terça-feira, 18 de junho de 2013

Distorção

William Bonner voltou a apresentar o Jornal Nacional ao lado da Patrícia Poeta. Justificou sua volta de Fortaleza dizendo que considerou mais importante cobrir os protestos e anunciou que tinha passado o bastão para um especialista: Galvão Bueno foi logo entrevistando o técnico da seleção brasileira sobre o que ele achava dos protestos.
Marcelo Justo/Folhapress

Ou seja, a Copa das Confederações existe, mas não é preciso falar sobre ela agora - mesmo porque ela também é um dos pontos de descontentamento da população. Por isso é bom não falar muito, já que as pessoas que habitam os lugares que sediarão os megaeventos estão sentindo que esses eventos são efêmeros e circos montados para os outros. Estão tendo o acesso à cidade negado, estão sendo despejados e removidos. Então a Copa das Confederações só entra na pauta quando o Brasil ganhar com festa e fanfarra. A propósito, quem decide o que o JN noticia?
Fabio Braga/Folhapress

Depois da volta do apresentador, as notícias sobre os protestos de ontem e hoje se misturavam no Jornal Nacional, mas a sua edição foi cuidadosamente preparada. Primeiro mostraram as manifestações pacíficas, enfatizando e repetindo a palavra "pacífico". Depois, em outro bloco, mostraram os atos de vandalismo e destruição, enfatizando e repetindo as palavras "vandalismo" e "violência". Depois desses blocos claros e discretos de mocinhos patriotas e bandidos punks na manifestação, alternaram, por exemplo, cenas de fogo e disparo de armas de fogo com cenas de uma manifestante reclamando do vandalismo de uma pequena parcela dos manifestantes. Depois da cena dos caixas eletrônicos do Itaú completamente destruídos, mostraram a cena de manifestantes limpando pixações. Outra dobradinha foi a imagem de ônibus queimados e um manifestante reclamando dos baderneiros.
Joel Silva/Folhapress

A manipulação da Rede Globo é sutil: não deixa de veicular informação, nem reescreve os fatos, como em 1984, de George Orwell:

“E se todos os outros aceitassem a mentira imposta pelo Partido – se todos os anais dissessem a mesma coisa – então a mentira se transformava em história, em verdade. “Quem controla o passado”, dizia o lema do Partido, “controla o futuro; quem controla o presente, controla o passado”. (...) Bastava apenas uma série infinda de vitórias sobre a memória. “Controle da realidade”, chamava-se. Ou, em Novilíngua, “duplipensar”.” (p. 36)
Fabio Braga/Folhapress

A estratégia é direcionar o olhar (condescendente para o protesto PACÍFICO envolto na bandeira do Brasil e condenatório para os atos de VANDALISMO encapuzado) e botar na boca do povo os motivos do protesto: contra a corrupção, contra o governo, contra o alto custo de vida.
Eduardo Knapp/Folhapress

Lembra da marcha contra a corrupção - que não pegou? Como se luta contra a corrupção? Há diversas formas mais engajadas do que indo às ruas. E se o protesto é contra o governo, então quem se habilita a fazer melhor? Quem se candidata? Quem o movimento elege como líder para preencher o lugar vazio? Se não é pra derrubar o governo, o que se ensina pro governo então? Em muitas cidades a diminuição da tarifa do transporte coletivo já foi reduzida em R$ 0,10. Isso basta pra todo mundo voltar pra casa satisfeito? Cadê a proposta de mobilidade/ acessibilidade urbana?
Marcelo Justo/Folhapress

Protestos facilmente condenáveis pelos atos de violência e em favor de uma pauta difusa não têm futuro e são rapidamente banalizados. É preciso achar o foco das manifestações. É preciso evitar que a mídia corporativa distorça tudo a seu favor. E a mídia corporativa não quer a Revolução; prefere contar até os centavos o prejuízo material das manifestações.

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