terça-feira, 30 de junho de 2009

O futuro

O futuro vai atrasar uns quinze minutinhos, ok?

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Divulgando a bicicleta

Em 2006, ano em que comprei a Amarilda, fiz uma cicloviagem solo pelo litoral paulista. Com a bicicleta no bagageiro, fui de ônibus a Paraty. Já no ônibus as pessoas vinham conversar comigo sobre uma mulher viajando sozinha de bicicleta.

Fiquei em Paraty por 3 dias, no albergue (da juventude) e fiz amizade com o povo de lá. Durante o churrasco para os hóspedes do albergue que eu ajudei a preparar, apareceu um amigo do churrasqueiro que tinha voltado da Praia do Sono porque tinha acabado a comida dele lá. Ficou sabendo que eu estava de bike e teve vontade de fazer a trilha à Praia do Sono de bike. Fomos os dois pegar trilha punk rock. Eu mais carreguei a bicicleta que pedalei sobre raízes, buracos, pirambeiras e pedras. Lucas foi que se divertiu à beça.

Peguei a estrada e lamentei as condições do acostamento. A paisagem, por outro lado, era fantástica.
Em Ubatuba voltei a ficar em albergue. Eu pedalava um dia - o dia todo - e descansava as pernas e a coluna no dia seguinte, caminhando pela praia. Enquanto pedalava, fazia pausas de uns 20 minutos pra comer nozes, frutas secas, doce de leite. Não era almoço, e não dava tempo do corpo esfriar. Pedalava entre 70km e 90km nos dias em que pedalava.

No albergue de Maresias fiz amizade com dois paulistas que não acreditavam que eu sabia trocar pneu. Muita gente vinha na minha janela pra conversar com aquela doida que tinha vindo de bicicleta. Tadeuzinho estava em pé na manhã em que fui embora de lá. Mas duvido que tenha sido difícil pra ele varar a noite.

Em São Vicente eu parei porque estava escuro, não porque tinha albergue. O hotel que tinha escolhido pra dormir era tão furreca, que nem descansei na cidade. Pedalei dois dias seguidos e peguei aquele retão até Peruíbe. As praias ficaram cinzas, não tinha diversidade na estrada, a posição na bicicleta não mudava. Em Peruíbe fui adotada por um casal hospedado no albergue.

No penúltimo dia cruzei as serras e fui a Barra do Una, visitar o Zeca e a família. A gente sempre acampava no 'Camping Familiar Bar do Zeca'. Ficaram todos felizes com a minha visita, mas o Zeca só falava mesmo era do meu pai. Voltei pra Peruíbe antes de escurecer e na manhã seguinte acomodei a minha companheira amarela no bagageiro do ônibus.

Voltei à vida normal, mas quis falar dessa viagem solo. Fui no jornal da Unicamp e publicaram a minha estória.

* * *

Outra vez que fui parar em jornal por causa de bicicleta foi agora, no jornal do bairro que a Mônica, dona da casa em que moro, edita. Ela queria colocar a bicicleta na 'Coluna Verde' do jornal 'Mais ação', que tem uma tiragem de 4 mil exemplares. Pediu que eu pensasse em algo do tipo 'bons motivos para ir de bicicleta'. Consegui juntar uns argumentos, mas me dei conta que só urgir para as massas que vão de bicicleta para os lugares não era o suficiente. Era preciso informar essas pessoas sobre como se comportar no trânsito.

Numa folha elenquei alguns bons motivos para a pessoa usar a bicicleta como meio de transpote, já que o ciclista faz exercício, não polui o ar e respira menos poluição que alguém preso num carro, não faz barulho, não gasta com estacionamento, gasolina, licenciamento etc., desenvolve outra relação com a cidade e suas rotas, ocupa menos espaço nas ruas, é mais ágil em horários de pico e tem autonomia em relação a conserto.

Numa segunda folha, listei algumas regras e dicas de comportamento no trânsito voltadas para ciclistas: a bicicleta tem todo o direito de trafegar na via, não deve circular pela calçada ou contramão, o ciclista deve respeitar pedestres e parar no farol antes da faixa de pedestres, sinalizar com o braço que vai mudar de direção ou manter a reta num ponto em que muita gente vira à direita, prestar atenção em portas de carros estacionados, usar luzinhas de noite para se fazer visível e compartilhar a via.

Numa terceira folha, enumerei regras e dicas para motoristas. Coisas do tipo
a bicicleta é um veículo e não deve trafegar pela calçada ou contramão, portanto não buzine para ciclistas. Use o freio, não a buzina. Não feche ciclistas. Compartilhe a via. Olhe pelo espelho retrovisor antes de abrir a porta do seu carro, para certificar-se de que não está colocando a vida de nenhum ciclista em risco.

As duas primeiras folhas foram publicadas na página central. Quando o jornal que tenho impresso à minha frente tiver sua versão em pdf, puxo um link pra cá.

domingo, 28 de junho de 2009

Pedal Verde de luto

O ponto de encontro era a Praça do Ciclista e a saída estava marcada pras 10:00. A proposta dessa vez não foi plantar árvores, mas ver com os próprios olhos os restos mortais das árvores serradas no canteiro central da Marginal Tietê, na altura da Ponte do Cruzeiro e da Rodoviária.

A galera foi chegando aos poucos, dando vida à praça. Um me perguntou se eu não era a meninamalouca. Finalmente pôde associar a pessoa às palavras lidas no blog. E eu tive a chance de conhecer um sujeito bacana, cicloativista e promotor da bicicleta e do cicloturismo em Floripa. Grande Eduardo Green, que não me acha pequena. Reencontrei a sempre sorridente Katherine, que veio numa reclinável trazida do Rio.

Saímos por volta das 11:00, mas chegamos no nosso destino no horário previsto (12:00). Subimos no canteiro central passando por debaixo do braço de uma máquina daquelas que se usa em demolições ou obras. O funcionário sentado na gaiola da máquina sorria praqueles ciclistas que tinham vindo ver o fim das árvores centenárias. Os funcionários envolvidos na obra de ampliação da Marginal ficaram observando a gente. Os funcionários da CET vieram logo para acenar aos motoristas que não parem na Marginal, que continuem, que o trânsito continue a fluir. Alguns motoristas pararam o carro e vieram caminhar entre os tocos de árvore, raízes que teimavam em fincar-se no chão e lama misturada com raízes arrancadas por máquinas. A mídia corporativa com repórter e filmadora no ombro chegou também.

Um cara veio com umas tiras de lençol (ou cortina, não perguntei) e disse que ia pendurá-las nas árvores remanescentes. Interpretei aquilo como um convite e acompanhei o japonês. Avisei que eu não subiria na árvore, mas podia lhe dar os panos quando ele estivesse lá em cima. Em dado momento, ele me disse que eu podia amarrar tirinhas nas outras árvores. Interpretei aquilo como um pedido e lá fui eu, abraçar troncos de árvore e amarrar tiras de pano brancas nelas. Um dos encarregados da obra veio me perguntar se eu tava fazendo aquilo porque a árvore estava marcada para morrer. Gostei da interpretação dele. Ele ficou satisfeito e disse que era do desenvolvimento ambiental, e que essas derrubadas seriam compensadas. Nas minhas excursões a árvores para serem adornadas, reparei numa seiva vermelha saindo de um tronco em um lugar em que a árvore tinha levado uma pancada. Voltei ao Luciano (agora eu já sabia o nome dele) e perguntei se ele tinha máquina fotográfica. Ele interpretou a minha pergunta como um pedido e me deu a máquina dele. Voltei com a foto da seiva vermelho-sangue saindo do tronco.

Fui me misturar com as pessoas e ouvi a Aninha dizendo que um motorista tinha perguntado se a gente ia ficar pelado outra vez. Aline comentou que um motorista tinha mandado ela lavar roupa. A vida é dura.

Vi que um grupo de pessoas tinha feito uma xilogravura em cima do toco de uma árvore serrada. Outros produziam cruzes que fincavam sobre os montes de lama e raízes, tocos e onde mais houvesse lugar. Tiras brancas penduradas nas árvores, cartazes, cruzes. Ressaltamos o aspecto de cemitério daquele lugar.


Foto: Luddista

Voltei num bonde de mais ou menos 7 pessoas. Eu achava que eu chamava atenção nas ruas quando pedalo de bicicleta amarela, ou quando faço minhas cicloviagens (mulher de bicicleta no acostamento, alforjes, short colado, essas coisas). Mas pedalar com a Katherine em sua reclinada me mostrou o que é "capturar a atenção das pessoas".

Bom, espero que o protesto de hoje ganhe a devida atenção na mídia e desperte as pessoas para uma reflexão sobre o consumo abusivo do automóvel.

sábado, 27 de junho de 2009

Ponto de referência

Minha máquina fotográfica não faz mais fotos boas com luz natural. A luz fica estourada:

Quis levá-la pruma assistência técnica da Canon e olhei na internet onde tem esse tipo de serviço. Achei dois endereços, que eu anotei, juntamente com os números de telefone. Liguei na assistência da Consolação, mas ninguém atendeu. Liguei na de Pinheiros e perguntei se os caras consertavam a minha máquina.

Traz aqui.
Tá. O endereço é Avenida Rebouças, mas é mais perto da Paulista ou da Marginal?
Vixe, não sei. É no finzinho da Rebouças.
Imaginei, porque o número tem 4 dígitos. Mas onde é o fim da Rebouças? O trem é perto daí?
É aqui do lado.

Saí de casa sem o papel em que eu tinha anotado o endereço. Eu lembrava que era na Rebouças, número 39xx, e tinha uma informação adicional sobre um andar, mas já não lembrava se era 1° andar ou 1° subsolo. Eu vou achar, relax.

Desci do trem e entrei na Eusébio Matoso, convencida de que aquela era a Rebouças. Caminhei um tantão ao longo do Shopping Eldorado e além, sempre verificando as placas que me insistiam que aquela era a Eusébio, não a Rebouças. Mas é aqui! Nunca caminhei aqui, sempre passei de carro ou ônibus, e de repente tudo ficou tão longe e não tem placa anunciando a Rebouças. É, já aprendi que quando se está perdido de bike as placas demoram mais a aparecer que quando se está de carro. Uma questão de velocidade. Agora estava de pé2.

Cheguei na Rebouças e saquei que eu tinha dado uma putz volta. Voltei pela Rebouças, caminhando pela calçada arborizada, até chegar na Marginal. Nada deste lado da rua se parecia com um estabelecimento que tem uma assistência técnica da Canon no 1° andar ou subsolo. Do lado de lá tem o Shopping Eldorado. Se fosse lá dentro, teriam mencionado o shopping no endereço ou pelo telefone, não?


Conversei com um guarda. Com toda a segurança, apontou para o shopping e disse que na mesma loja, no 1° subsolo, tinha assistência técnica da Canon, Sony e outras marcas de máquina. Agradeci quase comovida (como o guarda sabe disso tudo?) e atravessei a rua.

Puxa vida, os caras têm um putz ponto de referência pra ajudar a pessoa a se localizar, e não o mencionam!

Sonhos

Você se lembra do que sonhou esta noite?
Seguramente sempre sonho muitas estórias.
São longas, complexas, mas não sei recontá-las.
Nelas, ouço sons, sinto texturas, temperaturas e cores.

Você se lembra do momento em que adormeceu?
Aquele momento em que seu eu cruza a linha.
A linha entre o mundo do corpo e o mundo dos sonhos.
Aquele momento em que uma estória começa a ganhar corpo.

Você se lembra do momento em que acordou?
Quem embaralhou a minha estória e me deixou só?
Com imagens esparsas, sons que reconheço ao longo do dia,
Sentimentos que me fazem uma baita falta.

Sonho músicas cheias de cores vivas,
Sonho conversas que gostaria de ter tido,
Sonho soluções para problemas,
Sonho o que não ouso imaginar em voz alta.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Carrocracia

Vá ver qual é o assunto principal na pauta dos cicloativistas de São Paulo. A mídia alternativa (blogs e afins) está expressando sua indignação com a derrubada de árvores no canteiro central da Marginal Tietê, primeira parte do programa de ampliação da Marginal.

Quando paulistano reclama de sua cidade, menciona o trânsito. Não é mais a violência, a poluição, a superpopulação. É o trânsito que não flui, que não anda, que causa estresse, que é um atraso de vida. Quando político quer ser lembrado e ter seu nome vivo na posteridade, manda fazer túneis, pontes, avenidas, cebolões e outras 'soluções de trânsito'. Na contramão de tantos outros países com culturas mais antigas (tipo a Europa) ou mais voltadas para uma boa qualidade de vida (penso em Bogotá), São Paulo investe na estrutura viária para carros.

Ninguém nunca se pergunta aqui por que usamos carros. É automático, faz parte da vida. As casas já têm garagem, o espaço para o carro já está previsto. O dono da casa que compre um carro para preencher esse espaço. O presente para o filho de classe média que faz 18 anos (ou passa no vestibular) é um carro. A carteira de motorista é o documento mais bem-visto por aqui (porque contém os números de RG e CPF e prova que o portador é um cidadão encaixado no sistema). O carro faz a economia girar: caminhe um quilômetro numa avenida e conte estabelecimentos ligados ao carro. Borracharia, mecânica, posto de gasolina, concessionária, som, insul film, autopeças, martelinho de ouro, funilaria & pintura, lava-rápido, drive-in, drive-thru.

Não nos damos conta do tempo que perdemos no trânsito ouvindo notícias sobre o trânsito. Não percebemos que respiramos a poluição que sai dos carros. Não nos tocamos que estamos ficando sedentários e obesos. Não nos ligamos que o consumo de carros está ligado a danos ambientais (desde a produção do carro: extração de metais, até a poluição do ar: emissão de CO2, impermeabilização do solo: asfalto). Não percebemos que o carro oferece, a curto prazo, o prazer da velocidade, conforto e status social; mas a longo prazo mata pessoas em acidentes, desequilibra eco-sistemas, reforça o aquecimento global.

Tirinha de ontem do Yehuda Moon
Quando foi que os carros começaram a rodar com os faróis acesos o tempo todo?
Houve um tempo em que deixavam os faróis ligados
Quando estavam a caminho de um funeral.
Então, o que mudou?

Pedalando na chuva

Agora não tenho mais desculpa pra não pedalar na chuva. Não tenho mais motivos pra me sentir miserável quando chego ao meu destino. A bicicleta tem paralamas, eu tenho capa de chuva (que eu prendo na cabeça com o capacete), as tralhas que carrego vão no alforge a prova d´água, as barras das calças são dobradas 4 vezes. Os pés molham e sujam, mas não faz mal.

Achei um par de sandálias cheias de furinhos que não acumulam água, secam rápido e podem ser usadas no local de trabalho sem causar frisson. Não foram baratas, mas super resolvem o meu desânimo pra pedalar na chuva. Antes, tênis e meias encharcavam, secavam devagar e precisavam ser lavados no tanque. Já me sugeriram chinelo, mas como a sola é lisa e mole, eu não usava Havaianas nem em dias secos e quentes. Também sugeriram meter o pé calçado num saco plástico, mas tive medo de escorregar. Motociclista faz isso, mas ele não faz a mesma força que eu sobre o pedal. Sandálias com furinhos me parecem ser a melhor solução.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Gatinha

Ela ainda não tem nome. Nós a chamamos de Gatinha e ela entende que é com ela. Ela não tem visto de permanência, só de turista. Quando veio, tava com o rabo necrosado. Agora não tem mais rabo, o que compromete um pouco o seu equilíbrio (especialmente quando corre, salta e derrapa). Mas vi que ela está praticando pras Olimpíadas, superando suas deficiências e capotando menos. Ela é super sociável, não briga com os outros gatos da casa e vem até a porta quando me ouve chegando em casa.
Se alguém quiser essa gatinha pra manter dentro de casa, avisa que a gente conversa mais.

Na sala





quarta-feira, 24 de junho de 2009

Dia de prova

No momento, estou usando a fantasia de professora de idiomas. São roupas velhas, que precisaram de muitos remendos e ajustes quando as tirei do baú. Agora já não me apertam mais, mas sinto que as cores e estampas estão totalmente fora de moda. O que faz eu me sentir deslocada é o fato de ter que aplicar prova. Não acho que a prova seja um bom meio de avaliar o aprendizado dos alunos, mas é o método que se estabeleceu. O que me chama atenção agora, nesse fim de semestre, é como os alunos lidam com a prova de maneiras diferentes. Para uns, é um mal inevitável, o atestado de sua incompetência. Para outros, um desafio que encaram com certo nervosismo. Para os últimos, mais um motivo para não aparecer na escola.

Dou aula em duas escolas, que adotam metodologias diferentes. Nas duas, tenho bastante liberdade para dar as aulas, mas no ponto prova, são muito diferentes. Uma escola fornece a prova pronta. A outra me pede gentilmente que eu elabore a prova. A prova pronta de inglês intermediário exige que o aluno saiba um certo vocabulário e tenha habilidades para resolver palavras cruzadas ou quebra-cabeças lexicais equivalentes. Quando demanda domínio de regras sintáticas, as questões são ambíguas, mal formuladas ou simplesmente contêm erros. O aluno não é estimulado a juntar palavras para formar sentenças, combinar sentenças para formar um texto, articular idéias para defender uma posição. Na prova que eu elaborei, insisti na construção de sentenças e manuseio inteligente do vocabulário que forneci na prova. Talvez os meus alunos de alemão básico 2 até fossem capazes de escrever um pequeno texto, mas desconfio que eles não sabem disso.

Alguns alunos chegam quietos, fazem a prova sisudos, consultam o minidicionário loucamente e sabem que não adianta, entregam no limite do tempo e declaram saber que erraram metade. Quando recebem de volta a prova corrigida e altamente modificada em termos cromáticos, suspiram resignados e dizem que já esperavam uma nota baixa. Aprendem gramática durante a correção da prova.

Outros chegam acelerados, anunciando que precisam olhar pro material da revisão por 5 minutos antes de começar a prova, batem o pezinho enquanto pensam, atendem o telefone que são incapazes de desligar, lêem em voz alta o enunciado quando a voz da professora na sala ao lado embaralha seus pensamentos. Quando recebem a prova corrigida, ficam insatifeitos com os errinhos bobos que cometeram.

Esses todos foram os meus alunos adultos, trabalhadores, estressados, que não estudaram o suficiente porque trabalham demais. Agora vem a descrição dos meus alunos adolescentes que estudam alemão porque é legal, porque o pai acha legal, porque é mais barato que aula de violão. Esses chegaram em polvorosa, querendo saber da prova de recuperação, querendo consultar o livro, que eu traduza tudo. Quando viram que eu não separei as cadeiras deles e sentei em cima da minha mesa, não pararam quietos. Pediam ajuda, denunciavam tentativas de cola, atrapalhavam os outros, diziam que não sabiam nada e iam dormir, apontavam que 'Elisabeth', no item 10 da última questão, se escreve com 'z'. Duvido que tenha havido 5 minutos consecutivos de silêncio nas 2 horas que tiveram para fazer a prova. Ajudei todo mundo, chamei atenção que estavam escrevendo em inglês, apontei erros de conjugação. E todos foram bem.

Ainda tem uma turma de jovens. Devem ter em média 25 anos, trabalham, fazem aula de alemão porque é legal e porque colecionam línguas. A prova seria hoje. Cancelaram.

terça-feira, 23 de junho de 2009

O preço das coisas

O preço das coisas é uma coisa. O valor das coisas é outra coisa, que envolve o custo de produção daquela coisa. Para mais informações sobre o valor das coisas, consulte Marx. O que me incomoda é o preço das coisas, porque ele varia. Não só varia de um vendedor para outro, como de um dia para outro na mão do mesmo vendedor. Acho uma droga ter que pagar mais caro no cinema nos fins de semana, que é quando os meus horários são compatíveis com os horários estabelecidos pela indústria do entretenimento. Acho um saco o vendedor me avisar que o produto que eu quero saiu da promoção no dia anterior. Mas o que mais me irrita é quando o preço anunciado na prateleira não confere com o preço registrado no código de barras.

O cliente raramente sai ganhando com essa disparidade. Lembro que quando eu era adolescente, fui pedir emprego em loja de shopping (bah... como a vida muda a gente!). Trabalhei um dia na loja - e não recebi por isso! - e vivenciei uma cena bizarra. Uma cliente finalmente se decidira por uma calça, depois de experimentar trocentas calças. A vendedora passou o código de barras no leitor. Preço: R$ 1,00. Se a cliente não tivesse visto aquele preço, teriam inventado um bem diferente. Mas ela tinha visto o preço e já tinha separado uma nota de R$ 1,-. A gerente veio voando, cafezinhos apareceram magicamente na mão da cliente, foi comprovado que não havia preços nas estantes e foi confirmado que a vendedora não tinha informado o preço para a cliente durante o atendimento. A cliente pagou a calça com aquela nota que ainda segurava na mão e assim que ela pôs o pé pra fora da loja, iniciou-se a mega operação de retirada de todas as peças das estantes para conferência de preço. Só uma outra peça custava R$ 1,-.

Comigo acontece o inverso. Eu chego na prateleira das águas e procuro muito até achar uma garrafa de água de 500ml que custe menos de R$ 1,00. É só isso que eu vou comprar, e acabo bebendo a água enquanto espero na fila do caixa. O homem passa a garrafa vazia no leitor e a tela do computador acusa R$ 1,43. Não, era R$ 0,89. O atendente de caixa acende a luzinha do caixa, alguém uniformizado vem, olha pra garrafa e volta com uma etiqueta. R$ 1,23. Não, olha só, a etiqueta é referente à garrafa de 300ml, essa água que eu tomei era de 500ml. Quer levar a garrafa, pra você identificar o preço mais fácil? Enquanto o sujeito vai, o caixa pergunta quanto que era mesmo que eu tinha visto, computa R$ 0,89, aceita a moeda que lhe dou e me volta R$ 0,10.

Todos os produtos em oferta são potenciais candidatos a discrepâncias, portanto nunca pego mais de 3 produtos em oferta. Minha capacidade de memória para números tem essa limitação. Não é miséria aguda ou sovinice crônica. É recusa de me deixar enganar na cara dura. Ultimamente os casos em que havia diferenças entre o preço na prateleira e no caixa foram mais numerosos que os casos em que os preços conferiam.

Num trailer de filme nacional aparecia a sentença (ou algo equivalente):
Aprendemos que roubar é feio, mas não aprendemos a não ser roubados

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Mundo cão

De manhã, ouço o mecânico de bicicleta contando pro colega que um cara chegou pra ele com uma bike roubada no parque. Mostrou a bicicleta e quis saber quanto que ela valia. Ele deu uma sacada nos componentes e disse que a bike valia uns 2 pra 3 mil. Compensa comprar por R$ 500? O cara comprou a bike roubada na mão do maluco por 500 conto. E pra desmontar as peças e pintar o quadro de branco e deixar sem adesivo, quanto é que morre? O mecânico disse que tudo ficava uns 300 pau, que era um preço alto, pro cara não fazer. O cara topou. Agora o mecânico vai transfigurar uma bicicleta roubada, torcendo pro dono de direito ter seguro.

Antes do almoço, vejo confirmado o plano de ampliação da Marginal. Mais faixas de rodagem e derrubada predatória de árvores às margens do Tietê e Pinheiros. O plano partiu pra ação com velocidade assombrosa, porque afinal de contas estamos em ano de eleição. Muito mais - e de maneira mais articulada sobre o assunto aqui, no Apocalipse Motorizado. Depois de atingir quase 300km de congestionamento numa quarta-feira chuvosa, aparecem com mais obras para criar mais lentidão e estresse no trânsito, convidar mais carros para as ruas e derrubar de vez o equilíbrio ambiental da cidade.

De noite, fico sabendo que a minha turma de 4 alunos foi definitivamente diminuída para 2. Um tinha sido demitido 3 semanas atrás, numa sexta-feira. Quando me explicaram a importância do funcionário para a empresa, terminaram a descrição com 'a coisa tá preta'. Hoje o outro aluno voltou de férias. Tinha tirado 20 dias para viajar aos EUA e praticar inglês. Sentou na mesa de trabalho disposto a labutar de manhã e foi dispensado.

O bombeiro e a bicicleta

Aconteceu faz muito tempo, mas a cena ainda está vívida em sua memória. Era um fim de tarde do último dia do ano. Ele estava recolhendo suas coisas numa mochila para encerrar o expediente e fechar o ano sem nenhum registro de afogamento. Já ia deixar o posto de salva-vidas, quando uma família veio correndo e chorando, apontando para o mar. Largou tudo e se atirou ao mar. Não sabia que era capaz de nadar tão rápido. Não sabia pelo que devia procurar. Tinham dito que era uma menina. Meninas se afastam tanto assim da praia?

Viu uma mãozinha esticada pra fora da água. Nada mais, só uma mão. Agarrou a mão e puxou o corpo da menina. Carregou a garota à praia, fez respiração boca-a-boca e trouxe a guria de volta à vida. Quando ela recobrou a consciência, ela só chorava e se agarrava ao salva-vidas. Havia uma conexão forte entre o homem e a menina. Ela devia sua vida a ele, ele teve o prazer de salvar a vida dela. Era como se ela tivesse ganhado um outro pai e ele uma nova filha.

Quatro anos mais tarde, na noite de ano novo, ele estava sozinho em casa. Tinha conseguido uma folga no feriado de Natal e Ano Novo. Os casos de crianças com mãos estouradas por rojões, acidentes domésticos bobos e acidentes feios por causa de motoristas embriagados eram muito numerosos nesse feriado. Não queria fugir do trabalho, apenas não queria se expor a tanta dor alheia.

Tocou a campainha. Não esperava visitas. Foi atender. Na porta estava uma menina. Aquela menina. Caíram nos braços um do outro e transformaram em lágrimas toda a saudade e fantasia acumuladas desde a primeira vez em que tinham se visto. Entraram e conversaram até o dia seguinte. Ela o convidou a manterem contato. Ele prometeu visitá-la em Antônio Prado.

Nos dois anos seguintes, ele ficou ruminando uma maneira de visitar a garota sem abalar muito a estrutura familiar da moça. Não queria sobrecarregar ninguém com ciúmes ou apreensão. Ele não se considerava exatamete um amigo, mas também não era parente nem potencial namorado. Não queria simplesmente embarcar num ônibus, cruzar Santa Catarina, entrar no Rio Grande do Sul, subir a serra até a cidade mais italiana no Brasil e se apresentar como o bombeiro que tinha salvado a guria quando ela ainda era uma menina. Não queria ser o centro das atenções de uma família desconhecida.

Foi chamado para acompanhar um grupo de mais ou menos 120 ciclistas. Sim, ele tinha uma bicicleta que usava ocasionalmente. Parecia mais simples que a dessas pessoas de roupas coloridas e não tinha as bolsas laterais que muitas bicicletas tinham, nem tinha capacete. Sua função era dar apoio ao grupo de ciclistas se necessário e acompanhar o grupo de Camboriú a Itapema. Conversando com um aqui e outro acolá, percebeu que essa gente viajava de bicicleta. Aqueles dois ali disseram que vieram de São Paulo pedalando. Quando fizeram a pausa para o lanche, a idéia de uma cicloviagem a Antônio Prado já tinha se instalado em sua cabeça. Quando contou a estória da menina que ele tinha salvo pruma moça de bicicleta amarela, teve certeza que faria a viagem até a casa da italianinha de bicicleta.

Corrente nova

O meu velocímetro marca 1.525,7 km rodados, mas sei que esqueci de colocá-lo na bicicleta em 3 viagens à Berrini, o que dá uns 15km no total de quilômetros rodados mas não registrados.

No Encontro de Cicloturismo que aconteceu em Camboriú em novembro do ano passado (durante as famosas enchentes de Santa Catarina, sim, estávamos lá), uma das palestras foi sobre manutenção da bicicleta. Por acaso, a Amarilda, que ainda não tinha velocímetro ou qualquer registro confiável de quantos quilômetros tinha rodado desde seu batismo, serviu de modelo para o palestrante. Ele disse que uma corrente dura no mínimo 600 km (terra) e no máximo 1.500 km (asfalto). Mas eu não sabia quanto eu tinha rodado com a bicicleta amarela. O palestrante segurou um gomo da minha corrente na altura da coroa e o puxou, pra calcular a folga causada pelo desgaste da corrente. É, querida, vai ter que trocar a corrente e a catraca.

Troquei em dezembro e pus velocímetro na bicicleta, para poder controlar melhor o tempo de vida da corrente e não ter que trocar também a catraca. Acabo de voltar da bicicletaria com uma nova corrente. Rodei aproximadamente 1.540,7 km em 7 meses. O mecânico me disse que a corrente que ele desmontou da Amarilda deveria ter durado 1.500 km na terra e até 3.000 km no asfalto, mas tava no limite do desgaste. Não peguei muita terra nesses últimos 7 meses. Peguei muito morro, buraco, chuva e asfalto.

domingo, 21 de junho de 2009

O poder da palavra escrita

Tinha uma correspondência em cima da mesa. Era da Editora Abril para os seus assinantes. No verso, estava escrito:

Monica, o que vale mais?
O que você ouve ou o que você lê?

Essa pergunta é impossível de responder, porque não adianta comparar formatos sem saber qual o seu conteúdo. Se o conteúdo for musical, por exemplo, a música ouvida vale muito mais (pra mim) que a letra escrita ou mesmo a partitura. Se o conteúdo for uma notícia, as pessoas confiam muito mais na veracidade do texto escrito.

Se a notícia for falada, pode ser um simples boato, um diz-que que te disseram que você pode ter interpretado errado. E quando eu for conferir os fatos, você pode dizer que não era aquilo, que eu que entendi outra coisa. Não temos nenhuma prova de que aquilo foi dito ou não, porque as palavras proferidas já se foram, se perderam no ar, já se misturaram com imagens na mente e foram arquivadas de maneira indecifrável na memória.

Mas se estiver escrito, posso te mostrar o texto. Tá aqui, seu guarda, tá escrito no Código de Trânsito que eu posso pedalar no acostamento quando não houver ciclovia ou ciclofaixa pra mim. E aqui tá escrito que eu não devo pedalar contra o fluxo, viu? Do mesmo modo, posso cobrar o texto escrito: Ah é? E onde que tá escrito que eu tenho que pagar taxa pra transportar a minha bicicleta no bagageiro do ônibus?

Nessa sociedade da informação e informática, a palavra escrita tem muito mais poder que a palavra falada. Tanto é que para a pessoa sonhar com um futuro financeiramente estável, ela precisa ir pra escola e aprender a ler e escrever. Valorizamos quem escreve bem, damos dinheiro a quem publica manuais de redação, achamos que não sabemos português, pagamos pro revisor conferir nossa ortografia. E achamos que língua, assim pra valer, (dialeto não vale!) só conta se tiver alfabeto, gramática de consulta, literatura e filosofia.

Em todos os cursos de língua que já dei sempre tem uma unidade no livro sobre outras línguas, nacionalidades e gentilícios. Sempre pergunto quantas línguas os alunos acham que há no mundo. Começam a fazer a lista, contando nos dedos: alemão, inglês, português, espanhol, italiano, francês, russo, japonês, chinês. Ok, vamos ser humildes e admitir que além dessas línguas ainda haja outras que eu tenha esquecido. Ah, teacher, acho que tem umas 30.

Lembro que na Índia há 42 línguas, sendo que cada uma tem pelo menos um dialeto. Puxa, tudo isso! Tá, teacher, 100 línguas, então. Pergunto quantas línguas são faladas no Brasil. Um país, uma língua, teacher, aqui todo mundo fala português. Lembro das línguas dos imigrantes e das línguas indígenas. Quase caem da cadeira quando ouvem que há aproximadamente 220 povos indígenas falando aproximadamente 180 línguas aqui no Brasil. Caraca, tudo isso, então eu vou chutar o balde: existem mil línguas no mundo, professora. Suspiro e adoto práticas de leilão. Ninguém nunca chega a 'aproximadamente 6 mil línguas', sendo que muitas estão sendo mortas todos os dias. Porque uma língua só morre de morte violenta: ou o povo morre ou prefere adotar outra língua, de mais prestígio, que permita o acesso à vida na cidade, emprego, bens de consumo.

Não acreditam que haja tantas línguas no mundo porque não concebem a existência de línguas ágrafas. Não acreditam que pessoas que vivem sem escrita têm uma memória auditiva forte e que confiam na palavra falada. Passa lá em casa, me liga, hein e essas promessas vazias que nos fazemos todos os dias não têm lugar numa sociedade em que a palavra falada pode definir o destino de uma pessoa. Não entendem a figura do griot, o contador de estórias e o homem que mantém na memória a história de seu povo.

Tomamos a nós mesmos como medida para o resto do mundo. Se nós escrevemos, lemos, falamos e ouvimos português e português é uma língua, então as outras línguas do mundo devem poder ser escritas, lidas, faladas e ouvidas. A Editora Abril usa o papel como mídia, e no papel nós escrevemos. Portanto, a palavra escrita vale muito mais que qualquer coisa que você ouve.

sábado, 20 de junho de 2009

Em sintonia

Os dois filmes que eu mais gostei de ver nas últimas semanas são muito parecidos. Diria até que estão em sintonia. Ambos tratam da música como trabalho, como rendimento, pressão e cobrança. O músico não toca mais, ele executa. Não recebe mais os aplausos, recebe o que merece, seu pagamento. Algum evento faz com que o músico rompa sua relação com o palco e vá se isolar na cidade em que passou a infância. E aí começa uma nova estória que envolve pessoas e paixões, em que a música entra para organizar sentimentos.

Philip me mandou um DVD com milhares de coisas, inclusive o filme chamado 'Wie im Himmel'. Mas num dado momento travou tudo, e procurei pelo filme no mininova. Descobri que o título original é 'Sa som i Himmelen' e que em inglês o título ficou 'As it is in heaven'. Vi o resto do filme em sueco com legendas em inglês. Muito bom. Mesmo. As emoções afloradas no decorrer da estória são muito fortes e o modo de lidar com elas é muito sincero.

O outro filme fera é o japonês 'A partida', que vi hoje no cinema. Fiquei muito agoniada com a falta de contato físico entre as pessoas (pode ser influência do filme de bollywood que vi ontem, em que a mocinha se atira nos braços do amado a cada 2 minutos durante 2 horas e 47 minutos), mas isso são outros quinhentos.

Saí do cinema enxugando lágrimas que eu já não sabia se eram de alegria ou tristeza e caminhei pela Paulista. Na segunda quadra que andei, passei por um músico de rua tocando triângulo. Pôxa, se um solo de bateria já é raridade, imagina um solo de triângulo. Mas ele não fazia solo: cantava junto e se comunicava com o seu público de passantes através de sorrisos. Em termos de alegria, entramos em sintonia por alguns segundos.

Enquanto caminhava, fui pensando no que é fazer música. Não aprendi a tocar nenhum instrumento, muito menos a ler notas. Mas se me derem um chocalho ou a letra de uma música, eu acompanho de bom grado e vou me esforçar para entrar em sintonia com os outros que estão fazendo música. Acho que esse é o elemento chave para entender por que karaokê é tão detestável: você não participa. Uma pessoa canta (mal pra carai) e pronto, você tem que esperar a sua vez se quiser interagir com a música.

Mas isso são os amadores. Profissionais da música fazem música de maneira diferente. Executam e interpretam peças, leem partituras, franzem a testa, dançam com o fagote, abraçam o cello, sobem na ponta dos pés como se isso fosse necessário para alcançarem as notas mais agudas. Comunicam-se através de olhares sorridentes, repressores ou satisfeitos. Como todos sabem pra onde vai a música, precisam apenas de um gesto (uma inspiração mais profunda, um aceno, um breve esbugalhar de olhos) do primeiro violinista para saberem quando tocar.

Quando, contudo, se juntam para criar música espontaneamente, tenho a impressão de que entram numa aventura comunicativa. E o que comunicam são sentimentos. Lembro de quando estivemos em Praga. Philip queria experimentar a vida noturna da cidade e fomos nos meter em jazz clubs e fazer fotos noturnas da cidade. Entramos num jazz club que tinha uma jam session na programação. Isso aí é bom? perguntei, desconfiada. Ele deu uma piscadinha, como que dizendo 'deixa comigo', pediu uma cerveja, sentamos numa mesa, e depois de um tempo ele perguntou se tudo bem ele me deixar sozinha. Meu irmão subiu no palco, pegou o bongô que tava num canto e tocou uma música interminável com gente que ele nunca tinha visto na vida. Estavam em plena sintonia.

Quando voltamos ao mesmo bar na noite seguinte, o garçom perguntou: o mesmo de ontem? Não sei se eles só serviam um tipo de cerveja, se o Philip chamou atenção por ser cabeludo, ou se foi a música coletiva e espontânea que rolou no palco que o garçom reteve na memória.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Quase chegando

Estou quase chegando, mas me perdi
Nessa escuridão o mundo plano lá fora é frio por igual
O motorista do ônibus se irrita comigo quando aviso
Que errei o ponto pela terceira vez
Que não sei onde moro

Quase chegando, mas não adiantou correr
As nuvens vão se romper antes de eu chegar
O vento forte me fecha os olhos
O farol fechado me impede de prosseguir
E tomo aquela chuva fria esperando a luz verde

Quase chegando, e nem demorei tanto assim
Vim a pé de lá porque saí de casa sem carteira
A bicicleta vai esperar com o pneu furado até eu voltar
Mas eu vou voltar de ônibus

Quase chegando, mas ainda falta esse morro
Os braços já estão quentes debaixo do anorak
As pernas já não querem mais segurar a onda nessa buraqueira
A cabeça já está pensando na cara deles
Só mais um pouquinho de força

Quase chegando, já reconheço detalhes daqui
Cumprimento o guarda de baixo e o da esquina
Reparo que o pé de caqui perdeu todas as suas folhas
Por que a bexiga aperta quando giro a chave na fechadura?

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Tempero secreto

Era uma vez um homem casado com uma mulher. Foram felizes no casamento, mas um dia ela morreu. Ele logo percebeu que arranjar uma nova esposa era uma questão de sobrevivência, porque ele não sabia cozinhar, operar a máquina de lavar roupa ou o ferro de passar, para que serviam todos aqueles produtos de limpeza e como fazia pro lençol ficar esticadinho. Não teve dificuldades para conseguir uma nova esposa. Essa era até mais jovem, mais bonita, mais dedicada e mais prendada. A moça adorava cozinhar e receber aplausos de seu marido pelas obras de arte que produzia na cozinha.

Um dia, depois do almoço, o marido ficou amuado. Depositou o cotovelo na mesa e deitou o queixo sobre a palma da mão. Ela pensou que a comida não lhe tinha caído bem, perguntou toda preocupada o que ele estava sentido, e ele só suspirou. Insistiu em descobrir o motivo para tal comportamento peculiar, até que ele lhe confidenciou, meio sem graça, que sentia saudades de um certo tempero que a finada esposa usava sempre. Disposta a agradar o marido, a segunda esposa perguntou qual era tal tempero. Ele não soube responder.

A moça focou toda a sua atenção nos temperos locais, frescos, depois experimentou os secos e por fim os importados. Conheceram juntos uma enorme variedade de temperos e combinações de temperos, e toda refeição era uma explosão de sabores que não se repetia. Porque o tempero secreto da finada falecida não vinha parar no prato do marido. A moça parou de usar os temperos afrodisíacos quando deu à luz uma criança muito dócil.

Um dia, enquanto as panelas estavam no fogo, a criança começou a chorar de cólicas. A mãe foi acudir e gastou mais tempo verificando o bebê que a água do arroz precisava para evaporar. Quando voltou à cozinha, o estrago estava feito: almoçariam arroz queimado. Ela não faria outra panela de arroz pra esse marido que há quase um ano sentia saudades da comida da ex-esposa! Estava cansada desse jogo de buscar pelo ingrediente secreto. Com muita naturalidade, avisou ao marido que o arroz tinha queimado. Ele não discutiu, apenas serviu-se. Enquanto mastigava, seus olhos se encheram de lágrimas. Quando engoliu a primeira garfada, já estava aos prantos, abraçando a esposa: Você encontrou o tempero secreto!

Acho que ouvi essa estória na mesa dos meus avós, mas desconfio que a tenha ouvido da minha mãe. Posso estar enganada. O que importa é que a estória sempre me conforta quando minhas idéias culinárias mirabolantes não saem como eu queria, e fico mastigando um pão que não cresceu nem tem gosto de abóbora, por exemplo.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Embalada por palavras

A coluna se enverga sob o peso da cabeça, as pontas dos dedos estão frias e tenho a sensação de ter a pele cinza. Ajeito os fones na cabeça, dou play no audiobook e me deito na cama. Me cubro com o cobertor, dobrando-o por debaixo dos pés frios. Os ossos da coluna se reconfiguram, adaptando-se no leito do corpo deitado sobre o colchão. Ouço instrumentos de percussão anunciando o início da estória.

As mãos espalham o seu frio pela barriga, os olhos se fecham e mergulham no escuro. A voz masculina que me fala no ouvido cria duas pessoas aflitas, esperando ao pé de um muro. São apenas duas pessoas, sem estatura, idade ou condição social. Enquanto conversam, a expectativa, ansiedade e aflição ganham corpo. A voz do narrador passa a desenhar os personagens do livro na minha imaginação. Chega o terceiro e aguardado personagem e já vejo três vultos parados na beira de uma floresta, de costas para um muro. Estão na penumbra, numa luz meio amarela, meio marrom. Conforme interagem, percebo que um é careca, tem pequenos olhos brilhantes e dentes escurecidos. O outro é magro, alto e usa um chapéu extravagante, totalmente fora de contexto. O último tem tamanho de criança e ainda não está claro se ainda vai crescer, se é um anão ou se é de um povo baixo mesmo. As palavras do narrador vão lhes acrescentando detalhes conforme a estória progride.

O careca gordo está suando em seu casaco de pele enquanto negocia com o sujeito magro que não está disposto a despojar-se de todos os seus bens em troca do serviço que lhe pede. O menino que assiste a tudo não tem condições de pagar nada, mas também quer ser beneficiado pelas habilidades do mestre dos olhos negros que brilham com a ganância estampada nas sobrancelhas arqueadas. O mestre toma o seu pagamento e começa a ler o que havia escrito em algumas páginas soltas e sujas.

As palavras começam a soltar-se da cena, giram desordenadamente no ar, voltam a fazer sentido quando são enfatizadas, mas logo somem-se na escuridão que tomou conta de mim. Durmo um sono profundo e sem sonhos. A estória fica suspensa a partir de um momento indefinido.

Sou arrancada do meu sono com o som de instrumentos de percussão que tocam muito alto, muito rápido, muito animadamente. Acordo de sobressalto, e quando o narrador descreve uma menina brigando com o seu pai por causa de um livro, percebo que o intermezzo instrumental servia para marcar o fim de um capítulo e o início de um novo. Suspeito que tocam a música mais alto que a voz sonífera do narrador para não permitir aos ouvintes que embarquem no sono. Que puxa, o meu método para adormecer rapidamente não funcinou com esse livro.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Triste vida de revisor

Monica, a moça que aluga um quarto pra mim na sua casa, trabalha pra editoras fazendo trabalhos de revisão, edição e copidesque (seja lá o que isso for). Depois de um longo período sem trabalho, começou a chover na horta dela, e vieram trabalhos e mais trabalhos. Pediu ajuda pra mim e combinamos que eu revisaria um livro em troca de um mês de aluguel. Acho legal esse esquema de trabalhar em troca de benefícios (e não dinheiro).

Melhor não identificar as autoras do livro, né.

Não é soberba. Não é preciosismo. Olha a passagem que eu recortei do Budapeste, que li com o estômago:

Porque logo no início do casamento, ainda modesto escritor, fui para ela sem dúvida um marido admirável. Mas à medida que aprimorava minha literatura, naturalmente comecei a me relaxar no trato com a Vanda. De tanto me devotar ao meu ofício, escrevendo e reescrevendo, corrigindo e depurando os textos, mimando cada palavra que punha no papel, não me sobravam boas palavras para ela. Diante dela nem tinha mais vontade de me manifestar, e quando o fazia, era para falar bobagens, lugares-comuns, frases desenxabidas, com erros de sintaxe, cacófatos. E se alguma noite, na cama com ela, me viessem à boca palavras adoráveis, eu as continha, eu as economizava para futuro uso prático.
Budapeste, Chico Buarque, p. 106, 107.

O que me incomoda no texto que estou revisando não são as palavras comuns descrevendo procedimentos acadêmicos, não são os erros de ortografia ou digitação, ou as inadequações à nova reforma ortográfica. O que me incomoda é o excesso absurdo de vírgulas, a troca descabida de preposições, as concordâncias desencontradas, a ordem das palavras praticando malabares.

O livro é anunciado, no prefácio, como um marco na história da pesquisa na área, um verdadeiro divisor de águas. Mas as autoras não apresentam nenhuma pesquisa própria, nenhuma escala de avaliação (que no jargão é referida como 'instrumento') desenvolvida, testada e validada por elas. Reúnem apenas todas as escalas e questionários que os outros já fizeram, sem ao menos questionar a relevância desses trabalhos alheios. Muitos questionários são aplicados a mulheres universitárias (não sabemos quantas eram, a que faixa etária pertenciam, se eram anoréxicas, obesas, bulímicas ou satisfeitas com sua imagem corporal, e qual a relevância de elas serem universitárias para uma pesquisa que visa verificar a satisfação da pessoa com a imagem que tem do seu corpo) porque nos EUA e na Europa as pessoas recebem uma caixinha para participarem de experimentos/ testes. Na Holanda a média era de 6 Euros para ser sujeito de experimento. Aqui a gente pede pros amigos, pra família, divulga no blog e confia que as pessoas participem por diversão. As autoras falham quando não reconhecem certas vicissitudes acadêmicas, porque consideram que tudo que vem de fora é lindo e maravilhoso.

Não foi a minha formação acadêmica que me deformou e faz com que eu seja exigente com os outros. Não sou eu, querida, é você. Está muito claro pra mim que pessoas da área da saúde e talvez educação (que é onde eu inseriria o texto que estou revisando a duras penas) aprendem, estudam e transmitem conhecimentos em forma de listas, definições e tópicos. O livro delas mais parece um dicionário que um texto. Não há reflexão sobre o próprio texto, não há articulação entre os tópicos, não existe argumentação. É um texto explodido em itens e subitens, de cabo a rabo. Super divisor de águas. Um dique!

Monica me deu o tiro de misericórdia, quando afirmou: já trabalho pra essa editora faz mais de 20 anos. E nesse tempo todo, li três livros bons. O resto, minha filha, é tudo assim.

domingo, 14 de junho de 2009

Casa vazia

Este é o nome de um filme que me impressionou muito. Foi feito por alguém de olhos puxados - não lembro se era coreano, chinês ou japonês: quase não havia diálogos no filme. O que me impressionou é que o protagonista temporariamente ocupava casas vazias. Não era um emprego, mas um estilo de vida. De dia, colava panfletos nas maçanetas das portas das casas de um bairro. De noite, depois que todos já tinham voltado do trabalho, entrava nas casas que se denunciavam vazias pelo panfleto ainda grudado na maçaneta da porta. Enquanto a família viajava, ocupava a casa vazia e fazia pequenos consertos, lavava roupa do cesto e saía sem levar nada.

Aconteceu de ele entrar numa casa que não estava vazia. Uma moça chorava na banheira enquanto ele fazia o reconhecimento do seu novo abrigo. Cansada de ser a esposa de um cara, resolveu ser a companheira desse outro. Juntos, passaram a ocupar casas vazias.

Não parecia ser difícil achar casas vazias naquela cidade. Se estivessem em Gramado, fariam a festa, porque mais da metade das casas de lá é de veraneio e passa a maior parte do ano vazia. Se estivessem no Alto da Boa Vista, meu bairro vizinho, nem precisariam aplicar o truque dos panfletos na maçaneta. Em cada quadra há pelo menos duas casas à venda e em exposição. Ok, pode ser que água e luz tenham sido desligados, mas não se pode ter tudo, né.

Veja bem, as pessoas não botaram suas casas pra alugar, mas pra vender mesmo. Corte de relações com a casa. O que move as pessoas pra que saiam de suas casas grandes com jardim no Alto da Boa Vista? Pensei um algumas alternativas.
a) Trauma ou medo de assalto. Ao mudarem para lugares em que tem mais gente amontoada, guarda na portaria, câmeras de vigilância e cerca elétrica, algumas pessoas se sentem mais seguras.
b) Vi uma placa anunciando: vende ou troca por fazenda. Este é o povo cansado da vida da cidade grande. Agora que temos mais da metade da população vivendo em cidades, é hora de se retirar para um lugar em que não haja tantas pessoas e tanto barulho.
c) A casa ficou grande porque todo mundo saiu. Os filhos casaram e se mudaram, o marido morreu e a viúva fica sozinha naquela casa enorme. Pra ela, a manutenção da casa e do jardim se tornaram tarefas hercúleas.

Provavelmente a combinação dessas alternativas explica a maioria dos casos de casas postas à venda. O que eu ainda não entendo é por que a incidência de casas vazias é tão grande neste bairro. Haverá panfletos colados em maçanetas de portas assombrando os antigos moradores?

sábado, 13 de junho de 2009

Marcas famosas

Eu tava saindo do supermercado, ainda pensando na pose encolhida de frio que o caixa que me atendeu adotava, quando me deparei com uma placa. Em letras garrafais, do outro lado da rua, uma concessionária anunciava seu nome: MARCAS FAMOSAS.

Uma lista de marcas de carros me veio à mente enquanto eu caminhava: Volkswagen, BMW, Mercedes Benz, Audi, Chevrolet (GM num lugar e Opel em outro lugar), Ford, Fiat, Ferrari, Cadillac, Porshe, Peugeot, Renault, Citroën, Suzuki, Mitsubishi, Hyundai, Honda, Nissan, Toyota, Alfa Romeo, Mazda, Chrysler, Volvo, Subaru, Landrover, Jeep e até Gurgel. É possível que haja mais marcas no mundo que eu não tenha conseguido contemplar na minha caminhada de volta pra casa ou agora, enquanto vasculho as gavetas mais profundas da minha memória. Me dei conta que eu conheço mais marcas de carro do que de sabão em pó, farinha, feijão ou sucos. E olha que a variedade de marcas de farinha e feijão, por exemplo, é bem menor que a de carros. O engraçado é que eu vou ao supermercado, vejo as prateleiras, mas não consigo evocar mais de quatro marcas de farinha, duas de feijão e assim por diante. Mesmo não tendo um carro ou o sonho de um dia possuir um, sou capaz de evocar tantos nomes de marcas de carro.

Será que existe uma relação de proporcionalidade entre o número de consumidores e a variedade de marcas? Vinho, por exemplo, não é todo mundo que consome, mas a variedade de marcas de vinho é infinitamente maior que a variedade de marcas de arroz, macarrão ou açúcar, que são produtos que vêm na cesta básica e de fato fazem parte da base alimentar do povo. Saindo do supermercado, vamos pensar em carros. Quantas pessoas possuem carros? Quantas pessoas consomem farinha e feijão?

Mas peraí. Qual é a vantagem de se ter tanta concorrência para um público pequeno? Deve ser o retorno financeiro. Quando penso nas coisas mais caras que um cidadão pode comprar, penso em casa, terreno e carro. Estes são produtos duráveis. Carro é um produto que se compra pra vida toda, não? Por isso o preço do investimento é alto, ao contrário de farinha e feijão, que são baratos e se compra a cada três semanas. Suspeito que não seja só isso. Faz alguns anos, os produtos duráveis, pra vida toda, quebram/ saem de moda/ se tornam incompatíveis com os novos avanços tecnológicos depois de um a dois anos de uso. Isso se chama obsolescência programada. Trocar de carro depois de 2 anos é a regra, porque o carro "desvaloriza". E daí que perde valor de mercado. Não é um meio de transporte? Pelo visto, é um bem de consumo, um capricho, assim como cosméticos.

Quando parei no farol e esperei o botão que eu tinha apertado fazer seu efeito sobre os carros que passavam, lembrei de um jogo que eu tinha usado para fins didáticos. Era uma aula de business english sobre marcas. Quis verificar se as marcas de carros eram mais recorrentes que as marcas das outras coisas (64 logomarcas pra você adivinhar). Mas não. Produtos esportivos (tênis, bolas e roupa) foram os mais usados no jogo 1. Pra minha surpresa, já tinham desenvolvido um jogo 2, que eu achei difícil porque tinha dois logos que eu nunca tinha visto na vida, nem sei a que se referem (Tecnisa e Swarovski) e porque tinha umas marcas de produtos altamente exclusivos (Rolex, Mont Blanc) que não fazem parte do meu inventário. Fiquei toda feliz ao reconhecer o logo da Caloi. No entanto, se no jogo 1 tinha 'só' quatro marcas de carro, neste jogo 2 tinha nove (!) marcas de carro.

Voltamos ao número exuberante de marcas de carros. Como é possível que eu, pedestre, ciclista e usuária do sistema de transporte coletivo, saiba reconhecer tantos logos de carros e saiba nomear tantas marcas? Eu, pessoa que compra livros e não revistas, prefere ir ao cinema que ver TV, conversa sobre compostagem e bicicleta e não sobre marcas de carros. Eu, que não fico verificando os meus conhecimentos automobilísticos no trânsito, checando marcas de carros. Como é que eu sei tanto sobre o mundo mágico da gasolina, diesel e álcool? Pelo visto, sou muito mais bombardeada - e afetada - pela mídia do que eu admito.

E a mídia faz muito mais propaganda de carro do que para placas solares, recarregadores de pilha, sistemas de captação de água da chuva, coletores menstruais, dispositivos que regulam o fluxo de água de torneiras/chuveiros e outras eco-coisas.

"Vai chegar o dia em que uma criança não vai saber o que é uma vaca." Profecia feita pelo vô do Wagner Suiter.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Floco de neve


Terminei de ler Neve (Kar, no original) do Orhan Pamuk e não acho que este livro tenha merecido o prêmio Nobel de Literatura 2006. Não estou achando que outro autor merecesse o prêmio em seu lugar, só considero que My Name is Red (2000), publicado 2 anos antes pelo mesmo autor, seja muito mais interessante e genial que Neve. Mas naquela constelação em que precisavam de um receptor do Prêmio Nobel, escolheram Kar, um livro cuja estória se passa em Kars e cujo personagem principal se chama Ka. Talvez em 2006 a academia sueca tenha preferido dar relevo às questões políticas levantadas pelo autor em seu livro de 2002 sobre as relações entre oriente e ocidente e os turcos que buscaram asilo político na Alemanha. Talvez não tenham lido Meu nome é vermelho com o mesmo entusiasmo cromático que eu.

Há alguns traços comuns que conduzem o leitor de um livro de Pamuk a lembranças de outro livro do mesmo autor. A questão da identidade, do ponto de vista, o jogo de narradores e os detalhes coloridos de culturas peculiares são temas e estratégias recorrentes em Pamuk.

Quando comentei com o Muntasir, um amigo de Bangladesh, que eu tinha lido alguns livros do Salman Rushdie, ele fez um sermão sobre a boa literatura e os impostores. Imediatamente fiz um paralelo mental entre o Paulo Coelho, que é um impostor mas um best-seller dentro e fora do Brasil e o Salman Rushdie, que se tornou famoso fora da Índia, mas ainda não tinha provado o seu valor retórico para os indianos, paquistaneses e bangladeshis. Pelo que pude perceber da aula de literatura do Muntasir, Salman Rushdie jogou uma sombra sobre os bons escritores indianos, porque o que lhe dava visibilidade era o contexto polêmico que o envolvia, não seus textos. Recentemente li Os Versos Satânicos, que tinham lhe rendido tanta atenção, e tive que concordar com o meu amigo.

Na minha humilde opinião, considero Os Versos Satânicos (de 1988) um ensaio para os outros livros que li do Salman Rushdie. Lendo este livro, reconheci metáforas, situações, idéias e padrões que são lapidados em livros posteriores. É quase como se as idéias e intenções de Versos Satânicos tivessem se espatifado no chão e o autor tivesse usado super bonder, esparadrapo, band-aid, lama e maizena engrossada pra juntar os cacos. Tenho a impressão de que, com o passar dos anos, o autor tenha desfeito aquele monstrengo, limpando e esmerando cada pecinha pra escrever livros mais simples e focados. Em The ground beneath her feet (1999) reconheço a estória de amor entre Farishta e a alpinista dos pés chatos. Em Fury (2001) reconheço o bode crescendo no sótão. Em Shalimar, o equilibrista (2005) reconheço os conflitos entre ocidente e oriente, bem e mal, amor e vingança esboçados nos Versos Satânicos. Shalimar, no entanto, merece o meu reconhecimento e os meus aplausos. Preciso recomendá-lo pro Muntasir.

Umberto Eco descobriu a fórmula mágica da estrutura narrativa, calibrando momentos de tensão e relaxamento no Nome da Rosa e a aplicou com mais - e depois menos - sucesso no Pêndulo de Foucault, A Ilha do dia Anterior, Baudolino e A misteriosa chama da rainha Loana (nesta ordem). Paulo Coelho sempre, desde O Alquimista, equilibra os mesmos ingredientes de magia e religiosidade. Harry Potter foi um sucesso porque o personagem era cativante e permanecia sempre o mesmo. Daniel Galera escreveu um livro ruim (o último, Cordilheira) quando foi encarnar uma mulher. Os outros (Mãos de Cavalo, 2006 e Até o dia em que o cão morreu, 2003) são fascinantes (nesta ordem).

Cada livro é único e podemos gostar mais ou menos deste ou daquele em relação a outros livros do mesmo autor. Mas carregam a marca do autor, seja na estrutura narrativa, no gênero literário, nas características dos personagens ou na ambientação dos cenários. São como flocos de neve: todos têm o mesmo esqueleto de seis pontas, mas como as condições em que foram gerados são particulares, apresentam formações diferentes.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

HOME

Yann Arthus-Bertrand é o fotógrafo que fez as fotos abaixo. Todas elas podem ser vistas em formato de foto ou incorporadas no filme que está no site do projeto chamado HOME. O filme sobre o nosso Planeta Terra fica disponível no youtube de graça até dia 14, conforme fiquei sabendo pelo Luisão. Depois de assisti-lo senti urgência de divulgá-lo, porque é muito bem feito.











O link para o filme narrado em inglês com legenda em alemão no youtube está aqui: HOMEde. Pra quem não tem experiência com o youtube (vai que tem alguém), recomendo que aperte o pause assim que o filme começar a rodar e espere o filme carregar até pelo menos metade. Isso demora, mas depois dá pra assistir sossegado.

Acho que o primeiro desses filmes informativos sobre o modo como tratamos o nosso mundo foi o 'Ponto de Mutação' do Capra com o Al Gore. Depois veio o 'An inconvenient truth', do Al Gore, depois o 'The story of stuff', da Annie Leonard. Todos demonstram como perdemos o vínculo com a Natureza nas últimas décadas e como perdemos a noção de que as coisas todas estão ligadas. Por estarem conectadas, a exploração desmedida da Natureza vai nos afetar, invariavelmente. Além de informarem, estes filmes apontam para soluções de sobrevivência, o que é um alívio.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

293 quilômetros

Foi o que a CET registrou de congestionamento hoje. Nem todas as vias estão monitoradas e entram nesse cálculo, portanto o número de quilômetros parados é na verdade mais alto. Mesmo assim, é o recorde de lentidão na cidade. Pra ilustrar a situação, imagine uma fila de carros parados daqui até Paraty. Agora adicione 11km a essa fila e pronto! 293km de congestionamento.

Aconteceu uma convergência de fatores: chuva (todos sabemos que deveria ser proibido chover em São Paulo), acidentes, panes, véspera de feriado. Segundo matéria publicada pelo G1, foram registrados 187 incidentes. Eu mesma vi um acidente com vítima pouco antes da ponte da Vereador sobre a Vicente Rao, um ônibus sendo rebocado na Sto. Amaro e minha aluna cuja aula começa às 7:00 chegou às 8:00 devido a um acidente na Dutra.

De noite, eu não quis pedalar os 7km até Vila Campo Grande. Uma porque ainda não achei a melhor solução pra não encharcar um par de tênis e meias e outra porque eu tava com preguiça de fazer força, sentir frio e calor.


Liguei na escola avisando que eu ia de ônibus e provavelmente ia me atrasar uns 15 minutos, porque eu já contava que o ônibus ia demorar 1 hora (de bike eu demoro cerca de 26 minutos). O ponto de ônibus parecia um poleiro de gente usando roupas escuras. Os ônibus tinham os vidros embaçados, e quando dava pra ver dentro do ônibus, via-se muitas caras sérias. O primeiro Guacuri demorou a passar e parou lá na ponta do ponto só pra desovar um monte de gente: não deixou ninguém subir. O segundo Guacuri estava apinhado de gente. Fazia calor dentro daquela lata. Os caras na catraca pediam passagem avisando que iam descer no próximo. E o mais maluco é que deu tempo deles progredirem até a porta de trás, porque o ônibus não conseguia chegar no ponto. Pessoas reclamando que ninguém respeita nada, o cobrador contando estória de gente não oferecendo lugar pra velhinha sentar, um celular tocando música sertaneja pra todo mundo ouvir e um filme de Charlie Chaplin passando na TV Bus Mídia. Quando tudo isso se acaba, um silêncio resignado deita sobre todos. Perco a noção do tempo e do espaço. Pára de chover e lentamente algumas janelas são abertas. O vapor condensado começa a pingar, pinga até do teto do ônibus. Ocasionalmente tenho pensamentos malignos contra as pessoas gordas que me esmagam ao passarem por mim e volto a reparar no mundo lá fora do ônibus quando uma dona de casa comenta com a amiga que já devem ser 20:00. A amiga suspira e diz, com desprezo: quando chove, todo mundo acha que tem que ir de carro. Dá nisso!

Desço do ônibus e sou envolvida pelo ar frio e úmido. Subo a ladeira até chegar na escola e converso com a secretária. Juntas, olhamos no relógio e constatamos que eu demorei 2 horas pra chegar. A pé eu teria chegado antes. Meus alunos tinham desistido de mim e ido pra casa, se enfiar debaixo das cobertas. Ainda nos teriam restado 1 hora e meia de aula, mas não quiseram esperar.

Na noite em que São Paulo parou, eu estava em pé num ônibus lotado. Por quê? Porque achei desconfortável molhar o pé.

Quitação eleitoral

Um dos documentos exigidos do candidato aprovado em concurso para que ele seja nomeado (não fui chamada ainda, mas achei bom já adiantar a minha parte) é a certidão de quitação eleitoral. Se você está quites com a Justiça Eleitoral, dá pra gerar essa certidão pela Internet e imprimir em casa. Se, por outro lado, não der pra gerar a certidão pela Internet, então é porque você tem pendências com a Justiça Eleitoral.

Eu nunca me preocupei com o que poderia acontecer se eu não votasse numa eleição. Ouvi dizer que se eu não votasse, seria barrada quando quisesse sair do país. Como eu tenho dois passaportes e entro no país com um e saio com outro, nunca tiveram muito controle sobre minhas andanças, nem nunca me barraram.

Mas eu não consegui a certidão de quitação pela Internet. Fui lá na Justiça Eleitoral da minha zona eleitoral, que funciona das 12:00 às 18:00. Não tinha fila, as funcionárias pareciam simpáticas e eficientes. Dei o meu título pra moça no balcão e, antes que eu tivesse terminado de explicar que eu não sabia se tinha perdido alguma eleição porque estava fora do país, ela já me informou que eu tinha perdido a eleição de 2006. Sim, faz sentido. Fui pra Holanda em setembro de 2006 e as eleições costumam ser em outubro. E agora, o que eu faço? Paga uma multa. Quanto? R$ 3,51, mas não é aqui, é na Casa Lotérica ali do lado. Depois volta aqui e retira a certidão de quitação.

Todo o processo demorou 20 minutos no máximo. Saí de lá me perguntando por que insistem em obrigar os brasileiros a votar ou justificar o voto em dia de eleição. Deve ser para criar e manter um certo sentimento patriótico. Me pergunto por que os brasileiros se dão o trabalho de se deslocar de suas cidades para votar ou por que enfrentam filas pra votar ou justificar, se a multa por não votar é tão baixa. Deve ser falta de informação.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Pra me convencer

Eu estava guardando o aparelho de som no armário, quando uma outra professora me perguntou se eu não me interesso por cosméticos. Como eu sei que ela é americana e fala e entende mal português, achei que ela estivesse precisando de ajuda para comprar cosméticos.

Respondi que não uso cosméticos, ao que ela replicou: Why not? Expliquei que eu não tenho o costume de investir nisso. Oh, but you should! Ah, é? Então me diz por que eu deveria usar cosméticos. Porque toda mulher usa.

Se ela quisesse mesmo me convencer a usar cosméticos, ela precisaria usar outros argumentos. Dizer que eu devo fazer o que todo mundo faz 'porque todo mundo faz' não convence. Se ela me convencesse de que o uso de cosméticos é vantajoso para a minha pessoa, ela teria mais sucesso. Para demonstrar que os cosméticos me fariam bem, ela teria que provar que os produtos não provocam câncer a longo prazo, e isso é difícil de provar. Além de me convencer de que os cosméticos podem ser bons para mim e minha imagem, ela teria que me convencer de que os produtos não são miraculosos, mas naturais. E que a extração da matéria-prima não é predatória.

Respondi que não é toda mulher que usa, porque eu, que me encaixo no grupo das mulheres, não estou no grupo das mulheres que usam cosméticos. Ok, ok, eu acho que você deveria se interessar por cosméticos porque eu estou vendendo.

Esse argumento pessoal de 'pra me dar uma força' não me convence a fazer algumas coisas. Por exemplo comprar cosméticos, ou casar com o Esteves pra ele conseguir visto de permanência, ou ainda comprar uma jóia de 5 mil reais da vendedora mais simpática do mundo. Sinto muito. Entendo seu problema, mas não posso resolver.

Cheguei em casa com o folheto da Mary Kay, a tal linha de cosméticos. Não se trata de um catálogo, mas de um incentivo a você, dona de casa, que quer
(a) independência financeira,
(b) satisfazer a sua curiosidade e poder testar produtos de maquiagem e aprender sobre eles; e
(c) crescer na vida, trabalhando para uma empresa que coloca Deus em primeiro lugar, a família em segundo e a carreira profissional em terceiro.


Se aquela professora americana realmente quisesse me vender cosméticos, teria ao menos me dado o catálogo, pra eu secretamente saciar os olhos com todas aquelas coisas brilhantes e decorar os nomes dos produtos (não sei o que é rímel, onde passa delineador, que cor tem um corretivo).

Perguntei pra Monica se ela estava interessada em cosméticos, e mostrei o folheto. Ah, ela disse, ontem uma mulher tentou me vender esses cosméticos enquanto eu tava esperando na fila do banco.

Qual será o treinamento que essas vendedoras independetes recebem? Venda pelo menos 40 produtos por dia e para tanto aborde qualquer pessoa que tiver cromossomos xx?

sábado, 6 de junho de 2009

Televisão

Percebi que quando pessoas da minha geração se põem a rememorar a infância, lembram de nomes de marcas de produtos que usavam (Bamba, Pakalolo), brincadeiras de rua (bets, pipa), doces que a mãe/vó fazia, frutas que roubava do vizinho e desenhos que passavam na TV. Aí chegamos na parte em que eu me calo e não participo mais das reminiscências televisivas. Eu só fui assistir TV depois dos 7 anos de idade. Antes disso, eu não conseguia brincar com os meus amiguinhos porque não sabia as posições do Jaspion.

Nos tempos de escola, estudo, namorado, vestibular, entra na universidade, assisti muita TV. Quando mudamos pra Alemanha, tive o primeiro choque cultural diante da TV: todo mundo fala alemão na TV! Depois vieram os estranhamentos: os repórteres não são bonitos, estão lendo as notícias de uma folha de papel e falam numa curva entonacional bizarra.

Sou uma pessoa que não assiste televisão há anos, porque num dado momento percebi que estava perdendo tempo na frente daquela caixa que emitia sons, transmitia imagens e me mostrava como eu não era magra, loira, maquiada e desejável. Enquanto fonte de informações, a TV só reportava tragédias tão maiores que eu, em lugares tão remotos, que a sensação de impotência diante da catástrofe alheia vinha me visitar em sonhos escuros. Enquanto fonte de formação, ela me mostrava programas de divulgação científica de rigor duvidoso, programas sobre a natureza altamente sensacionalistas e descrições do mundo animal completamente antropomorfizadas. Enquanto fonte de entretenimento, ela me fazia rir. Fora a voz da Valéria Grilo, que narrava o Planeta Terra na TV Cultura, não consigo lembrar de nada que valesse a pena na TV.

Agora moro numa casa em que a TV fica ligada do meio-dia à hora de dormir. Essa presença constante da TV me assusta um pouco, mas não me incomoda quando passo as tardes no meu quarto ou no jardim. Já reparei que pessoas que moram sozinhas se sentem menos solitárias ouvindo o 'barulhinho da TV'. Então a televisão é sinônimo de companhia?

Notei que a televisão, que antes era reservada ao espaço privado, está invadindo o espaço público. Todos os vagões de metrô e trem têm uma televisão que transmite uma programação específica que se repete a cada 30 minutos. Horóscopo, dicas de culinária, videocassetadas, entrevistas com funcionários do transporte público, notícias, propagandas da Porto Seguro. Grande parte dos ônibus são equipados com televisões que passam uma programação semelhante. A função destas televisões instaladas em meios de transporte coletivo é distrair a população enquanto espera no trânsito?

Fiquei chocada quando vi uma televisão na fila única pros caixas de 10 unidades no supermercado. Passava dicas de culinária e promoções do supermercado. Qual é a função da televisão na fila do caixa? Informar sobre ofertas imperdíveis que forçarão o cliente a desistir de seu lugar na fila e voltar para o interior da loja à caça daquele produto supérfluo?

Estou convencida de que a televisão é o melhor meio de alienação que há. As pessoas são poupadas da difícil tarefa de pensar como preencher seu tempo. A TV ocupa seu tempo sem que precisem usar de sua criatividade. Ficam passivas, sentadas, absorvendo tudo. Manipulação de massas. Prefiro ficar alheia a isso.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Política de transporte cicloviário

A ANTP convida para participar do Seminário Nacional:

Política de Transporte Cicloviário

a ser realizado nos dias 18 e 19 de junho de 2009, na cidade de

Sorocaba/SP

O seminário tem por objetivo promover essa modalidade de

transporte individual e năo motorizado que tem um importante

papel a desempenhar na mobilidade urbana.

Os seguintes temas serăo abordados:

A bicicleta e a cidade;

Impacto do Transporte Cicloviário no Desenvolvimento Urbano;

Como implementar uma política cicloviária;

Mudanças de comportamento por meio da educaçăo e da legislaçăo;

Construçăo da Infra-Estrutura Cicloviária(ciclovia,tráfego compartilhado

e intersecçơes);

Oferta de estacionamento e bicicletas publicas (VELIB);

Perspectivas da indústria de bicicletas no Brasil.


Participe, aproveite a oportunidade de resgatar esse tema que năo

tem recebido a devida atençăo da nossa comunidade técnica.

Mais informaçơes sobre o evento

Programaçăo técnica

Ficha de inscriçăo

Site da ANTP

Associaçăo Nacional de Transportes Públicos

Alameda Santos, 1000 - 7º andar CEP 01418-100 Săo Paulo/SP

- Brasil

Tel. (11) 3371-2290 Fax (11) 3253-8095

E.mail: informa@antp.org.br

– Home page: www.antp.org.br


Reproduzindo convite.