora.

Depois da tempestade, vem a bonança. Depois dos protestos e dos confrontos, a vitória. O Jornal Nacional desenhou duas vitórias: a redução (variando de R$ 0,05 a R$ 0,20) da tarifa e os gols do Brasil sobre o México na Copa das Confederações. E nesse momento Galvão Bueno exagerou nas tintas verde e amarelo, descreveu os torcedores cantando o hino nacional a cappella (véio!) e entrevistou jogadores emocionados com o calor da torcida. Pacífico. Captou a mensagem?

Migalhas e futebol

Não é mais "pão e circo". Agora o povo brasileiro recebe - e não sei se se contenta com isso - migalhas e futebol. Depois de quase duas semanas de protestos que mantiveram o Brasil e o mundo atentos ao que se passava nas ruas de algumas capitais, depois dos confrontos, depois da esperança na juventude, o prefeito e o governador de São Paulo anunciam o congelamento da tarifa em R$ 3,00 no telão após o jogo da Copa das Confederações em que o Brasil ganhou do México por 2 a zero.
Após jogo, torcedores assistem ao anúncio de redução de tarifas em SP (Eduardo Knapp/Folhapress)
Cito o primeiro parágrafo da matéria publicada na Folha da Copa:
A redução das tarifas do transporte coletivo de São Paulo nesta quarta-feira foi comemorado como um gol da seleção brasileira pelos torcedores que assistiram à vitória por 2 a 0 sobre o México no centro da capital paulista.
Se o Brasil tivesse perdido esse jogo, teriam escolhido outro momento pra anunciar o que Haddad tinha condenado pouco antes de "estratégia paternalista".

O G1 preparou um infográfico mostrando o histórico das manifestações. Será que estão dando o caso por encerrado?

Jornal interativo

Quando a Folha fazia questão de noticiar a violência policial em São Paulo - porque teve jornalistas agredidos e detidos - o jornal convocava os leitores a contribuírem com fotos e relatos.
Quando os protestos - e seus motivos - deixaram de ser o foco e o vandalismo tomou o lugar de destaque na imprensa, a Folha passou a convidar os leitores a compartilharem também críticas.
Agora que houve saques, bancos e lojas depredados, a Folha assume a posição de quem defende a sua propriedade e pergunta: "Foi afetado pelos protestos? Envie relato".

Na véspera da grande manifestação, a mídia está funcionando como uma lente de aumento que foca sobre o que lhe convém: construir uma manifestação pacífica, branca, branda. A discussão sobre o direito à cidade se esfumaçou. A discussão sobre os motivos para a eclosão desse vandalismo é posta de lado. O fato de a população já usufruir de equipamentos públicos vandalizados, sucateados, disfuncionais, burocráticos e excludentes não é lembrado. A mídia se assusta com a força da revolta.

terça-feira, 18 de junho de 2013

Santa Maria se mexe

E eu vou de bicicleta!

Distorção

William Bonner voltou a apresentar o Jornal Nacional ao lado da Patrícia Poeta. Justificou sua volta de Fortaleza dizendo que considerou mais importante cobrir os protestos e anunciou que tinha passado o bastão para um especialista: Galvão Bueno foi logo entrevistando o técnico da seleção brasileira sobre o que ele achava dos protestos.
Marcelo Justo/Folhapress

Ou seja, a Copa das Confederações existe, mas não é preciso falar sobre ela agora - mesmo porque ela também é um dos pontos de descontentamento da população. Por isso é bom não falar muito, já que as pessoas que habitam os lugares que sediarão os megaeventos estão sentindo que esses eventos são efêmeros e circos montados para os outros. Estão tendo o acesso à cidade negado, estão sendo despejados e removidos. Então a Copa das Confederações só entra na pauta quando o Brasil ganhar com festa e fanfarra. A propósito, quem decide o que o JN noticia?
Fabio Braga/Folhapress

Depois da volta do apresentador, as notícias sobre os protestos de ontem e hoje se misturavam no Jornal Nacional, mas a sua edição foi cuidadosamente preparada. Primeiro mostraram as manifestações pacíficas, enfatizando e repetindo a palavra "pacífico". Depois, em outro bloco, mostraram os atos de vandalismo e destruição, enfatizando e repetindo as palavras "vandalismo" e "violência". Depois desses blocos claros e discretos de mocinhos patriotas e bandidos punks na manifestação, alternaram, por exemplo, cenas de fogo e disparo de armas de fogo com cenas de uma manifestante reclamando do vandalismo de uma pequena parcela dos manifestantes. Depois da cena dos caixas eletrônicos do Itaú completamente destruídos, mostraram a cena de manifestantes limpando pixações. Outra dobradinha foi a imagem de ônibus queimados e um manifestante reclamando dos baderneiros.
Joel Silva/Folhapress

A manipulação da Rede Globo é sutil: não deixa de veicular informação, nem reescreve os fatos, como em 1984, de George Orwell:

“E se todos os outros aceitassem a mentira imposta pelo Partido – se todos os anais dissessem a mesma coisa – então a mentira se transformava em história, em verdade. “Quem controla o passado”, dizia o lema do Partido, “controla o futuro; quem controla o presente, controla o passado”. (...) Bastava apenas uma série infinda de vitórias sobre a memória. “Controle da realidade”, chamava-se. Ou, em Novilíngua, “duplipensar”.” (p. 36)
Fabio Braga/Folhapress

A estratégia é direcionar o olhar (condescendente para o protesto PACÍFICO envolto na bandeira do Brasil e condenatório para os atos de VANDALISMO encapuzado) e botar na boca do povo os motivos do protesto: contra a corrupção, contra o governo, contra o alto custo de vida.
Eduardo Knapp/Folhapress

Lembra da marcha contra a corrupção - que não pegou? Como se luta contra a corrupção? Há diversas formas mais engajadas do que indo às ruas. E se o protesto é contra o governo, então quem se habilita a fazer melhor? Quem se candidata? Quem o movimento elege como líder para preencher o lugar vazio? Se não é pra derrubar o governo, o que se ensina pro governo então? Em muitas cidades a diminuição da tarifa do transporte coletivo já foi reduzida em R$ 0,10. Isso basta pra todo mundo voltar pra casa satisfeito? Cadê a proposta de mobilidade/ acessibilidade urbana?
Marcelo Justo/Folhapress

Protestos facilmente condenáveis pelos atos de violência e em favor de uma pauta difusa não têm futuro e são rapidamente banalizados. É preciso achar o foco das manifestações. É preciso evitar que a mídia corporativa distorça tudo a seu favor. E a mídia corporativa não quer a Revolução; prefere contar até os centavos o prejuízo material das manifestações.

Coletivo x individual

Enquanto a massa de manifestantes trancava as principais avenidas da cidade para protestar pelo direito de acesso aos bens públicos, motoristas de veículos particulares não viram sentido em se transportar num carro.

Sem centro, em rede

A onda de protestos no Brasil se dá de maneira espontânea e bastante horizontal: não há um partido, uma bandeira, uma pauta. As pessoas decidem participar das manifestações a partir das movimentações que observam nas redes sociais (principalmente Facebook, apesar da censura) e vão às ruas para manifestar sua insatisfação com vários pontos.

Não há um centro para o qual o país converge para protestar: os centros são as capitais na faixa leste do país. Não há uma pauta (Diretas Já, Impeachment) que une todos. Não há uma postura comum (não há panfletos distribuídos pelos manifestantes explicando por que protestam, porque há muitos motivos diferentes para protestar): tem gente distribuindo flores, tem gente pichando, tem gente cantando o hino nacional e tem gente militando por um partido. Não há roteiro (para onde caminha a marcha? Quando acaba a manifestação? Quem assume o que?). Não há horizonte (normalmente, o horizonte é a esperança de que, uma vez que  a reivindicação seja alcançada - derrubada de alguém do poder, por exemplo - isso faça com que um plano de mudar o status quo seja posto em ação: como um novo empossado vai lidar com os problemas).

Achei interessante observar os números levantados pelo Datafolha, publicados hoje na Folha:
Quem é militante partidário e esteve nas manifestações de ontem (agradeço ao Luis por compartilhar impressões de companheir@s) se sentiu acuado pelos sem-partido. Porque os partidos representados nas passeatas eram partidos dissidentes de esquerda (PSTU, PSOL, PCB), porque os partidos acreditam na democracia, porque os partidos dependem da organização hierárquica. Os militantes sentiram que há algo errado: os sem-partido cantavam o hino nacional e reivindicavam um projeto de nação. Quando lembro dos convites que me eram feitos para estudar a Bíblia sem o direcionamento (chamado de 'enviesamento') de nenhuma religião, sinto simpatia pelos militantes partidários que observam a abstração que é um protesto político despolitizado.

Uma análise interessante sobre a dinâmica da multidão auto-organizada e a escolha de lideranças está publicada na Folha, aqui.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

A Revolução será televisionada?

Se der IBOPE, será.

Hoje de manhã exibi Free Rainer para os alunos de Jornalismo, com a proposta que escrevam uma resenha recuperando o que leram de 1984 de George Orwell. Hoje vimos um filme em que se mostra a dependência da programação da audiência. A televisão, segundo Maiwald (personagem que faz o papel de diretor de uma emissora), mostra o que o povo quer ver e assim o mantém pacificado, anestesiado, ocupado.

Hoje de tarde e noite, as pessoas se movimentaram nas ruas. Muito mais de 250 mil pessoas caminharam por capitais empunhando cartazes, bandeiras, gritando por uma sociedade mais justa. As passeatas em São Paulo se dividiram, sendo que uma grande massa de manifestantes se dirigiu para a zona sul. Curiosa, acompanhei seus movimentos: o que fariam no Brooklin? Seu destino era a ponte Estaiada, ou a ponte do Estilingão, primeira via pública a ser inaugurada desrespeitando a lei que determina que toda via pública nova deve ser acompanhada de ciclovia. Quem já viu o Jornal da Globo local de São Paulo sabe que a ponte do Estilingão é o pano de fundo da Rede Globo.

O repórter que sobrevoava a ponte disse, para o Jornal Nacional, que os manifestantes gritavam palavras de ordem contra a Rede Globo. Patrícia Poeta, sozinha no estúdio, explicou, com ares defensivos, que a  Rede Globo transmitiu todas as informações sobre as manifestações desde seu início. Claro que não lembrou que, em certos momentos, o vandalismo dos protestantes e a violência física sofrida por um policial foram mais enfocados que o número real de manifestantes, a truculência da polícia ou mesmo  os motivos que levaram a população às ruas. Explicou que é o dever da Globo transmitir todas as notícias, driblou mal e passou a bola.

William Bonner parecia totalmente deslocado em Fortaleza, para fazer a cobertura da Copa das Confederações: não estava com a bola da vez. A vitalidade, os gestos abundantes e a alegria que o apresentador demonstrou quando esteve em Brasília, na ocasião em que o Brasil ganhou de 3 a 0 do Japão, não estavam estampados em seu rosto. Comentou, em poucos segundos, que em Fortaleza tinha havido manifestações na frente do hotel em que está hospedada a Seleção - mas, disse, esses protestos não tinham relação com a Seleção, eram contra os gastos da Copa.

A população brasileira, que decidiu fazer fogueira da faísca do aumento da tarifa de transporte coletivo matou no peito e correu pra área. As manifestações são contra a manipulação de informações por parte da mídia corporativa, contra o abuso de poder da polícia, contra os eventos carnavalizados como a Copa que desestabilizam completamente a região em que acontecem, contra o descaso dos representantes do povo com os equipamentos públicos.

Estou na torcida para ver a Revolução acontecer. Estou torcendo pra que ela seja transmitida pela mídia (a Folha está com um subtítulo vermelho-magenta: País em Protesto). Quero ver a Globo anunciando o gol.

Manifestação crescendo

Manifestantes no Largo da Batata, em Pinheiros, zona oeste de São Paulo (foto de Miguel Schincariol/AFP). Se a PM estima 30 mil, devem ser 70.

sábado, 15 de junho de 2013

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Ponto de vista

Em 2010, uma fotografia (de Clayton de Souza) causou polêmica porque demandou muito esforço para ser interpretada. O cenário era uma manifestação de professores em greve reprimida pela Polícia Militar paulista. O pano de fundo era a cortina de fumaça, as figuras em destaque eram um homem carregando uma pessoa de farda. Seguem os movimentos interpretativos provocados por diferentes pontos de vista:

Para a maioria da população paulista, a farda é uma fronteira. Quem usa a farda está do lado de lá. Quando eu vi a imagem pela primeira vez, não identifiquei que a pessoa dentro da farda era uma mulher. Meu olhar não conseguiu ultrapassar a barreira do uniforme. Quando mostro essa imagem pros meus alunos não-paulistas, eles imediatamente identificam a mulher desfalecida nos braços do homem. Para eles, o uniforme cinza não tem significado.

O homem que carrega a policial fardada não está usando uniforme. Dadas as informações contextuais (manifestação de civis reprimida por policiais), a primeira inferência é que o homem seja um civil, portanto um manifestante. E o coração se aquece ao ver um ato de solidariedade do manifestante para com aquele que atua no outro lado da linha: o policial que agride com bombas de gás lacrimogêneo, spray de pimenta e cassetetes.

O homem que carrega a policial causou polêmica porque foi identificado como um policial à paisana. O objetivo de uma manifestação não é o confronto com a polícia, mas a manifestação da insatisfação de uma categoria. O objetivo da polícia é conter (reprimir) a manifestação. Para tanto, usam armas  legitimadas pela sociedade, entendidas como "educativas". Atacar a população indefesa não seria honroso. É preciso esperar que a manifestação saia do controle para que a reação brutal da polícia seja justificada. Quando a centelha da violência não sai, o fogo é ateado por agentes infiltrados. E o coração se aperta com esses ranços da ditadura.


Hoje o Brasil passa por um momento de insurreição popular em torno do aumento da tarifa do transporte público. Estão acontecendo manifestações nas capitais brasileiras contra o descaso do poder público com a coisa pública. O transporte público (que não é público, porque é administrado por empresas privadas e não oferece passe livre) sucateado e o aumento da tarifa são motivo de insatisfação. Os manifestantes reclamam o direito à cidade, o direito de ir e vir, o direito de se manifestar.

A violência desmedida com que as manifestações foram combatidas transformou os R$ 0,20 da disputa em uma luta pela cidadania. Mirados, perseguidos, feridos, presos, removidos e humilhados, os manifestantes sofreram violência física legitimada pelo Estado. Na Turquia, o projeto de transformar a praça pública num shopping equivale ao projeto brasileiro de combater a inflação repassando a conta pro povo. Em ambos os casos, os direitos individuais e o acesso aos bens públicos no espaço urbano estão em questão.

No quarto dia de protestos contra o aumento da tarifa do transporte público em São Paulo foi escrito um texto diametralmente oposto a outro, escrito no dia anterior. O que eles têm em comum é que foram escritos sob pontos de vista díspares (mas não antagônicos). Sakamoto escreve sob o ponto de vista do manifestante aterrorizado pela truculência da polícia, o editorial do Estadão escreve sob o ponto de vista de quem assiste à desordem sentado no sofá e lamenta, horrorizado, o vandalismo do povo lá fora.

Sakamoto é engenhoso: utiliza o esqueleto do editorial do Estadão para narrar a mesma história - de outro ponto de vista. Somente os primeiros parágrafos de cada texto:

No terceiro dia de protesto contra o aumento da tarifa dos transportes coletivos, os baderneiros que o promovem ultrapassaram, ontem, todos os limites e, daqui para a frente, ou as autoridades determinam que a polícia aja com maior rigor do que vem fazendo ou a capital paulista ficará entregue à desordem, o que é inaceitável. Durante seis horas, numa movimentação que começou na Avenida Paulista, passou pelo centro - em especial pela Praça da Sé e o Parque Dom Pedro - e a ela voltou, os manifestantes interromperam a circulação, paralisaram vasta área da cidade e aterrorizaram a população.

No quarto dia de protesto contra o aumento da tarifa dos transportes coletivos, o Estado policialesco que o reprime ultrapassou, ontem, todos os limites e, daqui para a frente, ou as autoridades determinam que a polícia não aja feito um animal que baba, ao contrário do que vem fazendo, ou a capital paulista ficará entregue à desordem, o que é inaceitável. Durante sete horas, numa movimentação que começou na Praça Ramos de Azevedo, passou pelo Centro – em especial pela Praça da República e a Rua da Consolação – chegando à avenida Paulista, os policiais provocaram conflitos com os manifestantes, agrediram jornalistas e aterrorizaram a população.

sábado, 8 de junho de 2013

O fio vermelho

No banho, de repente a água quente começou a ter cheiro de plástico queimado. Achamos estranho e esperamos pra ver se acontecia de novo. Sim, depois que a água esquentava (estamos no que Luis chama de Sibéria do Brasil: 9ºC a 12ºC de noite e de manhãzinha), o cheiro de plástico queimado se alastrava pela região do chuveiro. Fui ver a instalação que eu tinha feito do chuveiro mega power thermosystem e constatei que uma fumacinha cinza saía do fio vermelho cuja capa plástica derretia.

Sei que esse chuveiro puxa muita energia e sei que um fio queimado pode ter como resultado um curto-circuito, choque, sei lá. Nossas vidas podiam estar por um fio se aquele chuveiro continuasse assim.

Vasculhei nos papeizinhos, cartões e propagandas e encontrei o anúncio de um sujeito que faz mudança, instala ar condicionado, desentope pia e mexe em parte elétrica. Liguei e ele veio meia hora depois. Chegou dizendo que quase virou meu vizinho, mas que não deu certo porque queriam fiador e aí complicou. Deu risada e foi ver o chuveiro. Diagnosticou que o fio era muito fino (1,5 quando o ideal era 4 pra mais), que o disjuntor era muito fraco (25 quando esse tipo de chuveiro pede 40) e disse que agora, agora, não dava pra ele resolver isso, porque ele tava ocupado com outro serviço. Deu a impressão de que a operação era simples: trocar um fio e um disjuntor, como se eu, que instalei o chuveiro, pudesse realizar o serviço. A meu pedido, deixou outro telefone: de uma loja que vende material elétrico e sempre tem uns piá que faz esse serviço.

Comentei com o Luis (que não tinha acompanhado o fio da meada, porque estava trabalhando) que eu tinha ficado intrigada com essa coisa medieval de fiador, porque não era preciso provar que você tinha condições de sustentar um aluguel, mas era preciso ter amigos que garantissem, através de seus bens, a manutenção do seu compromisso. Pensando na fiação que precisava trocar, Luis me perguntou que fiador era esse, que eu tava falando.

Liguei na loja, a moça me deu um número de telefone. Já eram 10:30 e o rapaz viria dali a meia hora com uns metros aí de fio e um disjuntor mais potente. Na hora em que eu esperava ouvir a campainha, tocou o telefone. Era o eletricista, querendo saber se eu tinha escada. Tinha. Era uma das coisas insólitas que eu tinha trazido de Porto Velho. Lá, eu usava muito a escada: pra colher caju, manga, gato do forro ou do telhado etc. Achei que a escada não teria utilidade num apartamento térreo, mas teve.

O telefone tocou de novo. Atendi olhando pro portão da rua. Era o eletricista de novo, dizendo que estava no prédio de número 132, mas que não tinha nenhum apartamento no primeiro andar. Eu olhava pra fora da janela e teimava: você não está na frente do 132, porque eu não estou te vendo. Ele caminhou até o prédio ao lado abismado: o prédio do lado tem o mesmo número que esse!

O homem atravessou o horário do almoço tentando puxar o fio vermelho (rígido, pouco flexível) que ele tinha soltado da caixa do disjuntor pelo buraco da lâmpada mais próxima, depois pela caixa mal posicionada no teto de gesso rebaixado do banheiro e depois pela parede, acima do chuveiro. Me cobrou pelo material usado e converteu o cálculo da mão-de-obra não em tempo, nem na visita, mas no número de buracos que ele teve que abrir (a caixa do disjuntor, 2 plafons da lâmpada, a caixa no teto do banheiro).

E Luis seguia escrevendo. Mais tarde, no almoço, confessou que percebeu durante a escrita de hoje (e leituras paralelas à escrita) que tinha agarrado um fio que não o conduziria para fora do labirinto do texto. Entendeu que o fio que tinha escolhido o enredaria numa armadilha. Em tempo, conseguiu encontrar o fio vermelho que sustenta o seu texto.

Nossas vidas por um fio, quase duas horas pra trocar esse fio que acompanhava o texto que Luis escrevia.

sábado, 1 de junho de 2013

Fixação no aparelho

Acordo de manhã com um ferro na boca, mal fecho a boca, e para fechá-la, o lábio inferior tem que subir um pouco mais que o normal. Não consigo assoprar, lamber os lábios ou passar batom (de manteiga de cacau) porque não consigo pressionar um lábio sobre o outro. Meus dentes estão se movendo, estão fora do lugar, meio desalinhados - e doendo. Passo o dia apalpando os dentes com a língua e chego à conclusão de que ter consciência dos dentes o tempo todo não é agradável. Quando Luis me pergunta se o café está bom, respondo que o calor do café interage com o metal do aparelho e quando ele pergunta se a comida está boa, descrevo a dificuldade de mastigar alimentos grandes, fibrosos, duros etc. É preciso escovar os dentes a cada refeição, porque o aparelho exerce muito bem o seu papel de reter partes de alimentos. Acho que mês que vem vou pedir ao dentista que coloque elásticos verdes, pra ver se orna com salsinha e cebolinha. Acho que estou falando menos, porque o atrito da parte interna d... (como chama essa parte do corpo entre lábio e nariz?) enfim, o atrito da boca com o aparelho incomoda. Ainda falta colar metal nos molares superiores e em todos os dentes inferiores.