O programa dos Dois Minutos de Ódio variava de dia a dia, sem que porém Goldstein deixasse de ser o personagem central cotidiano. Era o traidor original, o primeiro a conspurcar a pureza do Partido. (p. 16)
Repórter sobrevoando o Rio: "Um grupo pequeno de baderneiros infiltrados insiste em confrontar a polícia que já tinha dispersado os manifestantes que foram para o sentido oposto, mas essa dezena de manifestantes aqui insiste em provocar os policiais."
[Goldstein] insultava o Grande Irmão, denunciava a ditadura do Partido, exigia a imediata conclusão da paz com a Eurásia, advogava a liberdade de palavra, a liberdade de imprensa, a liberdade de reunião, a liberdade de pensamento, gritava histericamente que a revolução fora traída (...). (p. 16)
Luis no telefone: "Estão dizendo que tem um milhão de manifestantes nas ruas! Tá tenso aqui no Rio. Quê que a Poeta tá dizendo na Globo? Continua dizendo que é a minoria que está agindo com violência? É a maioria, todo mundo aqui está pronto pro embate."
O estranho, todavia, é que embora Goldstein fosse odiado e desprezado por todo mundo, embora todos os dias, e milhares de vezes por dia nas tribunas, teletelas, jornais e livros suas teorias fossem refutadas, esmagadas, ridicularizadas, apresentadas aos olhos de todos como lixo à-toa ... e apesar de tudo isso, sua influência nunca parecia diminuir. (p. 17)
Na Globo: Lamentável, um pequeno grupo de manifestantes mais agressivos, lamentável, atos de vandalismo, lamentável, estão incendiando cones, lamentável, isso dá multa, não é? lamentável, muitas bombas de gás lacrimogêneo, lamentável, fumaça e irritação, lamentável, bombas de borracha, lamentável, entenda como a polícia faz o isolamento: são três linhas de contenção.
No segundo minuto o Ódio chegou ao frenesi. Os presentes pulavam nas cadeiras e berravam a plenos pulmões, esforçando-se para abafar a voz alucinante que saía da tela. (p. 17 -18)
Bonner: "Está rodando pela internet um relato de manifestações ocorridas na Argentina, em que, quando havia atos de vandalismo, os ver-da-dei-ros manifestantes sentavam no chão, e só os vândalos continuavam de pé. Assim fica fácil identificar, separar o joio do trigo e facilita o trabalho da polícia para identificar os baderneiros infiltrados."
(...) a fúria que se sentia era uma emoção abstrata, não dirigida, que podia passar de um alvo a outro como a chama dum maçarico. (...) Nesses momentos seu [Winston Smith] ódio secreto pelo Grande Irmão se transformava em adoração, e o Grande Irmão parecia crescer, protetor destemido e invencível, firme como uma rocha contra as hordas da Ásia (...). (p. 18)
Repórter sobrevoando São Paulo: "A manifestação está muito pacífica, muito bonita de se ver, a imagem de todos os pontos do asfalto cobertos de gente se movimentando é muito interessante."
GUERRA É PAZ
LIBERDADE É ESCRAVIDÃO
As bandeiras dos partidos políticos e movimentos sociais foram repudiadas pelos manifestantes. A palavra de ordem era "Sem Partido". Os prefeitos e governadores das cidades em que houve mudança da tarifa tiveram um papel totalmente marginal, coadjuvante: obedeceram às pressões. Não aprenderam com as manifestações, não usaram o momento a seu favor para discutir planos e projetos de atender à reivindicação maior por direitos. Nenhum partido político aparece na mídia, nenhum partido tem voz. A mídia reina, a mídia é o Estado e está do lado da força policial.
IGNORÂNCIA É FORÇA
A notícia da pessoa que morreu atropelada - durante a manifestação - por um motorista de SUV em Ribeirão Preto, capital do agronegócio, que atropelou 12 matando 1 foi dada como se noticia o aumento do dólar. A violência de um homem irritado com a imobilidade de seu carro potente é explicada com naturalidade. A violência de milhares de manifestantes contra símbolos do poder nas ruas de diversas cidades do país não merece explicação por parte da mídia, porque essa violência é categorizada como vandalismo, indesejável, tabu.
Um comentário:
Perfeito!
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