quinta-feira, 20 de junho de 2013

De 1984 a 2013

O programa dos Dois Minutos de Ódio variava de dia a dia, sem que porém Goldstein deixasse de ser o personagem central cotidiano. Era o traidor original, o primeiro a conspurcar a pureza do Partido. (p. 16)

Repórter sobrevoando o Rio: "Um grupo pequeno de baderneiros infiltrados insiste em confrontar a polícia que já tinha dispersado os manifestantes que foram para o sentido oposto, mas essa dezena de manifestantes aqui insiste em provocar os policiais."

[Goldstein] insultava o Grande Irmão, denunciava a ditadura do Partido, exigia a imediata conclusão da paz com a Eurásia, advogava a liberdade de palavra, a liberdade de imprensa, a liberdade de reunião, a liberdade de pensamento, gritava histericamente que a revolução fora traída (...). (p. 16)

Luis no telefone: "Estão dizendo que tem um milhão de manifestantes nas ruas! Tá tenso aqui no Rio. Quê que a Poeta tá dizendo na Globo? Continua dizendo que é a minoria que está agindo com violência? É a maioria, todo mundo aqui está pronto pro embate."

O estranho, todavia, é que embora Goldstein fosse odiado e desprezado por todo mundo, embora todos os dias, e milhares de vezes por dia nas tribunas, teletelas, jornais e livros suas teorias fossem refutadas, esmagadas, ridicularizadas, apresentadas aos olhos de todos como lixo à-toa ... e apesar de tudo isso, sua influência nunca parecia diminuir. (p. 17)

Na Globo: Lamentável, um pequeno grupo de manifestantes mais agressivos, lamentável, atos de vandalismo, lamentável, estão incendiando cones, lamentável, isso dá multa, não é? lamentável, muitas bombas de gás lacrimogêneo, lamentável, fumaça e irritação, lamentável, bombas de borracha, lamentável, entenda como a polícia faz o isolamento: são três linhas de contenção.

No segundo minuto o Ódio chegou ao frenesi. Os presentes pulavam nas cadeiras e berravam a plenos pulmões, esforçando-se para abafar a voz alucinante que saía da tela. (p. 17 -18)

Bonner: "Está rodando pela internet um relato de manifestações ocorridas na Argentina, em que, quando havia atos de vandalismo, os ver-da-dei-ros manifestantes sentavam no chão, e só os vândalos continuavam de pé. Assim fica fácil identificar, separar o joio do trigo e facilita o trabalho da polícia para identificar os baderneiros infiltrados."

(...) a fúria que se sentia era uma emoção abstrata, não dirigida, que podia passar de um alvo a outro como a chama dum maçarico. (...) Nesses momentos seu [Winston Smith] ódio secreto pelo Grande Irmão se transformava em adoração, e o Grande Irmão parecia crescer, protetor destemido e invencível, firme como uma rocha contra as hordas da Ásia (...). (p. 18)

Repórter sobrevoando São Paulo: "A manifestação está muito pacífica, muito bonita de se ver, a imagem de todos os pontos do asfalto cobertos de gente se movimentando é muito interessante."

GUERRA É PAZ

Hoje a Globo fez uma cobertura extensa (a novela das 7 foi cortada, o jornal regional também) da maior manifestação até agora nas cidades brasileiras. 90 cidades tinham anunciado manifestações, dentre elas Porto Velho, Manaus, Cuiabá, Passo Fundo etc. Nenhuma dessas cidades foi apresentada no Jornal Nacional estendido, porque principalmente a violência em Brasília, Belém, Campinas, Rio e Porto Alegre foi mostrada. São Paulo quase não apareceu porque houve poucos incidentes de vandalismo. A Globo se comportou como um abutre do vandalismo. E toda vez que os "baderneiros infiltrados e agressivos" eram mostrados, insistia-se em repetir que integravam "um grupo pequeno que não representa a maior parte dos manifestantes". Notavam que andavam encapuzados e não mostravam a cara. Bonner concluía que obviamente não protestavam contra a corrupção, por melhorias na saúde e educação, mas se aproveitavam das manifestações pacíficas e legítimas para criar confusão.

LIBERDADE É ESCRAVIDÃO

As bandeiras dos partidos políticos e movimentos sociais foram repudiadas pelos manifestantes. A palavra de ordem era "Sem Partido". Os prefeitos e governadores das cidades em que houve mudança da tarifa tiveram um papel totalmente marginal, coadjuvante: obedeceram às pressões. Não aprenderam com as manifestações, não usaram o momento a seu favor para discutir planos e projetos de atender à reivindicação maior por direitos. Nenhum partido político aparece na mídia, nenhum partido tem voz. A mídia reina, a mídia é o Estado e está do lado da força policial.

IGNORÂNCIA É FORÇA

A notícia da pessoa que morreu atropelada - durante a manifestação - por um motorista de SUV em Ribeirão Preto, capital do agronegócio, que atropelou 12 matando 1 foi dada como se noticia o aumento do dólar. A violência de um homem irritado com a imobilidade de seu carro potente é explicada com naturalidade. A violência de milhares de manifestantes contra símbolos do poder nas ruas de diversas cidades do país não merece explicação por parte da mídia, porque essa violência é categorizada como vandalismo, indesejável, tabu.