segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Língua e comunicação

"Our languages are not the prerequisite for communication;
rather, they are the result." (KELLER, 2004, p. 4)

terça-feira, 10 de setembro de 2013

A abordagem

Recentemente peguei carona. Por infortúnio, pegamos trânsito lento e o carro parou na altura de um policial. O homem olhou pra dentro do carro e mandou encostar. Enquanto encostava, o motorista pensou qual poderia ser o motivo da abordagem. Colocou o cinto antes do policial chegar.
- O motivo da abordagem, senhor, é que o senhor estava sem cinto. Eu vi.

*

Philip me contou que num dia bem bonito, tipo aqueles primeiros dias de primavera depois de um longo inverno, ele atravessou a rua sem olhar para o semáforo. Do outro lado da rua, um policial o abordou:
- O senhor confirma que acaba de atravessar a rua no farol vermelho?

*

Muito tempo atrás, logo na primeira vez que eu cortei o cabelo bem curtinho, fiz uma excursão ciclística a Paulínia. O acostamento era muito poroso e cheio de pedrinhas, de modo que eu me equilibrei com a minha bicicleta em cima da linha branca que separa a faixa do acostamento. O policial que me esperava de pernas afastadas e braços cruzados gritou:
- Quê que cê fez de errado, mermão?

Não considero que qualquer uma das posturas relatadas aqui seja defensável. Erramos todos que fomos abordados pelos policiais. Mas a maneira como fomos abordados é tão diversa... O grandalhão que me parou na rodovia achou que eu era homem (ficou super sem-graça quando percebeu o equívoco) e que era preciso ser autoritário. A tentativa de ser didático ficou na sombra da cordialidade. O policial que abordou o Philip negociou com ele uma verdade. O rapaz estava distraído, nem tinha se ligado no farol. Quando se virou para trás, viu a mudança de cores e se viu obrigado a concordar com o policial. Já o policial que abordou o motorista sem cinto de segurança insistiu em ter razão. O motorista poderia ter dito o que quisesse, o policial manteria a razão: eu vi.

domingo, 8 de setembro de 2013

Caminhar é preciso

Caminhar tem uma função:
experienciar o caminho.

Sentir os joelhos e os pés se movendo
ter consciência de que as pernas servem para andar
Sentir a postura do corpo e o impacto no chão
e ignorar o calor do sol
Ouvir os passarinhos, os passantes
e o ritmo dos próprios passos
Sentir o cheiro da primavera
espalhando pólen pelo ar
Lembrar de outros caminhos e
esquecer o ponto de partida e de chegada.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Joseph K

Assim como o personagem de Kafka, tento recorrer a todas as instâncias da máquina burocrática para resolver o meu caso. Como Joseph K, não entendo bem como surgiu o meu problema. Tal como Joseph K, não consigo conviver resignadamente com o imbróglio e me sinto ameaçada pelo desconhecido que me mostra que a minha palavra vale pouco ou quase nada e que confio mais nas funções das pessoas na máquina do que na capacidade das pessoas de cumprirem suas funções. Se eu fosse Joseph K, talvez descobrisse que o meu Processo foi um engano, uma falha no sistema, um descompasso imprevisto na burocracia; e teria vontade de me matar justamente porque o sistema deixou de funcionar como o previsto. Diferentemente de Joseph K, sobreviverei ao Processo e provavelmente terei que engolir um "desculpe o transtorno, mas é que aconteceu o seguinte..."

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Você é nova aqui?

Antes das férias, foram distribuídas as turmas do segundo semestre e foi enfatizado que qualquer mudança ou troca de disciplinas teria que ser feita em reunião, com a ciência de todos. Quando voltei das férias, vi que duas das minhas três disciplinas tinham sido trocadas.

Enquanto eu esperava a secretaria do meu departamento abrir, vi, no mural, que uma das disciplinas que eu daria (conforme havia sido combinado em reunião de departamento) estava sendo ofertada por um professor que mandava avisar que as aulas somente começariam na semana que vem.

A secretária do departamento me explicou que não pode desfazer a troca das disciplinas, só a chefe de departamento - que está fora. A vice-chefe, que responderia pela chefe na ausência dela, também está fora. Explicou também que aquele professor que de repente está de posse da minha disciplina - e que eu não conhecia - tinha sido pró-reitor na gestão passada e agora, que a gestão passada perdeu as eleições, estava voltando ao departamento.

A outra disciplina, uma DCG (optativa, cuja ementa e programa eu elaborei e que foi aprovada em reunião de departamento e encaminhada para a coordenação do meu curso), não chegou nem mesmo a ser ofertada por causa do conflito de horário com as duas disciplinas que me deram sem o meu consentimento.

Fui no DERCA, órgão responsável pela administração das turmas, disciplinas e tal. O funcionário que me atendeu entendeu a situação e me instruiu a escolher muito bem as palavras, porque esta não era apenas uma questão técnica, era, antes de mais nada, uma questão política que causava mal-estar e melindres. Como eu continuei com a fisionomia tensa, ele perguntou:
- Você é nova aqui?

Fui na Coordenação do curso ao qual pertencem as disciplinas que me foram atribuídas sem o meu conhecimento. Expliquei que a minha chefe e vice-chefe estavam ambas ausentes e que eu queria resolver logo a situação. Disseram que, na ausência da chefe e da vice-chefe quem responde é o diretor do centro e que ele teria a autoridade para fazer a mudança. Suspirei profundamente e me perguntaram:
- Você é nova aqui?

Fui na Diretoria do Centro de Artes e Letras, mostrei a cópia do memorando que encaminha o pedido da oferta da DCG, expliquei que a DGC não havia sido ofertada por causa do conflito de horário com as outras duas que apareceram na minha grade de horários não sei como. Quando ele entendeu o problema, mencionei que ainda havia uma outra disciplina que era minha e que tinha sido designada a outro professor que tinha sido pró-reitor. Mais uma vez, a famigerada pergunta:
- Você é nova aqui?
Respondi com a minha data de posse. O diretor do Centro teve a ideia de oferecer ao ex-pró-reitor, conhecido dele, as minhas duas disciplinas em troca daquela que tinha sido minha. Espero que consigam reverter a situação absurda em que fui colocada porque não tenho cacife pra ministrar as disciplinas que todos concordaram em reunião de departamento que eu daria.

domingo, 1 de setembro de 2013

O valor do tempo

Enquanto Rainer Christian acendia a fogueira que assaria o nosso churrasco, filosofou:

eu sei acender fogueira de diversas maneiras, mas nada disso vale se no supermercado me vendem somente esse líquido infalível que acende e mantém acesa qualquer fogueira. A carne já vem temperada, a salada de batatas já vem pronta. É possível comprar tudo pronto na Alemanha. Aqui as pessoas valorizam mais o tempo do que o dinheiro.

Na ocasião, Luis lembrou de uma estória que eu tinha lhe contado sobre os serviços na Europa: uma guria estava com a lâmpada do farol dianteiro do carro queimada. Foi na loja para comprar a lâmpada e o vendedor perguntou se queria que instalasse a lâmpada. Ela disse que sim. Sentou, recebeu um cafezinho e cinco minutos depois veio a conta. Pagou pela lâmpada e pela hora (cheia) de serviço do mecânico.